Exclusivo: a crise global, segundo Ha-Joon Chang

Crise é momento para reexaminar ortodoxia

Por Bruno de Pierro, no Brasilianas.org
Da Agência Dinheiro Vivo 

“Se a crise, que acontece no coração do sistema econômico neoliberal, não fizer com que as pessoas reexaminem as teorias ortodoxas de livre comércio, eu não sei o que o fará”. Essa é a avaliação do economista sul-coreano e professor da Universidade de Cambridge, Ha-Joon Chang, um dos principais críticos do modelo neoliberal na atualidade.

Em 2007, um ano antes da eclosão da crise econômica nos Estados Unidos, Ha-Joon publicou Maus Samaritanos, livro dedicado à desmistificação do mito do livre comércio. Espectador privilegiado do grande salto dado pela Coréia do Sul a partir dos anos 1970, Ha-Joon mostrou que países desenvolvidos, como Estados Unidos, Inglaterra e a própria Coréia, só deram certo porque, no início, mantiveram políticas protecionistas, abrindo seus mercados gradativamente, e exercendo controle sobre seus mercados.

Autor de mais duas obras importantes - 23 Things They Don't Tell You About Capitalism (2011) e Chutando a Escada (2002), este influenciado pelo economista alemão Friedrich List – Ha-Joon Chang é considerado um dos principais nomes da economia heterodoxa no mundo. Professor de Cambridge, já foi consultor do Banco Mundial, do Asian Development Bank e de governos do Brasil, Canadá, Japão, África do Sul, Inglaterra e Venezuela.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista ao Brasilianas.org

Brasilianas.org - Qual a avaliação que o senhor faz da nova dinâmica dos BRIC, com o estreitamento de acordos de cooperação e de relações comerciais? Existe o risco de que esses países, como China e Índia, estejam seguindo a mesma receita de desenvolvimento dos países europeus?

Ha-Joon Chang - O rápido crescimento da China e da Índia, e o renascimento das economias do Brasil e da Rússia, depois dos problemas durante os anos 1980 e 1990, combinados com o relativo declínio das economias dos Estados Unidos e da Europa, certamente criou uma nova dinâmica. Até agora, os países que compõem o BRIC estão direcionados para manter suas relações com os mais pobres países em desenvolvimento de uma forma menos imperialista do que eles tipicamente observam entre países ricos e desenvolvidos. Mas, claro, isso pode mudar, conforme os BRIC se tornem mais poderosos.

Contudo, vai demorar algum tempo até os países do BRIC se tornararem tão dominantes quanto os países ricos de hoje, na sua relação com outros países em desenvolvimento. Os países do BRIC ainda representam apenas 15% da economia global, enquanto Europa, Japão, Estados Unidos e outras economias desenvolvidas representam 70%. Além disso, o BRIC ainda não tem o controle sobre a maioria das tecnologias básicas. Portanto, a sua posição relativa ainda é fraca.

Quais os principais fatores históricos da formação do Euro que refletem na atual crise? A adoção da moeda tinha por trás a idéia de integração em um ambiente de tranqüilidade, a despeito das diferenças culturais entre os países.

O problema da zona do euro reside no fato de que ela foi construída fora de um conjunto diversificado de economias, com diferentes níveis de renda e diferentes estruturas, sem colocar em prática os mecanismos que irão resolver as diferenças – o Banco Central, união fiscal e mobilidade de trabalho. Não há nenhuma barreira legal à mobilidade do trabalho, mas existem barreiras linguísticas e culturais. A integração apressada foi conduzida pelo desejo político de acelerar a integração européia, em face do colapso do bloco soviético e da reunificação da Alemanha, e não por razões econômicas.

Como o senhor observa o recente estresse da economia italiana?

A Itália é um caso interessante, porque, mesmo que tenha um grande estoque de dívida pública, o déficit atual de orçamento é relativamente baixo. O problema é que o Banco Central Europeu se recusa a resgatar, incondicionalmente, o bond (títulos de dívida) do governo italiano, e a Alemnha e outros países se recusam a monetizar a dívida, na questão dos Eurobonds, coisas que um governo nacional teria feito se algo desse errado com uma parte da economia.

Recentemente, o governo brasileiro aumentou o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para carros importados, e também instituiu imposto sobre operações com derivativos de câmbio. O senhor acha que o Brasil está acordando para a importância de beneficiar seu mercado interno, exigindo o retorno de empresas estrangeiras no desenvolvimento de tecnologia e incentivar toda a cadeia nacional?

