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Cenários de 1964 e 2010Enviado por luisnassif, qua, 22/09/2010 - 14:09É fascinante essa transição para os novos tempos. Permite testemunhar, em tempo real, a reedição de processos históricos dos quais só se sabia pela memória dos sobreviventes ou por relatos parciais. Refiro-me ao processo de alimentação do golpismo. Sou uma testemunha quase privilegiada da época porque muito jovem – em 1964 tinha 14 anos – e recebendo todo o influxo de informações de vários circuitos. De um lado, o udenismo avassalador – influência do meu avô materno. De outro, a posição liberal de meu pai. E, finalmente, os conflitos no Colégio Marista e nas Semanas do Estudante. Em 1963, com treze anos, recebia informações através do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), de uma revista (da qual não me recordo o nome agora) que defendia o privativismo contra a sanha estatizante do governo. Qualquer episódio, por menos relevante que fosse, servia de álibi para manifestações da classe média contra...o governo. UmaUma das mais celebradas foi a Marcha Com a Família, Por Deus e pela Liberdade, para protestar contra uma charge de Millor Fernandes no Cruzeiro, e uma outra na Última Hora de São Paulo, em que o chargista Arapuã comparava Nossa Senhora Aparecida a Pelé. Não tinha nenhuma relação com o governo Jango, mas serviu para manifestações por todo o país, contra as supostas intenções comunizantes do governo. Ou então as Marchas pelo Rearmamento Moral, com um tal de padre Peyton. (Ontem, ao ver as manifestações indignadas de jornalistas e políticos, tentando relacionar a manifestação contra a mídia como um ato fascista comandado por Lula, baixou uma baita nostalgia e alívio de tempos que não voltam mais). Da parte de Jango, havia um amadorismo à toda prova espelhado no famoso Comício da Central do Brasil – no qual o personagem mais incendiário foi o jovem presidente da UNE, José Serra. Ou seja, forneciam-se álibis para a ação golpista. Vamos comparar a ações dos principais personagens de um período e outro. Partidos sem perspectiva de poderEm 1964, a UDN não tinha nenhuma perspectiva de poder. Era um partido de profissionais liberais e de fazendeiros paulistas, exercitando um discurso moralista, mas sem um projeto sequer de país. Fundamentalmente um partido paulista, isto é bem votado em São Paulo, embora sua bancada tivesse políticos de outros estados. Nos anos 50, foi a principal responsável pelo monopólio do petróleo – a proposta original de Vargas era de criação da Petrobrás mas sem monopólio. Quando Carlos Lacerda assume a liderança política, torna-se privativista. O discurso é eficiente quando investe contra o fisiologismo do modelo político brasileiro, a intermediação dos empréstimos do Banco do Brasil – curiosamente o mais ativo político nesse período era o pai do atual senador Tasso Jereissatti -, a irracionalidade da política econômica. Mas, à falta de um discurso popular o que ganha consistência é o denuncismo exacerbado, com algumas denúncias corretas e a maioria amplamente manipulada, como maneira de alimentar uma indignação crescente que fizesse as pessoas deixarem de lado o caminho das eleições e apostar em decisões golpistas para atingir seus objetivos. Nos anos 2010, o papel de Lacerda é assumido por Fernando Henrique Cardoso - que deve prosseguir nessa condição mesmo após as eleições. FHC tem dois discursos: um claramente golpista, alertando contra o perigo contra a democracia; e um professoral, onde tenta amenizar as críticas sob o manto falso da análise política. O primeiro é golpismo de político; o segundo é golpismo de acadêmico, com cobertura de análises sociológicas rasas. Combina com Lacerda na falta de propostas claras sobre o futuro, na incapacidade de identificar os grandes fatores de transformação do país, as idéias mobilizantes. Queda, então, no denuncismo vazio. José Serra é apenas o discípulo menor desse discurso, que deverá desaparecer após as eleições. Papel da mídiaNão há rigorosamente nenhuma diferença entre os dois momentos. O estoque de armas da mídia é o mesmo. No campo jornalístico, bombardeio incessante com denúncias diárias, visando criar um clima de exacerbação ampla na opinião pública. Alianças com a chamada sociedade civil, especialmente com setores jurídicos, visando dar alguma legitimidade aos golpes. Nos anos 50, a UDN se valia da «banda de