Lili Marlene: a canção que virou hino de soldados

Por Chrisppa Silva

O Fenômeno Lili Marlene

Füllgrafianas: Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 1/3)

Füllgrafianas: Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 2/3)

Füllgrafianas: Lili Marleen, os 95 anos de um mito (parte 3/3)

Sobre a Lilli Marleen de Frederico

Manoel de Andrade

Poeta e ensaísta

Eu já tinha ouvido “Lilli Marleen” na voz de Marlene Dietrich, mas não imaginava que aquele poema, transformado em música, tivesse uma trajetória tão fantástica e nem que Hans Leip tivesse sido um escritor tão fecundo. Quantos vultos famosos da história europeia estiveram, direta ou indiretamente, relacionados com essa célebre canção!!! A  interculturalidade com que o texto é escrito leva-nos a caminhar pelos fronts históricos e geográficos da Segunda Grande Guerra, bem como pelos seus bastidores,  chocando-nos com o terror da censura nazista sobre a cultura. Era a ironia da própria guerra trazendo, depois do bombardeiro alemão de Belgrado, o som radiofônico de uma canção ouvida e apreciada, a despeito da proibição de Goebbels, pelo prestígio do General  Rommel e seus soldados nas areias da África. Como um rastilho de pólvora a parceria poético-musical Leip&Shultze começa correndo acesa, no idioma de Goethe, pelas trincheiras nazistas e aliadas, mas seu encantamento vai explodir também nos ouvidos dos soldados russos.

O rigor intelectual com que Frederico Füllgraf vasculhou e constatou, pela crítica documental de suas fontes, a autenticidade dos fatos, conduz o leitor pelos estranhos atalhos desse fantástico fenômeno musical, para nos apresentar uma admirável pesquisa sobre quase um século de vida do tão discutido poema-musical alemão. Seu ensaio envolve-nos com a história do um jovem soldado, saudoso da namorada, que lhe inspira, no campo de batalha, seus primeiros versos. Esse romântico enredo de guerra lembra o grande poema “Espera-me” que o poeta e dramaturgo russo Konstantin Simonov, escreveu, em 1941, no front de guerra contra os alemães à sua querida Valentina Serova. Traduzido para muitos idiomas, e para o português, com incomparável beleza lírica, por Hélio do  Soveral, Espera-me  ou Espera por mim é um dos mais conhecidos poemas da Rússia. A sensibilidade de Cleto de Assis escreveu a essência comovente dessa história no seu site Banco da Poesia:

http://cdeassis.wordpress.com/2009/06/19/poema-de-amor-e-guerra/

Abro aqui um parêntesis, fugindo do estrito significado musical do texto, para considerar as grandes motivações que o fenômeno da guerra tem trazido à criação poética e musical, propiciando produções ou veiculando versos de infinita beleza. Por certo a Ilíada e a Odisseia não existiriam sem a Guerra de Troia, nem a Itália teria seu grande poema épico se o início das Cruzadas não inspirasse Torquato Tasso a escrever Jerusalém Libertada. A Chanson d’Automne, de Paul  Verlaine, não seria tão conhecida se não fosse  enviada também por rádio, como uma senha, à Resistência Francesa anunciando o desembarque aliado na  Normandia e determinando o fim do Terceiro Reich, que pretendia durar mil anos. Que honra maior poderia ter um poema, abrindo com o lirismo e o suave encanto dos seus versos, as portas da liberdade do continente europeu dominado pelo nazismo?  E neste contexto as comparações se derivam para as canções que inspiraram a resistência revolucionária nas guerras civis que abalaram o mundo e se celebrizaram com o nome Marselhesa, na França revolucionária e como  Le chant des Partisans, entoado pela Resistência, na França invadida pelos exército alemão. Com o mesmo ardor  se cantava Se me quieres escribir e Viva la Quinta Brigada, na Guerra Civil Espanhola. E assim foi, ao som da Bandiera  Rossa e Bella Ciao na Itália,  Nicaragua Nicaraguita, cantada pelos sandinista, Venceremos, no Chile socialista, onde Viva Chile Mierda, de Fernando Alegria, foi o poema mais declamado durante o governo de Salvador Allende.  Aqui, no Brasil, a canção Caminhando, de Geraldo Vandré, foi o hino revolucionário com que a nação inteira  protestou, cantando, contra a ditadura militar.

