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A emoção do escritor ao ver seu livro retratado na telona por Fernando Meirelles. "Ensaio sobre a cegueira" é um dos livros mais desconcertantes e significativos já escritos.
Ao mestre que se tornará mais forte após a morte, minha humilde homenagem.
Caramba," não dá mais prá segurar explode coração".Gostaria de ter postado
esse vídeo, mas como não sei fazer, agradeço.
DO BLOG BOCA DIGITAL
SEXTA-FEIRA, 18 DE JUNHO DE 2010
José Saramago: "O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas"
Amigos:
Acaba de falecer na manhã desta sexta-feira, dia 18 de junho de 2010, o escritor José Saramago. Acho que não há nada que eu possa fazer para homenageá-lo além de lhes repassar essa maravilha de discurso abaixo, que ele proferiu ao receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Muito sentida,
Urda Alice Klueger - BRASIL
Discurso na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)
José Saramago
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
http://blogdaapoiamoslula.blogspot.com/2010/06/jose-saramago-o-que-as-vitorias-tem-de.html
Em Luz, agora , o escritor da Intensidade !
Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais." (José Saramago )
Hoje eu senti um vento tão forte ao atravessar a rua , vento diferente , que me despenteou , me fez estremecer e desorganizar .
Hoje eu senti um aperto , uma dor na nuca tão forte que não sabia explicar ...
Fiquei assim até ler a tela diante de mim que relatava a morte do grande escritor da intensidade .Era o vento de Saramago que me dizia : parti!
Perdemos José Saramago, aquele que por suas frases me fazia entender até a tripa da humanidade cega !
Sim, a tripa , porque ele destrinchava o conceito , revisava o suposto valor de moral que temos e principalmente arrebatava a imposição .
Posso dizer sim, que perdi um dos meus olhos literários e que não só eu , mas todos nós , ainda que não assumidos estamos "ensaiando demais " a cegueira .
Nos recusamos a ver e ele viu , do seu modo, mas viu pleno.
Senti a perda, apesar da distância fisica , senti porque ele estava e estará em mim pelas letras e entrelinhas .
Saramago invadiu minha vida aos 17 anos e nunca mais saiu ...
Saramago me fez reflexão "In Nomine Dei", me fez querer ver quando vi o ensaio sobre a cegueira ...
Não há palavras suficientes para expressar o vazio , a página em branco que ficou na minha estante literária da alma .
Hoje mais do que nunca sei que a escrita tem poder e que pode sacudir o Homem .
Seu jeito direto , sem pausar pelo ponto ou vírgula me inspira a vida .Vida é direta , sem gramática .
Assim ele a fez .
Sua polêmica para uns , mas paixão para outros, moveu tanto meus olhares diante da sociedade e de suas relações , mas , na mesma proporção desviou os olhos dos que se recusaram e recusam a ver.
Saramago se foi do globo azulado, mas agora escreve nas linhas estreladas do Universo , inspirando os que o tinham na alma como eu ...
Valéria Amores - www.borboletarosarubra.blogspot.com
OBJECTO QUASE & O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA – JOSÉ SARAMAGO
Quando, em 1997, foi posta a hipótese do Prêmio Nobel de Literatura ser dado pela primeira vez a um escritor de língua portuguesa, apenas dois nomes foram mencionados como reais candidatos: o do brasileiro Jorge Amado e o do português José Saramago. Jorge Amado acima de ser visto como escritor de língua portuguesa, era tido como latino americano, e o prêmio Nobel já tinha contemplado vários autores da América Latina, como Gabriel Garcia Márquez. Considerando que Portugal encerrava o milênio com grande prestígio político internacional, caberia ao escritor lusitano arrebatar tão cobiçado e inédito prêmio na língua de Camões.
Considerado um dos maiores romancistas português da atualidade, José Saramago é autor das obras: “Memorial do Convento” (1982), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1992) e “Todos os Nomes” (1997), dentre outros.
Apesar de ser o romance a sua obra maior, é como contista que vamos analisá-lo aqui. Tomaremos como base os livros “Objecto Quase” (3ª edição - Editorial Caminho - 1986) e “O Conto da Ilha Desconhecida” (1ª edição - Pavilhão de Portugal Expo’98/ Assírio & Alvim - 1997). As incursões de José Saramago através do conto não deixam de ser tão brilhantes quanto às feitas ao romance. José Saramago é o retrato da literatura portuguesa no final de século XX e início do século XXI. Compreender a sua obra é também compreender a história mais recente de Portugal.
Transição de Portugal no Decorrer da Produção da Obra de Saramago
A obra de José Saramago faz-se imprescindível no fim da ditadura de Salazar, atravessa a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, passando pelo período de transição dos primeiros anos da restauração da democracia aos anos da adesão de Portugal à Comunidade Européia. Em 1968 o estado de saúde de António Salazar era grave. Uma queda afastaria o ditador do poder até a sua morte, dois anos depois. O regime estava podre e esgotado. Surgia Marcelo Caetano como o homem que deveria fazer a transição do regime. Mas por medo ou por vontade da história, não o fez. Serão os militares a restituírem a democracia e a enterrar de vez antigo regime, em 1974.
