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"CAPS desestruturou alta complexidade na saúde mental"Enviado por luisnassif, qui, 19/01/2012 - 14:10Atualizado às 15h10 com informações da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo Para especialista, CAPS tournou-se única referência no tratamento de transtornos mentais Por Bruno de Pierro, da Agência Dinheiro Vivo A Reforma Psiquiátrica brasileira, que completou 10 anos em 2011, foi importante para o país, pois instituiu a psiquiatria comunitária, ou seja, o atendimento do indivíduo dentro de sua comunidade, a começar pelo atendimento primário nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). As mudanças, formalizadas em 2001 por meio da lei nº 10.216, colaboraram para a prevenção do agravamento de muitos distúrbios mentais, ao promover a discussão sobre a humanização do tratamento de distúrbios mentais, ancorada na luta antimanicomial. Contudo, o sistema precisa melhorar o acesso ao atendimento de fases agudas e críticas, o que deve ser feito em hospitais psiquiátricos, e não nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Essa é a avaliação do psiquiatra Mauro Aranha, presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (CONED-SP). Em entrevista à Agência Dinheiro Vivo, Mauro disse que o CAPS foi idealizado para servir como uma referência de saúde mental, em todas as dimensões do tratamento envolvendo transtornos mentais persistentes, mas os centros ainda não tem condições de prestar atendimento integral à saúde mental de pessoas com problemas mais graves. “Nessa questão, a reforma desestruturou o pouco que havia de atendimento de alta complexidade em saúde mental”, argumentou o médico, que coordenou, entre 2008 e 2010, uma pesquisa que avaliou 85 CAPS do Estado de São Paulo, cerca de 40% da rede instalada. "A voca“A vocação do CAPS, desde sua implantação, é de reabilitação psicossocial. Não é de atendimento em fases mais agudas da doença”. De acordo com Mauro, que também exerce a função de vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), o CAPS pode funcionar bem na reabilitação dos pacientes que, de maneira geral, saíram fase aguda da doença. “Quando pensamos em fase aguda e surto psicótico, temos que pensar em equipamentos de saúde mais aparelhados para isso, em termos não só de recursos físicos, como humanos. Idealmente, deveriamos internar esses casos mais agudos em unidades psiquiátricas de hospitais gerais, ou em clínicas psiquiátricas não manicomiais”. Mauro conta que a reforma era uma reação à psiquiatria tradicional, mas foi uma reação mal equilibrada, porque desativou alguns equipamentos de saúde mental que funcionavam bem e que não eram manicomiais. Como exemplo, cita os ambulatórios de saúde mental; os hospitais-dia; e os leitos psiquiátricos em clínicas não-manicomiais. “A reforma chegou para arrasar, e arrasou tudo isso que era legítimo e funcionava bem. Aí o CAPS ficou como referência única de saúde mental”, criticou. A doença mental tem várias etapas e várias fases, e cada fase tem um equipamento preferencial. A saúde mental não precisa de grande tecnologia, apenas de alguns recursos básicos e recursos humanos especializados. Por exemplo, alguém que está numa síndrome de abstinência aguda do crack, ou alguém com surto psicótico importante - quando há doenças físicas concomitantes à doença mental - preciso ter a proximidade de um hospital geral, para ter suporte químico para o tratamento da doença. E os CAPS não tem essa vocação e nem recursos humanos para isso, aponta o psiquiatra. Questionado sobre se o problema da centralização do tratamento nos CAPS é um problema de falta de recursos, Mauro explicou que, em 2010, o governo federal destinou 2,5% da verba da saúde para a política de saúde mental, o que representou aumento em relação aos anos anteriores. “O problema não é número absoluto de recursos, mas sim de distribuí-los sem equidade, privilegiando apenas um equipamento. Centralizou-se ainda mais o que se queria descentralizar, o que se torna um paradoxo”. Os CAPS são privilegiados em relação aos recursos federais, em comparação com os leitos psiquiatricos em hospitais. E este privilégio está até na forma de pagamento: o CAPS ganha por diária, e não por número de leitos. “Na verdade, o CAPS deveria ser só uma das etapas do tratamento, destinada à reabilitação social. No caso de problemas mais complexos, que exigem tratamento mais especializado, o paciente tem que ser encaminhado para um ambulatório de saúde mental”. Sobre o funcionamento dos centros de atenção, o representante do CONED-SP disse que 30% dos CAPS não apresentam bom funcionamento e boa ligação entre paciente e família e entre paciente e recursos da comunidade. Os CAPS são de responsabilidade da gestão municipal. “Precisamos fazer não só essa ligação com os recursos da comunidade, mas também criar mais esses recursos, como centros de convivência para pessoas com transtorno mental. A função de um centro de convivência é trazer pessoas que tem aquele mesmo tipo de problema para uma convivência comum, com o auxílio de recreadores e profissionais que possam complementar a atividade de relacionamento entre eles, como um clube, onde são capacitados em termos de atividades produtivas e artísticas. E este é um acolhimento específico da assistência social. Essa é a complexidade da doença mental, porque não é só a medicina que deve estar dentro disso”. A Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo mantém os Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e os Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), que tentam preencher essa vácuo nos espaços de convivência, servindo como porta de entrada para moradores de rua. Contudo, pela complexidade dos perfis de pessoas que aparecem por lá, os assistentes sociais encontram dificuldades para fazer o encaminhamento adequado daqueles que apresentam transtornos mentais. Isso é agravado com a ainda fraca integração entre os CAPS e os serviços de assistência social. No dia em que a reportagem visitou uma das unidades do CREAS, na Barra Funda, os frequentadores estavam assistindo à televisão. Mauro sugere que o governo peça ajuda à Associação Brasileira de Psiquiatria, para incrementar a técnica de atendimento. “Por exemplo, sabemos que nos CAPS existe um baixo índice de uso de uma droga chamada Clozapina, considerada o melhor neuroléptico não só para tratar fases agudas das doenças, como para evitar novos surtos, melhorando a sociabilidade do paciente. Essa droga é muito importante para casos graves, e sabemos que o CAPS utiliza muito pouco, pelo fato de que lá deve-se fazer o controle semana de hemograma, e essa droga acaba mascarando um pouco os resultados do exame”. Outro problema diz respeito à correta indicação e aplicação da convulsoterapia, conhecida, no senso comum, como terapia de choque elétrico, e que por muito tempo continuará sendo um tratamento necessário para a psiquiatria. Hoje o procedimento é mais capacitado, realizado mediante anestesia e indicado para poucos casos. Mesmo assim, é importante que todas as pessoas que trabalham no SUS tivessem esse conhecimento, portanto é preciso melhor capacitação e regulamentação de todas as intervenções na saúde mental. Modelos alternativos, como o do AA e de grupos de ajuda mútua, também são indicados por alguns psiquiatras. Mas eles não estão consolidados dentro do CAPS, que ainda apresenta bastante rejeição”, concluiu Mauro. Da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo Nota A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo gasta anualmente R$ 33 milhões para atendimento a dependentes químicos no Estado. Nos últimos quatro anos foram criados no estado cerca de 400 leitos, com financiamento estadual, uma vez que a atual política de saúde mental do Ministério da Saúde não previa, até agora, internação dos pacientes com dependência em álcool e drogas em enfermarias especializadas. Nos próximos dois anos a Secretaria pretende dobrar o número de leitos exclusivo para tratamento dos dependentes, com novos serviços na capital, Botucatu, Ribeirão Preto e Itapira, entre outras localidades. O investimento para a implantação dos novos leitos será de aproximadamente R$ 200 milhões. Além disso, o Cratod (Centro de Referência em Álcool, Tabaco e outras Drogas), serviço da Secretaria na capital, capacita os profissionais de saúde dos municípios para implantação dos CAPS AD (Álcool e Drogas). Seguindo as diretrizes do SUS, a implantação dos CAPS AD, bem como a operacionalização desses serviços, é de competência municipal. O credenciamento dos serviços é feito pelo Ministério da Saúde.
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Comentários + votados
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Martinho
19/01/2012 - 13:48
Com todo o respeito ao Doutor, não acredito que ele desconheça o conceito finalmente oficializado de Rede de Atenção Psicossocial, por meio da Portaria n° 3088/2011, pelo Ministério da Saúde.
"A...
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Rafael Mendonça Dias
19/01/2012 - 13:51
Essa matéria é tendenciosa e creio que foi pautada pela ABP que tem posicionamento claro contra a reforma psiquiátrica. Na matéria não se ouviu o outro lado, trabalhadores dos CAPS e movimento da...
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Bruno de Pierro
19/01/2012 - 14:22
Caro Rafael,
De fato a entrevista trata de um lado só da questão, o ponto de vista do psiquiatra. Não é reportagem mesmo, e sim entrevista, como é anunciado no segundo parágrafo. Talvez ficasse mais...
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José Carlos Lima
19/01/2012 - 14:33
A reforma psiquiátrica desestruturou sim, os depósitos de loucos que eram fonte de lucro para psiquiatras carniceiros. Tive a oportunidade de visitar um destes depósitos em, Goiânia. Era o "Hospital...
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roiza
19/01/2012 - 14:34
Será que não foi encomendada (matéria) pelo Ferreira Gullar!?!?!?!?!
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Gilberto .
19/01/2012 - 14:52
Caro Bruno,
Faltou ao menos um subtítulo dizendo ser a opinião do psiquiatra Mauro Aranha . Da maneira como esta a manchete parece ser uma conclusão da redação da Agência Dinheiro Vivo...
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José Carlos Lima
19/01/2012 - 15:02
Sobre o documentário que citei no meu comentário:
Um olhar cinematográfico humanizado no interior de um espaço manicomial, no qual os pacientes segregados são submetidos ao abandono, isolamento,...