Absolutamente. Se essas políticas são incompatíveis com os princípios da OMC (Organização Mundial do Comércio), é a OMC que está errada, e não as políticas. O desenvolvimento dos países precisa do espaço no qual eles possam desenvolver suas capacidades produtivas. E outras coisas, como a instabilidade financeira criada por fluxos de capital especulativo internacional e o limite tecnológico, com efeito de transbordamento, de companhias extrangeiras, necessárias por restrições da OMC sobre a regulação dos governos nacionais sobre empresas estrangeiras.

O senhor é defensor do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O governo brasileiro decidiu reduzir o IOF de 3% para 1,5%, alegando que é uma medida para aliviar os bancos de pequeno e médio, os primeiros a sentir os efeitos da crise de crédito. Qual o impacto que a adoção do IOF tem num primeiro momento?

A origem dos nossos problemas econômicos hoje está na excessiva e frequente especulação no mercado financeiro. Tal atividade comenrcial aumenta a instabilidade financeira no curto prazo e força companhias a operar com horizonte de tempo muito curto, comprometendo assim a sua capacidade e disposição de investir para o longo prazo. O período médio de participação em empresas britânicas é, atualmente, de três meses, em comparação com cinco anos na década de 1960.

Em sua opinião, o conjunto que envolve bancos, consultorias e acadêmicos comprometidos com o mercado de capitais terá que agora passar pelo olhar de uma sociedade mais crítica, por meio de métodos de transparência? Quais os mecanismos de resistência que surgem agora?

Sim, se a crise, que acontece no coração do sistema econômico neoliberal, não fizer com que as pessoas reexaminem as teorias ortodoxas de livre comércio, eu não sei o que o fará. Infelizmente, os meios financeiros, político e intelectual tem resistido fortemente a este reexame e a esta reforma, o que significa que eles ainda se agarram às velhas idéias e tem feito seu melhor para minimizar a reforma do sistema. Apesar disso, acredito que mudanças significativas serão feitas. A crise fez muitas pessoas reexaminarem suas visões de mundo e propor algumas saídas que foram consideradas totalmente inaceitáveis até agora.

Por exemplo, o FMI e o Banco da Inglaterra propondo o uso do controle de capital e os governos da Alemanha e de outros países da Europa apoiando o imposto sobre operações financeiras. Com protestos como o dos Indignados, na Espanha, e o movimento de Ocupação, como o de Wall Street, há também suficientes demandas da população por mudanças. É muito difícil de prever grandes mudanças sociais, ninguém previu, por exemplo, a Primavera Árabe, mas eu acredito que essas transformações estão chegando.

É notável que as relações entre bancos, goveros e mercado financeiro são extremamente obscuras, e muitas instituições mantêm contratos fraudulentos e nenhuma operação transparente. Do ponto de vista subjetivo, a economia é suficiente para explicar a crise? O que se tem pensado hoje sobre uma teoria do poder nas relações econômicas?

O dinheiro sempre foi a principal fonte de poder, mas a fusão dele com a política tem avançado significantemente nos período mais recentes, pelo menos em alguns países. A política econômica dos Estados Unidos foi gerida por Goldman Sachs nos últimos 20 anos; o governo britânico faz de tudo para agradar o setor financeiro, mesmo arriscando um isolamento total da União Européia; e Silvio Berlusconi, até recentemente, representou a pior forma de plutocracia. A forma de corrupção pode ser mais sutil. Por exemplo, em muitos países, reguladores financeiros estão dando tratamento de “luvas de pelíca” para o setor financeiro, em parte porque são estes seus futuros empregadores.

A atual crise tem também exposto muita corrupção escondida. Ela revelou uma teia enorme de corrupção e abuso de informação privilegiada; a Islândia costumava classificar bem no topo da boa governança e da transparência, geralmente entre os cinco primeiros países. Após a eclosão da crise, o sistema financeiro dos EUA, considerado padrão-ouro, expôs também como é extremamente corrupto e opaco. Tudo isso mostra que precisamos criar mecanismos para controlar melhor a penetração do dinheiro na política.

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10 comentários
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marcos nunes

Esse é daqueles especialistas que nunca são consultados por ninguém além de seus próprios alunos de curso universitário. E olhe lá.

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

 
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Hans Bintje

Nós o levamos o professor Ha-Joo Chang muito a sério e eu jamais perco as palestras dele no Brasil.

A próxima será entre os dias 09 e 13 de janeiro de 2012. Veja os participantes ( http://www.eesp.fgv.br/eventos/laporde-2012-third-latin-american-advance... ):

09 January - 13 January,2012
Fundação Getulio Vargas, São Paulo, Brazil

The programme is mainly intended for young academics. The following lecturers confirmed their participation:

* Gabriel Palma (Cambridge University),
* Ha-Joon Chang (Cambridge University),
* Jomo, K.S. (Assistant-Secretary General, UN),
* Jose Antonio Ocampo (Columbia University),
* Jan Krengel (Univ. of Missouri)
* Yoshiaki Nakano (São Paulo School of Economics),
* Luiz Carlos Bresser-Pereira (São Paulo School of Economics).