A década de setenta foi profundamente abalada pela crise do petróleo, pelo domínio árabe do ouro negro. Também a Guerra do Vietnã chegava ao fim de uma maneira humilhante para os Estados Unidos, longe de alcançar os resultados da Guerra da Coréia. A Guerra Fria assumia outras batalhas, a chamada “Guerra das Estrelas” dos anos oitenta. Portugal deixava a África e encerrava a Guerra Colonial, procurando um caminho para a Europa. Em 1986 é feita a adesão à Comunidade Econômica Européia (CEE), atual União Européia. Em 1985 o arquiteto Tomás Taveira dá a Lisboa as famosas Torres das Amoreiras, a paisagem da cidade muda, dando os primeiros passos para a invasão dos hipermercados do fim dos anos oitenta. Portugal estava pronto para entrar de vez na Europa, concretizando a adesão às normas e aos moldes da economia do oeste europeu nos anos noventa.
A Metonímia de Salazar
“Objecto Quase” é uma síntese crítica e bem elaborada que descreve a transição do Estado Novo
e os primeiros tempos pós 25 de Abril. Aqui José Saramago revela-se um crítico social mordaz, com um teor político acentuado, quase a indagar a história do país. O primeiro conto do livro, “Cadeira”, é o reflexo do fim de um ciclo. No conto, através da descrição lenta, elaborada, quase científica da queda de uma cadeira que, por ter sido indolentemente corroída pelos bichos da madeira (representação simbólica da corrupção do sistema antigo), faz com que o velho ditador (Salazar) caia e frature o crânio. O ditador é socorrido por sua fiel governanta Eva (outra coincidência histórica? Não, era a própria Maria, que acompanhara e servira Salazar nas décadas que esteve no poder). A análise de José Saramago é, como já disse, mordaz, irônica, quase sarcástica, quase que a cobrar as dívidas da história:
“O corpo ainda aqui está, e estaria por todo o tempo que quiséssemos. Aqui, na cabeça, neste sítio onde o cabelo aparece despenteado, é que foi a pancada. À vista, não tem importância. Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já lá está dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar-nos do inimigo vencido? É a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes? O velho abriu agora os olhos e não consegue reconhecer-nos, o que só a ele espanta, mas a nós não, que nos não conhece. Treme-lhe o queixo, quer falar, inquieta-se como ali chegámos, julga-nos autores do atentado. Nada dirá. Pelo canto da boca entreaberta corre-lhe para o queixo um fio de saliva. Que faria a irmã Lúcia neste caso, que faria se aqui estivesse, de joelhos, envolta no seu triplo cheiro de bafio, saias e incenso? Enxugaria reverente a saliva, ou, mais reverente ainda, se inclinaria toda para diante, prosternada, e com a língua apararia a santa secreção, a relíquia, para guardar numa ampola? Não o dirá a história sacra, não o dirá, sabemos, a profana, nem Eva doméstica reparará, coração aflito, na injúria que o velho pratica babando sobre o velho.”
Nota-se no parágrafo a alusão, ainda que simbólica e muito sutil, a personagens ligadas a igreja e à política portuguesa. É o momento de crítica à história, do acerto de contas entre o ditador e o povo submisso, resumidos numa queda de cadeira. Percebe-se neste conto o estilo de narração de José Saramago, a presença do narrador na narração, onde é projetada a sua subjetividade de uma forma objetiva, ou seja, o texto não escapa às intrusões do narrador, as situações narrativas vão das circunstâncias ideológico-culturais que inspiram uma introspecção quase científica. Há uma situação narrativa de relação do autor com a história, José Saramago relata as histórias de uma forma que é estranho a ela, porque não a integra nem integrou como personagem, sendo um narrador heterodiegético. Para melhor explicar o que digo, sito a definição de Carlos Reis em “O Conhecimento da Literatura - Introdução aos Estudos Literários” (Livraria Almedina - 1995), que diz sobre o narrador heterodiegético:
“Estrutura-se uma situação narrativa cujas as linhas de forças são as seguintes: polaridade entre narrador e universo diegético, acentuando-se entre ambos umaalteridade em princípio irredutível; por força dessa polaridade, o narrador heterodiegético tende a adotar uma atitude demiúrgica em relação a história que conta, surgindo dotado de uma autoridade que normalmente não é posta em causa; predominantemente, o narrador heterodiegético exprime-se na terceira pessoa, traduzindo esse registro a alteridade mencionada.”
http://www.blogblog.com/harbor/divider.gif); background-attachment: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; background-color: initial; padding-top: 12px; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0.75em; margin-left: 0px; line-height: 1.6em; background-position: 50% 0%; background-repeat: no-repeat no-repeat;">Realidades Contemporâneas
“Hora e meia mais tarde estava a atestar, e três minutos depois arrancava. Um pouco preocupado porque o empregado lhe dissera, sem qualquer expressão particular na voz, de tão repetida a informação, que não haveria ali gasolina antes de quinze dias. No banco, ao lado, o jornal anunciava as restrições rigorosas. Enfim; do mal o menos, o depósito estava cheio. Que faria? Ir directamente ao escritório, ou passar primeiro por casa de um cliente, a ver se apanharia a encomenda? Escolheu o cliente. Era preferível justificar o atraso com a visita, a ter de dizer que passara hora e meia na fila da gasolina quando lhe restava meio depósito. O carro estava óptimo. Nunca se sentira tão bem a conduzi-lo. Ligou a rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.”