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Arthemísia
19/01/2012 - 15:18
Certamente críticas são cabíveis ao funcionamentos dos CAPS e ao atendimento em saúde mental na rede pública, mas não exatamente estas do médico entrevistado. Ficou parecendo ressentimento, da parte...
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rogerio da silva santiago
19/01/2012 - 16:16
Sobre os hospitais-dia, tipo o Pinel tinha que desativar mesmo
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X2008001000016&script=sci_arttext
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FabioREM
19/01/2012 - 17:14
A "História da Psiquiatria" é realmente de arrepiar. Um olhar para o que faziam nos anos 40-50-60 nos mostra barbaridades poucas vezes alcançadas no campo da violação dos direitos humanos. Desde os...
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FabioREM
19/01/2012 - 17:23
A parte da lobotomia começa a ser mostrada na metade deste vídeo, a partir do minuto 3;00 mais ou menos - a parte 3/6 do episódio 1.
O vídeo acima é o seguimento da parte 3/6
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M. Marlene
19/01/2012 - 17:28
É, Gilberto, a velha "ordem médica" continua resistindo, e o poder da industria farmacêutica continua copitando...
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M. Marlene
19/01/2012 - 17:39
Nassif,
A propósito do tema saude mental, tentei assistir o ultimo Brasilianas.com, mas perdi a paciência com os seus dois convidado: um reacionário e um outro fraquíssimo.
Um abraço,
Marlene
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luisnassif
19/01/2012 - 19:09
Não foi bom. Não havia contraponto. Estamos preparando um segundo sobre a luta antimanicomial.
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José Carlos Lima
19/01/2012 - 22:22
Não entendo porque na minha TV não transmite a TV Brasil, tem uns 20 canais, tipo SESC, TV Senado, mas não a TV Brasil e nem o canal que transmite notícias do governo federal. Não sei se é rolo da...
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José Carlos Lima
19/01/2012 - 23:18
Rogério, muito bom este texto, uma vez que ele traz dados, números que demonstram o real motivo desta campanha contra a luta antimanicomial: O lucro às custas do sofrimento mental do outro: ...
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Angelo
19/01/2012 - 23:29
Sou usuário do CAPS, e para os que acreditam que o psiquiatra Mauro Aranha é motivada por ressentimento... Sinto informar que apesar dos CAPS envolver diveras especialidades no seu atendimento, na...
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Gardenal
20/01/2012 - 00:36
Tô chegando atrazado no post. Mas a figura do Gullar foi a primeira que me veio a mente após ler o título.
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Tuca Melo
27/01/2012 - 18:32
A "Reforma Psiquiátrica" (cujo nome já é bastante esquisito; deveria ser "Reforma da Assistência à Saúde Mental" ou mesmo "Reforma da Assistência Psiquiátrica", mas não "Reforma Psiquiátrica". A...
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Com todo o respeito ao Doutor, não acredito que ele desconheça o conceito finalmente oficializado de Rede de Atenção Psicossocial, por meio da Portaria n° 3088/2011, pelo Ministério da Saúde.
"A reforma chegou para arrasar, e arrasou tudo isso que era legítimo e funcionava bem. Aí o CAPS ficou como referência única de saúde mental”, criticou.
Pergunto: e os Centros de Convivência? e as Equipes de Consultório de Rua? e as Residências Terapêuticas? e os Serviços Hospitalres especializados? e as enfermarias especializadas em Hospitais Gerais?. Todos com financiamento federal diferenciado. Nada disso conta?
Pode-se criticar a ausência de efetiva ação articulada e intersetorial (responsabilidade primária dos gestores estaduais e municipais), mas colocar a culpa em um único ponto da rede de saúde, para mim, caracteriza uma visão inadequada e injusta, principalmente com os profissionais.
Segundo pesquisa na internet, a pesquisa do Doutor se refere ao período de 2008 a 2009, talvez seja por isso.
Além disso, quanto ao título do post, afirmar que CAPS desestrutura a alta complexidade é como afirmar que a implantação do Programa Saúde da Família em 1994 desestruturou a alta complexidade hospitalar. Pelo contrário, o CAPS, similarmente às UPA e CEO, representam a média complexidade, em urgencia/emergencia e em saude bucal respectivamente; e, enquanto nível intermediário depende dos outros, por conta da ação sistêmica e integrada.
Sinceramente, não entendi o tom desmerecedor ao CAPS. E mais, espero que não seja matéria política.
Essa matéria é tendenciosa e creio que foi pautada pela ABP que tem posicionamento claro contra a reforma psiquiátrica. Na matéria não se ouviu o outro lado, trabalhadores dos CAPS e movimento da luta antimanicomial. O CAPS não desestruturou a alta complexidade, porque ele é entre outros os espaços de alta complexidade, junto com o Hospital geral e outros dispositivos de cuidado. Quem afirma que o CAPS desestruturou a alta complexidade ou não conhece a política de saúde mental ou está agindo de má-fé com interesses econômicos da associação de psiquiatria e da indústria farmacêutica.
Caro Rafael,
De fato a entrevista trata de um lado só da questão, o ponto de vista do psiquiatra. Não é reportagem mesmo, e sim entrevista, como é anunciado no segundo parágrafo. Talvez ficasse mais claro se tivesse sido editada no formato "pingue-e-pongue" (pergunta e resposta).
A próxima virá com o lado do movimento antimanicomial (apesar de o entrevistado não ser contra o CAPS, mas sim reforçar o fato de o CAPS está sendo pressionado a fazer mais do que pode fazer) e também do modelo de tratamento de Minnesota, que acompanhei pessoalmente nos últimos meses.
Quanto aos centros de convivência, como o CREAS, da prefeitura, há, sim, uma superlotação e uma dificuldade para lidar com casos agudos de transtornos mentais. O que não significa que a atenção básica seja indispensável.
Caro Bruno,
Faltou ao menos um subtítulo dizendo ser a opinião do psiquiatra Mauro Aranha . Da maneira como esta a manchete parece ser uma conclusão da redação da Agência Dinheiro Vivo.
Eu apostaria que se trata da velha richa entre psicólogos e psiquiatras. Não discordo de algumas colocações, mas o viés e a forma apontam para isto.
A manchete fez o jogo do entrevistado.
Gilberto . @Gil17
Obrigado pela observação, Gilberto.
Melhorou com as aspas!!!
Gilberto . @Gil17
É, Gilberto, a velha "ordem médica" continua resistindo, e o poder da industria farmacêutica continua copitando...
Pois é... O Bruno deveria ir mais piano, molto pianissimo. Não é a primeira vez que ele pisa na bola... Os CAPS podem e devem ser aprimorados, como qualquer idéia inovadora, mas vieram para ficar. Os hospitais psiquiátricos eram caóticos e permitiam todo tipo de perversão humana, onde por trás de uma cortina "científica", escondiam-se os profissionais hipócritas e perversos. Aliás, uma sugestão que me permito dar ao Pietro: porque você não faz uma reportagem mais investigativa e profunda sobre os CAPS-AD, aproveitando o momento da repressão policial na Cracolândia? E sobre os Consultórios de Rua? E sobre a política de Redução de Danos?
Faço minhas as palavras do Martinho:
"Pergunto: e os Centros de Convivência? e as Equipes de Consultório de Rua? e as Residências Terapêuticas? e os Serviços Hospitalres especializados? e as enfermarias especializadas em Hospitais Gerais?. Todos com financiamento federal diferenciado. Nada disso conta?"
Falar em filmes, quem não se lembra do "Um Estranho no Ninho" com Jack Nicholson???
José Antônio
A reforma psiquiátrica desestruturou sim, os depósitos de loucos que eram fonte de lucro para psiquiatras carniceiros. Tive a oportunidade de visitar um destes depósitos em, Goiânia. Era o "Hospital Psiquiátrico" Adauto Botelho, conhecidos meus trabalhavam lá, um deles aparece num documentário do cineasta goiano Eduardo Jorge, sobre aquela casa de horror. Até hoje guardo lembranças do que vi. Lembro-me que os militantes da luta antimanicomial, por ocasião da implosão do Adauto Botelho, que aparece nos vídeos abaixo, tentaram salvar o acervo que incluia prontuários, fotos, traços daquele mundo. No entanto o sistema tradicional como que com medo de complicar-se caso o acervo viesse futuramente à tona, deu um jeito de transformar tudo em pó. Mas guardo lembranças daquele universo dantesco pois, como disse, conheci ao ser levado por amigos que trabalhavam lá. Muito forte. Dá para se ter uma idéia assistindo aos vídeos postados.
Não consigo compreendeer a lógica que leva a se usar dos casos críticos dos que padecem de transtornos mentais como forma de se justificar o retorno dos antigos Hospitais Psiquiátricos. Nem sei porque aqueles depósitos de gente eram chamados de hospitais, nunca foram isso não. Só lamento que os espetinhos, ao implodirem o Hospital, não permitiram que os militantes da luta antimanicomial salvassem o acervo. Também pudera, se viesse futuramente uma Comissão da Verdade para apurar o que ocorreu naquela época, muitos envolvidos naqueles abusos iriam ficar em apuros.
Os vídeos abaixo revelam que era os tais "hospitais" psiquiátricos eram, antes de tudo, uma indústria de se fazer grana. Era para aquela indústria de moer gente que eram levados, geralmente pela polícia, os rejeitados, os sem eira nem beira, os que se atreveram a ser diferentes e, neste caso, diferença era um termo bem amplo.
