História: o massacre da Chácara São Bento

Por Andra

Do Vermelho.org

Aconteceu em 10 de janeiro de 1973.

Massacre da Chácara São Bento: a equipe do delegado Fleury destrói a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) em Paulista, PE, graças ao agente infiltrado cabo Anselmo. Entre os 6 mortos sob torturas está Soledad Viedma, paraguaia, 28 anos, grávida de 7 meses, do delator.

Soledad Viedma 

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50 comentários
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Marcio Aurélio Cruzeiro

Cabo Anselmo, o carniceiro do Século XX.

 
 
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Marcia

 

A consciência do Cabo AnselmoA consciência do Cabo Anselmo

Pivô do Golpe Militar, que depois mudou de lado e entregou amigos e até a namorada, diz em entrevista que evitou guerra civil. Foto: Divulgação

Não são poucas as pessoas que dividem a democracia brasileira entre antes e depois da alcaguetagem de Cabo Anselmo. Artífice da revolta dos marinheiros nos anos que antecedem o Golpe de 1964 e cooptado pela esquerda da época, Cabo Anselmo mudou de lado no início dos anos 1970 e entregou seus ex-companheiros aos torturadores comandados pelo delegado Sergio Paranhos Fleury, do Dops.

Entre os torturados e mortos, Soledad Barrett, sua companheira, assassinada quando grávida. Com as informações do marinheiro, o regime militar deu grande impulso para dizimar toda a resistência de esquerda e governar com certa tranquilidade, até começar a cair de maduro no fim dos anos 1970.

Pois foi Cabo Anselmo o entrevistado na reestreia do programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de segunda-feira 17.

 
 
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neideg

A escolha para reinaugurar o Roda Morta é a cara do PSDB/mídia. Tenho pesadelos constantes com o que pode resultar no Brasil desse Tea Party tupiniquim, até essa escória eles querem ressuscitar como heróis.

 
 
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Celio Mendes

Há alguns que acreditam que mesmo na época da revolta dos marinheiros ele já era um infiltrado.

 

Srªs Senadoras e Srs. Senadores, a Transparência Internacional divulgou, nesta terça-feira, a classificação anual dos países mais corruptos do mundo, e a situação do Brasil, sob o império do “lulismo”, só piorou. Demóstenes Torres 08/10/2003

 
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Marcia

Um miserável que merece  arder no inferno.

 
 
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Ramalho

Repugnante.

 
 
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Marcos RTI

Cabo Anselmo, o anjo da morte. Trechos de uma matéria sobre o assunto. As fotos... talvez seja melhor vê-las direto no link da página.

"No dia 08 de janeiro de 1973, Anselmo reuniu no apartamento em que morava com Soledad o grupo de militantes atuantes em Pernambuco. Missão cumprida, da janela do apartamento fez um sinal para a equipe do DOPS de São Paulo, chefiada pelo Delegado Fleury, que espreitava da rua. Anselmo abandonou o local e deixou os companheiros à própria sorte.

Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luiz Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Pauline Phillippe Reichstul e Soledad Barret Viedma foram brutalmente assassinados no episódio que ficou conhecido como "Massacre da Chácara São Bento". Os corpos dos seis foram totalmente dilacerados pela selvageria com que foram torturados e mortos.

Para se ter uma idéia, o corpo de Soledad foi encontrado nu e de pé, dentro de um barril, com os braços caídos para fora. Os olhos estavam esbugalhados, a boca entreaberta numa expressão de terror. Tinha muito sangue entre suas coxas e pernas. No fundo do barril havia um feto de cerca de quatro meses perdido em uma poça de sangue coagulado.

Para salvar sua vida, Anselmo entregou a de outros de bandeja para a ditadura. Nem a mulher e o filho foram poupados.

Anselmo sumiu nas sombras da morte. Apareceu algumas vezes - rosto modificado por cirurgias plásticas - e concedeu depoimentos contando sua versão da história. E o mais incrível é que não demonstra um pingo de arrependimento por cada uma das mortes que carrega nas costas. Como um anjo da morte acredita ter cumprido seu papel, mas por um preço tão alto que, até hoje, ainda tem medo de enfrentar de frente todos aqueles a quem prejudicou. Vive nas sombras, escondido, como há mais de 40 anos atrás, quando ainda era aliado da esquerda. Será que valeu a pena ter sido responsável por tantas mortes para viver assim? Só ele pode responder."

http://www.jornalorebate.com/colunistas2/van9.htm

 
 
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DanielQuireza

Esse sujeito deve ser a escória da escória, talvez o pior tipo de gente que exista.