música», conjunto de parlamentares brilhantes, de formação jurídica, visando legitimar sua ação golpista. Em 1964 houve o pacto com organizações civis das cidades maiores. Nos anos 80 – último período de legitimação da mídia – os pactos com a chamada sociedade civil. Em ambos os casos, tratava-se de um país pequeno, com sociedade civil incipiente, em que as organizações de esquerda tinham alguma penetração nos campos; e as de direita nas cidades. Hoje essa sociedade civil que amparou as melhores e as piores aventuras midiáticas, é apenas peça de museu. Há mais diferenças. Nos anos 60 a televisão ainda não tinha a penetração de agora. Mas havia grande peso nas transmissões de rádio. A rádio Globo sempre teve papel importante na criação de climas propícios ao golpe. Nos anos 2010, a TV Globo atinge todo o país. Em contraponto, nos anos 60 a opinião pública urbana era praticamente um eco da opinião pública carioca – a mais influente da época. A opinião pública paulista era restrita a São Paulo. Hoje em dia, há uma opinião pública muito mais disseminada, com os órgãos regionais pouco a pouco se libertando da influência ideológica da grande mídia. O papel do empresariadoEm 1964 as disputas eram entre uma coalizão partidária de massa e partidos mais conservadores. Os conservadores se apresentavam como arautos da modernização – e, em certo sentido, foram modernizadores bastante consistente, especialmente no curto governo Castello Branco. Hoje, qualquer visão mais moderna de país vê nos conspiradores a expressão mais acabada do anacronismo político. O pacto FHC - mídia representa o anacronismo amplo, inclusive indo de encontro às teses supostamente internacionalistas e modernizantes de FHC. No fundo, todo esse alarido midiático se prende ao receio de que governo e Congresso abram o setor à competição estrangeira. Ou seja, é um setor que estimula o golpismo em defesa de interesses específicos, que passam pela não modernização capitalista do seu mercado de atuação. Em 1964 havia uma pesada xenofobia no ar do lado dos aliados do governo. Em 2010, a xenofobia é do lado dos críticos que, por sua vez, apresentam um discurso supostamente internacionalista na retórica do dia a dia. À medida que esse jogo de interesses ficar mais claro, o paradoxo ficará mais explícito. Em 1964, havia uma resistência ampla dos meios empresariais ao governo, especialmente devido aos processos de estatização conduzidos por Leonel Brizolla. Hoje as resistências se fundam exclusivamente no campo do preconceito, em geral dos escalões executivos, na medida em que os dois governos Lula desmontaram completamente esse receio, ao definir uma estratégia baseada na ampliação do leque de alianças econômicas. O papel das casernasOrganizações como o Instituto Milenium assumiram claramente papel conspirador – da mesma maneira que o Ibad. Seu patrocínio a eventos com militares – ainda que de pijamas -, seu apoio ostensivo ao discurso mais golpista, em nada o diferencia das organizações conspiradoras dos anos 60. A diferença é que o quadro militar é totalmente diferente daquele período. Lá, havia o clima da guerra fria, o estilo carbonário de Leonel Brizolla (inevitável, após a tentativa de golpe de 1962), Forças Armadas estreitamente ligadas ao mundo político e empresarial do Rio de Janeiro. É interessante observar os efeitos positivos da mudança da capital para Brasília. Não sou defensor de Brasília. O Rio dos anos 50 juntava uma formidável massa crítica de políticos, pensadores, magistrados, cientistas. Mas era o ambiente adequado ao golpismo mais agudo. Lembro-me de uma longa conversa com um dos mais proeminentes empresários brasileiros, figura de proa do mundo político-econômico dos anos 50, Queixava-se ele, em meados dos anos 90, que já não conhecia generais, almirantes, brigadeiros, que as Forças Armadas tinham se popularizado demais. No fundo, o círculo de influência saiu do Rio para Brasília, tirando o peso do mundo empresarial e político carioca e diluindo tentativas golpistas. Imaginem Merval, Jabor, os Marinhos, convivendo no mesmo ambiente do Estado Maior das Forças Armadas, no velho Rio de Janeiro dos anos 60. Não sendo capital, seu acesso é a militares aposentados. A abertura das informaçõesO ponto mais relevante é que hoje em dia as informações tendem a ser cada vez mais disseminadas, menos controladas. FHC e Serra, junto com os centuriões da mídia, deixam