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Caetano Veloso na polêmica do Creative CommonsEnviado por luisnassif, qui, 10/02/2011 - 12:37
Por edisilva
Acho que este texto do nosso artista maior, Caetano Veloso, esclarece muito mais. Ele, além de defender as suas idéias dignas da veja, ainda critica Lula e a crítica é publicada pelo Minc. Depois o Minc deve ter ficado com vergonha e cortou o texto. Agora só se encontra na página do ministério uma parte do mesmo. Que ele defenda suas idéias, seu dinheiro e sua obra, tudo bem, é direito dele. O problema é o jeito como o faz e é aproveitado pelo "novo Minc". A pérola abaixo: Pontos teimosos (Caetano Veloso) O Globo - RJ, Segundo Caderno, em 06/02/2011 Minha posição pessoal referente à questão dos direitos autorais é idêntica à que atribuí a Jorge Mautner no domingo passado: ninguém toca em nem um centavo dos meus direitos. Um amigo me escreveu da Bahia dizendo que eu usei Mautner como as Forças de Defesa de Israel usam escudos humanos palestinos. Claro que meu amigo anda em ambiente de esquerda: quando fala em escudos humanos palestinos não pensa sequer que extremistas muçulmanos possam fazer uso do expediente – tem que ser a força israelense. Mas talvez ele quisesse dizer que minha posição, que deveria estar lhe parecendo pró-internetetes, coincide com a direita. Bem, não dá para decifrar o que ou quem é esquerda ou direita nessa discussão complicada. O Creative Commons é tido como comunismo cibernético. Não é. Mas há um inglês, radical na mesma linha, que assim se caracteriza. E a complicação da discussão pode ser medida pelo fato de que outro amigo meu, também baiano, me escreveu e, parece que supondo que eu estou com os letristas mineiros e com o Aldir, acusa quem defende os direitos autorais contra a troca livre na internet de “neofobia”. Acabo de ler sobre a grande discussão provocada na Espanha pela lei que procura dar conta da propriedade intelectual diante da realidade da internet. Como todos, sinto-me perdido. Mas o princípio do direito de autor é límpido e eu posso dizer que agarro-me a ele nesse momento obscuro. Não porque preciso agarrar-me a qualquer coisa. Mas porque recuso-me a fingir que vejo a internet como um grande bem que se instaurou entre nós e nos fez mais democráticos. A internet não é, nem nunca me pareceu, algo bom. Nem mau. Ou melhor: sei que é bom (veja a Tunísia e o Egito). E sei que é mau (veja o monte de burrice e loucura que se produz no mundo virtual e seu nefasto efeito de retirar de nós a confiança no que lemos e ouvimos – e de destruir toda mediação que nos possibilita selecionar). Andrew Keen, que escreveu “O culto do amador”, é um moralista de tom panfletário. Mas no essencial ele tem razão. Ou pelo menos não podemos descartar as questões que ele coloca. Li livros que advogam o contrário – do de Lessig (inventor do CC) a um chamado “O dilema do pirata”. Este último cheio de argumentos, histórias e exemplos que tampouco podemos ignorar. Mas o de Keen resulta mais forte em mim. É porque acho que devemos respeitar os direitos autorais. Sem concessões. A internet que se vire. Ela e toda sua multidão de internautas em blogs e redes sociais que se vejam na situação de introjetar as leis da vida off-line, a nossa vida. Daqui de fora, podemos exigir. Estou adorando Dilma. Lula era muito show business (eu já sou saturado do elemento). Dilma mandou guardar a Bíblia e o crucifixo, adiou a decisão sobre a compra dos caças, portou-se magnificamente bem na Argentina. O ministro Patriota já soa como um alívio depois das trapalhadas em tom elegante do seu predecessor. Dilma parece presidir. Claro que temos todos os problemas de grupos disputando cargos e influência – além do grande problema Brasil de sempre: obscena distribuição de renda, educação miserável, infraestrutura “tudo-ainda-é-construção-mas-já-é-ruína”, impotência para controlar os gastos. Sei que estamos no período de lua de mel com a presidente. Mas temos muitas razões para estar confiantes. Se a inflação global não tornar tudo impraticável, Dilma pode fazer um governo muito decente. Sou insuspeito: não votei nela nem aprovei o tom com que Lula e sua turma tocaram a campanha. Mas que tá bom, tá. Serra, nem pensar. Há quem reclame por eu falar de política. Há quem se ressinta da obscuridade do meu estilo. Mas não tenho vontade de abandonar este espaço. Quando li uma entrevista horrorosa que dei recentemente, me senti dispensado de sofrer: tenho minha coluna no GLOBO, as pessoas podem ver como me expresso, de que modo é que sou confuso, quais os pontos teimosos de minha verve opinativa. Quanto à entrevista, não vou culpar os jornalistas: agora sou meio colega e a tradição corporativa da imprensa precisa se manter – sobretudo quando os grandes