Talvez a narrativa que mais descreve a mudança dos tempos, os jogos de poder, a política como centralização dos meios econômicos, as grandes obras e as cidades que giram em torno delas, seja a do conto “Refluxo”. Neste texto deparamos-nos com um rei louco, que quer construir um único e mega cemitério no seu reino. Quando o faz, transporta para lá todos os cadáveres dos outros cemitérios. Depois parte à procura desesperada de todos os corpos enterrados pelo país, em quintais, em valas, em capelas, em montanhas. Terminada a grande obra, toda a economia do país gira em torno do cemitério. À sua volta desenvolve-se quatro cidades. Aqui a ironia ao progresso desenfreado, ao comércio ao redor dos grandes santuários. Talvez o mais irônico e sarcástico dos contos de José Saramago, mas de um humor mórbido irresistível. Ao ler este conto é como se estivéssemos a retratar a nova sociedade de consumo que viria com os anos noventa e a tudo esmagaria, sem nenhum escrúpulo:
“(..) A fiscalização andava então muito menos activa e abundavam funcionários que consentiam em deixar-se subornar. O serviço geral de estatística informou, de acordo com os registos oficiais, que estava a verificar-se uma acentuada baixa da mortalidade, o que, logicamente, começou por ser levado a crédito da política sanitária do governo, sob a suprema autoridade do rei. As quatro cidades do cemitério sentiram as consequências do menor fluxo de mortos. Certos negócios sofreram prejuízos, houve não poucas falências, algumas fraudulentas, e quando enfim se reconheceu que a real política de saúde, por excelente que fosse, não ia a caminho de conceder a imortalidade, foi baixado um decreto ferocíssimo para reconduzir as populações à obediência. Não serviu de muito: após um breve fogacho de animação, as cidades estagnaram e decaíram. Devagar, tão devagar, o reino começou a repovoar-se de mortos. O grande cemitério central, por fim, recebia apenas cadáveres das quatro cidades circundantes, cada vez mais abandonadas, mais silenciosas. A isto, porém, já o rei não assistiu.”
Menos interessante é o conto “Coisas”. A narrativa mais parece um filme de Stanley Kubrik, ou um conto mal elaborado de George Orwell. Uma ficção pobre e pouco convincente, futurista, mas que não revela o escritor engenhoso e talentoso que é José Saramago, limita-se a escrever um filme que já se viu. Ainda encontramos outros contos como “Centauro” e “Desforra”, este último mostra-nos a repressão sexual transposta para o ato milenar da castração de animais, aqui representado por um porco. Chegamos ao fim do livro com uma estranheza de idéias, mas com a sensação de que foram poucas as páginas, que leríamos quantas mais fossem.
Um Conto Feito Para a Expo’98
Novamente vamos mergulhar no seu universo fantástico, crítico aguçado do sistema em que estamos inseridos. Surge-nos retratado um reino burocrático e de fantasia, onde um homem persegue o seu sonho e o seu ideal: encontrar a Ilha Desconhecida. Num discurso brilhante, mais amadurecido em relação a “Objecto Quase”, a personagem convence o governo a dar-lhe um barco. Também convence algumas pessoas, entre elas a mulher da limpeza do reino, a acompanhá-lo nessa aventura quase utópica e sem destino:
“(...) Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar a proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.”
Mas como todo sonho tem o seu preço, aos poucos o homem é abandonado por todos, só lhe fica a mulher. O autor revela-nos uma história não só de sonhos utópicos, mas também de amor. Com o homem parte a mulher da limpeza, os dois seguem na busca dos sonhos, o amor já o têm. A ilha desconhecida era o grande sonho português do fim do segundo milênio: o mergulho na Expo’98. Um sonho que fechava o século XX no universo histórico lusitano de uma forma espetacular, que rumava para o terceiro milênio a refletir um futuro que trouxesse de volta a época da grande aventura, a época dos descobrimentos, época que a nação sonhava com o Quinto Império. Com a Expo’98 vinha a segurança do reencontro de Portugal com a Europa. A esperança de um mercado único, de uma moeda única, de um futuro que espelhasse pouco o passado mais recente, do qual voltaram cidadãos desfeitos pela guerra colonial, física e mentalmente. É justamente o não esquecimento de uma história recente, nem sempre gloriosa, porque a história também é feita de erros e humilhações, que a obra de José Saramago muitas vezes atira-nos à cara. José Saramago conduziu neste conto os nossos sonhos rumo à ficção do século XXI.
José Saramago
Por dificuldades econômicas, Saramago interrompeu os estudos na capital portuguesa, exercendo, durante a vida, várias profissões, entre elas: serralheiro mecânico, funcionário da saúde, desenhista, editor, tradutor e jornalista.
