Gaiarsa, um grande brasileiro

Por Gilberto Cruvinel

Nassif, bom dia,

Nestes dias de campanha eleitoral pautada pelos obscurantismo e preconceitos dos mais iinacreditáveis, a discussão que o psiquiatra José Angelo Gaiarsa promovia na mídia soa revolucionária:

" Foi o primeiro psquiatra a introduzir a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e os estudos sobre sexualidade de Wilhelm Reich.

Inspirado por esses estudiosos, Gaiarsa ia à TV pregar contra a virgindade e a favor do comportamento sexual livre.

"Ele despertava o ódio da sociedade ao dizer que a família não era a melhor estrutura social. Dizia que no seio da família é onde as pessoas mais se deformam. Eu tinha 9 anos e me lembro de as pessoas que ironicamente defendiam a moral e os costumes da época telefonarem para nossa casa falando palavrões", conta o Flávio Gaiarsa, 61, que seguiu a carreira do pai. "

 

Folha.com - 16/10/2010 - 18h10

Velório do psiquiatra José Angelo Gaiarsa acontece no cemitério São Paulo

JAMES CIMINO DE SÃO PAULO

Morreu neste sábado (16) aos 90 anos o médico psiquiatra José Angelo Gaiarsa. Segundo sua neta Laura, Gaiarsa morreu por volta das 5h enquanto dormia. A família ainda não sabe a causa da morte.

O velório está ocorrendo desde as 14h no cemitério São Paulo. O corpo será enterrado no cemitério da Assunção, em Santo André, onde o psiquiatra nasceu, neste domingo (17) às 8h. Gaiarsa era divorciado e deixa três filhos e oito netos.

Nascido em 19 de agosto de 1920, Gaiarsa sempre será lembrado como um iconoclasta, conforme disse seu filho Flávio à Folha.

Zeca, como era conhecido pelos amigos, falava muito contra a estrutura familiar clássica, segundo ele a maior geradora de neuroses nos indivíduos, e apoiava abertamente, em redes de rádio e TV, a liberdade feminina já na década de 1960.

Foi o primeiro psquiatra a introduzir a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e os estudos sobre sexualidade de Wilhelm Reich.

Inspirado por esses estudiosos, Gaiarsa ia à TV pregar contra a virgindade e a favor do comportamento sexual livre.

"Ele despertava o ódio da sociedade ao dizer que a família não era a melhor estrutura social. Dizia que no seio da família é onde as pessoas mais se deformam. Eu tinha 9 anos e me lembro de as pessoas que ironicamente defendiam a moral e os costumes da época telefonarem para nossa casa falando palavrões", conta o Flávio Gaiarsa, 61, que seguiu a carreira do pai.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/815676-velorio-do-psiquiatra-jose-angelo-gaiarsa-acontece-no-cemiterio-sao-paulo.shtml

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8 comentários
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sergiomf

Muito bem lembrado, um espírito inqueto e libertário, sempre provocador, vai fazer muita falta nesses tempos marcados pela hipocrisia e pelo conformismo, valeu Dr. Gaiarsa !

 
 
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Luiz Horacio

Havia um certo paralelismo entre a emergência do (antigo) PT como movimento social amplo e libertário da sociedade, nos anos 80, o debate sustentado por Gaiarsa e que se disseminou rapidamente, principalmente em algumas capitais e cidades maiores. A militância petista não raro gostava de discutir os assuntos sobre uma nova sexualidade e sobre os exageros da repressão. Virou mesmo uma "moda" falar sobre a repressão, que se misturava com sexual, política ou moral. O "não se reprima" ganhou peças de publicidade, teatro, programas de tv, os diálogos do cotidiano e a consciência das pessoas. O reprimir-se era a "neura", o "atraso". Marta Suplicy era sexóloga e revolucionava a TV com seu programa falando abertamente de TV na Globo (!!!), mulher de Eduardo Suplicy, o abre-alas do PT nas classes médias e alta, e de razoável popularidade geral. O comportamento "avançadinho" passou a ser uma bandeira de contestação, além de uma opção pessoal. Mesmo a expressão "opte" = escolha foi usada como sinônimo de "mude", "modernize-se", libere-se, liberte-se da repressão e do autoritarismo, do velho.

Mas tive uma surpresa quando comecei a ler Reich e a assistir aos doumentários sobre seus livros. Reich era muito mais libertário do que poderíamos aceitar, mesmo os "moderninhos". Suas idéias eram realmente "revolucionárias", digamos. Depois, ele mostrou como muita coisa que se fez como "revolução sexual" ou na esteira dessa discussão, era na verdadade uma nova forma de repressão e de dominação, uma apropriação da própria liberdade recém ou proto-conquistada. Era muito difícil para as pessoas de certas gerações e culturas compreender claramente qual era o "projeto" de Reich, e se havia algum, ou se seria o anarquismo completo, que para a nossa sociedade soa mais como "caos" e "pouca-vergonha", fora o conflito com a estrutura famiiar. Mas não creio que Reich fosse exatamente contra a família. Creio que era contra a repressão e a neurose que se forma em torno de certas relações e contextos familiares que na verdade eram "oprimidos" pela política e pelos preconceitos sociais. Não creio que fosse em princípio contra a formação de um casal que naturalmente fosse estável, por sua opção. A verdae é que simplesmente não havia uma referência completa em nosso mundo, do que ele imaginava.