 

@DanielQuireza

 
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Antônio CDS

Traidores são a escória humana. Até para alguém como Fleury. Anselmo entregou a namorada/filho(a) com a promessa de que seriam poupados. Na mente distorcida dos torturadores, a morte dela e do filho é o que merecia o verme que a entregou.

O que lhe restou? O limbo do desprezo. À direita, ao centro e à esquerda.

 
 
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Paulo Kautscher

Soledad - por Urariano Mota (Agência Carta Maior)

 

 

Soledad, a mulher do Cabo Anselmo

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil.
Urariano Mota

Nota da Redação: O programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, entrevista nesta segunda, às 22 horas, o ex-militar José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, ex-participante de um motim na Marinha, nos anos 60, que, após um período de exílio em Cuba, voltou para o Brasil, foi preso e delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS. A lista de denunciados incluiu sua companheira, Soledad Viedma, que acabou torturada e morta pela ditadura. A TV Cultura escolheu o Cabo Anselmo como entrevistado para marcar a estreia de Mario Sergio Conti, ex-diretor da Veja e atual diretor de redação da revista Piauí, na condução do programa.


A escolha se dá justo no momento em que se discute no Brasil a instalação da Comissão da Verdade, que enfrenta muita resistência de setores que insistem em manter na penumbra fatos ocorridos em um dos períodos mais tenebrosos da história do Brasil. Publicamos a seguir um artigo do escritor Urariano Mota, autor de um livro sobre Soledad Viedma.

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Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos políticos ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denuciados incluía sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta devido à tortura.

Quem lê “Soledad no Recife” pergunta sempre qual a natureza da minha relação com Soledad Barrett Viedma, a bela guerreira que foi mulher do Cabo Anselmo. Eu sempre respondo que não fomos amantes, que não fomos namorados. Mas que a amo, de um modo apaixonado e definitivo, enquanto vida eu tiver. Então os leitores voltam, até mesmo a editora do livro, da Boitempo: “mas você não a conheceu?”. E lhes digo, sim, eu a conheci, depois da sua morte. E explico, ou tento explicar.

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Essa execução coletiva é o ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil não diz tudo. E tudo é, ou quase tudo.

Entre os assassinados existem pessoas inimagináveis a qualquer escritor de ficção. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um cão danado, a ponto de se urinar e sangrar em público, teve anos depois o irmão, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira Marques, vendedor em uma livraria do Recife, arriscou e entregou a própria vida para não sacrificar a da sua mulher, grávida, com o “bucho pela boca”. Apesar de apavorado, por saber que Fleury e Anselmo estavam à sua procura, ele se negou a fugir, para que não fossem em cima da companheira, muito frágil, conforme ele dizia. Que escritor épico seria capaz de espelhar tal grandeza?

E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti; ainda que não fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim... ainda assim o quê?

Soledad é a pessoa que aponta para o espião José Anselmo dos Santos e lhe dá a sentença: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha. Aqui e além deste século”. Porque olhem só como sofre um coração. Para recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem, quero dizer, a face do indivíduo que lhe desferiu o golpe da infâmia. Tive que procurar dele a maior proximidade possível, estudá-lo, procurar entendê-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo é um personagem que não existe igual, na altura de covardia e frieza, em toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com perícia e serenidade. Mas para todos eles há um limite: os espiões não chegam à traição da própria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro filho. Se duvidam da perversão, acompanhem o depoimento de Alípio Freire, escritor e jornalista, ex-preso político:

“É impressionante o informe do senhor Anselmo sobre aquele grupo de militantes - é um documento que foi encontrado no Dops do Paraná. É algo absolutamente inimaginável e que, de tão diferente de todas as ignomínias que conhecemos, nos faltam palavras exatas para nos referirmos ao assunto.

