Extra Credits: arte digital seriada

Por Cris Spiegel

Comentando o post "Nova arte nos games"

Nassif,

Não sei se você lerá este comentário agora que este post está lá pela 5ª página, mas seria legal divulgar um trio de profissionais de games e animação que mantêm um show na internet que fala sobre games de forma técnica. Eles abordam vários aspectos dos games, como estética, potencial como forma de narrativa, participação do jogador no produto final da obra artística, relações profissionais, descrição de funções na indústria etc.

Blog: http://extracurricular.tk/

O nome da série é Extra Credits. O blog se chama Extra Curricular e foi criado após uma disputa sobre direitos autorais e o direito ao dinheiro arrecadado para custear a cirurgia no ombro da artista da equipe. Então eles saíram da antiga casa (The Escapist Magazine) e voltaram temporariamente ao YouTube, usando o blog como canal para agregar todo esse trabalho. Por conta desses problemas, nem todos os episódios estão disponíveis por lá, mas é questão de tempo.

Temas mais específicos abordados foram, por exemplo, como jogar com olhar de designer; as várias formas de 'escolha' apresentadas ao jogador; compulsão por jogos e como eles são usados negativamente para fugir à realidade;  uma narrativa contada exclusivamente através da mecânica de jogo de Missile Commando; como as ações puras e sem palavras contribuiram para formar a personalidade da heroína Samus em Metroid melhor do que as forçadas inserções de narrativa no episódio mais recente da série; como a inclusão de uma personagem adolescente masculina gay em Persona 4, discutindo os conflitos emocionais pela qual passou e o amadurecimento de sua personalidade, contribuiu para pôr o jogo além dos clichês batidos; as estratégias de mercado das grandes empresas prejudicando as idéias de jogo como arte e entretenimento capaz de prover uma experiência madura.

Não quero com isso defender que game é por definição uma forma de arte, embora pareça claro para mim que games são sim um container para outros tipos de arte, como a trilha sonora, narrativa e parte visual. Mas seria tolo não defender o potencial de arte em si, ou seja, que alguns games sejam em si peças de arte ou que possam vir a ser. Infelizmente, como já disse antes, é futil explicar isso em palavras, pois o caráter artístico de um game-arte só pode ser realmente percebido jogando. Talvez dê para entender alguma coisa se a pessoa sentar do lado de algum jogador e ver a coisa desenrolar, observando como o gamer se relaciona com o game enquanto isso.

Eu particularmente acho que games hoje sofrem um processo de "hollywoodização", no qual o melhor é sempre aquele que usa mais recursos técnicos e vende mais. Acho que essa sofisticação técnica e o aval do mercado consumidor não têm nada a ver com arte, seja em games, cinema, música ou o que for. Acredito eu que se o designer for capaz de criar uma conexão emocional com os jogadores através do jogo (não só das histórinhas de intervalo, as cutscenes, embora a história possa sim estar integrada ao jogo, eliminando esse problema - o que não é fácil de realizar, diga-se de passagem), independente dos recursos de que dispõe, se são sofisticados os simples, então ele criou arte.

Mas se não for arte, então tá tudo bem, também, pois um pouco de diversão sem compromisso não faz mal a ninguém.

PS: Achei os vídeos do período Escapist Magazine:
http://www.metacafe.com/watch/6830855/extra_credits_sexual_diversity/ 
http://www.metacafe.com/watch/6783580/extra_credits_choice_and_conflict/
http://www.metacafe.com/watch/6817068/extra_credits_narrative_mechanics/
http://www.metacafe.com/watch/6849303/extra_credits_amnesia_and_story_structure/

Vídeos: 
Veja o vídeo
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3 comentários
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aliancaliberal

Primeiro tem que definir o que é arte, e que creio que deva ser subjetivo, na minha opinião arte é o entretenimento que de alguma forma transforma o homem.

Voltando ao inicio, o jogo Dragon Age não tem os melhores gráficos da industria, perde para muitos de sua geração, o que o diferencia é a complexidade do enredo e "customização" deste, um conto epico que vc escreve no decorer do jogo.

 

"Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta." Nelson Rodrigues.

 
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Cris Spiegel

Eu preferi deixar em aberto o que seria arte por pensar que as idéias da maioria das pessoas tenha ao menos algo em comum (o suficiente para sabermos a que alguém se refere quando diz a palavra 'arte').

No meu entendimento pessoal, arte nem mesmo existe. É um recurso de linguagem que tenta se valer de cluster concepts (ou seja, não há nenhum objeto que exemplifique todas as características intrinsecas do que seria arte, mas um objeto guarda uma semelhança com outro, que guarda outra semelhança com mais um outro e assim por diante) para comunicar várias criações humanas que na verdade não apresentam tantas semelhanças assim. Claro que poderiam me advertir que, por ser justamente um cluster concept, arte existe. Só que até hoje não achei um exemplo tão complicado quanto o conceito de arte. É tão complicado que as pessoas não conseguem concordar com o fato de certas coisas serem obras de arte ou não. Você pode ter dois objetos muito distintos e ambos serem obras de arte. Ao passo que podemos também ter dois objetos semelhantíssimos, sendo que um é arte e o outro, não.

Mas como é difícil abandonar a idéia de arte, eu costumo pensar que há um nível de intencionalidade e relevância numa ação humana que caracteriza a mesma como arte. É a diferença entre redecorar meu quarto e construir o Parthenon. A diferença entre contar uma piadinha de uma frase no meio de uma conversa e escrever uma comédia. Ou entre caminhar até o fim da rua e dançar um ballet. Mas não descobri ainda o que é necessário para que seja arte. Criatividade? Inovação? Estética? Formulação de conceitos? Não tenho certeza de nada, ainda.

Outra coisa que complica é: arte ruim = não-arte? Ou seja, se um artista executa mal sua obra, ela ainda é arte ou não? Nós poderíamos pegar um jogo com pretensões artísticas, mas o resultado pode ser mal acabado, cafona, brega, etc. Então costuma-se comparar tais jogos com filmes ruins de Hollywood. Talvez isso seja até um bom sinal, pois filmes são arte e, se há filmes ruins, há também filmes bons. Logo talvez haja a possibilidade de um jogo executar a parte artística tão bem como um bom filme.

Mas devo ressaltar que game é game, filme é filme. Não se constrói filmes da mesma forma como se escreve um livro ou uma revista em quadrinhos, ou vice-versa, por mais que interdisciplinaridade possa ocorrer. Talvez os games que imitem desesperadamente filmes estejam na onda errada de tentar ser artísticos. Talvez sejam bons filmes com trechos de interatividade. Também podem ser filmes bons com trechos interativos também artísticos. Vejo inúmeras possibilidades.

Dragon Age eu ainda não joguei, mas eu entendo o que você quer dizer. Eu ando muito afastado dos RPG ocidentais e talvez seja uma boa hora para jogá-los. Mas só depois de terminar os que eu já comprei. ;-)

 
 
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Cris Spiegel

Uma pena que não haja tradução para o Extra Credits, pois é um assunto muito relevante hoje em dia. Eu recomendo àqueles que entendem inglês que vejam ao menos o episódio Narrative Mechanics. Mesmo quem não tem o hábito de jogar videogames deveria assistir ao episódio. Basta apenas ter o desejo de aprender, pois a analise ali é coisa fina.

 
 

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