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Diálogos entre Oliver Sacks e B.F.SkinnerEnviado por luisnassif, sex, 16/09/2011 - 20:00
Autor:
Eduardo Rocha Ao analisar o nosso dia a dia nos deparamos com a infinita capacidade do ser humano em superar seus próprios limites, em construir obras arquitetônicas inimagináveis, além de produzir as mais belas obras de arte. A capacidade de superação, de reinventar a realidade de uma forma totalmente nova, pode ser denominada como a plasticidade do ser humano em se adaptar ao ambiente, e de adaptar o ambiente as suas necessidades. Essa plasticidade pode ser vista quando analisamos o comportamento humano e quando analisamos a estrutura cerebral. Claro que não podemos fazer uma dicotomia entre comportamento e estrutura cerebral, já que a relação entre eles foi amplamente descrita por Oliver Sacks e Skinner ao longo de suas obras. Porém, abordar a plasticidade sob esses dois enfoques em separado permite ressaltar a relação entre eles, sendo essa dicotomia realizada nesse artigo com um intuito didático. A plasticidade ou variabilidade comportamental pode ser observada quando um organismo responde de diferentes formas em situações distintas, ou mesmo de diferentes formas dentro de uma mesma situação. Na escola aprendemos a resolver um problema de Matemática específico, e depois temos de solucionar problemas semelhantes, variando a maneira como resolvemos o problema. Essa variação, produzida por estímulos antecedentes diferentes que evocam respostas específicas, evidencia a plasticidade do ser humano, sua sensibilidade às alterações do ambiente. Um exemplo pode ser visto no desenvolvimento da agricultura na antiguidade. Após cultivar legumes com uma técnica de irrigação específica, os resultados obtidos deixaram de ser positivos, com as colheitas diminuindo. Diante dessa situação o homem antigo passou a cultivar legumes com outras técnicas de irrigação, até encontrar aquela que trazia os melhores resultados para ele. Após encontrar essa técnica, ela passou a ser utilizada sistematicamente. A nova técnica de irrigação descrita no exemplo só pôde ser descoberta e desenvolvida pelo homem da antiguidade devido à variabilidade. Segundo Neuringer, Deiss e Olson (2000), a variabilidade é importante para que novas respostas ocorram e que sejam selecionadas. É a variabilidade que permite ao homem responder de diferentes formas a ambientes distintos, produzindo conseqüências que reforçam a resposta. Este fato aumenta a probabilidade da resposta ser emitida novamente na mesma situação ou em situação semelhante no futuro. A mesma variabilidade ou plasticidade pode ser vista no funcionamento cerebral. Ao longo de suas obras Oliver Sacks explicita ao leitor a capacidade do cérebro em se regenerar, não só do ponto de vista fisiológico como do ponto de vista funcional. Um exemplo é o relato da história de Raquel, uma talentosa compositora e intérprete de quarenta e poucos anos que sofreu um acidente de carro, colidindo com uma árvore.
"Quando eu ainda estava em cadeira de rodas, com a mão direita imobilizada, aprendi a escrever com a mão esquerda, a bordar. [...] Não queria que as lesões ditassem meu modo de vida. Eu estava morrendo de vontade de tocar, de fazer música [...] Comprei um piano e tive o maior choque da vida. Mas a arrebatadora ânsia de criar não cessou, e eu me voltei para a pintura. [...] Precisava abrir os tubos de tinta usando os dentes e a mão esquerda, e minha primeira pintura, uma tela de sessenta por noventa centímetros, foi feita só com a mão esquerda." (Sacks, 2007, p. 121)
Sem dúvida o cérebro apresenta regiões específicas que são responsáveis por determinadas funções, como memória ou emoção. Contudo, uma lesão em uma região não implica necessariamente a perda completa da respectiva função. Através de fisioterapia, treino, e mesmo um longo processo de aprender aquilo que foi esquecido ou perdido devido à lesão, o cérebro pode recuperar a função atingida através de regeneração neuronal e/ou construção de novas sinapses. Superar uma lesão e criar uma nova circuitaria cerebral para produzir o mesmo movimento, o mesmo conhecimento, ou outro comportamento é um exemplo da plasticidade cerebral. O cérebro não é limitado, pois