jornais se veem ameaçados pelo democratismo da internet (não são só os direitos autorais e a Modern Sound que se extinguem). E falo de política porque não quero falar de música. Política me excita. Música me entedia. Tom Jobim já dizia que é besteira pedir a entrevistadores que falem de música com os músicos: estes gostam de tocar, mas quando conversam querem falar sobre política, futebol, sexo, religião. E desde o começo me prometi tratar o mínimo possível de música aqui: não quero me defender criticamente. Embora, claro, talvez o faça sem perceber – e um dia venha a precisar fazê-lo de forma ostensiva. Quem sabe? Na Bahia faz-se força para evitar a construção do Porto Sul, com sua ferrovia e seu pátio de minérios. Sou pelo desenvolvimento e por Dilma, torço pela economia brasileira, mas amo demais a Mata Atlântica ao redor de Ilhéus. Não gostei de “Biutiful”. É o esquema naturalista: crer que se vai mais fundo quando se encara a degradação. Gostei de “Tio Boonmee”, um filme bem maluco, muito bom de contar depois. Quando se vai dizer a quem não viu o filme sobre o que é que ele é, descobre-se quão fascinante é aquilo. Mas já bastava a imagem da búfala na luz da manhã, no prólogo. Eu poderia fazer disto aqui uma coluna gozada de crítica de cinema. Estou adorando Dilma. Lula era muito show business (eu já sou saturado do elemento)
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Comentários + votados
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Arthur Chaves
10/02/2011 - 12:47
" e de destruir toda mediação que nos possibilita selecionar " Na opinião do Caetano, todo mundo deveria ler matérias de fontes 100% confiáveis. Como O Globo, Veja, Folha...
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alext4e
10/02/2011 - 12:54
Faltou ele dizer no final "ou não!" Com todo respeito ao fã do artista, mas Caetano calado é de uma inteligência impar!
Abraços a todos
Alex
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edson sanches
10/02/2011 - 12:58
É bom ler um texto do Caetano atual, pois o que ele destila insere nos interesses corporativos e de classe, inclusive no atual momento que está na moda criticar o Lula e elogiar a Dilma - ontem,...
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Paulo Erivan de Sousa
10/02/2011 - 13:09
Cada um tem seu artista maior. Que pode coincidir com a maioria... ou não. Quanto à opinião de Caetano sobre qualquer coisa, é meio confusa... ou não. Agora, ser meio colega de jornalista e defender...
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Jota Ricardo
10/02/2011 - 13:11
Nosso artista ( com o ego ) maior está sempre tão confuso, onde estou, sou de extremo centro, ou não?
A última frase tem apenas o intuito de provocar risos, como se ninguém soubesse do poço...
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Mário de Oliveira
10/02/2011 - 13:19
Ele vai fazer algum show por esses dias? Lanço essa pergunta por que nos últimos tempos o Caetano, recorrentemente, em busca de promoção "gratuita" dos seus shows, desanda a falar e meter bordoada no...
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ericodc
10/02/2011 - 13:20
como o público é essencialmente dilmista é fácil perceber que se dão vivas aos neo-convertidos, jabour e caetano, o problema é que abaixo da superfície e das superficialidades de caetano, está o...
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Marcos Fernandes Gonçalves
10/02/2011 - 13:22
Caetano falando de política, desculpem-me os fãs (e estou pedindo desculpas a mim mesmo), é um desastre. É uma confusão só. Fico com a impressão de que ele criou uma espécie de "quarto raciocínio",...
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Carlos Henrique Machado
10/02/2011 - 13:26
Lógico que isso causa indignação em muita gente. Acho que o fato relevante nesse encontro perigoso de um Caetano raivoso com o MinC é o fato concreto de estarmos de frente para as...
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Orlando
10/02/2011 - 13:30
Caetano é polêmico [eu mesmo já discordei dele muitas vezes], no entanto, nesse artigo que escreveu, está correto em sua análise.
Farra de direitos autorais [em especial na internet] é muito legal....
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alexandre a.moreira
10/02/2011 - 13:42
Muuuuito melhor compondo e tocando.
Para mim o texto é inútil na discussão.
Extenpoorâneo por que vem de um artista consagrado e, portanto mal qualificado para expressar um conjunto mais abrangente...
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Carlos Henrique Machado
10/02/2011 - 13:48
10 de fevereiro de 2011
MinC alia-se a Cae contra Lula e cultura livre.
http://quadradodosloucos.blogspot.com/2011/02/minc-alia-se-cae-contra-lula-e-cultura.html
No domingo, Caetano...