plantadas sementes de ódio irracional, especialmente em São Paulo. Esse bombardeio midiático criou uma classe B fundamentalmente rancorosa, clima que deverá se exacerbar até as eleições. A dúvida é sobre o pós-eleições. Serra desaparecerá do mapa político. Do lado belicoso restarão FHC e os jornalistas que mais radicalizaram nesse período. Acabaram comprometendo fundamentalmente a imagem com a guerra contra Lula. De certo modo, ficarão prisioneiros desse jogo. Mas qual seu poder de fogo? Usando os recursos dos planejadores estratégicos, haverá dois cenários daqui para frente: Modernização continuada – nesse cenário, a economia continuará favorável, a modernização prosseguirá, haverá reforma política garantindo mais estabilidade ao futuro presidente e a transição para um novo regime cambial não será traumática. Nesse caso, completar-se-á a modernização do mercado de mídia, com a universalização da banda larga e a entrada de novos competidores. Surge uma oposição civilizada e o país entrará na rota da estabilidade política. Retrocesso à guerra fria – nesse cenário, Dilma se enrola com a política econômica, a crise do câmbio tem desdobramentos mais graves, quebra-se a aura da modernização inclusiva. Aí haverá espaço para a reincidência do golpismo por parte dos mesmos atores. Ou seja, só na hipótese do Brasil perder a expectativa de futuro e entrar na rota do atraso, esses grupos golpistas conseguirão algum espaço político. Sobreviverão apenas no atraso. A modernização institucional os carregará para o lixo da história. A probabilidade maior é que terminem seus dias falando sozinhos. E meu vizinho FHC, ainda de posse plena de suas faculdades mentais, terá bom tempo ocioso para teorizar sobre a eficácia de se tentar reeditar 1964 em pleno 2010. Aí descobrirá que o Novo Renascimento - como ele denominava os tempos modernos - chegou para ficar.
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Comentários + votados
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Nilson Fernandes
22/09/2010 - 15:32
Globo foi o maior dedo duro de 1964
Amigo navegante enviou ao Conversa Afiada essas duas...
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H. C. Paes
22/09/2010 - 15:34
Acho que o Nassif quis dizer 1961, quando os militares tentaram impedir a posse de Jango e Brizola liderou a contra-ofensiva da campanha da legalidade. A solução foi o parlamentarismo para retirar...
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Regina
22/09/2010 - 15:49
Havia esquecido de dizer obrigada pelo texto.
Estou também melancólica com tudo isso e me sinto melhor lendo boas análises.
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sergio m pinto
22/09/2010 - 15:49
Nassif,
Você acha mesmo que o FHC (vulgo Farol de Alexandria) ainda está no pleno gozo de suas faculdades mentais?
Abraço
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Deroe
22/09/2010 - 15:50
Nassif,
Brilhante exposição de historia do Brasil, aquela que não está nos livros. Sou dessa época e tambem tinha 14 anos em 64. Presidentes de Gremio Estudantil eram relacionados na polícia e...
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davi_dv
22/09/2010 - 15:53
Obrigado pela análise, Nassif!
É impressionante como tem articulistas, comentaristas e "intelectuais" que estão se lixando para o país, e isso está cada vez mais explícito.
O Brasil está em bom...
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André Oliveira
22/09/2010 - 16:16
O Instituto Millenium é um foco de golpismo camuflado como think tank liberal.
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Gilberto Marotta
22/09/2010 - 16:28
Quase todo golpe ou guerra começa com os "homens de bem" reivindicando a "liberdade"...
SÃO PAULO PAROU ONTEM PARA DEFENDER O REGIME
http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_20mar1964.htm
A marcha, o...
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Cassio Tonsig
22/09/2010 - 16:32
Sr. Nilson,
"...golpe que não virá" Acho que o golpe está sendo dado a cada minuto e se estenderá
até bem depois das eleições. Ainda pode vir bala de prata e, nas apurações, fraudes nos...
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Arnaldo Costa
22/09/2010 - 16:40
Os argumentos que orientam esse protesto Udenista são mais rasos do que o discurso do Zé Baixaria. Totalmente sem fundamento. Atacaram o Lula por 7 anos esperando a hora que ele iria responder....