Depois de descrever e informar sobre cada um dos cinco outros camaradas que seriam assassinados, referindo-se a Soledad (sobre a qual dá o histórico de família, etc.), o que ele diz é mais ou menos o seguinte:

‘É verdade que estou REALMENTE ENVOLVIDO pessoalmente com ela e, nesse caso, SE FOR POSSÍVEL, gostaria que não fosse aplicada a solução final’.

Ao longo da minha vida e desde muito cedo aprendi a metabolizar (sem perder a ternura, jamais) as tragédias. Mas fiquei durante umas três semanas acordando à noite, pensando e tentando entender esse abismo, essa voragem”.

Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. Vocês entendem agora por que o livro é uma ficção que todo o mundo lê como uma relato apaixonado. Não seria possível recriar Soledad de outra maneira. No título, lá em cima, escrevi Soledad, a mulher do Cabo Anselmo. Melhor seria ter escrito, Soledad, a mulher de todos os jovens brasileiros. Ou Soledad, a mulher que apredemos a amar.

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A cara de Anselmo

Soledad olha para os olhos do homem que pensara ser o seu companheiro, e isso, essa realidade, o pesadelo por guardar uma altura ética jamais mostrou. O pesadelo fora incapaz de exibir toda a crueza. Anselmo não sorri agora, sorrirá depois, quando lhe perguntarem: - Você dorme bem? A resposta foi algo como: Putz, tranquilamente. Ele apenas assiste ao espancamento e suplício. Como uma prova de que é contra esses terroristas.
Urariano Mota
(*) Trecho do penúltimo capítulo do livro "Soledad no Recife", de Urariano Mota.

A cara de Anselmo, no conjunto dos sinais, Soledad não via. Não tanto porque a desconfiança não lhe houvesse batido à percepção. Mas porque isso era tão horrível, que o seu senso estético repugnava. Uma coisa que o seu peito de justiça não queria nem podia aceitar. E recuava, no mesmo passo em que os indícios cresciam. Mas o Cartório de Registro dos Sonhos existe, ainda que fora do domínio civil de uma cidade. Ele existe ao lado dos lugares onde se bebe, come-se e se morre. Os seus documentos, se não têm efeitos legais, recuperam no real os direitos. Os sonhos, quando muito fortes, os pesadelos, quando inescapáveis, tornam-se tangíveis. Houve então um momento em Sol, houve um espaço e lugar nas suas antevisões, em que se passou do antes para o agora, sem mediação para o horror que jamais havia se apresentado com a sua cara. Nas representações anteriores, nos indícios, não se mostrava assim tão claro.

- Por quê? Por quê?!

A pergunta que Soledad não se fizera diante das imagens que a perseguiam nos últimos meses, por quê?, qual a razão delas, agora à luz do dia em Boa Viagem, em uma butique da ensolarada praia de Boa Viagem, aonde ela foi para vender roupas, onde ela está com Pauline, ali, sob a prazenteira luz física do Brasil, a pergunta pelas razões dos sonhos e pesadelos que ela não se fizera, agora vêm com um susto, um terror, diante do real bruto. José Anselmo dos Santos se encontra entre os homens que lhe batem na cabeça com armas e punhos.

- Por quê Por quê?

Pauline está muda e petrificada, incapaz de correr e falar. Soledad olha para os olhos do homem que pensara ser o seu companheiro, e isso, essa realidade, o pesadelo por guardar uma altura ética jamais mostrou. O pesadelo fora incapaz de exibir toda a crueza. Anselmo não sorri agora, sorrirá depois, quando lhe perguntarem

- Você dorme bem?

- Putz, tranquilamente.

Ou mais textualmente:

- Você dorme tranquilo? Nunca sentiu pesadelo durante a noite? Não tem remorso pelo que fez?

- Absolutamente (risos)....

Por enquanto, não, agora na butique em Boa Viagem ele não ri, embora a cena lhe pareça um tanto cômica.

- Por quê? Por quê?

Ele apenas assiste ao espancamento e suplício. Como uma prova de que é contra esses terroristas.

Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério.... em um barril estava Soledad Barret Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto”.