 
 
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marcos nunes

Sim, você entra no percentual dos alunos. Pergunta se as agências de rating gostam dele... Bem, é possível que gostem. Mas não confessam nem sob tortura...

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

 
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Hans Bintje

O público do professor Ha-Joo Chang é outro ( http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias... ):

"No programa, foram apresentadas diversas perspectivas críticas sobre temas da macroeconomia e do desenvolvimento econômico, incluindo a discussão das políticas públicas e das estratégias de desenvolvimento, questões de elevada pertinência para a atuação do BNDES. (...)

O Latin American Programme on Rethinking Macro and Development Economics (Laporde) foi a edição na América Latina do programa elaborado com base na experiência do que vem sendo realizado há oito anos na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, denominado Cambridge Advanced Programme on Rethinking Development Economics (Caporde)."

 
 
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marcos nunes

Não sei copmo você está lendo meus comentários, mas eles se pretendem irônicos; se você não percebeu, é porque eu tô fraco de ironia, é uma possibilidade, mas em momento algum pretendi desmerecer o professor, um oásis de independência no meio dos cooptados de plantão.

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

 
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Hans Bintje

marcos nunes

Sem ironia, gostei de seus comentários. Eles permitiram:

1) Esclarecer para os leitores em geral - e não só para os "iniciados" - qual é o nível dos pesquisadores que estudam os trabalhos do professor Ha-Joo Chang. Só para citar um exemplo, o professor Yoshiaki Nakano;

2) Mostrar o público que lê e acompanha de perto esses trabalhos, por exemplo, o BNDES brasileiro;

3) Divulgar o evento da FGV - SP.

São coisas que o pessoal só vai encontrar nos sites especializados ou no blog do Luis Nassif. Ponto para o nosso amigo Turco!

 
 
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danielagr

oi! eu estudo economia e queria ir ao "Laporde 2012 - The Third Latin American Advanced Programme on Rethinking Macro and Development Economics", mas não sei como funciona, acadêmicos de outras universidades podem ir, aonde são feitas as inscrições? vc sabe mais ou menos quanto custa? de quanlquer maneira, obrigada!

 
 
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Eduardo Petrucci Gigante

"Infelizmente, os meios financeiros, político e intelectual tem resistido fortemente ...".


Vamos lá. O mercado financeiro é quantas vezes maior que o mercado real? 20? É evidente que o interesse especulativo se sobrepõe ao produtivo, pois, do contrário, veremos todos que o rei está nú.

 
 
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Djijo

Para baixar a coleção com o livro "maus samaritanos" e outros 20.

http://www.4shared.com/get/R0IG35bD/19livros_oseconomistas.html

01/03/2009

Coleção "Os Economistas" para Download 

A seguir, link para download de um pacote contendo as seguintes obras:

  • Adam Smith - A Riqueza das Nacoes - Investigação sobre sua natureza e suas causas. Vol. I
  • Adam Smith - A Riqueza das Nacoes - Investigação sobre sua natureza e suas causas. Vol. II
  • Afrânio Mendes Catani - América Latina Impasses E Alternativas
  • David Ricardo - Princípios De Economia Política E Tributação
  • Gunnar Myrdal - Aspectos Politicos Da Teoria Economica
  • John A Hobson - A Evolucao Do Capitalismo Moderno
  • John Maynard Keynes - A Teoria Geral Do Emprego, Do Juro E Da Moeda
  • John Stuart Mill - Princípios de Economia Política
  • Joseph Alois Schumpeter - Teoria Do Desenvolvimento Econômico
  • Karl Marx - O Capital - Crítica da Economia Política, Vol I
  • Karl Marx - O Capital - Crítica da Economia Política, Vol II
  • Léon Walras - Compêndio dos elementos de Economia Política Pura
  • Max Weber - Textos Selecionados
  • Michal Kalecki - Teoria da Dinâmica Econômica
  • Paul Anthony Samuelson - Fundamentos Da Análise Econômica
  • Piero Srafa - Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias
  • Thomas Robert Malthus - Princípios De Economia Política
  • Vilfredo Pareto - Manual de Economia Política
  • W. Stanley Jevons - A Teoria Da Economia Politica

ATENÇÃO: Respeite os direitos autorais! Utilize essas obras apenas para sua pesquisa e depois apague o arquivo. do site: http://economiapoliticabrasil.blogspot.com/2009/03/livros-de-economia-pa...

 
 
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Djijo

Me enganei. Fui no link com pressa e não vi que o pacote não incluia "maus samaritanos"

 
 

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