No filme "Bicho de 7 Cabeças, um cigarrinho de maconha era motivo para o jovem ser levado a um destes hospitais. Os leitos eram muitos, a indústria funcionava a todo vapor, bem ao gosto dos saudosos daquele período, dentre eles o poeta Ferreira Gullar. Nada contra o poeta, compreendo que ela tenha sofrido por ter que conviver com o transtorno mental de dois filhos que, se não me engano, manifestavam agressividade. O que não é compreensível nem aceitável é que se use tais casos para se justificar o retorno daquele mundo de horror que recebiam o pomoso nome de "Hospital Psiquiátrico." Aliás, o Brasil deveria ser penalizado pela forma com que tratou seus doentes mentais antes da luta antimanicomial, cuja importância pode ser conferida neste texto.
http://www.apropucsp.org.br/apropuc/index.php/revista-puc-viva/39-edicao...
E não são atores estes do filme abaixo e sim um mundo real que pude conferir pessoalmente, figuras tão próximas, o espaço físico também;
OOO http://www.advivo.com.br/user/13544 Juriti do Cerrado http://www.advivo.com.br/user/7757 Tatu Bola http://www.advivo.com.br/user/3084 D http://www.advivo.com.br/user/7514 Spin http://www.josecarloslima.blogspot.com
A "História da Psiquiatria" é realmente de arrepiar. Um olhar para o que faziam nos anos 40-50-60 nos mostra barbaridades poucas vezes alcançadas no campo da violação dos direitos humanos. Desde os famosos choques insulínicos, a era da lobotomia ( anos 50-60 ).
Um documentário que mostra um pouco do que foi a Era da Lobotomia é aquele da BBC, "Sangue e Vísceras - a História da Cirurgia '. Um dos episódios mostra o que faziam na época, algo inacreditável pelos olhos atuais.
Uma amostra:
A parte da lobotomia começa a ser mostrada na metade deste vídeo, a partir do minuto 3;00 mais ou menos - a parte 3/6 do episódio 1.
O vídeo acima é o seguimento da parte 3/6
Será que não foi encomendada (matéria) pelo Ferreira Gullar!?!?!?!?!
Tô chegando atrazado no post. Mas a figura do Gullar foi a primeira que me veio a mente após ler o título.
Sobre o documentário que citei no meu comentário:
Um olhar cinematográfico humanizado no interior de um espaço manicomial, no qual os pacientes segregados são submetidos ao abandono, isolamento, eletrochoques e à miséria absoluta.
Ficha de Informações do Filme
Título: Passageiros da segunda classe
Duração: 21 min e 0 seg.
Ano: 2001
Cidade: Goiânia UF(s): GO País: Brasil
Gênero: Documentário
Subgênero: Político
Cor: PB
Número do CPB: 2f7a7s0p0o1n5j7o
Ficha Técnica
Direção: Luiz Eduardo Jorge
Roteiro: Luiz Eduardo Jorge
Elenco: Pacientes do Hospital Psiquiátrico Professor Adauto Botelho
Depoimentos: Cigano, Rita, Rosa, Juca, Quim, Rodolfo, Dedo Mole
Empresa Produtora: Asa Cinema e Vídeo
Empresa(s) Co-produtora(s): Etnia Produções cinematográficas / StocKIMage
Produção: Márcio Kouri
Produção Executiva: Luiz Eduardo Jorge
Direção de Produção: Luiz Eduardo Jorge / Waldir de Pina / Kim-Ir-Sen
Coordenação de Produção: Denise Barbosa
Direção Fotografia: Kim-Ir-Sen e Waldir de Pina
Operador de Câmera: Waldir de Pina
Fotografia de Cena: Sim
Fotografia de Cena Autor: Kim Ir Sen
Quantidade de Fotos (Analógica): 1800
Montagem/Edição: Roberto Pires
Estúdio Montagem/Edição: Luiz Eduardo Jorge
Direção de Arte: Laura Jorge
Figurino: Costureiras do Adauto Botelho
Técnico de Som Direto: Waldir de Pina
Edição Som: Bruno Jorge / Januário Leal
Mixagem: Rob Filmes
Estúdio Som: Rob Filmes
Trilha Musical: Não
Trilha Original: Sim
Trilha Adaptada: Não
Autor da Trilha: cantos dos pacientes
Dados Técnicos
Suporte de Captação: 16mm
Suporte de Projeção: 16mm
Janela de projeção de película: 1:1.66
Janela de projeção de vídeo: 4x3
Produto Final do Telecine: Vídeo (Betacam SP)
Ano Telecine: 127
Disponível nos Suportes: 16mm
Vídeo (MiniDV)
Vídeo (S-VHS)
Vídeo (VHS)
Vídeo (DVD)
Vídeo (Betacam SP)
Som: Sonoro
Stereo
Idioma: Português
Legendas: Inglês, Espanhol,
Outras: Italiano
Classificação Indicativa: 12 anos
Currículo do filme
Website: www.ucg.br
Festivais: É tudo verdade; 34º festival de Cinema de Brasilia do Cinema Brasileiro; Garnicê; Festival de Cinema de Cuiabá;
Prêmios: Melhor filme - 34º Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro; Melhor Filme GNT (três prêmios); Melhor Filme III Fica; Melhor Filme festival Latinoamericano de cinema e video
Data de Lançamento: 19/04/2001
Local Lançamento: Cine Cultra
Comentários
http://www.programadorabrasil.org.br/filme/765/
OOO http://www.advivo.com.br/user/13544 Juriti do Cerrado http://www.advivo.com.br/user/7757 Tatu Bola http://www.advivo.com.br/user/3084 D http://www.advivo.com.br/user/7514 Spin http://www.josecarloslima.blogspot.com
Certamente críticas são cabíveis ao funcionamentos dos CAPS e ao atendimento em saúde mental na rede pública, mas não exatamente estas do médico entrevistado. Ficou parecendo ressentimento, da parte dele, com o fato de que nos CAPS o médico perdeu a centralidade no tratamento dos transtornos mentais e eles querem retomar isso nos hospitais.
Suposições à parte, o que ainda considero lamentável neste sistema é que muitos municípios não se empenham no funcionamento da rede em saúde mental. Aqui em Pernambuco apenas o município do REcife tem uma rede adequada, enquento que cidades do porte de Olinda e Jaboatão dos Guararapes oferecem apenas o caos. Olinda chega ao absurdo de ter apenas 1 psiquiatra para o atendimento de 400.000 habitantes. Aí não tem CREAS ou CRAS que façam milagres, pois simplesmente não têm para onde encaminhar os pacientes.
Finalizando, desconheço a informação de que os hospitais-dia foram desativados. Pelo que sei, é exatamente o contrário, ou seja, eles continuam fazendo parte da rede de atendimento em saúde mental porque essa modalidade faz todo o sentido num sistema como os dos CAPS. Se não me engano, os CAPS têm diferentes modelos de funcionamento e complexidade e um deles contempla a internação temporária.
Boa Noite Artemizia.
Gostaria de dizer que sou militante da Reforma Psiquiátrica desde o início. Entrei na universidade aos 16 anos e com 18 já estagiava em um hospital "para loucos", como eram carinhosamente chamados esses "diamantes". Estou formada a 20 anos e continuo militante ferrenha, porém centrada, na Reforma e nos passos que ela vem dando a olhos vistos pelo país. Concordo que alguns Municípios ainda não se responsabilizam como deveriam nessa luta permanente para fechar os hospitais psiquiátricos, e de forma coesa, abrir serviços substitutivos, inclusive, hospitais gerais, para tratar a crise, quando todos os esforços dos CAPS não conseguirem. O Município do Jaboatão dos Guararapes/PE, o qual estou como responsável pela saùde mental, hoje está pautada nos princípios da Reforma Psiquiátrica. Há quatro anos vem implantando serviços que visem um melhor direcionamento dessas pessoas em sofrimento psíquico e que são cidadãos, apesar de terem passado a vida como "objetos" dos desejos perversos de pessoas que se dizem "sãs". Hoje, temos um CAPS Solar dos Guararapes, para transtornos mentais que está sendo transformado em CAPS 24hs; temos um CAPSad para tratamento em Álcool e outras drogas, com vistas de se tornar um CAPSad24hs; temos um CAPSadi, para tratamento em álcool e outras drogas infantojuvenil, (o primeiro no Estado de Pernambuco); Um CAPSi, para tratamento em Transtornos mentais e comportamentais, infantojuvenil; 03 Residências terapêuticas, com uma quarta sendo providenciada para implantação; Um Consultório de Rua, um Plano Municipal de ações Sobre drogas. Temos 10 Psiquiatras - muito pouco ainda para o número de ações que o município vem desenvolvendo. Falta muito ainda, mas não estamos parados. Nossa rede está trabalhando para tirar o Município dessa visão negativa que algumas pessoas ainda tem, de que Jaboatão não "existe". Existe e está ai para mudar a história. Os munícipes estão sendo tratados com respeito, como merecem. Pagam impostos, são cidadãos e por isso, são acolhidos como tal.
Iracema,
Muito obrigada pelas informações e me desculpe as generalizações. Realmente não tinha informação sobre essa estruturação por que passa a saúde mental em Jaboatão, que é certamente muito bem vinda. Parabéns pelo trabalho e que ele possa frutificar.