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Lúcio Flávio Lima
22/09/2010 - 16:57
Análise profunda e equilibrada. Não sei se os trogloditas entenderam-na. O certo é que os golpistas estão em busca da "bala de prata". Será que vão encontrá-la?
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Paulo F.
22/09/2010 - 16:57
Caro Nassif.
A maior mágoa de FHC é o não reconhecimento pelo seu governo e seu legado. Legado este descrito por Cristiano Romero no Valor Econômico de hoje, 2/09/2010, página A2 (sim, ainda existe...
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alcides
22/09/2010 - 16:59
Ontem vc postou sobre as razões do comportamento da mídia nessas eleições. Seriam embasadas em alguma espectativa futura, não apenas mercadológica. Eu acho que acima de tudo mercadológica e baseada...
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sérgio luiz pecci
22/09/2010 - 17:07
“Samba de Orly ou Leite Derramado?? ”
Gostaria de dialogar com o passado e eventualmente pensar o futuro a partir de algumas lembranças afetivas de minha mãe e da eminência chocante de novas...
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Denise Queiroz
22/09/2010 - 17:10
Caro,
Vivi na Venezuela de julho de 1998 a março de 2000, assistindo portanto a primeira eleição de Chavez, sua posse, a tragédia que foi a chuva no final de 99 e início de 2000, quando 30 mil...
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Vivian S.
22/09/2010 - 17:31
Muita coisa mudou de la pra ca e o brasileiro ja não é mais o mesmo, mas... que é angustiante ver o caminho que a imprensa e alguns setores no Brasil escolheram de destabilização a qualquer preço de...
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Murilo C
22/09/2010 - 17:34
poderia corrigir o texto por favor, LEONEL BRIZOLA tem um L so. Quem coloca LL sao os que tentam denegrir sua imagem em referencia ao seu suposto apoio a Collor (o que acredito nao ser a sua opiniao...
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Silva Carlos
22/09/2010 - 17:37
Nassif, talvez seja a análise mais lúcida que li nesses últimos mêses, parabens seu blog é obrigatorio para quem quer uma informação clara e precisa dos fatos.
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Nilson Fernandes
22/09/2010 - 17:41
Nassif, identifiquei alguns nomes que o comando de caça aos comunistas entregou para ser publicado no Globo: Agildo Ribeiro, Gianfrancesco Guarnieri, Flávio Rangel, Ary Toledo, Wanda Lacerda, Carlos...
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Grato pela excelente analise !
Nassif, a chave está neste trecho do seu artigo:
"No fundo, todo esse alarido midiático se prende ao receio de que governo e Congresso abram o setor à competição estrangeira. Ou seja, é um setor que estimula o golpismo em defesa de interesses específicos, que passam pela não modernização capitalista do seu mercado de atuação."
Excelente! Mas Deus queira que você esteja certo, e o golpismo não temine em golpe mesmo!
ótima!
Nassif,
nunca vi você falando em PIG. Imagino que vc assim como muitos não acreditam nessa possibilidade nem no poder da mídia. Mas seu artigo aponta um cenárioem que a velha mídia, apesar das diferenças, tenta reeditar o golpe de 1964. Logo o papel dos outros atores é decisivo para não cairmos nem em golpe militar, tampouco no "chavismo". Sempre me questionei, o que seria da Gol, por exemplo, se a velha mídia abrisse uma campanha de difamação e escândalo, após as falhas da empresas. E da Tam? E do Metro?
A abertura do setor de comunicação é imprescindível para a estabilidade da democracia!
