Carta para Sócrates

Por Fernando Lemos*

Teófilo Otoni (MG), 04 de dezembro de 2011.

Nesse momento, eu, como a maioria dos brasileiros entristecidos, estou tentando concentrar-me para passar o domingo (hoje nublado e chuvoso, aqui para os lados de Minas Gerais). Desde que me conheço por gente, lembro-me de ser corinthiano, mas nem sempre foi assim. Minha mãe me lembra que houve um tempo em que eu não sabia como funcionava o futebol. Contraditoriamente, como diria Eduardo Galeano, em minha imensa sabedoria de criança, eu sabia exatamente como o futebol deveria ser. Nessa época, quando vivia na Grande São Paulo, tinha menos de dois anos de idade e torcia para o Sócrates. De fato para o “Sócatis”, que eu conseguia pronunciar em menos de três segundos.

Foi em um descuido desses que algum adulto desavisado disse: não se torce para jogadores, tem que ter um time. Outro alguém disse, talvez para provocar meu pai, um anti-corinthiano convicto: – O Sócrates joga no Corinthians! E eu, ainda bem pequeno, soltei o grito: – Então, viva o Corinthians! A verdade é que só sou corinthiano graças ao Sócrates, quem sempre traduziu o que talvez, infelizmente, seja a única essência do brasileiro (digo isso porque poderíamos ser mais do que torcedores) foi Sócrates Brasileiro.

Sócrates sempre foi diferente em meu coração. Chorei com ele quando aquela maldita bola não entrou no gol da França. Odiei a seleção da França imensamente e em minha rua, o maior xingamento que se podia fazer era: filho de uma mãe francesa! Sempre me defini como corinthiano, a partir de Sócrates. A paixão corinthiana foi realimentada após a partida dele para os campos europeus por aquele time de 1988, em que figuravam Biro-Biro, Wilson Mano, Ronaldo (o resto é Ronaldinho) e Viola, esse último era a quintessência do corinthiano: maloqueiro, sofredor e sempre sorriso nos dentes.

Magrão não era nem maloqueiro, nem sorriso nos dentes, nem aliava o corinthianismo ao sofrimento. Também não era da ralé, tinha, supostamente, pedigree e dava alento aos torcedores da elite corinthiana, que são muitos, e fazia a elite não-corinthiana engolir nossa maior estrela, ao lado de Rivelino. Ao mesmo tempo, apesar de sua origem de classe, jamais portou-se de forma elitista. Era um sujeito que vivia as paixões do povo. Era uma espécie de anti-estereótipo. Para desmontar preconceitos e forçar a reflexão. Para fazer gols e unir os que entendiam a dimensão do conceito de nação. Esse era o meu super-herói.

Passei minha adolescência sem ídolos fora do esporte. A Sócrates juntou-se outro corinthiano, o Ayrton, que só quem tem entre 30 e 35 anos sabe que era impossível não querer pilotar um carro um dia como ele. Mas Ayrton se foi tão rápido como fazia voltas em treinos livres, onde se exige o máximo de arrojo.

O Doutor voltou a conviver comigo nos meus tempos de faculdade. Quando comecei a refletir a partir das ciências humanas (sou economista), na Unicamp, a necessidade de um outro país e, de fato, outro mundo. Aí as coisas que eu via o Magrão dizer começaram a ganhar a dimensão do discurso de um camarada, um companheiro, um irmão. Cresceu para mim, o Sócrates das Diretas Já, do engajamento na Política e nas denúncias sobre a relação do brasileiro com o esporte.

Jamais vou me esquecer de uma coluna na revista Carta Capital em que ele defendia um modelo de política de esporte que deveria se aliar à saúde pública e à educação. Ao invés de formarmos atletas de alto rendimento, futuras estrelas, deveríamos formar cidadãos saudáveis, disciplinados e conscientes. Ao ler tais palavras a associação com Florestan Fernandes era direta: deveríamos deixar de pensar na revolução individual, um paradoxo, para pensarmos na revolução brasileira, a única concretamente possível. O esporte não poderia ficar de fora, muito menos o futebol. E Sócrates sempre foi esse alento.