Sobre os hospitais-dia, tipo o Pinel tinha que desativar mesmo
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X2008001000016&script=sci_arttext
Rogério, muito bom este texto, uma vez que ele traz dados, números que demonstram o real motivo desta campanha contra a luta antimanicomial: O lucro às custas do sofrimento mental do outro:
Leitos hospitalares e reforma psiquiátrica no Brasil
Hospital beds and mental health reform in Brazil
Samuel KilsztajnI; Erika de Souza LopesI; Luciana Zilles LimaI; Patrícia Avanzini Ferreira da RochaI; Manuela Santos Nunes do CarmoI, II
ILaboratório de Economia Social, São Paulo, Brasil
IISecretaria de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil
Correspondência
RESUMO
O objetivo do trabalho é estimar o número de leitos psiquiátricos ocupados por Unidade da Federação e o valor pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas internações por serviços hospitalares, serviços profissionais, exames e medicamentos no Brasil em 2004. O número médio de leitos psiquiátricos ocupados, estimado a partir do total de dias de permanência no ano, e o valor pago pelo SUS foram obtidos a partir das Autorizações de Internação Hospitalar (AIH). O número de leitos psiquiátricos ocupados pelo SUS era de 45 mil em 2004. O valor total pago pelo SUS para internações de pacientes com transtornos mentais atingiu R$ 487 milhões em 2004. Os hospitais privados eram responsáveis por 78,8% do total de leitos psiquiátricos ocupados pelo SUS. Ainda que a desativação de estimados 15 mil leitos asilares possa gerar anualmente R$ 162 milhões ao ano passíveis de serem realocados para serviços psiquiátricos extra-hospitalares, o planejamento e a execução da Reforma Psiquiátrica têm sido muito tímidos. A precária rede extra-hospitalar tem sido utilizada como impedimento à desativação dos leitos psiquiátricos, embora esta gere os recursos necessários para a ampliação daquela.
Número de Leitos em Hospital; Hospitais Psiquiátricos; Transtornos Mentais
ABSTRACT
The objective of this study was to estimate the number of psychiatric beds occupied per State in Brazil and the amount paid by the Unified National Health System (SUS) for hospitalizations, professional services, tests, and medicines in the country in 2004. The mean number of psychiatric beds occupied, estimated on the basis of total days of hospitalization during the year, and the amount paid by the SUS were obtained from the Hospital Admissions Authorizations (AIH). A total of 45 thousand psychiatric beds were occupied by the SUS in 2004. The SUS paid a total of BRL$487 million (some U$270 million) for hospitalization of patients with mental disorders in 2004. Private hospitals accounted for 78.8% of all psychiatric beds occupied by the SUS. Although the deactivation of 15 mil psychiatric beds could currently generate BRL$162 million (U$90 million) to be reallocated to non-hospital psychiatric services, planning and implementation of the Psychiatric Reform have been very limited. The precarious extra-hospital network has been used as a barrier to deactivation of psychiatric beds, although the latter generates the necessary resources for the former
Hospital Bed Capacity; Psychiatric Hospitals; Mental Disorders
Introdução
A adequação dos hospitais psiquiátricos e seus métodos terapêuticos foram radicalmente questionados na década de 1960 por Franco Basaglia; e a Itália, em 1978, foi o primeiro país do mundo a aprovar uma lei antimanicomial 1. No Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira destacou-se por sua batalha contra os tratamentos à base de eletrochoques, lobotomia e camisas-de-força químicas; pela utilização da pintura e da modelagem como ocupação terapêutica e de animais para relações "pessoais" com esquizofrênicos; e pela criação, em 1956, da Casa das Palmeiras, o centro de atenção psicossocial em regime de externato com portas e janelas sempre abertas 2.
O movimento pela desinstitucionalização dos pacientes que apresentam transtornos mentais desenvolveu-se no Brasil na segunda metade da década de 1980 e gerou, em 1989, o Projeto de Lei nº. 3.657 de Paulo Delgado 3. A Reforma Psiquiátrica, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, contudo, só foi decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pela Lei nº. 10.216 em 2001 4. Em 2005, o Tribunal de Contas da União publicou o relatório Avaliação das Ações de Atenção à Saúde Mental: Programa Atenção à Saúde de Populações Estratégicas e em Situações Especiais de Agravos 5 com várias críticas à morosidade do processo de desospitalização em curso.
De acordo com o relatório 5, os hospitais psiquiátricos no Brasil, tradicionalmente, eram (e continuam sendo) responsáveis tanto pela residência como pelo atendimento terapêutico a pacientes que apresentam transtornos mentais. A redução progressiva de leitos e reinserção social dos pacientes psiquiátricos devem ser, desta forma, acompanhadas, por um lado, pela reintegração dos internos aos lares de seus familiares ou pela criação de residências terapêuticas (Programa De Volta para Casa, Serviços Residenciais Terapêuticos - SRT); e, por outro, pela expansão dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), pela inclusão de ações de saúde mental na atenção básica, Programa Saúde da Família (PSF) e outros serviços de saúde, e pelo credenciamento de leitos psiquiátricos em hospitais gerais para situações singulares em que a internação se faça necessária.
Para contribuir com a discussão da Reforma Psiquiátrica e reintegração social dos internos, o objetivo deste trabalho é estimar o número de leitos psiquiátricos ocupados por Unidade da Federação e a magnitude do valor pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas internações por transtornos mentais por serviços hospitalares, serviços profissionais, exames e medicamentos no Brasil. Para tornar compatível esta pesquisa com o dados levantados pelo Tribunal de Contas da União 5 optou-se por limitar o trabalho ao ano de 2004.
Métodos
O número de leitos psiquiátricos ocupados pelo SUS foi estimado a partir dos dias de permanência registrados nas Autorizações de Internação Hospitalar (AIH) 6 e comparado ao número de leitos psiquiátricos cadastrados pelo SUS 7 e ao número de leitos/SUS registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) 8.
Os dias de permanência nas AIH correspondem ao total de dias de internação no mês de competência (mês imediatamente anterior ao da apresentação das AIH para faturamento). As AIH, contudo, podem incluir períodos de internação anteriores ao mês de competência (AIH apresentadas com atraso ou reapresentadas por terem sido rejeitadas em alguma competência anterior). Mas, em nível agregado, eventuais atrasos são desprezíveis e, para séries anuais, as defasagens em meses específicos compensam-se ao longo do ano. Para o exercício de 2004, com o objetivo de confirmar a correção deste procedimento, os dias de permanência foram conferidos por hospital e mês de competência 9.
Os dias de permanência, formalmente, incluem períodos em que o paciente utiliza UTI e, portanto, não utiliza leito. Entretanto, entre os pacientes internados por transtornos mentais e comportamentais (capítulo V da Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão - CID-10 10), a utilização de UTI é muito pouco expressiva. Os dias de UTI correspondiam a 0,005% do total de dias de permanência de pacientes internados por transtornos mentais em 2004 9.
O número médio de leitos psiquiátricos ocupados foi estimado a partir do total de dias de permanência no ano dividido pelo número de dias no ano. Para o número de leitos psiquiátricos ocupados por mil habitantes entre 1994 e 2004 foram utilizados os dias de internação 6 e as estimativas da população residente 11. Para 2004, foram também calculados os percentuais de leitos psiquiátricos no total de leitos ocupados pelo SUS por Unidade da Federação 6.
Para a distribuição dos leitos psiquiátricos ocupados por especialidade foram utilizados os dias de internação por grupos da CID-10 10 em 2004 9. Foram calculados ainda, por especialidade, o número e percentual de leitos psiquiátricos ocupados em dezembro de 2004 (dias de internação no mês divididos por 31) por pacientes com data de internação anterior a julho do mesmo ano.
O valor total pago pelo SUS relativo a internações de pacientes com transtornos mentais em 2004, dividido em serviços hospitalares, profissionais e SADT (serviços auxiliares de diagnose e terapia: exames e medicamentos), também foi obtido a partir das AIH 9. O valor pago por paciente/mês em 2004 foi calculado a partir do valor anual dividido pelo número total de dias de permanência, multiplicado por 365/12. Foi calculado também o volume de recursos das AIH a serem gerados com a desativação de leitos de pacientes asilares potencialmente beneficiários de desinstitucionalização, de acordo com as estimativas do Ministério da Saúde 5.
Para a distribuição dos hospitais por número médio de leitos psiquiátricos ocupados foram consideradas quatro categorias: até 40; 41-120; 121-200; e mais de 200 leitos por hospital. O número de leitos, hospitais e o valor pago pelo SUS para as internações por transtornos mentais foram distribuídos de acordo com a natureza dos hospitais: privados (contratados e filantrópicos), federais, estaduais e municipais.
Resultados
De acordo com a Tabela 1, o número de leitos psiquiátricos cadastrados pelo SUS 7 durante todo o período de análise é sistematicamente superior (entre 27% e 41%) à estimativa de leitos psiquiátricos efetivamente ocupados pelo SUS. O CNES 8, por sua vez, registrava 47.911 leitos psiquiátricos em 4 de agosto de 2005, número 12% superior à estimativa de 42.695 leitos psiquiátricos ocupados em julho de 2005 6.
Tanto o número de leitos cadastrados como as estimativas de leitos ocupados por mil habitantes apresentaram queda no período analisado. A taxa por mil habitantes registrou 0,36 para leitos cadastrados em julho de 2003 e 0,25 para leitos ocupados em 2004.
Em números absolutos, os estados com maior número de leitos psiquiátricos ocupados em 2004 eram São Paulo (14.189 leitos), Rio de Janeiro (7.943), Paraná (3.488), Pernambuco (3.326) e Minas Gerais (3.191). A Figura 1apresenta as taxas de leitos psiquiátricos ocupados por mil habitantes em 2004, que eram expressivamente diferentes entre as Unidades da Federação. Rio de Janeiro, Pernambuco, São Paulo, Paraná, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba apresentaram taxas superiores à média nacional (0,25); e os estados da Região Norte apresentaram baixas taxas de hospitalização de pacientes com transtornos mentais. A Figura 1 também apresenta os percentuais de leitos psiquiátricos no total de leitos ocupados pelo SUS por Unidade da Federação. Via de regra, os estados com maiores taxas de leitos psiquiátricos ocupados por mil habitantes apresentaram também maiores percentuais de leitos psiquiátricos no total de leitos ocupados pelo SUS.