Caro,
Vivi na Venezuela de julho de 1998 a março de 2000, assistindo portanto a primeira eleição de Chavez, sua posse, a tragédia que foi a chuva no final de 99 e início de 2000, quando 30 mil pessoas morreram, a aprovação da assembléia constituinte. A estrutura social da Venezuela era a seguinte: classe alta, média alta e pobres. Não havia classe média nem estrutura partidária popular. Sucessivas ditaduras, civis e militares. Um povo que tinha no DNA "não precisamos trabalhar porque temos petróleo", mas também não podia consumir porque tudo era muito caro e como não se produzia quase nada, tampouco havia trabalho. Chavez foi eleito pelo seu discurso anti oligarquia do atraso, ressaltando o potencial economico do país e a necessidade de industrialização para "dejarmos de dar la plata a los yanques", uma realidade absoluta e incontestável, com serviços públicos de péssima qualidade e uma população consumindo desde suco de laranja, fraldas descartáveis a móveis, importados dos USA, Colômbia, Brasil. Devido aos índices conseguidos nas urnas, logo conseguiu organizar uma estrutura de governabilidade, contra tudo e contra todos (imprensa inclusive, que na tragédia de 99-2000 se obrigou a ficar ao seu lado devido às providências tomadas com muita rapidez para resolver o caos em que o país mergulhou). Os prédios públicos que tive que frequentar junto com despachantes para legalizar nossa permanência - migraciones por exemplo, estavam literalmente caindo aos pedaços na capital do país. Eu que nunca havia sofrido corrupção nem de um cafezinho no Brasil, fui solicitada a deixar "un sobrecito" para despachar mais rápido um documento necessário, coisa que nos negamos, obviamente. Passamos meses esperando "la visa" e por consequencia a mudança chegar, porque não havia quem assinasse o carimbo colocado nos nossos passaportes. E assim ia. Quando, por transferência de meu marido, tivemos que deixar Caracas, em 2000, apesar das absurdas exigências burocráticas da Argentina para nossa mudança, em menos de uma semana conseguimos providenciar toda a documentação. Estou falando numa mudança nos serviços públicos muito rápida, que assombrava nossos amigos venezuelanos "bem nascidos" e mais anti-chavistas que qualquer anti-lulistas que conheço, que em alguns momentos chegaram a concordar que o país ia em melhor caminho.
Conto esta historinha meio fora, meio dentro do contexto, para dizer que não vejo possibilidade de chavização do Brasil. A única semelhança é no carisma, mas são seres políticos completamente diferentes, até pelas circunstâncias em que se criaram politicamente, foram eleitos, e ao direcionamento, que a diferença histórica pré-existente determinou, que deram aos respectivos governos.
Ou seja, quem pinta Chavez unicamente por seu viés ditatorial, como faz nossa moribunda velha imprensa, não leva em conta a dificuldade que é transformar uma "república de bananas" - na verdade petroleira - num país que possa vir a ser respeitado no cenário internacional.
Interessante post, porém, e se o de repente o outro lado vence ? Mesmo querendo que isso não ocorra, temos que testar hipóteses (como diria um "influente jornalista").
Sabe não vejo essa movimentação toda nas ruas, essa tensão no ar. Espero que tudo passe após as eleições e possamos todos pensar o Brasil de forma racional e, por que não ?, cheia de paixão (no bom sentido).
Obrigado pelo espaço e pelo nível de alta categoria nos comentários, pois, acessei o blog do Augusto Nunes e fiquei realmente chocado com nível do mesmo e seus comentaristas.
Antônio, bom comentário. Agora, "essa movimentação toda nas ruas, essa tensão no ar" não existiram nem na Proclamação da República. Abs.
Nassif, brilhante!
Sem comentário!!!!
Brilhante, parabéns!
Excelente artigo! Parabéns!
Nassif voce é genial , por isso que o serra , os mervais , os jaboures , os marinhos , os civitas , as leitoas e a grande imprensa te detesta tanto . Sobre o odio dos jornalista fique tranquilo , é pura inveja , pois eles só escrevem o que o patrãozinho herdeiro da ditadura manda
Ufa, Nassif, li tudinho e fiquei tranquilo. Atenção pessoal, é o direito do "Jus esperniandi" querer dar o golpe que não virá. Viva o Brasil democrático que até os golpistas podem tocar seu trombone a vontade, que a maioria que somos nós não ouviremos!
Nilson Fernandes
Sr. Nilson,
"...golpe que não virá" Acho que o golpe está sendo dado a cada minuto e se estenderá
até bem depois das eleições. Ainda pode vir bala de prata e, nas apurações, fraudes nos
Tribunais (urnas que não comprovam nada!). Isso não é ilógico, por tudo que já testemunhamos neste País.
Gostaria de estar aliviado, mas acho que não terei essa mordomia tão cedo.
Percebo em significativa de parcela da classe mé(r)dia um malestar agressivo e "indignado"... quase que não verbalizado em toda sua extenção [porque covarde e rancoroso] e sem pensamento próprio... ambiente que se mostra prato cheio para se "chamar a cavalaria, os yankees, a tropa de pijamões... et caterva"...