Como militante socialista, sempre foi um motivo de orgulho dizer que eu era corinthiano e contar que tinha me tornado alvinegro em função do Doutor. Dava a impressão de que tinha me tornado um sujeito progressista e engajado por ser sensível desde pequeno. O que é absolutamente falso. A minha geração sempre foi uma geração perdida e eu compartilhei por algum tempo das tosquices de meu tempo. Foi no curso de minha vida que, ao ter professores, livros e exemplos que pude forjar meu caráter.

Sócrates foi um desses exemplos. Ajudou-me sempre a fugir da hipocrisia daqueles que se drogam (porque bebida é droga) e negam. A não me iludir com as falsas esperanças de um corinthianismo que a mim é a negação do Sport Club Corinthians Paulista (porque Andrés e Ronaldinho Fenômeno não fizeram – e não fazem – nada pelo Timão e, sim, o contrário). A não confundir seleção brasileira com paixão brasileira pelo futebol (porque existem certas vitórias que não apagam a sujeira de cartolas, nem a feiúra de alguns times que vestiram o amarelo). A pensar a relação de uma nação com o esporte. A saber da importância das posturas políticas dos ídolos para o cotidiano dos cidadãos.

De calcanhar, eu gostaria de terminar esse texto e lembrar um país caro a mim e ao Magrão: Cuba. Lá, as crianças dizem: “Seremos como o Che”. Ficaria feliz se um dia cada criança, lembrando do exemplo de cidadania, plasticidade que só o futebol-arte nos proporciona e paixão pelo país (e pelo esporte), nossas crianças também pudessem dizer: “Seremos como o Sócrates”.

Um forte abraço a todos e que hoje, independentemente da vitória ou derrota do Corinthians (que já não importa tanto assim), nasça mais um corinthiano com um pouco da chama do Doutor!

Saudações socialistas e alvinegras de Parque São Jorge!
* Fernando Henrique Lemos Rodrigues (corinthiano, economista pela Unicamp, professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri).

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15 comentários
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celso mello

Boa Fernando !   O "Sócrita" é isso e muito mais...

 
 
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Elder

sócrates deve ter sido mesmo um grande homem, pra estar recebendo tantas homenagens assim. só no blog do nassif, é a 3ª que vejo. até sites de humor que costumam satirizar a morte dos outros, estão fazendo homenagens em vez de piadas. não o conheci, mas imagino que deve ter sido responsavel por coisas como a elevação do brasil a pais de 1º mundo, a erradicação da miseria, da violencia e da desigualdade no pais. mas que? ele não fez nada disso? era só um esportista? então pra que tantas honrarias, dignas de um heroi da patria? só porque ele cumpriu dignamente a missão de entreter a massa acefala enquanto ela estava sendo lesada? ah bom, agora entendo...

 
 
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Ninguém

Garanto que ele fez muito mais por este país fora de campo do que entre as quatro linhas. E, obviamente, fez muito mais pelo Brasil do que você jamais fará.

 

Alô, Verônica Serra, na hora de processar deus e o mundo, não se esqueça de mim. Também estou divulgando o livro do Amaury aos quatro ventos. Leiam A Privataria Tucana!

 
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Vanda

quanta bobagem em poucas linhas....não conhecer o Doutor, não saber quem foi......só podia viver na bobalândia...rsrs.

 
 
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Paulo Erivan de Sousa

É. O Sócrates foi um desportista excepcional e, em plena apoteose como jogador, revelou-se um cidadão exemplar na luta pela liberdade e pela democracia. Enquanto a grande maioria dos  bons jogadores se deslumbravam com a fama, o Doutor usava a celebridade adquirida a favor da luta pelas diretas já e pelo fim da ditadura. Poderia ter sido somente um dos maiores jogadores de todos os tempos, e o foi com méritos, mas foi sobretudo um grande ser humano, inclusive nas fraquezas. Que Deus o tenha.

 
 
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Stanilaw Calandreli

Apesar de se chamar Elder (em inglês:  o mais antigo) você deve ter uns 9 ou 10 anos de idade. Acertei? Para não conhecer Sócrates! 

 

CLCAL

 
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Sérgio Troncoso

Caraca, o que você nos ofereceu em matéria de pensamento acéfalo só pode ter saído de uma massa lesada! Vai dormir...

 

Sérgio Troncoso

 
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Luizarmando

" ah bom, agora entendo..."