Apesar de ter publicado o seu primeiro livro, o romance "Terra do Pecado", em 1947, só voltaria a publicar outra obra em 1966. Seu reconhecimento como escritor viria com o romance “Memorial do Convento”, de 1982.
José Saramago ficou conhecido por suas posições de esquerda, militante histórico do Partido Comunista Português, por seu ateísmo declarado, convicções que sempre refletiram na sua obra.
Dono de uma literatura muitas vezes polêmica, foi o primeiro e único escritor de língua portuguesa a ser galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Atualmente José Saramago vive em Lanzarote, Ilhas Canárias, casado com a espanhola Pilar Del Rio.
OBRA:

Poesia:
1966 – Os Poemas Possíveis
1970 – Provavelmente Alegria
1975 – O Ano de 1993
Romance:
1947 – Terra do Pecado
1977 – Manual de Pintura e Caligrafia
1980 – Levantado do Chão
1982 – Memorial do Convento
1984 – O Ano da Morte de Ricardo Reis
1986 – A Jangada de Pedra
1989 – História do Cerco de Lisboa
1991 – O Evangelho Segundo Jesus Cristo
1995 – Ensaio Sobre a Cegueira
1996 – A Bagagem do Viajante
1997 – Cadernos de Lanzarote
1997 – Todos os Nomes
2000 – A Caverna
2002 – O Homem Duplicado
2004 – Ensaio Sobre a Lucidez
2005 – As Intermitências da Morte
2006 – As Pequenas Memórias
Contos:

1978 – Objecto Quase
1979 – Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido
1997 – O Conto da Ilha Desconhecida
Crônicas:
1971 – Deste Mundo e do Outro
1973 – A Bagagem do Viajante
1974 – As Opiniões Que o DL Teve
1976 – Os Apontamentos
Peças de Teatro:
1979 – A Noite
1980 – Que Farei Com Este Livro?
1987 – A Segunda Vida de Francisco de Assis
1993 – In Nomine Dei
2005 – Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido
Viagens:
1981 – Viagem a Portugal
CRONOLOGIA:
1922 – Nasce a 16 ou 18 de novembro, na Azinhaga, Golegã, Portugal, José Saramago.
1924 – Muda-se com a família para Lisboa.
1944 – Casa-se com Ilda Reis.
1947 – Nasce-lhe a filha Violante. Publica o seu primeiro livro, o romance “Terra do Pecado”.
1955 – Para aumentar os rendimentos, faz traduções de Hegel, Tolstoi e Baudelaire.
1966 – Publica o segundo livro, “Os Poemas Possíveis”.
1970 – Separa-se de Ilda Reis.
1972 – Faz parte da redação do jornal Diário de Lisboa, como comentarista político.
1975 – Torna-se, de abril a novembro, diretor-adjunto do jornal Diário de Notícias.
1976 – Passa a viver exclusivamente do seu trabalho literário.
1982 – Publica o romance “Memorial do Convento”, conquistando definitivamente a crítica e os leitores.
1988 – Casa-se com a jornalista e tradutora espanhola María Del Pilar Del Río Sánchez.
1995 – Galardoado com o Prêmio Camões pelo conjunto da sua obra.
1998 – Galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura.
2003 – Em visita ao Brasil, declara ao jornal O Globo, que os judeus não mereciam simpatia pelo que passaram na época do Holocausto.
2007 – Defende, em entrevista ao Diário de Notícias, que Portugal deveria integrar-se à Espanha.POSTADO POR JEOCAZ LEE-MEDDI ÀS 00:04 MARCADORES: LITERATURAhttp://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://4.bp.blogspot.com/_fvMmtgX9Xf0/SK4wcpnVchI/AAAAAAAAB6M/8jP460b-Sn4/s400/José%2BSaramago%2B2.jpg&imgrefurl=http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008_08_01_archive.html&usg=__WMhsTaTuq01ZmEJ9OMWYueXlmnw=&h=400&w=308&sz=36&hl=pt-BR&start=22&sig2=0zsxWGHIkvf_PcYBaz9hcA&um=1&itbs=1&tbnid=rvEvDmXngbdkrM:&tbnh=124&tbnw=95&prev=/images%3Fq%3DJos%25C3%25A9%2BSaramago%2Bcom%2Blula%26start%3D18%26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26safe%3Doff%26sa%3DX%26ndsp%3D18%26tbs%3Disch:1,isz:m&ei=trsbTJjqKIP7lwfdhMTwDA
O Sul 21 fez uma linda fotobiografia:
http://www.sul21.com.br/index.php/permalink/midia/imagens/16
E fiz um post de adeus no meu blog:
http://mardemarmore.blogspot.com/2010/06/adeus-saramago.html
18/06/2010 - 16:03 | Haroldo Ceravolo Sereza | São Paulo
Partido Comunista Português lembra papel de Saramago na Revolução dos Cravos
O Partido Comunista Português divulgou nota afirmando que a morte do escritor José Saramago constitui "uma perda irreparável para Portugal, para o povo português, para a cultura portuguesa".