Sei não...
Caro Luna,
- valeu o esforço de alargamento dos horizontes. Interessante a fixação de FHC como puxador de samba de crioulo doido. Concordo: ao contrário dos últimos pleitos hoje é clara a existência de um esforço na senda do golpismo... Céus, tem gente que quer isto de volta, realmente?
- Não foi a Marcha da Família com Deus, pela Liberdade?
- E para onde foi o "Ouro para o Bem do Brasil"?
Abraço.
...e quem arrecadava esse "ouro para o bem do Brasil"?
...sabendo quem arrecadava da para se ter idéia para onde foi....rsrsrs
Tomara que a modernização continuada prossiga! Nasci em 82 e dou muito valor à democracia. Entretanto, a radicalização da imprensa me fez perceber que a democracia não é um fato, mas uma luta contínua. O pior é que quelquer um que ousa cirticar a imprensa golpista é taxado de golpista. Em toda minha vida, nunca senti a democracia tão ameaçada. Eu vejo claramente que ninguém tem coragem de mexer nas políticas sociais que mudaram o Brasil. No que diz respeito à democracia, os únicos "defensores" são os que propõe o golpe. Citando a companheira Regina Duarte, em 2002, posso dizer: "estou com medo"!
Brilhante visão dos momentos cruciais que o Brasil viveu e viverá num futuro próximo. Creio que o caminho será o da "modernização continuada" e que, FHC não terá escolha a não ser contar carneirinhos vestido com aquele pijamão listrado até o fim da vida. Esse indivíduo já atrapalhou demais o nosso desenvolvimento com esse idealismo entreguista e agora vem com esse ódio preconceituoso. Ele precisa entender que seu tempo passou e que só lhe resta o lixo da história como consolo.
Desculpe a minha ignorância histórica mas que "golpe de 62" foi esse e envolvendo Brizola? Tenho apenas 38 e perguntei agora a minha mãe como era em 64 e apesar de ter 16 anos naquela época, não era politizada
Acho que o Nassif quis dizer 1961, quando os militares tentaram impedir a posse de Jango e Brizola liderou a contra-ofensiva da campanha da legalidade. A solução foi o parlamentarismo para retirar poderes de Jango.
Em 62, Jango liderou uma campanha pela restauração do presidencialismo, mas o plebiscito que corou de êxito a proposta ocorreu só em 63.
Correto. Em 1962 houve eleições para a Câmara, parte do Senado e para governadores. Eram eleições cruciais para todo o restante do madato Jango, até 1965 (caso não tivesse havido o golpe). Nelas seria leeito o parlamento em que se daria o embate entre as reformas de base propostas pelo governo e as propostas de modernização-conservadora das correntes que acabaram por tomar o poder no golpe de 1964.
De acordo com o cientista político René Dreifuss ("1964: A Conquista do Estado - Ação política, Poder e Golpe de Classe"), "nas eleições de 1962, o complexo IPES/IBAD patrocinou candidatos, formulando seus programas eleitorais em troca de assistência financeira. (...) Os candidatos eram declaradamente compelidos a assinar um compromisso ideológico, através do qual eles prometiam sua lealdade ao IBAD acima da lealdade a seu partido e que os comprometia a lutar contra o comunismo e a defender o investimento estrangeiro" (p. 324).
Brilhante, Nassif.
Análise definitiva do momento pelo qual passamos.
A última escandalização do nada pela FSP:
Erenice nomeou filha do presidente dos Correios para Casa Civil
A ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, que deixou o cargo após denúncias de tráfico de influência, empregou no ministério uma das filhas do presidente dos Correios, David José de Matos.
Nomeada assessora do gabinete da Casa Civil em 25 de junho, Paula foi exonerada ontem, "a pedido", conforme portaria publicada no "Diário Oficial". "Pedi que se afastasse", afirmou David Matos, que foi indicado por Erenice para presidir os Correios um mês depois que a filha dele foi trabalhar com a então ministra.
Paula contou à Folha que foi Erenice quem a chamou para trabalhar na Casa Civil. "Erenice sempre foi amiga do meu pai, conheço ela desde que era criança. Ela me perguntou se eu tinha interesse em trabalhar na Casa Civil por um período curto", disse, contando ainda que o convite foi feito pela ex-ministra numa academia de ginástica.