Havia ainda um ponto conflituoso, a questão do "Zé Ninguém", paralela ao do "novo homem" do marxismo. E temos de considerar nisso tudo que mesmo Freud não é aceito, tampouco é integralmente compreendido ou disseminado, ainda hoje. O homem comum que faz sua revolução, que muda o seu mundo, e que chega ao poder, mas não se liberta de seus traumas, de suas neuras, não chega a compreende os processos de opressão a que foi submetido, nem os processos de libertação que parecia tê-lo libertado. Para Reich (não sou nenhum grande especialista no assunto, por favor questionem), a opressão a ser promovida pelos cidadãos comuns, pelos anteriormente oprimidos, seria pior que a dos antigos opressores. Reich certamente analisava e denunciava o stalinismo soviético e os rumos que tomara. Mas vide que Orwell repete essa crítica, nesse paralelismo sexual-político, no 1984 do Big Brother, em que a repressão sexual funciona como chave da opressão política. Na outra ponta, o consumismo-hedonismo capitalista era parceiro da dominação social via "liberação" sexual total.

E nenhum desses dois projetos conseguiu chegar à saúde e à naturalidade sexual proposta por Reich, nem esquerda, nem direita. Aliás, alguém sabe qual era exatamente esse mundo que Reich imaginava?

 
 
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claudio mesquita

Esse assunto sempre me interessou. Cheguei inclusive a fazer um grupo de terapia com o Dr. Gaiarsa e muitas sessões de bioenergética, terapia corporal sistematizada por Alexander Lowen. Acho que não tem muito a ver com a repressão social, mas com a identificação com a mente, de como os padrões mentais (formados, claro dentro da sociedade) limitam a capacidade de viver conscientemente a partir de suas potencialidades únicas de ser humano como tal. Todos os sistemas sociais, e por que não as religiões,  são massificantes e dominadores e contra portanto, a possibilidade de alguém se tornar um Indivíduo, de perceber sua Face Original. Isso para mim é a verdadeira liberdade, a verdadeira religiosidade. Só quando você é livre, respeita a liberdade e a indidualidade dos outros. Por que será que a sexualidade e a opressão feminina são o ponto principal de todas as religiões? Foi Eva quem tentou Adão. A mulher, o pecado! Engraçado que a abordagem do Reich não é especificamente sexual, mas passa por aí. Tem um livro do Lowen, "Alegria", muito esclarecedor.

“Atravessar a vida com o coração encarcerado é como fazer uma viagem transoceânica trancado

no porão de um navio. Todo o significado, a aventura, a excitação e a glória de viver estarão longe de poderem ser vistos e tocados.” Alexander Lowen.

Outro livro muito interessante é "Tantra a Suprema Compreensão" do Osho, mestre espiritual ironicamente expulso dos EUA e sistematicamente boicotado e caluniado pela mídia tradicional em todo o mundo.

 
 
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Cesar Luiz da Silva Pereira

Foi muito bom em toda sua vida profissional. Não venho aqui para fazer seu necrológio, nada entendo disso. Só sei que ele preencheu muitas das minhas manhãs familiares na rede Band,, anos 80s e 90s, com sua inconoclastia, bandalho e revolucionário. Com seus olhos e dedos das mãos grandes, mãos peludas, divulgando certezas que sempre colocava, em suas falas, como incertas. Lembro de um período em que apresentou uma teoria espalhafatosa de que o expansionismo da homossexualidade nada mais era que um controle natural biológico sobre a natalidade. Como já disse em outro local, o Gaiarsa quanto mais velho ficava, mais menino ficava. Grande perda para a psicanálise, para o aperfeiçoamento das relações humanas.

 
 
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Paulo Camargo

Nassif

meu post não foi publicado. Há algum problema com ele?

 
 
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Sílvia

Tive a oportunidade de conviver com a família do Gaiarsa na época em que ele foi casado com a psicoterapeuta Rose. Tenho carinho por ele.

 
 
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Henrique Torres

Nassif, aproveito a homenagem a esse grande lutador contra a intolerância, que foi o Gaiarsa, para postar um vídeo a que acabo de assistir. É um discurso - de 12 minutos - feito em 12 de outubro por Joel Burns, conselheiro municipal (vereador) em Fort Worth, Texas em que ele não apenas assume a sua homossexualidade, mas, principalmente, lança um emocionante alerta contra o assédio de que são vítimas, e que leva ao suicídio, os adolescentes gays. O vídeo faz parte de um movimento chamado "it gets better", que visa apoiar os jovens nesta terrível fase de suas vidas.

É impossível ficar impassível assistindo. Infelizmente, não tem legendas e isso seria essencial para mostrá-lo aos brasileiros, a começar pela companheira Dilma, que rifou o PNDH3  e os direitos dos homossexuais no altar da intolerância evangélica. Tristes tempos.

 
 
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Bel Brunacci

É mais um espírito livre para quem o tempo passou rápido demais. Ainda bem que não sofreu, apenas dormiu. E o mundo ficou mais pobre, sem Ângelo Gaiarsa.

 
 

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