Os pacientes classificados no grupo esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e delirantes ocuparam 54,4% do total de leitos psiquiátricos. Os pacientes classificados nos grupos transtornos mentais devidos ao uso de substâncias psicoativas (particularmente álcool); transtornos mentais orgânicos, inclusive sintomáticos (demência etc.); transtornos de humor - afetivos (depressão etc.); e retardo mental ocuparam respectivamente 14,7%, 13,9%, 8% e 7,9% do total de leitos psiquiátricos. Os demais cinco grupos e os transtornos mentais não especificados, somados, ocuparam 1,1% do total de leitos psiquiátricos em 2004 (Tabela 2).
Em dezembro de 2004, o total de leitos psiquiátricos ocupados por pacientes com data de internação anterior a julho de 2004 era de 17.885, correspondendo a 41,1% do total de leitos psiquiátricos ocupados. Os pacientes com data de internação anterior a julho de 2004 pertenciam essencialmente aos grupos esquizofrenia, transtornos orgânicos e retardo mental.
O valor total pago pelo SUS para internações de pacientes com transtornos mentais atingiu R$ 487 milhões em 2004. O valor médio por paciente/mês foi calculado em R$ 749,12 para serviços hospitalares, R$ 75,08 para serviços profissionais e R$ 74,37 para SADT, totalizando R$ 898,57 (Tabela 3).
O Ministério da Saúde estima que 15 mil pacientes asilares são potencialmente beneficiários de desinstitucionalização 5. Os recursos a serem gerados com a desativação destes 15 mil leitos asilares são equivalentes a R$ 162 milhões ao ano (a preços de 2004).
De acordo com a Tabela 4, 78,8% do total de leitos psiquiátricos ocupados pelo SUS em 2004 eram privados. Entre os 67 hospitais com mais de 200 leitos psiquiátricos ocupados, 55 eram privados, 11 estaduais e um municipal. Os hospitais com mais de 200 leitos ocuparam 51,1% dos 45.194 leitos psiquiátricos e receberam R$ 231 milhões do SUS por serviços hospitalares, profissionais e SADT em 2004.
Discussão
A psiquiatria, em vez de tentar compreender as dimensões psicológicas da doença mental, concentra seus esforços na descoberta de causas orgânicas para todas as perturbações mentais. O diagnóstico psiquiátrico, apesar do empenho dos psiquiatras em estabelecer sistemas objetivos que lhes permitam incluir a doença mental na definição biomédica de doença, é, no entanto, notoriamente subjetivo 12.
O pouco conhecimento das origens das doenças mentais e o diagnóstico "subjetivo", realizado a partir de síndromes, sinais e sintomas, são comumente utilizados para considerar o diagnóstico psiquiátrico como insuficiente na previsão da reabilitação do paciente 13. Mas a Reforma Psiquiátrica trouxe o conceito de cidadania às discussões, admitindo "um novo lugar social para o sofrimento mental" 14 (p. 196).
O número de leitos psiquiátricos por habitante nos países ricos é muito superior à média verificada nas regiões mais pobres do planeta 15. Este fato pode sugerir tanto que os países mais desenvolvidos possuem uma maior rede de apoio institucional para pacientes com transtornos mentais, como pode sugerir que as sociedades economicamente menos desenvolvidas geram menos pacientes ou convivem melhor com as pessoas que apresentam transtornos mentais. Entre os países desenvolvidos, vale registrar, a Itália e a Espanha destacam-se pelo seu relativo baixo número de leitos por habitante 16.
A discrepância entre o número de leitos psiquiátricos por habitante nas unidades da federação brasileira em 2004, expressa na Figura 1, da mesma forma, pode tanto significar desassistência nas regiões com menor número de leitos psiquiátricos por habitante, como saúde mental e inclusão social das pessoas que apresentam transtornos mentais. O fato de os estados com maiores taxas de leitos psiquiátricos ocupados por mil habitantes apresentarem maiores percentuais de leitos psiquiátricos no total de leitos ocupados pelo SUS parece confirmar a segunda alternativa (saúde mental e inclusão social). Lancman 17 considera também que os hospitais psiquiátricos, além de responsáveis pela cronificação dos doentes mentais, geram aumento de demanda aos serviços de saúde mental.
O número de leitos psiquiátricos ocupados estimado neste trabalho é consistente com o número de leitos registrado pelo CNES 8, a diferença sendo justificada pelo número de leitos em manutenção. O número de leitos psiquiátricos cadastrados no SIH 7 é sistematicamente superior ao número de leitos registrados pelo CNES 8.
A Reforma Psiquiátrica tem como objetivo a desinstitucionalização de pacientes psiquiátricos e o desenvolvimento de uma rede extra-hospitalar capaz de garantir a reinserção social, a cidadania e o direito da pessoa portadora de transtornos mentais de atingir seu potencial de autonomia na comunidade 18,19.
De acordo com a legislação em vigor no Brasil, os recursos financeiros gerados pela desativação dos leitos psiquiátricos devem ser necessariamente direcionados para a rede de serviços extra-hospitalares de saúde mental20. Há que se considerar, contudo, que a verba das internações hospitalares é federal; a manutenção das residências terapêuticas e dos CAPS é municipal; e os hospitais psiquiátricos são essencialmente privados. Além disso, os internos nos hospitais psiquiátricos não são necessariamente originais dos municípios-sede dos hospitais em que estão internados, nem necessariamente permanecerão nestes municípios. Embora os recursos financeiros resultantes da desativação dos leitos psiquiátricos, de acordo com a legislação, devam ser realocados nos municípios de destino dos pacientes desinstitucionalizados 21, não há garantia de que os recursos gerados pela diminuição de leitos na saúde mental sejam direcionados para o financiamento dos serviços extra-hospitalares, em especial quando o paciente retorna a um município diverso daquele em que estava hospitalizado 5.
Ainda que a desativação dos estimados 15 mil leitos psiquiátricos de pacientes asilares potencialmente beneficiários de desinstitucionalização possa gerar anualmente R$ 162 milhões passíveis de serem realocados para serviços psiquiátricos extra-hospitalares, o planejamento e a execução da Reforma Psiquiátrica têm sido muito tímidos. Furtado 22 destaca que as questões relativas ao financiamento representam o maior empecilho para a expansão dos SRT, e enfatiza a problemática do acesso e emprego dos recursos existente.
Em 2004, estavam operando no Brasil apenas 546 CAPS 5 e, em janeiro de 2005, o número de beneficiários do Programa De Volta para Casa atingia 952 dos estimados 15 mil potenciais beneficiários 5. Considere-se ainda que o valor mensal do benefício do Programa De Volta para Casa, R$ 240,00, equivale a 32% do valor pago pelo SUS para os serviços hospitalares por leito psiquiátrico ao mês em 2004, R$ 749,12 (líquidos de serviços profissionais e SADT).
Os hospitais privados receberam R$ 388 milhões do SUS em 2004 por 35.592 leitos psiquiátricos. Entre os hospitais psiquiátricos privados, 55 ocupavam mais de 200 leitos e receberam R$ 185 milhões (média anual de R$ 3,4 milhões por hospital). A relação de todos os hospitais que recebem verba do SUS, assim como a série de variáveis relacionadas às AIH pagas, está disponível para tabulação nos CD-ROM distribuídos pelo Ministério da Saúde 9.
O processo de desinstitucionalização dos pacientes psiquiátricos, evidentemente, afeta inúmeros interesses. Até a falta de certidão de nascimento de alguns internos tem sido muitas vezes apontada como empecilho à desinstitucionalização, apesar do registro de nascimento ser um direito do cidadão e sua emissão tardia poder ser agilizada pelo Ministério Público 5.
Mas, significativo percentual de internos tem condições de residir fora do hospital, e mesmo os pacientes mais graves precisam de projetos terapêuticos específicos e não necessariamente de internação. Em geral, as instituições hospitalares brasileiras não possuem programas específicos dirigidos à reabilitação psicossocial 13.
A precária rede extra-hospitalar tem sido utilizada como impedimento à desativação dos leitos psiquiátricos, embora esta gere os recursos necessários para a ampliação daquela. O responsável pela área da saúde mental da Prefeitura de São Paulo, o município mais abastado do país, declarou em 2004 que a cidade não tinha capacidade para suportar uma redução de leitos psiquiátricos e impediu o fechamento de uma clínica recomendado pelo Ministério da Saúde 23.
Por fim, há que se considerar que a desinstitucionalização dos pacientes psiquiátricos, que tem como objetivo direto garantir a reinserção social, a cidadania e o direito da pessoa portadora de transtornos mentais de atingir seu potencial de autonomia na comunidade, deverá também romper o estigma contra os "loucos" e libertar os "normais" de seu aprisionamento à estrutura funcional das sociedades ditas modernas.
Nas sociedades modernas, por influência de Descartes, o corpo é visto como uma complexa máquina e a razão, privilégio do homem, estaria pairando muito acima do corpo. Eventuais descarrilamentos da máquina cerebral dos trilhos da razão, segundo esta concepção, devem ser devidamente consertados, por bem, ou por mal 2.
"'Veja', dizia Ochwiay Biano [chefe dos índios Taos do Novo México] como os brancos têm um ar cruel. Tem lábios finos, nariz em ponta, os rostos sulcados de rugas e deformados. Os olhos têm uma expressão fixa, estão sempre buscando algo. O que procuram? Os brancos sempre desejam alguma coisa, estão sempre inquietos, e não conhecem o repouso. Nós não sabemos o que eles querem. Não os compreendemos e achamos que são loucos!".
"Perguntei-lhe [Jung] então por que pensava que todos os brancos eram loucos. Respondeu-me: 'Eles dizem que pensam com suas cabeças'".
"Mas naturalmente! Com o que pensa você? - perguntei admirado".
"Nós pensamos aqui - disse ele, indicando o coração" 24 (p. 219).
Colaboradores
Todos os autores participaram de todas as etapas da pesquisa e elaboração do artigo.