Quando Mércia Albuquerque declarou essas palavras, não era mais advogada de presos e perseguidos políticos. Estava em 1996, 23 anos depois do inferno. Mércia estava acostumada ao feio e ao terror, ela conhecia há muito a crueldade, porque havia sido defensora de torturados no Recife. Ainda assim, ela, que tanto vira e testemunhara, durante o depoimento na Secretaria de Justiça de Pernambuco falou entre lágrimas, com a pressão sangüínea alterada em suas artérias. Dura e endurecida pela visão de pessoas e corpos desfigurados, o pesadelo de 1973 ainda a perseguia: “Soledad estava com os olhos muito abertos, com uma expressão muito grande de terror”. No depoimento da advogada não há uma descrição técnica dos corpos destruídos, derramados no necrotério.

Mércia Albuquerque é uma pessoa se fraterniza e confraterniza com pessoas. “Eu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em pé, com os braços ao lado do corpo, eu tirei a minha anágua e coloquei no pescoço dela”. Distante dos manuais exatos da Medicina Legal, a advogada Mércia não se refere a cadáveres, mas a gente. Chama-a pelos nomes, Pauline, Jarbas, Eudaldo, Evaldo, Manuel, Soledad. Recorda a situação vexatória em que estavam – porque eram homens e mulheres –, despidos. O seu relato é como um flagrante desmontável, da morte para a vida. É como o instante de um filme, a que pudéssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cadáveres a pessoas, retornássemos à câmara de sofrimento. “A boca de Soledad estava entreaberta”.

Podemos mais, nesse filme que recuamos para antes do terror como um desenvolvimento. E ao voltar, fazemos uma grave descoberta. Se dissermos que havia na pessoa de Soledad o seu caráter, nada demais estaremos dizendo. Assim ela era como personalidade e assim era o seu todo, da suavidade ao calor, à paixão, à inteligência. Se essa visão não é simples, é, pelo menos, quase óbvia. Mas vemos uma coisa que não sabemos se grata, mas que é séria, algo de que jamais desconfiávamos, e por isso jamais imaginamos descobrir: Soledad era uma encarnação de palavras. Isso não é metáfora, nem muito menos “recurso estilístico”. Aqui chegamos a um estágio em que o melhor é narrar colado aos fatos e à sua complexidade.

Pesquisadores já escreveram que, de um ponto de vista genético, todos temos significativa herança dos avós. Mas Soledad, mais que uma herança genética, era filha do seu avô. Em espírito e vida, era filha do escritor Rafael Barret. Isso dito assim, escrito nessa frase, é informação que nada explica nem permanece. Porque é necessário que se diga, mais que se informe, que o escritor Rafael Barret era um homem anarquista, um intelectual anarquista do começo do século XX, e mais, e aqui nos aproximamos do destino de Soledad.

Rafael Barret era, é um escritor poderoso, um artista dos incomuns, dos que fazem obra com o seu pensamento e vísceras. Falecido aos 34 anos, em 1910, foi um espanhol que amou o povo paraguaio com uma dedicação apaixonada, louca, universal, com os olhos críticos contra a podre sociedade de então. Mas tudo que acabo de dizer soa como retórica, como oco panegírico, se não transcrevemos palavras suas, para notar em quê esse escritor era mesmo tão bom, fecundo, adivinhatório. “Às vezes é necessário um motim para restabelecer a ordem”, esclarecia. Rafael Barret poderia ser um humorista, com o seu brilho para o paradoxo, se não tivesse os pés metidos no charco, no Chaco, urgente. Ele parecia ter a consciência clara do quanto os seus curtos dias punham a sua vida no urgente.

Nele há pensamentos que, dirigidos aos paraguaios, atingem os paraguaios de todos os países do mundo. “Enquanto a dor não te queime as entranhas, enquanto um dia de fome e abandono – pelo menos um dia – não te vomite para a vasta humanidade, não a compreenderás”. E como um chamamento, profético, seguido por Soledad Barret, hoje vemos: “Preparem suas crianças para que vivam e morram sem medo”.

Quando adentramos o espírito de Rafael, quanto mais o pesquisamos, mais ficamos em espanto com a solene descoberta, solene porque não só grave, mas séria: Soledad Barret encarnou o mundo de palavras desse gênio. Ainda que passemos ao largo de estranhos acasos, estranhos para não dizê-los impressionantes, acasos, para não dizer coincidências, como os dias de nascimento de Rafael e morte de Soledad, 7 de janeiro de 1876 e 7 de janeiro de 1973, um dia depois do aniversário de Sol em 6 de janeiro, ainda assim há na formação e últimos instantes de Soledad uma encarnação das palavras de Rafael Barret: “Por isso o mais forte do homem é uma idéia que não se curva”. Parece-nos, quando o filme retorna à posição do seu corpo no necrotério, uma fé, concreta e tangível e indubitável, no valor das palavras, nas conseqüências da palavra, como um vigor realizado que descobre e faz crescer pensamento. Um pensamento que foi até o sangue, real, doloroso, até a derradeira expressão, quase diria, mas que não é derradeira, porque é da natureza do pensamento a frutificação.