Leia também:
José Saramago, escritor português, morre aos 87 anos
“Forma Saramago” foi capaz de desafiar o leitor e de fazê-lo popular
Ainda segundo o Secretariado do Comitê Central do PCP, Saramago teve um papel importante como "construtor de Abril", ou seja, como uma das figuras que abriram caminho para a Revolução dos Cravos, em 1974. Saramago iniciou sua militância no PCP em 1969.
Leia abaixo a íntegra do comunicado:
"A morte de José Saramago constitui uma perda irreparável para Portugal, para o povo português, para a cultura portuguesa.
A dimensão intelectual, artística, humana, cívica, de José Saramago fazem dele uma figura maior da nossa História.
A sua vasta, notável e singular obra literária – reconhecida com a atribuição, em 1998, do Prémio Nobel da Literatura - ficará como marca impressiva na História da Literatura Portuguesa, da qual ele é um dos nomes mais relevantes.
Construtor de Abril, enquanto interveniente activo na resistência ao fascismo, ele deu continuidade a essa intervenção no período posterior ao Dia da Liberdade como protagonista do processo revolucionário que viria a transformar profunda e positivamente o nosso País com a construção de uma democracia que tinha como referência primeira a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
José Saramago era militante do Partido Comunista Português desde 1969 e a sua morte constitui uma perda para todo o colectivo partidário comunista - para o Partido que ele quis que fosse o seu até ao fim da sua vida.
O Secretariado do Comité Central do PCP manifesta o seu profundo pesar, a sua enorme mágoa pela morte do camarada José Saramago – e expressa as suas sentidas condolências à sua companheira, Pilar del Rio, e restante família.
Construtor de Abril, enquanto interveniente activo na resistência ao fascismo, ele deu continuidade a essa intervenção no período posterior ao Dia da Liberdade como protagonista do processo revolucionário que viria a transformar profunda e positivamente o nosso País com a construção de uma democracia que tinha como referência primeira a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
José Saramago era militante do Partido Comunista Português desde 1969 e a sua morte constitui uma perda para todo o colectivo partidário comunista - para o Partido que ele quis que fosse o seu até ao fim da sua vida.
O Secretariado do Comité Central do PCP manifesta o seu profundo pesar, a sua enorme mágoa pela morte do camarada José Saramago – e expressa as suas sentidas condolências à sua companheira, Pilar del Rio, e restante família."
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Nilson Fernandes
24/06/2009 - 09:33 | Alfonso Daniels | Enviado especial a Lisboa
Saramago, parte 3: Israelenses aprenderam bem as lições recebidas dos nazistas
Na terceira e última parte da entrevista concedida a Opera Mundi, o escritor português José Saramago expressa decepção com atuais líderes latino-americanos, deposita esperança em Barack Obama e critica sem dó os israelenses por sua política em relação aos palestinos. “A Cisjordânia é uma espécie de queijo gruyère. Na cabeça de muitos políticos, há ideias de um Grande Israel que não admite a existência de um povo palestino. Agora o Holocausto é sofrido pelos palestinos”, afirma.
O fato de você ter sido criado no campo explica seu lendário pessimismo?
Não sei como nasceu em mim essa tendência de ver o lado escuro das coisas. Uma coisa é certa: nunca fui um menino alegre. Pelo contrário, fui melancólico, sério, gostava de fazer longos passeios solitários pelo campo. Acho que as pessoas nascem assim.
Só tive a consciência de ver o outro lado das coisas quando tinha uns 20 anos. Tinha a sorte de assistir em Lisboa a espetáculos de ópera do balcão superior, e à frente ficava o camarote real decorado com uma enorme coroa. Vista da plateia e dos outros balcões, era dourada. No entanto, vista de trás, não estava completa, era oca, empoeirada, com teias de aranha, e entendi que, para conhecer as coisas, é preciso dar-lhes a volta completa. Isto se tornou uma espécie de regra de vida e de algum modo contribuiu para meu pessimismo, pois as coisas vistas por trás normalmente são piores.
Você se tornou menos pessimista com o tempo?
Não, nada. Não melhoramos, nada está melhorando. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, discutia-se muito na Europa sobre progresso técnico, progresso moral, e o que está claríssimo é que, do ponto de vista técnico e tecnológico, nos desenvolvemos a uma velocidade extraordinária, mas no progresso moral andamos para trás. E não há nada no mundo neste exato momento indicando que vamos melhorar. Não vamos melhorar.
Você deposita alguma esperança na ascensão dos movimentos sociais na América Latina?
Tive contato com mapuches no Chile e na Argentina, com os zapatistas no México... Estes movimentos nascem com enorme generosidade de intenções, mas veja a Nicarágua: derruba-se o ditador, instala-se um movimento revolucionário e o que é a Nicarágua hoje? Um desastre.
Veremos o que acontece na Bolívia com Morales. Chávez sofre da tentação perigosa do autoritarismo. Agora, o melhor que ocorreu nesta região é que os Estados Unidos deixaram de se interessar exageradamente por ela como acontecia no passado, apoiando ditadores criminosos, e Obama não parece acreditar em aventuras como essas.
O que você pensa de Fidel Castro?