do ponto de vista funcional e estrutural ele sempre está em mudança. O funcionamento do cérebro, assim como o comportamento, é dinâmico, mutável, plástico. Cérebro e comportamento apresentam a mesma característica por estarem intimamente ligados. O comportamento humano acaba existindo porque o cérebro é sua base fisiológica. Quando um organismo emite uma resposta várias sinapses são ativadas para que essa resposta ocorra, sem mencionar a percepção das características do ambiente, que envolve diversas outras sinapses. Não se pode esquecer também a produção da conseqüência, que retroage sobre o organismo, ativando novamente milhares de outras sinapses, fortalecendo aquela circuitaria cerebral específica envolvida na emissão daquela resposta naquele ambiente específico. Diante dessa relação, Skinner (1957) enfatiza a importância em superarmos a dicotomia comportamento e cérebro, ao afirmar que:
"Uma ciência do sistema nervoso baseada na observação direta, e não nas inferências, finalmente descreverá os estados e os evento neurais que precedem formas de comportamento. Conheceremos as exatas condições neurológicas que precedem, por exemplo, a resposta ‘Não, obrigado'. Verificar-se-á que estes eventos são precedidos por outros eventos neurológicos, e estes, por sua vez, de outros. Esta seqüência levar-nos-á de volta a eventos fora do sistema nervoso e, finalmente, para fora do organismo." (p. 39)
Contudo, o autor enfatiza as limitações que devemos considerar ao estabelecer a relação entre cérebro e comportamento, do ponto de vista do trabalho prático de um psicólogo analista do comportamento.
"Contudo, devemos notar aqui que não temos, e poderemos não ter nunca, esta espécie de informação neurológica no momento em que a necessitarmos para prever um exemplo particular de comportamento. É ainda menos provável que sejamos capazes de alterar o sistema nervoso diretamente para estabelecer as condições antecedentes a um dado caso." (Skinner, 1957, p. 39)
Podemos concluir que a relação entre cérebro e comportamento existe, como as explanações sobre a plasticidade humana evidenciaram. Concluímos também que há necessidade de tentarmos estabelecer uma ponte entre essas duas áreas de conhecimento para que tenhamos uma compreensão mais global do ser humano, além de permitir que técnicas de intervenção das duas áreas de conhecimento se unam, tornando-se mais eficazes. Não seria o atual momento oportuno para essa empreitada?
REFERÊNCIAS
NEURINGER, Allen; DEISS, Chris; OLSON, Gene. (2000). Reinforced variability and operant learning. Journal of Experimental Psychology: Animal Behavior Processes, 26, (1), p. 98-111.
SACKS, Oliver. (2007). Desintegração: amusia e desarmonia. In: SACKS, O. Alucinações Musicais. São Paulo, Companhia das Letras.
SKINNER, Burrhus Frederic. (1953). Ciência e Comportamento Humano. The Macmillan Company. Uma análise comportamental de questões contemporâneas: Victor Nicolino é formado em Psicologia pela PUC-SP, sendo Bacharel pela mesma instituição. Realizou uma pesquisa cujo objetivo foi fazer uma revisão histórica do que a Análise do Comportamento produziu na área da educação no Brasil, no período compreendido entre 1961 e 2006, analisando periódicos nacionais. Outra pesquisa realizada por ele foi analisar os artigos referentes à educação especial/inclusão publicados no Journal of Applied Behavior Analysis no período compreendido entre 2001 e 2008. Um terceiro projeto realizado foi em uma escola particular de São Paulo, onde utilizou um procedimento de modelação ao vivo com os colegas de uma criança autista, em um ambiente de educação inclusiva, para promover interações sociais dos colegas com a criança autista.
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Comentários + votados
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Regis Mesquita
17/09/2011 - 06:53
Skinner foi um gênio. Como foram Jung, Reich, Erich Fromm, etc.
Abraço,
Regis Mesquita
http://www.tvphipnose.com.br/
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Taimon Maio
17/09/2011 - 14:14
Alvaro Tadeu, sugiro que leia outras obras de Skinner, como Ciência e Comportamento humano. De modo geral os seres humanos possuem orientações políticas (algo inevitável para quem vive em uma...