O poema Muerte de Soledad Barret, belo poema de Mario Benedetti, não poderia jamais adivinhar o suplício da morte de Soledad, quando diz:

los cables dicen que te resististe
y no habrá más remedio que creerlo
porque lo cierto es que te resistías
con sólo colocárteles en frente
sólo mirarlos
sólo sonreír

Esse poema, que faz Soledad atravessar uma reta de melancolia nas ruas de Montevidéu, não poderia crer que ela fosse atraiçoada de maneira e forma tão desleal. Porque não há como resistir – bater-se de frente contra – quando se é atacado por trás de um modo que indeciso ficamos em qualificá-lo de covarde, canalha ou infame. Como se pode esperar – para assim resistir – o ataque de um filho ou de alguém a quem se ama? O poema de Benedetti, escrito no calor da hora, sob o impacto dos informes da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco que relatavam ter sido um centro de guerrilha destruído, é poesia cuja construção de beleza cresce ainda hoje, quando recorda a vida de Soledad, não exatamente as circunstâncias miseráveis de sua morte:

...con tu pinta muchacha
pudiste ser modelo
actriz
miss Paraguay
carátula
almanaque

Ainda assim, comovente, quando o poeta imagina a morte de sua musa com um fim piedoso, assim como imaginamos, todos nós, mortais para quem a morte não pode ser mais cruel que a própria morte, e olvidamos, e esquecemos, e não queremos ver que as circunstâncias da morte podem torná-la ainda mais cruel.

...ignoro si estarías
de minifalda o quizá de vaqueros
cuando la ráfaga de Pernambuco
acabó con tus sueños completos

É natural que, por não saber, por ignorar o que de fato houve, mal finda a leitura das notícias trazidas por telegramas, é natural que o poeta recue ante a maior crueldade. Pois que fim grandioso seria, ainda que duro e doloroso, que belo fim seria a morte sob ráfagas, rajadas de metralhadoras, lufadas de vento, raios de luz de balas de Pernambuco! Os corpos, quando metralhados, sobem. Dizem que sobem sob o impacto dos tiros. E assim atingidos com tal profundidade e rapidez, sob os clarões do fogo, sobem e caem sem vida. Quase, se nisso não vêem cinismo, é quase como um fim sem dor. Terrível, mas ainda não foi assim, sob ráfagas ou rajadas de metralhadora.

por lo menos no habrá sido fácil
cerrar tus grandes ojos claros...

Não, grande e terno poeta, a Soledad que conheceste em Buenos Aires, em Montevidéu, a bela e graciosa e feliz mulher, porque vivia no que acreditava, porque lutava para um mundo fraterno, porque se entregava ao mundo como quem se doa a uma fraternidade, estava na verdade, quando pela covardia foi apanhada, com os olhos sem que se fechassem.

Os dela estavam uma câmera que refletia em instantâneo o perverso das luzes. “Soledad estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror”, assim registrou esse instantâneo a advogada Mércia Albuquerque. Do país onde te encontravas, Benedetti, apenas com a dor da perda e a memória da vida de Soledad, é natural que somente pudesses escrever, no calor da urgência, quando te referiste àquelas duas câmeras no rosto de Sol, com o amor que despertaram em ti:

tus ojos donde la mejor violencia
se permitía razonables treguas
para volverse increíble bondad”.

Silêncio. Entram a romanza para violin y orquesta nº. 2 e o terror. O mais piedoso é o silêncio. Uma pausa, um parágrafo. Passemos ao largo, se quisermos, o parágrafo seguinte pode ser ultrapassado de um salto, assim como editamos com os olhos uma crua imagem no cinema.

“O que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta e ficou deitada, e a trouxeram depois, e o sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. O feto estava lá nos pés dela. Não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror”.