Voltando à história sentimental do soldado Hans Leip e seu poema, e considerando a amplitude do texto, creio ser interessante repicar, neste comentário, alguns aspectos marcantes no longo artigo de Frederico Füllgraf.  Primeiramente o encanto musical das emissões diárias da “canção de um jovem sentinela” pela rádio de Belgrado, polarizando a longínqua atenção dos soldados alemães no norte da África. A transmissão, captada também na região pelos soldados britânicos, levou o orgulho militar inglês, sob o comando de Montgomery,  a criar uma sarcástica versão política de “Lilli Marleen” ironizando Hitler  e o partido nazista. O autor nos fala da canção na voz radiofônica da BBC e de meio milhão de discos vendidos, em 1944, na Inglaterra e sua versão adaptada para 50 idiomas. Detalha a biografia conturbada e trágica de Lale Andersen e depois sua turnê pela Coréia e Indochina.  A segunda grande intérprete da canção é Lucie Mannnheim, chegando enfim a Marlene Dietrich, que foi a mascote musical dos aliados correndo os Estados Unidos e a Europa com “Lilli Marleen” nos lábios e as grandes platéias aos seus pés. Os intérpretes da famosa canção se sucedem, no incrível caleidoscópio de informações --- que transpiram normalmente por todos os neurônios do Frederico que conhecemos, ---  passando por Edith Piaf e Bing Crosby, e por interpretações contemporâneas  na voz da cantora francesa   Patrícia Kaas, comemorando, em 2005, os 60 anos do Dia “D”.

O texto, entre outras tantas revelações e curiosidades, traz uma passagem pitoresca envolvendo Winston Churchill e seu pesadelo com o General Rommel, em torno da sua preferência pela canção. Refere-se também a uma misteriosa versão judaica feita por Stefan Zweig. O ponto alto do texto é a referência a uma edição de 2006 do livro em que a autora, Lilly Freud Marlé,  sobrinha de Freud, revela ser a pessoa que inspirou Hans Leip a escrever o poema que gerou a composição musical “Lilli Marleen”, versão reiterada por outros descendentes de Freud.

Finalmente é surpreendente constatar que as sementes lançadas há noventa e cinco anos por um simples poema que se tornou canção, tenha se aberto em tantas flores musicais pelos idiomas do mundo inteiro, inclusive uma versão judaica de nome Lili, em homenagem à pára-quedista  Hannah Senesh, morta em Budapeste pela Gestapo,  e geram ainda, ano a ano, tantos frutos “saborosos” para a viúva de Leip e mantenham repletos os celeiros amoedados do compositor Norbert Schultze.

Parabenizando o autor pela dimensão crítica e historiográfica do seu trabalho,  ressalto as duas ironias genialmente bem colocadas: a primeira que “Lilli Marleen” foi a única contribuição dos nazistas para o mundo”. E a segunda ironizando a primeira: que uma musa judia seria a inspiradora da mais célebre canção nazista.

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6 comentários
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Gilberto .

 

Hanna Schygulla e a visão de Fassbinder em 1981.

 

Gilberto . @Gil17

 
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Almeida

Já pesquisei e escrevi sobre esta canção, acho que reproduzi aqui no blog, quando encontrar o texto, repito. Meu interesse em acompanhar sua história foi despertado pelo filme de Fassbinder, com o título homônimo, contando o drama de Lale Andersen. Anos mais tarde, minha curiosidade aumentou, ao comparecer numa festa do Vale do Itajaí, nos anos 90, de comemoração de bodas de ouro de um casal; ele era ex-pracinha, muitos dos seus companheiros na Itália estavam presentes, todos descendentes de alemães. Foi uma cena emocionante, quando eles se reuniram para cantar, na letra original, a canção que trouxeram do front. Compreendi que aquela melodia nostálgica tocava profundamente, homens na tensão desesperada da guerra. Mesmo para soldados brutalizados pela violência das batalhas, resta um pouco de humanidade em suas almas, lembranças caras de seus lares, das suas companheiras, que suavizavam o cotidiano de horrores da guerra. Não era sem razão que a melodia tocasse, o coração de quem estivesse, nos dois lados do front. Houve outras canções que tiveram este mérito, Lili Marlene é a mais famosa.