Conversamos três, quatro vezes. A revolução cubana mobilizou o entusiasmo de milhões de pessoas no mundo, pôs fim a governos corruptos e a aplaudimos. Mas o mal que se faz agora em nome de um suposto bem futuro me parece um erro intelectual gravíssimo, pois não se pode ter a segurança de que num futuro as coisas serão melhores, o pensamento utópico não tem sentido.
É como nas guerras: os pais se sacrificam para que os filhos se beneficiem da paz, mas a paz não chega nunca, e sempre pais e filhos são chamados para morrer. Existem, isso sim, alguns indícios positivos, há negociações entre os EUA e Cuba. É como um jogo de pôquer, para ver quem tira mais proveito da negociação.
Considerando o colapso do comunismo, você ainda se considera um comunista?
Mudar por que e para quê? Por algo que é melhor? Em que sentido? Teria vergonha de abandonar o que penso, embora o que penso não tenha nenhuma aplicação prática hoje. Mas em todo caso prefiro ficar onde estou a me transformar em outra pessoa. Sou um comunista hormonal, em meu corpo há hormônios que me fazem crescer a barba e outros que me fizeram ser comunista. Não quero me transformar em outra pessoa.
Mas comunista em que sentido?
Há uma citação de Marx e Engels que usei em um de meus livros e que resume tudo: "Se o homem é formado pelas circunstâncias, é preciso formar as circunstâncias humanamente." As circunstâncias nos formam, mas só um louco, um idiota, dirá que as circunstâncias que nos estão formando agora são circunstâncias humanas. É justamente o contrário, embora eu seja consciente do fracasso do projeto comunista.
Além de suas opiniões esquerdistas, você é possivelmente mais famoso por ter comparado os territórios palestinos com Auschwitz durante uma visita a Ramallah em 2002, causando um enorme escândalo...
O que eu disse é que havia encontrado o espírito de Auschwitz em Ramallah. É outra maneira de dizer que os israelenses aprenderam muito bem as lições que receberam de seus carrascos, os nazistas. Há algo de nazista no espírito do exército de Israel. Quando os (judeus) ortodoxos são pagos para não fazer mais nada na vida além de crianças, é um pouco similar às doutrinas genéticas do nazismo, as mulheres em clínicas para fazer filhos para a glória da Grande Alemanha. É uma loucura e é preciso denunciá-la, doa a quem doer.
Auschwitz é uma espécie de muro atrás do qual os israelenses se justificam para fazer todo tipo de coisa, coisas que os nazistas fizeram com os judeus que morreram nos campos de concentração. A Cisjordânia é uma espécie de queijo gruyère. Na cabeça de muitos políticos, há ideias de um Grande Israel que não admite a existência de um povo palestino. Agora o Holocausto é sofrido pelos palestinos.
Você realmente acredita que as duas situações são comparáveis?
Uma comparação quantitativa, não, pois nos campos morreram 6 milhões de judeus, isso não é comparável. No entanto, a partir de 1948, quando mais de um milhão de palestinos tiveram de ir embora, perdendo suas casas, suas terras, ocupadas por aqueles que chegavam nos barcos ingleses e norte-americanos, não vejo muita diferença. Não são 6 milhões de palestinos mortos, mas são suficientes para dizer que isto não pode continuar assim, que os palestinos têm o direito de ter um Estado, um lugar onde possam viver. Uma morte é o mesmo que mil mortes, isto não se mede pela quantidade.
Por que você não critica outros conflitos similares, como os bombardeios em massa de civis tâmeis no Sri Lanka, noticiados recentemente?
Em outros lugares, quase sempre sabemos o que está acontecendo, mas quase nunca sabemos por que está acontecendo, este é o problema. Os tâmeis normalmente são apresentados com cores sinistras, provavelmente com razão, mas ignoramos o que realmente ocorre por culpa de uma imprensa que informa mal. Por isso, muitas vezes é difícil ter uma opinião objetiva sobre o que acontece. Isto não nos impede de opinar em casos como o de Israel e da Palestina, onde as coisas estão bastante claras.
Nilson Fernandes
Um pouco da história de Saramago e viajo até o drama de nossos irmãos d'além mar, vendo aí a constatação de um povo que se sentiu em decadência. E não é qualquer povo: trata-se do povo que, a exemplo dos fenícios dois mil anos antes foi o responsável por essa guinada na história da espécie humana dos últimos 500 anos com a prática de suas loucas aventuras pelos mares. E de repente, se descobre um povo empobrecido, com identidade abalada... tungado nos seus feitos... isso era Portugal à época do nascimento de Saramago.
Bem, mas tem maeterial interessante no Observatório da Imprensa, na coluna Jogo Sujo, artigo da ex-ministra Dilma Roussef usando o codinome com que foi lembrada pela Gaspari da Folha de São Paulo. Aqui: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=594CID013
Nilson Fernandes
Luis, as homenagens e posts ao Saramago estão lindos.
Admiramos muito o seu trabalho e acompanhamos seus textos.
O MEB é um movimento de oposição ao governo vigente e temos produzido alguns vídeos.