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Douglas Lisboa
17/09/2011 - 14:23
O mito da liberdade é um livro fantástico. Talvez o nome e a época em que foi lançado (em meio ao movimento hippie) não tenha ajudado muito. Enquanto pregavam a liberdade, paz e amor o Skinner...
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AlvaroTadeu
16/09/2011 - 22:53
O eminente psi (cólogo, quiatra?) Burrhus Frederick Skinner. intelectual da direita americana mais ortoxa dos anos 70? Vade Retro! Leia "O Mito da Liberdade". Vomitar é grátis.
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Heitor
17/09/2011 - 00:33
Perguntaria ao autor do texto se conhece as observações de Vigotski a respeito da "plasticidade" das estruturas cerebrais...
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Regis Mesquita
17/09/2011 - 07:11
Muito bom o texto. Porém, para entendermos a plasticidade humana é necessário trazer o conceito de Consciência e Abstração.
Jung já demonstrava que a consciência tende à unilateralidade. Ou seja...
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O eminente psi (cólogo, quiatra?) Burrhus Frederick Skinner. intelectual da direita americana mais ortoxa dos anos 70? Vade Retro! Leia "O Mito da Liberdade". Vomitar é grátis.
Skinner foi um gênio. Como foram Jung, Reich, Erich Fromm, etc.
Abraço,
Regis Mesquita
http://www.tvphipnose.com.br/
O mito da liberdade é um livro fantástico. Talvez o nome e a época em que foi lançado (em meio ao movimento hippie) não tenha ajudado muito. Enquanto pregavam a liberdade, paz e amor o Skinner considera que temos que conhecer as instituições que nos controlam para ser capaz de podermos mudar essa situação. Ainda que seja incapaz de existir essa liberdade irrestrita e absoluta...
Perguntaria ao autor do texto se conhece as observações de Vigotski a respeito da "plasticidade" das estruturas cerebrais...
Muito bom o texto. Porém, para entendermos a plasticidade humana é necessário trazer o conceito de Consciência e Abstração.
Jung já demonstrava que a consciência tende à unilateralidade. Ou seja, a mente absorve informações, estímulos, etc e tende a criar uma forma de ser e agir que se repete e tende a privilegiar algumas coisas e não privilegiar outras.
Explico: se a consciência de uma mãe é impregnada com a idéia/emoção: "rua é um lugar perigoso". Esta mãe não permitirá que o filho jogue bola na rua, mesmo que nos últimos 5 anos não tenha tido nenhum evento negativo na SUA rua. Ou seja, ela deixa de fazer o teste de realidade. Este é um exemplo de unilateralidade da consciência. Esta mãe, ligará a tv e verá alguma desgraça, em algum lugar do planeta (a milionésima bomba no iraque, por exemplo). A emoção negativa desta ameaça irá reforçar sua convicção de que o mundo (portanto a rua) é perigoso. Sua mente está tão unilateral que não usa o exemplo da sua rua sem crime e usa o exemplo emocional de um lugar do outro lado do planeta.
Bom, o que Jung diz desta situação? Que a mente humana possui várias formas de sair desta limitação. Os sonhos, por exemplo, são formas de produzir conhecimento, ao organizar as memórias, de modo a ajudar a romper com as unilateralidades. As intuições também tem esta função. As oscilações de humor da própria mente. Etc, etc.
Ou seja, não existiria plasticidade se a mente fosse uma mera reprodutora do passado.
Oliver Sacks descreveu belamente a neurologia pelo que ele observava em pessoas doentes, normalmente lesadas. Um belo trabalho! Teria uma visão diferente se tivesse presenciado eventos de pessoas normais em estado alterado de consciência. Nesta situação é muito mais fácil perceber o funcionamento da mente, que inclui o cérebro e o corpo. Pois é impossível pensar em a mente sem o resto do corpo.
Abraço,
Regis Mesquita
http://www.psicologiaracional.com.br/
Caro Regis, a explicação de Jung pode ter sido adequada para o século IXX, mas uma explicação muito mais clara e objetiva dos mesmos fenômenos descritos no seu exemplo pode ser sintetizada com duas palavras: aprendizagem vicariante. Esta, por sua vez, nos trás um corpo de técnicas que permite a modificação do comportamento desta mãe em um tempo relativamente curto, ao invés de anos desperdiçados com lenga lenga sem chegar a resultado algum.
