Livraria Camões, histórica no Rio, fechará as portas

De O Globo.com

Após 40 anos, Livraria Camões anuncia fim das atividades

Notícia desencadeou onda de protestos no Brasil e em Portugal

José Estrela, gerente da livraria e principal difusor da literatura portuguesa no Brasil Foto: Paula Giolito / Agência O Globo
José Estrela, gerente da livraria e principal difusor da literatura portuguesa no Brasil Paula Giolito / Agência O Globo

RIO - São apenas 75 metros quadrados, mas suficientes para abrigar Portugal. Ou, pelo menos, uma parte representativa de Portugal. É a Livraria Camões, no Shopping Avenida Central, no Centro do Rio, aberta em novembro de 1972 e frequentada por escritores, professores, pesquisadores, estudantes e entusiastas da cultura e da literatura portuguesa.

Agora, quase 40 anos depois, ela vai fechar as portas no dia 31. O anúncio vem mobilizando intelectuais no Brasil e em Portugal, que, por meio do Facebook (com a comunidade “A Livraria Camões é patrimônio do Rio de Janeiro”), do YouTube e de um abaixo-assinado, lutam para impedir a decisão.

Perplexidade em Portugal

Escritores como Maria Teresa Horta, Manuel Alegre e José Manuel Mendes criticam o “ato deplorável” que atinge “o valor estratégico que é a difusão da língua e cultura portuguesas”. O secretário-geral do Partido Socialista português, António Jose Seguro, demonstrou “perplexidade”. O partido, por sua vez, insurgiu-se contra a medida na Assembleia da República.

Gerente da livraria, José Estrela foi comunicado da determinação no dia 6 por uma carta assinada por Estêvão de Moura, presidente da Imprensa Nacional (INCM), editora que mantém a Camões.

— Estou vivendo minha segunda viuvez — lamenta Estrela, que há 25 anos perdeu a mulher num acidente de carro. — Mas jamais imaginaria que tanta gente admirasse o trabalho que fiz nesses 40 anos. Tenho recebido mensagens de carinho de todas as partes. Isso me dá uma alegria que paga todo o sofrimento que eu possa ter agora.

Na carta, Estêvão de Moura diz que a “evolução tecnológica, social e cultural verificada ao longo deste tempo, com especial evidência nas duas últimas décadas, fez evoluir o contexto em que se inscreve a missão com que a Livraria Camões foi inicialmente constituída”. Além disso, os obstáculos “associados ao transporte e comercialização de livros e a representação da INCM numa única livraria no vasto território brasileiro limitaram fortemente a divulgação das nossas obras no Brasil e comprometeram irremediavelmente a situação econômico-financeira” da Camões.

À agência Lusa, o diretor de marketing estratégico da INCM, Alcides Gama, acrescentou que hoje é possível para a livraria prestar o mesmo serviço, de forma mais eficaz, por meio das novas tecnologias. A professora Gilda Santos, da UFRJ, rebate:

— Nosso pasmo é que, enquanto as editoras Leya e Babel estão entrando com toda força no Brasil, a Imprensa Nacional diz que a Camões está obsoleta. Por que então não a transformam num centro de encomendas via internet? Por que não manter o espaço e reinventar formas de o dinamizar?

Maior especialista em literatura portuguesa do país, a acadêmica Cleonice Berardinelli escreveu para Estêvão lamentando o fechamento do “último reduto, no Rio, da aquisição de livros de Portugal” e buscando a possibilidade de se revogar “tão drástica decisão”.

Acordo cultural

A Camões foi aberta como parte de um acordo cultural entre os dois países. De lá para cá, virou ponto de referência.

— Chegamos a ter 114 editoras portuguesas representadas. Ela é o pedacinho de Portugal mais perto dos brasileiros. É aqui que se viam as produções mais recentes, que as pessoas bebiam as novidades — diz Estrela. — Importamos dois milhões de livros portugueses. E, somente de 1984 a 1986, vendemos 200 mil exemplares. Ela é pequena, mas era daqui que atingíamos o Brasil inteiro.

Estrela percorreu todos os estados com os vendedores.

— Saíamos de ônibus e andávamos horas até, por exemplo, Belém do Pará. Chegávamos de madrugada e tínhamos que esperar o comércio abrir. Dormíamos nas estações rodoviárias com as malas amarradas às pernas para ninguém levar.

Essa espécie de pequena Portugal era palco de lançamentos de autores como Lídia Jorge e Augustina Bessa. Foi lá que a sobrinha-neta de Ofélia, namorada de Fernando Pessoa, lançou “Cartas de amor”, do poeta.

— Foi aqui que José Saramago lançou seu primeiro livro no Brasil — lembra Estrela, nascido na aldeia de Pardilhó, no distrito português de Aveiro.

No Facebook, a ensaísta, crítica literária e professora portuguesa Maria Alzira Seixo lembra o que Saramago dizia do gerente: “O Estrela é Portugal no Brasil. Instiga os brasileiros a comprarem os nossos livros — mas a nós, que sabe que os lemos e temos, quer é nos mostrar a maravilha que é o Brasil. Este homem é um achado, um grande divulgador da cultura portuguesa através do livro, e um cultor das relações Portugal-Brasil.”

Nos últimos tempos, a Camões vinha enfrentando prejuízos. Em 2011, ela não importou um único livro.