Discordo que seja uma canção "nazista", como está no texto postado. Goebbels a detestou e chegou a proibir. A letra fala claramente numa quebra de disciplina; o soldado se afasta do seu posto, com a conivência de um camarada, para se encontrar com sua garota. Os chefões nazistas não gostaram nada disso, tiveram de engolir a vontade da tropa.
 
Há uma página com várias versões gravadas: http://ingeb.org/garb/lmarleen.html

Lale Andersen é a mais conhecida: http://ingeb.org/refer/laleand2.MP3

Gosto da versão de Dame Vera Lynn: http://ingeb.org/refer/veralynn.MP3

 

Almeida

 
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Andre Araujo

Lili Marlene ficou famosa por causa da divulgação pos guerra em filmes de Hollywood estrelados por Marlene Dietrich, uma alemã fervorosa anti-nazista. É uma canção tão bonita que era contada pelos soldados dos dois lados, especialmente na Africa do Norte. Enquante Lale Andersen era a conatora identificada com a canção dentro da Alemanha e Marlene Dietrich no campo dos Aliados, a interprete preferida dos oficiais alemães era Zarah Leander, uma cantora sueca muito famosa no Terceiro Reich antes e durante a Guerra. Zara Leander trabalhou em muitos filmes da UFA, tinha salões abertos na cupula do Reich, os mais altos salarios da industria cinematografica e na discografia alemã, morava em um palacio em Berlim e tinha outro igual em Estocolmo. Apesar de sua identificação com os alemães do Reich sobreviveu bem ao fim da Guerra e continuou a carreira até o fim da decada de 70. Cantora primorosa, multilingue, uma personalidade carismatica, era lendario seu amor ao dinheiro, sabia cobrar como poucas, ficou milionaria, sua voz era unica, facil de identificar,  uma interprete sofisticada mais ao gosto da elite alemã do que do povão.

 

http://www.youtube.com/watch?v=DaR-mSgcITU

 
 
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Almeida

Zara está nos vídeo abaixo, do filme 'Die grosse Liebe' (O grande  amor), rodado durante a guerra.

 

A canção popular dos soldados ingleses era We´ll meet again, com Vera Lynn. Falava esperançosa de reencontro depois do horror da guerra. Kubrick usou-a de forma irônica, no final de Dr. Strangelove, contrastava o tom esperançoso da canção, com a total falta de esperança do inferno nuclear.

Mas o lado que mais produziu canções, de excelente qualidade, foi na frente oriental. Destaco o canto de lamento do soldado soviético - Эх, Дороги/ Eh, dorogi (Ê, estradas) - no vídeo com o Coro do Monastério Sretensky de Moscou.

 

 

Almeida

 
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Andre Araujo

Maravilhosa lembrança de Dame Vera Lynn, a cantora inglesa simbolo da Segunda Guerra.

Abaixo com o classico ""White Cliffs of Dover"" que se referia à visão que os aviadores britanicos da Batalha da Grã Bretanha tinham dos penhascos brancos de Dover quando retornavam à Inglaterra.

 

http://www.youtube.com/watch?v=fkZLkF_eJoo

 
 
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jclop

Esta canção, prova que a guerra é uma estupidez a que o homem chega e que é possível uma sociedade multicultural, se o projeto for bem elaborado, contràriamente ao que pensa um  Partido Político que se diz Cristão", na Alemanha, conforme um post do blog, que foi comentado esta semana.

Sobre a outra conclusão que chegaram, de que não conseguiam fazer os turcos aprenderem alemão, existem vários métodos para ensinar idiomas, inclusive um que não é mais indicado, "cursado" por um parente com 9 anos, durante a segunda guerra, na Iusgoslávia ocupada, o professor, Oficial Nazista na sala de aula (provàvelmente cantarolando Lili Marlene)  e a pistola em cima da mesa. Ele fala alemão até hoje...

 
 

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