Alvaro Tadeu, sugiro que leia outras obras de Skinner, como Ciência e Comportamento humano. De modo geral os seres humanos possuem orientações políticas (algo inevitável para quem vive em uma sociedade e é por ela afetada), entretanto, Skinner em diversos sentidos é um revolucionário. Para ele a ciência do comportamento pode ser aplicada no intuito de produzir maior igualdade social. A crença na liberdade individual não fará com que o ambiente deixe de exercer controle sobre a conduta humana. Como diz Skinner, a melhor forma de nos defendermos das más aplicações de procedimentos de controle é conhecendo tanto quanto possível dos processos de controle/aprendizagem. Negá-los não os fará desaparecer. E mais do que isso, suponhamos que eu seja um sujeito que acredita na causa nazista, mas fora isso, sou também um cientista que estuda processos de aprendizagem dentro de procedimentos experimentais rigorosamente planejados, obtendo assim resultados bastante esclarecedores sobre o comportamento humano e chegando a determinados princípios da aprendizagem. Óbvio que Skinner não é um nazista hehe, mas o que quero dizer é que as conclusões das pesquisas de uma pessoa podem ser bastante pertinentes enquanto explicação do comportamento humano, independente da orientação política do pesquisador. Outros estudiosos que estudassem os experimentos e princípios comportamentais do nosso fictício pesquisador-nazista poderiam usar esses princípios e aplicar as tecnologias dela provenientes para desenvolver uma sociedade mais igualitária, auxiliar no tratamento de patologias, etc, etc, etc. Jamais devemos nos pautar unicamente por um aspecto moral de um pesquisador para avaliar a pertinência ou utilidade da teoria e, é claro, a possibilidade de ter sua aplicação norteada por outras orientações ideológicas.
Regis Mesquita, seus comentários são pertinentes dentro das próprias bases epistemológicos de Jung. Mas a proposta de Skinner para o estudo do comportamento humano não é compatível com as concepções mentalistas do comportamento, como as encontradas nos trabalhos de Freud, Jung, etc. Skinner poderia responder a "unilateralidade" da mente de forma diferente. Talvez a mãe do seu exemplo tenha sido exposta a contingências de reforçamento (múltiplos esquemas de reforço) que tornaram determinados comportamentos encobertos (emoções e pensamentos) difíceis de serem extintos. A mente não seria impregnada de ideias, sequer seria necessário mencionar a mente enquanto fator de causa. Basta dizer que essa pessoa se comporta de forma X e Y, pois foi exposta a condições de aprendizagem que a fazem se comportar assim. Tanto o é, que a capacidade de avaliar novos ambientes e ser afetado por novos estímulos (repertório de comportamento de autocrítica, sensibilidade a contingências, etc.) varia de pessoa para pessoa.
Além disso, Skinner tratará consciência e abstração numa perspectiva comportamental. Eles são comportamentos, como qualquer coisa que os organismos fazem, ou o resultado da aprendizagem. Abstração é o resultado da discriminação de propriedades de estímulo específicas, ex.: uma criança abstrai o vermelho da bola vermelha após ser reforçada diferencialmente ao dizer vermelho na presença de estímulos vermelhos e não fazer referência aos outros estímulos da bola (formato, tamanho, etc). Quanto se deparar com estímulos vermelhos ela dirá "vermelho" e será reforçada. Assim surge o aprendizado do conceito, no entanto sem referência uma mente que causa comportamento.
Consciência é um conceito pouco definido pela maioria das escolas da Psicologia. Na Análise do Comportamento, um conceito possível seria que a consciência é a "capacidade de relatar as consequências que nosso comportamento tem sobre o ambiente, o próprio comportamento e os eventos no qual ele normalmente é emitido". Eu poderia estar sentado no ônibus e pensar em uma linda mulher loira e não ser consciente (não conseguir relatar para mim mesmo) o que desencadeou o pensamento. Entretanto, uma análise mais acurada poderia me levar a conclusão de que vi um slogan na rua de uma mulher de cabelos negros, que se parecia com uma personagem de um filme que assisti no dia anterior e que tinha como amiga uma linda loira. Nesse caso diz-se que me tornei "consciente".
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