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aleXandre
10/02/2011 - 13:48
péssimo texto. um monte de idéias desconexas. alguns trechos fazem sentido mas são apenas chavões do PIG. No mais ,puro non sense.
alguém explique presse porraloka que o crucifixo era do lula e...
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alexandre a.moreira
10/02/2011 - 13:53
As pessoas costumam viver do trabalho.
O Luxo que a possibilidade da cópia patrocinava vai ser sempre escrava do meio.
Acho que precisamos ver que as pessoas mais do que viver de autoria...
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Simone del Rio
10/02/2011 - 14:00
O artigo do Caetano foi escrito como uma lucidez insólita, vindo dele. Expõe dúvidas e opiniões interessantes de modo honesto, por exemplo: defender o CC é estar com a esquerda? [ou não?] - "...
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Com todo respeito a sua opinião, o nosso artista maior é Roberto Carlos, depois vem Chico que dá de dez em Caetano.
Tambem gosto de R. Carlos e de Buarque , so que o Roberto não se posiciona politícamente , e Buarque(jabuti) e familia se aliaram ao poder , e isso para um artista popular é mau . O artista tem que estar com o povo e ir a onde o povo esta , ficar e usufruir das beneses do poder é muito feio .
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Para falar essas bobagens, fofocas. Inverdades já esclarecidas - seria bem melhor que ficasse calado... Trabalhando, compondo que há muito não faz.
"Roberto não se posiciona politícamente , e Buarque(jabuti) e familia se aliaram ao poder":
Esqueceu de dizer que Roberto fez operacao plastica, e que Chico Buarque usa Botox, mas que ambos tem mulheres inflaveis, daquelas de plastico mesmo, no guarda-roupas deles, mas que so Belchior ja foi raptado por discos voadores. E que os sapatos da Dilma sao de couro de tubarao, e que o cabelo de Sandy foi armado no Grandes Espectativas e que a cabelereira dela disse que...
Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.
O povo não está com Lula ? Já se esqueceu dos 87%? Se Chico fechou com Dilma/Lula êle estava onde o povo estava, ou não? Estaria contra o povo se tivesse fechado com Serra, como o Caetano Veloso pôr exemplo.
Embora a crítica de Veloso não seja muito legível a respeito da metodologia e a racionalidade ocidental. Como ele mesmo reclama, quando se falou: que ele usou Mautner como escudo israelita. Gente, e feio chamar os outros de direita. Isso quer dizer careta. Não se usa mais esse termo. Não façam isso!
Creative Commons, o direito de criar a sua própria marca sem dar confiança para as grandes corporações de patentes, que coisa excelente. Por exemplo: o tropicalismo podia ter se transformado em uma potência mundial cara! A classe artística tem o direito do controle de suas obras e receber muito bem por elas. Quem disse que só empresário que pode ganhar dinheiro?
Em relação ao Lula, não vejo problema nenhum em uma crítica que ataca o seu egocentrismo, e não, seu caráter ou sua virtude. A crítica de Cae está mais para o ego analfabeto de Lula. Ou seja, não é o fato de saber ler e escrever, e sim, um ego burro que se julga além do conhecimento. O fato de o presidente estar acima de qualquer crítica, só por ser pobre, sofrido, “de esquerda”, é muito chato.
Ass, Lathé
E eu achando que era ironia....
Acabo de descobrir que penso igual a Bruno Tolentino. Caetano só é Caetano por causa da mídia amiga que ele defende e faz o jogo sujo que ela promove contra Lula e o PT. Esta entrevista de 1996 nas páginas amarelas de Veja diz tudo.
Bruno Tolentino
Quero o país de volta
O poeta que passou trinta anos na Europa se diz horrorizado com o baixo nível, acha que o país regrediu e parte para a briga
Geraldo Mayrink
Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Char. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil "As horas de Katharina", e no fim do ano passado mais dois, "Os Deuses de Hoje" e "Os Sapos de Ontem" - todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.
Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merquior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:
VEJA - Por que tantas brigas ao mesmo tempo?
TOLENTINO - Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.
VEJA - Por que não?
TOLENTINO - Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.
VEJA - Qual o problema?
TOLENTINO - Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.
VEJA - Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?
TOLENTINO - Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o showbiz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.
VEJA - O que você tem contra a música popular?
TOLENTINO - Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?
VEJA - O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.
TOLENTINO - Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.
VEJA - Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?
TOLENTINO - Não sabem inglês, nem alemão, nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase "ele tem um pássaro", que é literal, mas que em alemão quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.
VEJA - Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?
TOLENTINO - Na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, que em Lilliput só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: "Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem". Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: "Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e..." É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?
VEJA - Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?
TOLENTINO - O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e - como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? - o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.
VEJA - Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?
TOLENTINO - A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.
VEJA - Caramba... Não sobra nenhum crítico brasileiro?
TOLENTINO - Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim...
VEJA - O senhor também não sobra?