Segundo o relato de Paula, Erenice disse que o ministério estava "esvaziado por causa da eleição" e que precisava de gente para a coordenação dos trabalhos de assistência às vítimas das enchentes que destruíram Alagoas e Pernambuco em junho deste ano. Como funcionária da Casa Civil, Paula contou que tinha a função de consolidar as informações encaminhadas pelos Estados e por outros ministérios.
"O combinado era eu ficar até outubro, estou terminando o mestrado e achei que a experiência poderia ser interessante. Mas como meu pai é uma pessoa pública, vi que poderia criar alguma confusão e decidi sair", relatou a filha do presidente dos Correios.
http://www1.folha.uol.com.br/poder/802937-erenice-nomeou-filha-do-presidente-dos-correios-para-casa-civil.shtml
============
Minha pergunta:
Existe alguma lei ou regulamentação que diga que os filhos do presidente dos Correios (e das outras autarquias e Estatais) ficam proibidos de trabalhar, ainda que temporariamente, em toda a administração pública? A moça por acaso era funcionária fantasma?
Um detalhe no texto:
"'Pedi que se afastasse', afirmou David Matos, que foi indicado por Erenice para presidir os Correios um mês depois que a filha dele foi trabalhar com a então ministra."
Pelo nexo temporal, acho que faltou ousadia à Folha. A manchete de impacto deveria ser :
"Assessora de Erenice na Casa Civil nomeou o pai para a presidência dos Correios"
André Borges Lopes www.bytestypes.com.br
Prezado Nassif, você poderia introduzir alguns outros ingredientes em sua boa análise. Penso que a boa comparação seria entre 2010 e 1962, amobos anos eleitorais.
Em 1962 o PTB progressista cresceu muito no Congresso Nacional, com prejuízo para os partidos conservadores. Aí veio o apavoramento maior da direita com IBAD, as intervenções do embaixador Lincoln Gordon, e depois a radicalização da política, a preparação do golpe... Além do mais, 1961 foi o ano de esgotamento do processo de substituição de importações: duas alternativas para o crescimento da economia: endógeno, com distribuição de renda e reformas de base, ou conservador, via exportações. O golpe foi para garantir a segunda.
Outro aspecto é, na mídia, o papel do jornal Última Hora e da rádio Mayrink Veiga. Hoje não existem veículos similares no campo progressista e democrático, apesar da internet. Mas quantas pessoas a internet alcança, no Brasil?
Por último, a ponderação de que Brasília só se consolidou em 1968, com Costa e Silva. O governo de Jânio esvaziou a capital, a única obra que ele fez aqui foi o pombal da praça dos três poderes. Jango não acrescentou muita coisa. Brasília era quase palácio de verão do poder, tudo acontecia no Rio.
Finalmente, poderia haver um terceiro cenário, dependendo dos acontecimentos imediatos. Trata-se de Marina ir para o segundo turno, com o apoio do PIG. Marina parece ser a rota de fuga do PIG, numa perspectiva de Sun Tzu, considerando o encurralamento do PIG com o péssimo desempenho de Serra. Não seria lá tão impossível, não acha? Nesse caso, o risco para a democracia poderia ser bem maior, devido a fragilidade pessoal e das bases políticas da candidata. Estarei certo?
Bem, uma coisa não discutida é o papel que Aécio vai desempenhar nesse imbroglio. Pelo andar da carruagem, o PSDB pode lhe cair no colo, depois das eleições. Não vejo Alckimin com um protagonismo nacional desse porte. E essa impressa que temos comprou uma briga feia com o Aécio... Se Aécio, como eu acredito, controlar o PSDB de 2011, a bomba pode ser desarmada por dentro.
E a abertura do mercado da mídia entrará pela porta da frente e pela dos fundos, com essa velha mídia perdendo seu calço político que ainda lhe resta, nesses últimos meses de 2010.
Temos então, um grande período de travessia do mar morto: o período de transição. Serão os últimos momentos desse jogo da velha mídia. No meu entender tentarão (re)fazer o Alckimin (o trololó do PSDB que não trai etc) e desconstruir o Aécio. É o que lhes resta fazer... nem assim seu sucesso será garantido. Isso, ainda, se o Alckimin não pegar um segundo turno pela frente...