— Lisboa não mandava — explica ele. — As vendas então caíram muito.

De cinco anos para cá, o que era comercializado não dava para pagar as despesas de 35 mil mensais. Os 18 empregados diminuíram para cinco.

Com o iminente fechamento, ele ainda não sabe o que fazer.

— Vou viver meus últimos anos. Talvez continue com livros — diz, aos 76 anos.

Sobre os livros da Camões, vai vendê-los “para quem quiser” comprar, sejam particulares, bibliotecas, livrarias ou universidades.

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14 comentários
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Luiz Eduardo Brandão

Essa fez doer meu coração! Só falta a dona Wanda, da Leonardo da Vinci fechar as portas... Livraria, ainda mais assim tradicional, devia ser tratada como o que são antes de mais nada: bem cultural.

 

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”. (Joseph Pulitzer – 1847/1911)

 
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SáeBenevides

lamento. Torço para uma solução. Seu fechamento seria grande perda para o Rio, para o Brasil, para Portugal.

 
 
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Pedro Du Bois

Mais uma vez os interesses do capitalismo vil levam de roldão qualquer resquício de cultura. E dizer que tais governos se dizem guardiães da (nossa) civilização. Lastimável sob todos os aspectos.

 
 
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Noir

Triste, muito triste.

 
 
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Maria Rita

Comprava livros portugueses com um  vendedor muito bom em Brasília que, provavelmente, os trazia do Rio de Janeiro. Há algum tempo lamentamos a ausência de bons livreiros nessas megashoppings atuais, são jovens que não têm a menor idéia de quem são os autores que procuramos. Só o computador sabe (??). É muito triste e o sentimento de nostalgia, de saudade, é muito grande. Essas pessoas nos ensinaram tanto, passaram tanta paixão pelas palavras e idéias, pareciam entregar a cada um de nós um tesouro, o que acontecia de fato. Estranha essa tal de modernidade tecnológica e esse marketing tão frio e seco como a lógica dos mercados/bancos.

 
 
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Gilson AS

A livraria Camões fechará, mas em compensação o BBB12 foi aberto ontem, façam  suas consultas literárias com o Bial.

Eita país de ...

 

gAS

Cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é guiada pelos seus pensamentos. Salomão

 
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Paulo F.

Lamentável, espero que a situação reverta.

 
 
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Durvaldisko

Excetuando-se , Camões,o proprio, Fernado e seus inúmeros  eterônimos Pessoa,Eça de Queiroz,José  Saramago e  Padre  Vieira, custa  lembra- me  outros   autores portugueses  dignos de tradução,para o brasileiro.

Livraria Camôes  podia  reabrir ,com sucesso, nas antigas colônias  africanas.Lá fala-se com sotaque e emprega-se vocabulario  típico  da Terrinha.

Imagino,     povo de Cametá,hoje, com pouco mais de  cem mil habitantes, consumindo  livro  portugueses. Segundo  Pascoal Cipro Neto, considera o dialeto de Belém, semelhante ao de Lisboa.Daí o esforço denodado de José Estrela,em vender livros tão longe.

A Camões,certamente, dará lugar para  mais uma loja de informática...

 
 
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Alan Souza

Você já leu Miguel Sousa Tavares? Não? Recomendo começar por Rio das Pedras (2007). E Maria Gabriela Llansol, já leu? E de Fernando Namora, já leu algo ou já ouviu falar? E Eugénio de Andrade, conhece?

Tem muito escritor português contemporâneo de grande qualidade. Pena que você só leus os autores portugueses badalados na mídia.

 

Demóstenes Torres na cadeia: uma campanha pelo bem do Brasil!

 
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SáeBenevides

Prezado Alan, muito boas suas indicações. Já li o Miguel S Tavares ( Rio das Flores e Equador) , mas ainda não conheço os demais. Vou procurar seus livros. 

A ignorância (desconhecimento) é responsável por alguns comentários lidos no blogs.

Saudações.

 
 
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Meu nome

All right, but apart from the sanitation, medicine, education, wine, public order, irrigation, roads, the fresh water system and public health, what have the Romans ever done for us?

 

 
 
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Sandro Livramento

Faço minhas as palavras do Luiz E. Brandão... pena!

 
 
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Maria Luisa

Procurar por livros em certas cidades do Brasil pode se tornar uma epopéia. Desolante. As livrarias do centros das cidades estão fechando, uma a uma, sobram as grandes marcas editoriais nos shoppings, com vendedores de dar pena. Pergunto pelo nome de J. M. le Clézio e seu livro O Africano, o vendedor me disse que não existia. Vocês não têm o livro, pergunto eu. Ele responde, nunca ouvi falar. Aqui não tem não. Da para encomendar, insisto. Não da não, responde, esses autores a gente nem pede porque ninguém compra. E por ai vai. Não tem fulano, não tem siclano, os nomes de autores e livros é preciso soletrar para que o vendedor possa procurar pzelo computador. Nas mesas so encontram-se livros midiatizados, dos dez mais das revistas... o que fizeram com o brasileiro ? 

 
 
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ruyacquaviva

Será que essa situação tem alguma coisa a ver com o mais novo "imortal" da Academia Brasileira de Letras e único "livro"?

O fato é que infelizmente nem a ABL valoriza a verdadeira literatura, é tudo um balcão de negócios (escusos).

 
 

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