Agradecimentos
À Maria Luiza Andrade Simões (psicóloga), Dagomar Heriques Lima (Tribunal de Contas da União), pela colaboração e aos pareceristas dos Cadernos de Saúde Pública, pelas sugestões. Este trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Referências
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Correspondência:
S. Kilsztajn
Laboratório de Economia Social
Rua Marquês de Paranaguá 164, apto. 602, São Paulo
SP 01303-050, Brasil
skilmail@gmail.com
Recebido em 11/Jun/2007
Versão final reapresentada em 12/Fev/2008
Aprovado em 03/Mar/2008
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Nassif,
A propósito do tema saude mental, tentei assistir o ultimo Brasilianas.com, mas perdi a paciência com os seus dois convidado: um reacionário e um outro fraquíssimo.
Um abraço,
Marlene
Não foi bom. Não havia contraponto. Estamos preparando um segundo sobre a luta antimanicomial.
Não entendo porque na minha TV não transmite a TV Brasil, tem uns 20 canais, tipo SESC, TV Senado, mas não a TV Brasil e nem o canal que transmite notícias do governo federal. Não sei se é rolo da Net, minha TV pega até o canal que passa propaganda da NET sem que eu tenha assinatura do troço. Mas a TV Brasil não pega, constatei isso dias atrás, ao tentar assistir ao Brasilianas sobre a Cracolandia. Que zorra a comunicação no Brasil, só rola a Globo, essa manda no pedaço e vai dando um jeito de expulsar a boa informação. E leve uma boa animação para o programa sobre a luta anti-manicomial x psiquiatria tradicional.
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Alguns comentários:
Qualquer avaliação ou crítica deve ser feito de acordo com os conhecimentos da época:
Quem recorda o filme "O estranho no ninho", que foi a bandeira da reforma do atendimento psiquiátrico nos EUA, deve ler com aspecto crítico o livro em que o filme se baseou. Qualquer leitor razoável, sem paixão, verificaria que o filme não é fiel ao livro e serviu ao que se desejava naquela ocasião. Quem vê o filme assiste apenas a uma obra de arte, com finalidades específicas naquele momento...
Todos os paises que realizaram a "propalada reforma", hoje estão voltando atrás e tentando corrigir os prejuizos causados aos doentes. Assim ocorre nos EUA, na França, na INglaterra, na Itália e na Alemnha. Logiacamente que não é a reprodução dos antigos hospitais, mas sim estabelecimentos menores e contendo os avanços de conhecimento e de tecnologia, que naquele momento não se possuia...
Os CAPs se constituem em ferramental importante, mas não os únicos. Na vigência de quadros emergenciais ou na vigência de doenças graves (e ignorar a existência de doenças ou é ignorancia ou é o estreitamento ideológico), os CAPs habitualmente não tem condições de dar respostas que respeitem a pessoa humana...
Consultórios de rua...bem, tenho certeza de que em alguns anos, se houver política séria (a que nós temos ai não o é) talvez seja citada como mais uma medida para "engabelar" espiritos ingênuos e de boa vontade...
Mas, enfim, a discussão não tem sido técnica e sim passional e ideológica, por isto é que não se verifica que a necessidade maior deve ser a do doente (que continua existindo, e neste momento no Brasil desassistido)
Sou usuário do CAPS, e para os que acreditam que o psiquiatra Mauro Aranha é motivada por ressentimento... Sinto informar que apesar dos CAPS envolver diveras especialidades no seu atendimento, na prática o médico psiquiatra é o que ocupa papel central. Em primeiro lugar a demanda é muito grande, e não é possível ter atendimento psicológico - que demanda mais tempo - para todos. Para o bem, ou para o mal - segundo a crença dos resistentes -, o acesso a medicação é o grande responsável pela melhora dos pacientes. Seria desejável e melhor a associação de medicação e terapia, mas fato que terapia sem a medicação seria impossível a vida de quem sofre de algum transtorno mental crônico.
Mauro Aranha aponta uma situação complicada: Antes todos que tinham algum transtorno mental eram condenados a segregação, independente do grau do transtorno. Hoje, os transtornos mentais são tratados como se todos os graus de complexidade da doença fossem leves, desconsiderando as especificiadades do estado do paciente e dos diferentes tipos de atenção que estes deveriam receber seja de acordo com a severidade e o momento da doença mental.
Fazer coro contra a psiquiatria é fácil quando se está em bando e distante do chão da clínica. Acreditar em teorias de consíração cria a ilusão de ser mais crítico...
Não vejo viés da psiquiatria contra a psicologia nas colocações de Mauro Aranha, pelo contrário, o que percebo é que ele defende que os usuários da rede pública tenham uma qualidade semelhante dos usuários do sistema privado que têm a oportunidade do acesso ao médico psiquiatra, terapia e internações curtas quando necessário.
Existe um preconceito, um estigma em relação à internação... porém, esta é eficiente em momentos agudos. Quem é usuário do sistema privado conta com uma rede profissional de atendimento, os usuários do sistema público têm a escolha de instituições públicas sucateadas ou instituições assistencialistas - religisiosas.
Enfim, o cerne da questão é que o objetivo de uma reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial deveria ser não zerar o número de internações, mas atender de forma adequada os pacientes, de acordo com o momento e a complexidade específico de cada transtorno mental.
Existe um preconceito, um estigma em relação à internação... porém, esta é eficiente em momentos agudos. (Angelo)
Ângelo, não sou profissional da área da saúde mental mas, como cidadão, participei de algumas atividades da luta anti-manicomial, tipo reuniões, eventos, palestra, manifestações públicas, etc. Como comentei lá mais em cima, convive com o ambiente do velho modelo médico, uma coisa de horror, já comentei lá em cima. Enfim, posso dizer que tenho o mínimo de teoria e contato com a realidade. Não é preciso ser usuário ou profissional da área para que tenha compreensão do quadro. Pelo que sei, o pessoal da luta antimanicomial não é contra a internação e sim contra o comércio que se constrói em torno disso: Tá triste? Interna. Era assim antes da reforma psiquiátrica. Claro que em momentos agudos o atendimento num CAPS não seria adequado. Será mesmo que a rede privada é uma maravilha. Aqui em GO a Deusdeth do Carmo, uma amiga, é da luta antimanicomial, ao fazer uma busca na web achei isso, publicado no Diário da Manhã e reproduzido no site da Associação Brasileira de Psiquiatria:
Clipping do dia: 17/06/2009
Data de veiculação: 17/06/2009
Diário da Manhã
Esquizofrenia e as Constelações Familiares
Artigo do psicólogo clínico Alziro Zarur
Diário da Manhã - GO - OPINIÃO - 17/06/2009
A edição de domingo (14/6) do Diário da Manhã aborda a esquizofrenia e a discussão em torno da reforma psiquiátrica. Alguns defensores da reforma, como a psicóloga Deusdete do Carmo Martins, representante do Conselho Regional de Psicologia (CRP) no Fórum Goiano de Saúde Mental, argumentam que o tratamento não deve ser feito em instituições que isolam o paciente, que o segrega do convívio social. Por outro lado, há profissionais experientes, como o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremego), que defendem que, em momentos de crise, a internação em hospital psiquiátrico torna-se imprescindível.
A esquizofrenia é um grave transtorno mental que tem sido tema de reportagens em jornais, revistas e também na novela Caminho das Índias, da TV Globo, cujo personagem Tasso enfrenta o mais cruel dos preconceitos: o da própria família, que resiste em reconhecê-lo esquizofrênico. Em recente edição, a revista Época mostrou o drama do escritor e poeta Ferreira Gullar, que tem dois filhos com o problema. Mas a discussão deve ser mais ampla, ir além do “interna ou não interna”, comumente abordado na mídia. Devemos ampliar o debate e buscar soluções para o paciente, inclusive soluções novas. Em Caminho das Índias, fica claro que o transtorno atinge toda a família.
Bons argumentos não faltam para defensores e opositores da reforma que, com certeza, é um tema que ainda vai longe. Quero acreditar que todos, no final, sairão ganhando, especialmente os doentes.
Apresento, neste espaço democrático do Diário da Manhã, uma metodologia terapêutica que tem crescido vertiginosamente, sobretudo por sua forma simples e direta na busca de solução dos mais diversos problemas: as Constelações Familiares. Trata-se de um método desenvolvido originalmente pelo psicólogo alemão Bert Hellinger, com sólida base científica, inserido na abordagem sistêmico-fenomenológica. Sistêmico porque o paciente é visto dentro de seu contexto familiar, e o terapeuta se coloca a serviço de todo o sistema familiar na busca de soluções; e fenomenológica porque o terapeuta, o paciente e as pessoas que são chamadas a representar membros de sua família durante o processo terapêutico devem estar dispostos a se abrir à realidade que busca manifestar-se e a aceitá-la tal como é, sem intenções, sem medo e sem apelar para teorias ou experiências anteriores.
O que ocorre numa Constelação Familiar é que um paciente, aleatoriamente, escolhe entre os participantes de um grupo as pessoas que vão representar membros de sua família (pai, mãe, irmão, parceiro etc.) e os posiciona num determinado espaço, uns em relação aos outros. O mais curioso é que os representantes passam a sentir e a expressar sentimentos e comportamentos estranhos a si mesmos e, eventualmente, “captam” sintomas dos membros da família que eles representam, sem nenhuma informação prévia a respeito deles.
O método possibilita vir à luz o pano de fundo das mais diversas questões relacionadas à saúde, como a esquizofrenia, comportamentos destrutivos, dificuldades profissionais e financeiras, relacionamentos amorosos, lutos, perdas etc. O que se percebe é que situações traumáticas vivenciadas na família, em gerações passadas, podem repercutir no futuro, levando pessoas a repetirem, de forma inconsciente, o destino trágico de antepassados. Priorizamos as forças positivas que se mostram no sistema, mobilizando-as de forma que se tornem úteis ao cliente e a seu sistema familiar, ou seja, buscamos um caminho de solução.