As santas virgens do Paraguai carregam o filho nos braços e a seus pés têm anjos, às vezes também luas em quartos minguantes. Sangue e feto aos pés só a guerreira Soledad Barret Viedma.

(*) Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997), um romance de formação, que se passa sob a ditadura de Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), e de Soledad no Recife (São Paulo, Boitempo, 2009).

Re: História: o massacre da Chácara São Bento
 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
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Rogerio0512

Para "evitar" um massacre maior, jogaram uma bomba atômica.

 
 
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Oreval A. Moreira

Os nossos jovens precisam saber como foi covarde o período em que os militares comandaram o nosso país.  

 
 
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@naldovalenca

Todos que corroboraram com os ditadores são sem sombra de dúvidas a escória da nação. É impossível economizar adjetivos de caráter pejorativo  a um cidadão que tente defender esses assassinos depois de ler um artigo como este!  Foram covardes sim! Não trabalhavam apenas para garantir o poder dos militares e reacionários beneficiados pelo golpe. Aproveitaram-se do instinto mais repugnante e doentio que um ser humano possa ter! São psicopatas que usufruíram do momento, e  se tiverem a mesma oportunidade não hesitaram com o poder garantido pelo Estado para cometer crimes que deixaria qualquer "Hannibal" com inveja. Qualquer comentário em defesa desses maníaco-psicopatas de antemão tem o meu repúdio! É fácil perceber de que lado você está. A todos aqueles brasileiros que fizeram vistas grossas a essas carnificinas só tenho uma palavra: Escória!

 

@naldovalenca

 
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Cabo Anselmo é uma vergonha para o Brasil.....saber que essa criatura  vive entre nós, é uma chaga tão grande que corrói.  Um homem capaz de entregar a própria esposa, gravida, não precisa de mais nenhum adjetivo, uma vergonha para todos nós. Os países da AL, muitos, já  puniram seus torturadores, algozes....o Brasil é o único país que ainda reluta em fazê-lo. Amarras como essa só nos prejudica e nos impede de andar pra frente.....se quisermos repassar o Brasil, precisamos, antes de mais nada, limpar estes "calobouços" onde ainda ecoa o choro de muitas famílias ....acabar com o medo que nos obriga, em alguns casos, a usar nicks e ficar calado......este fantasma ainda paira sobre nós e  sobre o Brasil. Não se faz faxina alguma empurrando a pior sujeira para debaixo do tapete.....Cabo Anselmo é uma das piores sujeiras deste país......

 

Fatos que gostaria de testemunhar antes de morrer: 1-político bandido, preso; 2-juiz, promotor, procurador bandido, preso 3-Corinthians, campeão da Libertadores.....

 
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Roberto Veiga

Cabo Anselmo é uma vergonha pra si mesmo e ninguém mais. O Brasil não tem nada a ver com ele, não lhe deve nada e não pode lhe cobrar nada. O maximo que o Brasil pode fazer é repudia-lo; isso ja faz. Os crimes que Anselmo cometeu prescreveram ha decadas e, rigorosamente falando, mesmo não tendo a proteção da Lei da Anistia, nada se poderia fazer contra ele mesmo quando ainda não tinham prescrevdido. Delatar companheiros envolvidos em operações ilegais nunca foi crime e não é crime mesmo hoje em dia.

 
 
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alexandre toledo

voce me dá nojo

 

alexandre toledo

 
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evandro condé

Sinto muito, mas o que ele falou para tal?  Cê tá meio nervoso ou o quê?

 

evandro

 
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alexandre toledo

Não estou meio nervoso apenas me da nojo alguém defender um caso desse, é muito fácil dizer que ele fez isso ou aquilo e querer com isso esconder a verdade: o governo da época, que não tinha legitimidade pois foi tomado com um golpe militar, torturou, matou e pra isso usou pessoas repugnantes como esse cabo, o tal fleury e todo agente da "lei" e quando alguém tenta distorcer a historia... e que fique claro crime contra a humanidade não prescrevem...

 

alexandre toledo

 
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Andre Vieira

O que salta aos olhos é a impunidade diante desses crimes hediondos explicitados. O absurdo é que a sociedade permaneça alheia e inerte diante de tamanha violação da noção mais básica de dignidade humana, em nome do status ilegítimo de uma parcela essencialmente corrupta de nossa 'elite', vassala  e comensal dos interesses capitalistas estrangeiros.