Essa semana foi sobre a privatização das estradas:
http://www.youtube.com/watch?v=Zc9rODMKtK4&feature=player_embedded
Semana passada fizemos uma crítica bem-humorada ao Estado de Esquerda:
http://www.youtube.com/watch?v=uH3q3mRYbVw&feature=related
Procuramos manter o bom-humor, num formato comparativo, como no estilo Mac X PC.
Abraços,
Equipe MEB
www.endireitabrasil.com.br
Bela entrevista de José Saramago concedida a Edney Silvestre em 2007 na ilha de Lanzarote, nas Canárias onde vivia. A entrevista está dividida em duas partes.
Como fiquei comovida, postei de novo para ver se aprendi
Pra embalar o sono de Saramago, é só um sono....
saudações vivas ao saramago.
romério
"quase saramago"
tua voz comunista
firme de verdades
não se apaga.
tuas defesas permanentes
do oprimido
deixam rescaldo limpo
e cada corpo sobre a terra
lembrará teus atos.
as memórias,
todas as memórias do mundo,
te soarão sempre.
duro e doce saramago,
te requeiro nas tempestades.
romério rômulo (18/06/2010)
Um perda irreparável para o mundo. Saramago pertenceu a mais brilhante geração de intelectuais portugueses, aquela que nasceu e cresceu a ferro e fogo durante os anos do fascismo e depois fez a Revolução dos Cravos na maturidade. Pena que acabou derrotada pelos vermes que se apoderaram da democracia portuguesa e conduziram o país a integração a um projeto europeu falso - ao mesmo tempo conciliado com a peste do provincianismo pretensioso, coisa que junto com a superstição consiste numa das piores pragas portuguesas desde seu nascimento. Fica aqui a homenagem que fiz a Saramago no meu blog, O Descurvo:
Resquiescat in Pacem Saramago
(foto retirada daqui)
Faleceu hoje, aos 87 anos, em sua casa nas ilhas Canárias, o escritor, jornalista, militante comunista e, no fim da vida, blogueiro José Saramago. Uma perda, sem dúvida, irreparável. Saramago nasceu em 1922 e pertenceu a uma geração de intelectuais - da qual foi o maior expoente artístico - que nasceu e viveu sua mocidade num Portugal que, muito embora já tivesse se livrado de uma monarquia perdulária e inepta - se é que não estou sendo redundante -, encontrava-se sob o jugo de uma ditadura fascista que corrompeu a República ainda em sua meniníce, levando-a à inquietação, à crítica social e ao ativismo político - de uma maneira um tanto romântica - o que se concretizou naquela que talvez tenha sido a maior inflexão modernizadora portuguesa de todos os tempos, cujo momento-chave foi a Revolução dos Cravos. Dono de um ceticismo cortante e de um estilo literário desafiador e polêmico, Saramago desafiava desde os dogmas patéticos da gramática até os cânones católicos, pendores nacionalistas e, até mesmo, convicções racionalistas. Foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e, seguramente, foi o maior escritor de língua portuguesa do século 20º.
Dentre tantas polêmicas em que se envolveu, uma delas se deu quando a indicação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo - meu livro favorito dele - para o prêmio europeu de literatura foi vetada pelo Secretário de Estado da Cultura português Sousa Lara. A alegação? A obra seria elemento de desunião para o povo português, afinal, o livro faz uma crítica ácida aos evangelhos ao narrar a vida de Jesus despida de qualquer aura divina, retratando-o como um homem entre os homens, irritando o clero católico e muitos fiéis - curiosamente, sua última obra, Caim, segue a mesma temática, batendo desta vez noAntigo Testamento. Recentemente, irritou os portugueses ao propôr que seria melhor para Portugal ser integrado à Espanha formando uma espécie de Federação - o que, como se não bastasse a perseguição religiosa que sofria em pleno século 21º, ainda lhe valeu críticas dos nacionalistas d'antanho de seu país.
Foi comunista até o último dia de sua vida e nunca deixou de denunciar a crise da democracia nos dias atuais - como também não deixou de relegar a direita de seu país ao devido escárnio, chamando Cavaco Silva, atual Presidente da República e maior líder conservador do país no pós-Revolução dos Cravos, de "gênio das banalidades". Enfim, foi-se um dos grandes e pouco a pouco o século 20º vai nos deixando - enquanto o projeto desumanista dos dias atuais avança, apesar da geração de Saramago a tenha refreado substancialmente em seu tempo. Agora é conosco.
Adoro o que ele disse sobre o TWITTER:
"Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de expressão. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido"
Até breve, Mestre Saramago!
"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divido, uns por meio de mugidos e rugidos, outro por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após o outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo."
Primeiras palavras do primeiro capítulo de Caim. Aí já se percebe o tom, o estilo e a forma que caracterizaram Saramago. De fato não houve e não há outro autor da língua portuguesa com esta capacidade literária. E dificilmente haverá.
Mais um que se foi, que venceu sem violência, silenciou...nos convenceu
Mas silenciou assim como silenciam os recém-nascidos momentos antes do primeiro sorriso...
assim como o belo e o feio seguem-se um ao outro, e qualquer palavra a mais, antes ou depois de Saramaco, fará com que seja em silêncio....................
posto que será insubstituível em nosso tempo
Mesmo sendo ateu, uma justa homenagem póstuma dos cristãos que o admiravam.