Devo advertir que Constelações Familiares é uma forma de terapia complementar para a esquizofrenia e outros transtornos, e que não substitui os tratamentos tradicionais, tanto médico quanto psicológico e, por melhor que seja, não é uma panaceia universal do tipo “resolve tudo”. O que temos observado é que o método tem sido muito útil a pessoas que não obtiveram o resultado esperado nas terapias convencionais.
Na próxima semana, voltarei a falar de Constelações Familiares.
Alziro Zarur Machado é psicólogo clínico
Artigo do psicólogo clínico Alziro Zarur
http://www.abpbrasil.org.br/medicos/clipping/exibClipping/?clipping=9687
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O debate sobre este assunto foi muito bom em 2009, mais um texto daquela época:
"Saúde mental precisa de atenção"
No mês da luta antimanicomial, a Associação Brasileira de Psiquiatria, presidida pelo pernambucano João Alberto Carvalho, chama a atenção para a necessidade de ampliar as ações de reforma psiquiátrica, o que inclui a criação de uma rede integrada e hierarquizada de assistência, desde a atenção primária nas comunidades até às eventuais necessidades de hospitalização. Na entrevista a seguir, Carvalho faz uma análise do processo.
JC – Temos mais de uma década de reforma psiquiátrica e ainda encontramos hospitais lotados de portadores de doença mental? Por quê?
JOÃO CARVALHO – Pernambuco reflete uma condição nacional. O novo modelo de assistência psiquiátrica propôs uma desospitalização. A Associação Brasileira de Psiquiatria não defende os manicômios. A reformulação era necessária e tinha que acontecer. Como a reforma da assistência, passamos a observar fenômenos curiosos. Houve a desospitalização e, paralelamente, não foi garantida uma assistência em termos desejáveis. Não foram progressivamente instalados ambulatórios e outras formas de hospitalização necessárias e indicadas. Os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) foram criados, mas a estrutura não foi concebida para atender toda a demanda psiquiátrica, que inclui dar conta de emergência, hospitalização, reabilitação e ambulatório.
JC – É necessária uma assistência específica para cada tipo de paciente?
CARVALHO – Exatamente. Como em toda medicina, existem graus diferentes de complexidade de doença e que pedem ferramentas específicas. Em psiquiatria, não só existem graus de complexidade como estágios diferentes. Pode haver um momento em que o paciente esteja compensado, na sua rotina. Mas pode existir o momento em que ele precise de uma emergência. Se há precariedade das emergências gerais, o que dizer da psiquiátrica? O paciente precisa ter uma rede integrada e hierarquizada de saúde, onde o paciente tenha a prevenção, passando pela hospitalização se necessário, e ambulatório, que deveria ser a ferramenta mais difundida de atendimento. O paciente precisa ter acesso aos medicamentos essenciais e a unidades psiquiátricas em hospital-geral. Essas ferramentas não foram oferecidas no tempo adequado. Se por um lado você tem alguns avanços e excelências em saúde mental, por outro há retrocesso de décadas.
JC – Por que a reforma não avança?
CARVALHO – Faltou determinação para fazer em tempo apropriado a transição do sistema. A pressa revela muitas vezes a necessidade de uma implantação mais ideológica do que assistencial. O discurso foi privilegiado. A lei existe e tecnicamente representa um avanço inédito, mas falta oferecer o que a lei determina. Publicamos em 2006 e entregamos três vezes ao Ministério da Saúde diretrizes para um modelo de assistência em saúde mental e tem sido muito pouco considerado. Tem sido atualizado a cada ano, com informações de psiquiatria infantil e tratamento da dependência de álcool e drogas.
JC – Se os gestores quiserem cumprir a lei, faltarão psiquiatras?
CARVALHO – Não acho que faltem psiquiatras no Brasil. A questão é a má distribuição. Eles estão mais concentrados na área urbana do que no interior e mais centralizados no Sul e Sudeste do que no Norte e certos Estados do Nordeste e Centro-Oeste. No Maranhão todo, só há 21 médicos psiquiatras. No Amapá e Roraima, são dois ou três. Pernambuco tem um número muito bom, são 166 psiquiatras cadastrados, segundo banco de dados do Ministério da Saúde, mas precisa aumentar o número de vagas de residência. O poder público culpa os médicos pelo déficit, dizendo que eles não querem trabalhar no serviço público. Mas a questão é o que eles oferecem como remuneração justa, plano de cargos e educação continuada. A Associação Brasileira de Psiquiatria tem um programa de educação continuada, virtual, com aulas novas a cada mês e avaliação. Ele tem sido copiado no mundo inteiro.
JC – Como evitar o alto consumo de psicotrópicos?
CARVALHO – A medicalização de problemáticas individuais e sociais é um fato no mundo inteiro. Preconizamos que seja evitado. Se as pessoas têm ferramentas educativas, sociais adequadas, a tendência a experimentar determinadas vicissitudes como doença é nula. Isso reduzem o adoecimento da população. Por isso, é necessário promover campanhas educativas e orientação nas escolas. A Anvisa tem feito um trabalho sério de desestímulo ao uso de remédio sem receita. Mas ainda é um fato a venda sem controle.
JC – Como a população carcerária, portadora de doença mental, está sendo assistida?
CARVALHO – A Associação Brasileira de Psiquiatria participa de uma comissão que visita hospitais de custódia. Visitamos no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Não chegamos ainda a Pernambuco porque somos poucos. Se o doente está no sistema penitenciário é que ele deixou de ser atendido no sistema de saúde. Propomos um diálogo mais íntimo entre saúde e judiciário. O doente mental não é por si só violento. Se tornou-se, é porque faltou tratamento. Quando ele entra no sistema prisional é duplamente estigmatizado. É doente e criminoso.
JC – Como promover saúde mental?
CARVALHO – A prevenção é essencial e possível. A Associação Brasileira de Psiquiatria tem uma série de ferramentas para crianças, escolas e populações em maior risco, como adolescentes e pessoas que vivenciam catástrofes, como enchentes. Detecção precoce de casos, intervenção, encaminhamento rápido, Programa Saúde da Família com retaguarda psiquiátrica necessária para orientar o profissional e uma rede boa constituem o trabalho primário. A prevenção, portanto, passa por saúde, educação, emprego, condições de moradia, diagnóstico precoce e higiene.
Fonte: Jornal do Commércio http://psicoterapiabrasil.blogspot.com/2009_06_14_archive.html Links para esta postagem
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Só prá cocluir, já deveríamos estar avançando para os CAPS virtuais, este texto é de 2009:
Tratamento online contra a depressão é eficaz
Além disso, o programa necessitou de apenas 111 minutos de contato entre o paciente e o médico durante um período de oito semanas, um tempo significativamente menor do que o necessário para outras terapias similares. Gavin Andrews, professor de psiquiatria da Universidade de New South, diz que o estudo é uma surpresa para quem não acreditava que terapias realizadas pela Internet poderiam ser bem-sucedidas.
"Sabíamos que a Internet tinha sucesso tratando fobias sociais e outros problemas de ansiedade, mas essas condições são mais simples. Acreditava-se que a depressão seria mais difícil de tratar por causa da falta de motivação associada com a doença, mas esse não foi o caso", afirma.
Na pesquisa, Andres e seu colega Nick Titov acompanharam 45 pessoas que tinham o diagnóstico de depressão. Essas pessoas passaram por seis sessões online de aulas e tarefas semanais e tinham contato por e-mail uma vez por semana com um psicólogo, além de participarem de um fórum com outros pacientes do programa. Após o fim do programa, 34% dos pacientes não tinham mais os critérios para serem diagnosticados como depressivos, um resultado parecido com os da terapia presencial. 82% dos participantes afirmaram estar satisfeitos com o programa.
Os resultados repetem o sucesso de um estudo-piloto anterior e reafirmam o sucesso de tratamentos experimentais online para outras doenças mentais. A pesquisa mostrou também que a terapia online faz com que os pacientes superem algumas das barreiras que os impedem de procurar tratamento, como o estigma associado a procurar um psicólogo ou psiquiatra. "O programa através da Internet é conveniente", afirma Andrews. "As pessoas podem usá-lo quando quiserem, sem ter que marcar horário e sair de casa. Os participantes participavam dos fóruns à uma da manhã", diz.
Apesar dos resultados animadores, Andrews afirma que eles têm que ser acompanhados com mais estudos. "Se os resultados se repetirem em experimentos maiores, programas online poderão ser utilizados em grande escala para auxiliar programas para a saúde mental que já existem", afirma.
Esta nova modalidade de tratamento poderá ser muito útil na democratização do tratamento contra a depressão, já que poucas pessoas podem pagar para realizar terapia contínua contra a doença no Brasil.
Fonte: Paraná Onlinehttp://psicoterapiabrasil.blogspot.com/2009_06_14_archive.html
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Caro Nassif, boa tarde.
Sou Psicologo, trabalhador da area de saude mental com pacientes graves e cronicos há 9 anos, desde que estava no terceiro ano da graduação, onde fiz estagio por dois anos em um CAPS na região do ABCD, passando a atuar neste percurso em alguns equipamentos como Enfermaria de Saude Mental em um hospital geral e uma Unidade Basica de Saude, alem de militar no Movimento da Luta Antimanicomial desde a epoca da graduação.
Gostaria de manifestar minha opinião sobre o post com a entrevista do Dr. Mauro Aranha e esclarecer alguns pontos que foram distorcidos por ele.