 

Ah! Mas não entende mesmo...

Você JAMAIS vai entender.

 
 
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walter araujo

Porreta, Professor Fernando:

Gostei muito de sua crônica. Com o

coração espremido,

colocastes a alma na ponta dos dedos.

Venha mais vezes aquí.

Receba de todos nós, corintianos ou não,

um grande abraço.

 
 
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Raí

Caro companheiro de lutas, Prof. Fernando, bonita e sensível sua confissão de paixão por um profissional acima de qualquer suspeita, e que mostrou no esporte bretão,tambem é possível fazer a diferença.

Tudo o que você escreveu, sobre o Dr.Sócrates tem o aval de todo desportista brasileiro, acima das diferenças clubísticas, eu só acrescentaria o seguinte: A formação familiar que a família Sampaio Souza de Oliveira deu aos seus filhos, está sendo reconhecida, tanto na admiração do trabalho que os seus outros 2 filhos, o Raí e o Sóstenes, estão fazendo no trabalho social da fundação Gol de Letra, assim como o reconhecimento(embora póstumo) ao Dr. Sócrates, pelo seu intensivo e reconhecido nacionalmente envolvimento político, em busca de uma sociedade mais justa e mais fraterna, como aquela que ele conheceu "in loco" em Cuba.

Que pena, que a maioria dos nossos atuais ídolos, não tenham tido a mesma formação voltada ao social, como os atletas da família do Sr Raimundo S.S.de Oliveira, e como bem lembrou na entrevista à Gabi, o Sócrates, ao citar o Neymar, como a pessoa que teria a capacidade de continuar a sua iniciada luta pela maior participação dos nossos consagrados atletas, por uma sociedade melhor, usando sua influencia e dinheiro ganho na atividade esportiva.

Ele começou esta luta; O Raí continuou. Eos outros ?

 

Sempre ficamos mais experientes, após perdermos algumas batalhas, na guerra diária da vida.

 
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Klaus

Somos sempre tão carentes de personalidades (diferente de celebridades) que quando uma se vai ficamos meios orfãos. Compreendo o comentário do Sr. Elder. Mas não enxergo da mesma maneira. Dr. Sócrates foi sim uma esportista que entreteu os "acéfalos" assim com eu. No entanto, além de sua arte com os pés e principalmente com o calcanhar, conseguiu pelo futebol expor suas ideias e concicções políticas. Algo impensável naquela época e nos dias atuais. Com raras exceções,Raí, Loco Abreu, Marcel do basquetebol e agora Romário, não é comum esportistas que se posicionassem politicamente. Acho que a união de duas paixões coléricas, como futebol e política, fez com que déssemos mais destaque à morte do Dr. Sócrates. Por isso Sr. Elder, entendo o 3º "post" sobre a morte ou vida do Dr. Sócrates. E como não pode deixar de ser em certas pessoas iluminadas, mesmo na morte deixam uma lição. No caso em tela, o problema do vício ou mlafício do consumo exagerado de álcool. 

 
 
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Ivo F Mathias

Puta dor...

 
 
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Fernando Barbosa

Há quatro anos na Itália, a primeira história que ouvi na Unversidade de Florença foi a desfeita que o Magrão fez ao presidente do Fiorentina, quando por lá aportou como ídolo. Convidado de honra para a festa de anversário a filha do presidente, Sócrates preferiu ir a festa do Unità, então jornal do partido Comunista italiano, de Enrico Berlinguer!!!

Ao invés das letras água com açúcar de Claudio Baglioni, o doutor foi cantar: Avanti o popolo, alla riscossa. Bandiera rossa, bandiera rossa.


 
 
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Gáudio Luiz Freddi Bassoli

Sócrates vai fazer falta com essa copa chegando... Não sou socialista, não quero ser como o Che, nem como o Sócrates. Mas ele vai fazer falta...

 
 
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Sidnei (colega da Vera)

Caro Fernando,

no sítio da Carta Maior, texto de José Roberto Torero conta detalhe que você resvala na sua missiva: Sócrates dizia que o verdadeiro ministério da saúde deveria ser o Ministério do Esporte, tendo em vista que o "verdadeiro Ministério da Saúde" é, pelas circunstâncias, o ministério da doença.

Pura verdade, não?

 
 

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