Esqueçamos a política. Que José Saramago descanse em PAZ!
The song "Pie Jesu" is taken from Andrew Lloyd Webber's "Requiem", sung by Hayley Westenra, who was 15 then.
Pie Jesu (Latin and english version)
Pie Jesu, pie Jesu
Faithful Jesus, faithful Jesus
Pie Jesu, pie Jesu
Faithful Jesus, faithful Jesus
Qui tollis peccata mundi
Who takes away the sins of the world
Dona eis requiem
Give to them rest
Dona eis requiem
Give to them rest
Agnus Dei, Agnus Dei
Lamb of God, Lamb of God
Agnus Dei, Agnus Dei
Lamb of God, Lamb of God
Qui tollis peccata mundi
Who takes away the sins of the world
Dona eis requiem
Give to them rest
Dona eis requiem
Give to them rest
Qui tollis peccata mundi
Who takes away the sins of the world
Dona eis requiem
Give to them rest
Dona eis requiem
Give to them rest
Sempiternam
Perpetual
Sempiternam
Perpetual
Requiem
Rest
O mundo é tão bonito,
mas hoje se entristece.
Não há o que cure a perda.
Esqueça toda prece.
Que triste imaginar
O Caderno, agora, vago.
Que falta nos fará
José de Sousa Saramago.
http://speculummundi.wordpress.com/
1922-2010Morre José Saramago, grande escritor e defensor dos animais18 de junho de 2010
Por Lilian Garrafa
; (da Redação)“Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”
(José Saramago)
A morte do esc
ritor português José Saramago nesta sexta-feira, 18, deixou entristecidos não só os apreciadores de sua excelente literatura, como também os defensores dos animais. Saramago mostrava uma nobreza de alma e sensibilidade comovente também em relação aos animais não humanos. Sua compaixão por eles foi visível em inúmeros textos e responsável pela disseminação de ideais de justiça e respeito a todos os seres.
Crítico contumaz do confinamento animal, o escritor, que tinha 87 anos, relatou em um belíssimo texto a tristeza que vivem os animais mantidos em circos e em zoológicos para entretenimento humano (clique aqui para ler o texto na íntegra no blog do escritor). Ele chegou a visitar a elefanta Susi, que vivia num zoológico na Espanha e estava passando por depressão, estresse e solidão. Saramago, ao vê-la, disse que ela estaria “morrendo de tristeza”.
Em sua obra Ensaio sobre a Cegueira, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura, Saramago não trata apenas da cegueira física, mas da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra. “Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que vendo, não veem”. Uma grande reflexão que pode ser aplicada ao imenso sofrimento que a humanidade, cega da alma, aplica insensivelmente a tudo e a todos a seu redor. A cegueira da moral e da ética.
A cegueira que beira a irracionalidade também foi abordada por Saramago no texto “A Racionalidade Irracional”. Um relato que não poupou o ser humano, ao mostrá-lo como cruel, torturador, apesar de sua razão que deveria ser mantenedora da vida. Analisa e mostra a mesquinhez humana que vai atrás do lucro, do êxito e do triunfo, massacrando os seres que mereceriam seu respeito. Levanta a questão não só dos direitos humanos, mas dos deveres humanos.
Deixamos aqui nossa homenagem a José Saramago, que nos enriqueceu com sua brilhante literatura e nos presentou com seu olhar generoso e lúcido sobre os direitos animais.
SusiPor José Saramago
Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo. Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais nos espectáculos de circo. Não devo ser o único a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação, a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos. Mais deprimentes do que esses parques, só os espectáculos de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos os patéticos cães vestidos de saias, as focas a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados, os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto, os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis. Que é divertido, as crianças adoram, dizem os pais, os quais, para completa educação dos seus rebentos, deveriam levá-los também às sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje, graças aos inúmeros documentários sobre a vida animal que as televisões passam a toda a hora, se é educação que se pretende, ela aí está à espera.
P. S.: Deixo aqui uma fotografia. Tal como em Barcelona há grupos – obrigado – que têm pena de Susi, na Austrália também um ser humano se compadeceu de um marsupial vitimado pelos últimos incêndios. A fotografia não pode ser mais emocionante.
Esta entrada foi publicada em Fevereiro 19, 2009 às 12:22 am e está arquivada em O Caderno de Saramago. Pode seguir as respostas a esta entrada através do feed de RSS 2.0. Tanto os comentários como os pings estão actualmente fechados.
Nassif e malungos.
O homem que definitivamente consolidou a língua portuguesa, A Mais Bela Flor do Lácio, no patamar de igualdade com outros idiomas mais festejados.
Que mostrou a beleza de nossa língua-mãe.
Saramago de difícil, desafiadora e saborosa leitura.
De pensamento sensato, de erudição profunda, mesmo só fazendo o secundário, sedento por filosofia, por novas ideias, por escrever.
Grande homem, símbolo da cultura de língua portuguesa.
Outro grande que se vai.
Já está fazendo falta.
Dia triste, saudoso, nostálgico.
EVOÉ, SARAMAGO!!!
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