A partir da lei 10.216, conhecida como a lei da reforma psiquiatrica brasileira, toda a assistência no campo da saude mental teria de ser redimensionada, alterando o modelo manicomial, pautado exclusivamente pelas internações - na grande maioria dos casos de longa permanência - nos hospitais psiquiatricos, para os chamados serviços substitutivos, que comporiam uma REDE DE ASSISTÊNCIA na area, composta por diversos equipamentos, desde a entrada do paciente no SUS, atraves das Unidades Basicas de Saude e do Programa Saude da Familia (perto de sua casa, de sua comunidade, no territorio onde o paciente têm seus laços sociais), passando pelos CECCOS (Centros de Cooperativa e Convivência - geralmente sediados em parque publicos e voltados para projetos de geração de renda para os usuarios), chegando nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), cuja atenção é secundaria, ou seja, um serviço especializado de saude mental, com mais recursos que os equipamentos da atenção primaria, até, enfim, chegarmos nas Enfermarias de Saude Mental dentro do hospital geral - ou seja, antigamente todas as patologias podiam ser tratadas no hospital, com exceção dos transtornos psiquiatricos que tinham seu proprio hospital, o psiquiatrico, demarcando por decadas o lugar excludente dos pacientes que sofriam por algum disturbio psiquico; esse foi um avanço importante, porque o paciente da psiquiatria não podia ser internado em um hospital geral, que tinha mais recursos e possibilidade de atender as intercorrências clinicas?
Foi instituido então que caso o paciente necessitasse de internação, que fosse em enfermarias nos hospitais gerais e que a mesma fosse de curta duração, no maximo 90 dias; caso o paciente precise ficar mais tempo o Ministerio Publico precisa ser notificado - assim como as internações involuntarias.
O CAPS, por sua vez, seria o centro desta rede de atenção ao paciente de saude mental, não a unica referência como afirma o Sr. Aranha, regulando todos os equipamentos envolvidos no tratamento do paciente; ou seja, se um caso atendido em uma UBS necessita de um acompanhamento mais especializado, de uma atenção mais especifica (como participar de alguma oficina de trabalho, fazer Terapia Ocupacional ou até mesmo se o paciente começa a dar sinais de que ira entrar em uma crise) este paciente deveri ser encaminhado ao CAPS; na contrapartida, o paciente que sai de uma internação, é encaminhado para o CAPS dar continuidade ao tratamento no pós-crise, uma vez que se trata de um momento importante e que necessita de um cuidado mais especializado para que o paciente não entre novamente em crise, por isso o encaminhamento têm de ser para o CAPS e não para a UBS.
Isto ficou referenciado desta forma a partir da grande experiência ocorrida no primeiro CAPS do Brasil, o CAPS Prof. Luiz da Rocha Cerqueira - mais conhecido como CAPS Itapeva por ficar na rua de mesmo nome, nas imediações da Av Paulista.
Tambem é importante salientar que os CAPS, em sua maioria, atendem pacientes que estão em crise, evitando a internação - feita somente enquanto ultima alternativa - atraves de programas de atenção diaria e intensiva eque existem os chamados CAPS III que funcionam 24hs, com poucos leitos para atender pacientes do serviço que estão em momento de crise, trazendo o beneficio do paciente continuar sendo atendido pela equipe que o acompanha diariamente, que conhece seu caso, sem precisar ser internado.
A reforma não arrasou os atendimentos de alta complexidade, apenas os redimensionou e procurou alternativas para tratar a crise alem da internação. Os equipamentos que ele se refere que funcionavam foram arrasados, tem uma explicação obvia: pra que a necessidade de ambulatorios se o paciente pode ser atendido ambulatorialmente na UBS?; quanto às clinicas psiquiatricas não manicomiais antes da reforma, eu desconheço a existência, pelo menos na saude publica de então.
Na pesquisa que ele se refere, realizada em 2008 pelo CREMESP, trata-se de uma pesquisa realizada por um grupo de psiquiatras do referido órgão com fortes laços com a Associação Brasileira de Psiquiatria - notoria conhecida pelas criticas contundentes à reforma psiquiatrica; dentre os psiquiatras envolvidos destacam-se o Dr. Ronaldo Laranjeiras (que até participou da campanha eleitoral televisiva em 2010 do Sr. Jose Serra) e o Dr. Valentim Gentil (responsavel pelo IPq do Hospital das Clinicas).
É claro que os CAPS, assim como toda a rede de saude mental, precisa evoluir e muito, avançar ainda mais para que se coloque efetivamente o que é proposto pela lei 10.216 e com qualidade; é claro que os profissionais precisam estar qualificados nesta rede. O que não dá é para desconsiderar os avanços da reforma e colocar o CAPS como o responsavel pela pouca efetividade da assistência de alta complexidade.
Outro item que ele não menciona, é que a tal medicação Clozapina (um excelente antipsicotico mesmo) assim como outro medicamento - Olanzapina (tambem antipsicotico) - foi determinado um limite de dosagem para ser distribuido aos pacientes pelo Governo do Estado de São Paulo; ou seja, vamos supor que se um medico psiquiatra conseguia estabilizar um paciente com uma dose de (por exemplo, lembrando que não sou medico) 20mg o estado fornecia no maximo 10mg - uma vez que se trata de medicação de alto custo - o que levou a muitos pacientes que estavam estaveis a entrarem em crise por não ter a dose prescrita.
Lembremos que a politica de saude mental de nosso estado e municipio é pautada pela terceirização dos serviços através das Organizações Sociais; o CAPS Itapeva, reconhecido internacionalmente pela inovação hoje está sob os dominios da UNIFESP (sim, do Dr. Laranjeiras e cia); quase todos os funcionarios que construiram o serviço foram convidados a sair ou sairam por não concordar com o modelo de tratamento, baseado unicamente na medicalização - um serviço que era referência internacional se tornou um modelo de atendimento manicomial de portas abertas, onde o vinculo e a reinserção do usuario ficam em segundo plano (ao inves de estarem no mesmo patamar).
Foi inaugurada a primeira AME (!) Psiquiatria na zona norte de SP; divulgada amplamente pela midia como um novo serviço de atendimento em saude mental, de "ponta", cujo objetivo era que se tornasse um modelo de assistência que pudesse substituir os CAPS; a AME foi gerida por este mesmo grupo forte da psiquiatria, com relações muito proximas ao governo e ao municipio de SP, e nada mais é que um ambulatorio de saude mental com a clinica dividida pelos transtornos, como ambulatorios de esquizofrenia, ambulatorio de transtornos afetivos, de dependentes quimicos etc... exclusivamente atendendo os pacientes sem qualquer projeto de vida para os mesmos, por no maximo seis meses! Ainda bem que esta historia não vingou pela força dos trabalhadores, inclusive segurando crises psicoticas em UBSs para não mandarem para um serviço que seria apenas para medica-lo.
O ECT é uma pratica que viola direitos humanos e que não promove nenhuma transformação do sujeito; serve apenas quando não se consegue tirar o paciente da crise com a medicação e não se sabe mais o que fazer para ajudar o paciente; é assustador o indice de reinternações dos pacientes que são submetidos a tal pratica e é mais assustador ainda praticar tal procedimento ambulatorialmente, com o paciente estavel, como ocorre no IPq do Hospital das Clinicas.
Por fim, é importante deixar claro que os militantes do Movimento da Luta Antimanicomial não são contra a internação, mas que ela ocorra apos todas as tentativas de tirar o paciente da crise sejam esgotadas e que não seja praticada de forma deliberada. Acreditamos na potencia da rede. Nossa lei tem 10 anos; muita coisa foi feita mas temos de fazer muito mais; lembro que a Reforma Psiquiatrica italiana, que serviu de influência para o Brasil e boa parte do mundo no redirecionamento da assistência neste campo, demorou 30 anos para ser totalmente implementada. Que não demore este tempo mas que não retrocedamos às praticas manicomiais.
Forte abraço
Caro, Psi.
Podemos bater um papo?
Meu e-mail: brunopierro@advivo.com.br
Abs
A "Reforma Psiquiátrica" (cujo nome já é bastante esquisito; deveria ser "Reforma da Assistência à Saúde Mental" ou mesmo "Reforma da Assistência Psiquiátrica", mas não "Reforma Psiquiátrica". A Psiquiatria é uma especialidade médica; isso não se reforma. Não existe "Reforma Urológica" ou "Reforma Cardiológica") teve seus avanços, mas é necessário reflexão sobre o momento atual e rever criticamente os avanços e as falhas. Mas os defensores da "Reforma" dificilmente reconhecem o erro de terem acreditado ser possível acabar com os hospitais. Acabar com manicômios, tudo bem. Mas acabar com os hospitais, não dá. Como há mais de 30 anos os hospitais eram todos manicomiais, aceitava-se a confusão. Hoje se sabe que a lógica manicomial não se restringe aos hospitais. Pelo contrário, temos muitos hospitais não-manicomiais e muitos CAPS manicomiais.
Mas um ponto que ninguém jamais toca é o que foi a "Reforma" sob o ponto de vista macroeconômico. Ou seja, sobre o caráter neoliberal da "Reforma". Talvez por isso a "Reforma" seja aplicada por todos os governos, independente dos partidos. Em Minas Gerais, por exemplo, foi defendida e aplicada pelos governos estaduais (do PSDB) e municipal (do PT, em BH). Por que neoliberal? Ora, vejam o que a "Reforma" causou. Fechou a assistência hospitalar pública, enquanto os hospitais psiquiátricos privados se proliferam. Quem tem grana, se interna em um hospital psiquiátrico bacana (nada manicomial). Quem não tem, vai pro CAPS e fica amontoado, sem assistência e sem a menor perspectiva de reinserção social. Destruir a assistência pública e estimular (de forma velada) a assistência privada. Isso foi o que a "Reforma" causou de verdade. Neoliberalismo na veia, reafirmando que o PT não fez nada de muito diferente do PSDB (era apenas um pouco mais privatista...).
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