Excelente texto! Mas façamos justiça a um movimento golpista contemporâneo: O CANSEI. Eles foram a Marcha Com a Família, Por Deus e pela Liberdade atual. O Instituto Milenium é somente uma reedição menos explícita do CANSEI.
A única semelhança entre 1964 e 2010 é o papel rasteiro da mídia manipuladora, mentirosa e asquerosa. No fundo, os interesses da mídia falam por si. Ela não está interessada em sanar os tumores do sistema político nacional. Manchetes e outras matérias sensacionalistas não passam de truque. Para ela o que interessa são as facilidades financeiras a seu favor e contra a cobiça dos estrangeiros. Pois é sabido até pelo mundo mineral que ela não aceita, de forma alguma, qualquer iniciativa a favor de uma abertura que proporcione ou estimule uma concorrência. Mas voltando ao cerne da questão, a vocação golpista da mídia, não será fácil como acham Merval, Leitão, Jabor, filhos do Marinho, Otavinho etc., tomar o poder via milicas, até porque os militares conhecem o modo de governar petista e gostaram dele. Do lado econômico e finaneiro também não tem sequer um grande empresário ou banqueiro assustado com o projeto petista de governar, aliás eles nunca ganharam tanto dinheiro como agora, sem falar que Lula fora tão bom para o capitalismo brasileiro, que seus programas tornaram-se referência para FMI, ONU e outros países também. E o principal de todos fatores: o apoio popular unanemente está com Lula. Portanto, uma parcela expressiva da mídia: globo, veja, folha, estadão juntamente com alguns líderes vazios como Serra e FHC e outros supostos jornalistas podem até colocar fogo no paiol, mas jamais coneguirão hastear a bandeira do golpe nas atuais circunstâncias. Eles nunca tiveram o povo do lado deles, felizmente.
Acrescento que no Rio de Janeiro havia na época um programa diário na extinta TV Tupi, denominado "O Diário de um Repoórter" redigido e "locutado" pelo repórter da revista "O Cruzeiro", David Nasser.
Este programa ía ao ar 5 minutos antes do Repórter Esso, jornal televisivo adaptado do programa radiofônico de mesmo nome e que fazia o papel semelhante, guardada as proporções, do atual Jornal Nacional.
Cinco minutos dários de ataques raivosos contra o governo João Goulart, ajudaram a criar o clima emocional, no Rio, para a classe média sair às ruas Com Deus Pela Família, e, posteriormente, apoiar decididamente o golpe.
Procedimento semelhante foi repetido no Chile em 1973. Aí, contaram ainda com a ajuda direta do governo norte-americano financiando a greve de camioneiros que paralisou o país.
O mesmo ocorreu recentemente na Venezuela.
O golpe só não ocorreu ainda no Brasil graças à tranquilidade econômica que o país atravessa. Isso, certamente, é um recado para o governo Dilma. Se der o azar de enfrentar uma crise econômica, ainda que de origem externa, ou mesmo fabricada, tal como a produzida com a greve dos camioneiros no Chile, o desenlace já é bastante conhecido.
No momeno, com o governo Obama, os EUA não parecem muito interessados em fomentar golpes de direita na América Latina. Mas a situação pode mudar rapidamente após as eleições por lá. O Tea Party é, sem dúvida, o inspirador desse comportamento golpista por aqui.
Nassif, eu era garoto de 14-15 anos na época, portanto, agora me bateu a dúvida. O locutor do "Diário de um Repórter" era um apresentador careca que talvez não fosse o próprio David Nasser. Se alguém puder esclarecer, agradeço.
Acho que o locutor tinha o sobrenome Cury. Não consigo lembrar o nome.
ALberto Cury. O mesmo que leu o texto do AI 5 em 13 de dezembro de 1968. Acho que era irmão ou parente do Ivon Cury.
Em 1964 tinha apenas 9 anos e morando no interior, então, aí é que ficavam longe os acontecimentos. Só me recordo das rádios tocando músicas marciais.
A análise do Nassif é excelente. Só faltou, acho, referências à participação dos EUA nos preparativos do golpe. Na realidade, a chamada Guerra Fria, embate ideológico entre o capitalismo e o comunismo, foi o grande pano de fundo para a eclosão do que costuma se chamar de Revolução de 64.
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