A ditadura ainda reside entre nós. Inadmissível que continuem vivendo tranquilos como se tivessem prestado um grande trabalho.

É por essas e outras que é intolerável um sujeito que, de forma direta ou indireta, preste apoio às idéias pervertidas que deram e continuam dando suporte ao autoritarismo das elites oligárquicas e pró-imperialistas.

Mereceriam apedrejamento público.

 
 
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ed.

"Delatar não é crime"...

Participar ativamente de múltiplos assassinatos, sem julgamento, num pais sequer com pena de morte, não é crime...

Principamente sabendo ("...'se possível', não gostaria que fosse aplicada a solução final"...) que levaria à morte (ilegal), após tortura (idem).

... "prescreveu"... "anistia" ...

Comentar o quê sobre leis feitas pelos próprios responsáveis pelos crimes?

 
 
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ed.

Cabo Anselmo é uma vergonha para qualquer ser humano, para a Humanidade.

 
 
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Eduardo Petrucci Gigante

E na UNE, será que houve um Cabo AnSerra?

 
 
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evandro condé

Sempre vai haver algum comentário sobre o Serra, até se o post for o Tsunami no Japão. Vocês têm fixação ou o quê?

 

evandro

 
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ed.

Ora, o assunto aqui é traição (infame, vil) e vc não quer que se traga outros nomes relevantes no assunto?

Proteção ou o quê?

 
 
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Mario Blaya

Brizola e o seu apoio ao governo Collor serve?

 

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." Max Frich

 
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Marcia

Comparar um homem digno, um Brasileiro  com B maiúsculo  com  esse traste  do Cabo Anselmo  só poderia vir de vc.

Vc é uma lástima.

 
 
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Mario Blaya

ter, 10/01/2012 - 17:52

ed.

Ora, o assunto aqui é traição (infame, vil) e vc não quer que se traga outros nomes relevantes no assunto?

Proteção ou o quê?

 

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." Max Frich

 
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ed.

Já respondi, mas vou procurar enriquecer:

Collor foi eleito por seus iguais. Estes mesmos que vc apoia, defende e protege (ou o quê?...).

Longe de ser santo, perto de ser bandido e nefasto à nação (embora menos que FHC), Collor sofreu, no momento em que não serviu, "conforme combinado ou esperado", aos seus "iguais", uma campanha golpista, a "la mensalão".

Rolou até água mineral! ... Hoje conhecemos bem este processo...

Era o primeiro governo de eleição direta, então pegaria mal já melar tudo de novo. Felizmente saiu um "impeachment" misturado com renúncia. E parece que não houve (ora...) condenação criminal...

Mas até a míRdia (dãh!) "demorou" (ex. Globo). Brizola sempre foi anti-golpe e anti-Globo (míRdia). Sabia quando era "a vera" ou quando era hipocrisia, como ainda é hoje ("Cansei", "Vassouras", "V", etc.).

Para finalizar, vc já deve ter visto em meus comentários, mas vou repetir: nunca fui comunista, nunca fui petista. Acrescento: nunca fui brizolista. Mas sou Lula e Dilma, porque sou Brasil, sou brasileiro.

E tiro o chapéu ao Brizola por ter implantado ~500 escolas (isso, ~meio milhar!) que ao invés de serem sabotadas, fossem disseminadas por todo o país, a situação da (essencial) educação do brasileiro seria outra.

E por conseguinte a do Brasil.

 
 
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Mario Blaya

bom eu também sou brasileiro, e não considero uma condição para se-lo, ser também Lula ou Dilma, alias dizer o que vc disse é coisa de radical doutrinado e que teve uma lavagem cerebral muito bem feita!  usaram até alvejante!

 

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." Max Frich

 
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ed.

Percebe-se que vc entende lhufas de política...

Trair a mãe e o próprio filho inato, levando-os, conscientemente, à tortura seguida de morte ou trair, subterraneamente, sua nação é, evidentemente, a mesma coisa que uma coalizão política, aberta e pública.

Talvez vc se saisse (um pouco) menos pior ao defender o assassinato do filho para que ele não precisasse viver a infame vergonha de seu "nobre" pai.

 
 

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