TOLENTINO - Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos crititicos e poetômanos. Infelizmente ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.
VEJA - Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?
TOLENTINO - Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.
VEJA - O senhor poderia dar exemplos disso?
TOLENTINO - Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. "Faz a melhor imitação de poesia que já li", dizia. Parecia piada mas não era.
VEJA - O senhor acha que a imitação é ruim?
TOLENTINO - A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.
VEJA - Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?
TOLENTINO - Só entro numa universidade disfarçado de cachorro, ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.
VEJA - Então as universidades não servem para nada?
TOLENTINO - A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.
VEJA - O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?
TOLENTINO - O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil "ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas", como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos "grandes centros" produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o "rigor" (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.
VEJA - Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado...
TOLENTINO - É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.
VEJA - Tem a ver com o quê?
TOLENTINO - A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.
VEJA - O senhor não está exagerando, sendo duro demais?
TOLENTINO - Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.
VEJA - Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país...
TOLENTINO - O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.
VEJA - Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?
TOLENTINO - Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto se Rui Barbosa, caso tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.
Por acaso o poeta de Recife citado na entrevista é este:
http://www.albertocmelo.com/
Alberto Cunha Melo?
denilsoncel@yahoo.com.br
Não sei responder. Lembrei-me desta entrevista e a joguei nos comentários do post porque no que diz respeito a Caetano cabe bem no que penso sobre ele, o que é dito sobre as demais coisas dá engulhos.
O homem é preconceituoso e megalomaniaco.
Tolentino é um Caetano Veloso mais culto.
Martim Assueros
Entao o que se chama "reacionarismo" no Brasil eh barato assim?
Acho que vou pro Chinatown agora comprar umas sedas.
Assim... ate eu.
Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.
Filosofia brasileira? Que tal pensadores, com um quilo de sal?
Olavo de Carvalho, Miguel Reale, Gianotti? Valha-me Nossa Senhora do Tripé.
Machado imitou os russos?
Os filhos de Tolentino aprenderão que Hannah Arendt não é considerada filósofa pela academia, instituição objeto de ódio dos fascistas (estou imitando Umberto Eco), que os francesses não reconhecem Foucault e Derrida sob esse título, que Matrix é uma droga de filme, voltarão para o Brasil para descobrir também que papai era uma impostura poética. Lerão Carlos Drummond de Andrade, a transcriação de Haroldo ( Octávio Paz nessa altura era uma besta quadrada) e as marvilhosas traduções de Augusto de Campos ( parceiro de Caetano).
Desculpem o post longo -- mas o texto a seguir (de Mateus Marconi) é o melhor que eu li, até agora, sobre este assunto.
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QUEM TEM MEDO DO CREATIVE COMMONS ?
Quem tem acompanhado a recente controvérsia acerca da retirada da licença Creative Commons dosite do Ministério da Cultura, chefiado pela ministra Ana de Hollanda, provavelmente presenciou um embate polêmico entre dois grupos, os dos apoiadores das supracitadas licenças e os seus opositores. A polarização e o discurso inflamado de ambos os lados não parecem ter sido eloquentes o suficiente para esclarecer o ponto central: afinal de contas, as licenças autorais Creative Commons são ou não são benignas para a classe dos criadores de obras intelectuais?
O objetivo deste artigo é lançar uma luz acerca da questão, e esclarecer algumas das dúvidas mais comuns sobre o Creative Commons. O texto não tem como pretensão ser um guia definitivo para as licenças Creative Commons. Qualquer informação aqui reproduzida nada mais é do que o parecer de um único pesquisador e estudioso, podendo (devendo) ser complementada pelo leitor que deseje se valer da licença em alguma obra criativa.
Uma Breve Digressão Histórica
As licenças Creative Commons foram criadas por uma dupla de advogados e professores norte-americanos, Lawrence Lessig (da Universidade de Stanford) e James Boyle (Universidade de Duke). Os professores tiveram como inspiração as GPL’s (General Public Licenses) criadas porRichard Stallman, da Fundação Software Livre. A idéia era estender o trabalho de Stallman do campo do software para o campo do direito autoral tradicional. De acordo com Lessig e muitos outros estudiosos da área, o copyright, que outrora serviu como fomentador da criatividade e das ciências, havia sido cooptado por grandes grupos econômicos, que exerceram um lobby poderoso no decorrer da história para prolongar os prazos de proteção autoral à limites absurdos, com o intuito de prosseguirem lucrando em cima de produtos intelectuais aos quais eles detinham os direitos de exploração.
Na atual sistemática do Copyright americano (e, neste caso, também do direito de autor brasileiro), os prazos de proteção de uma obra se estendem ao limite de 70 anos após a morte do autor. Tal realidade, aliada à dificuldade de se encontrar os detentores ou herdeiros de determinados direitos, assim como negociar certas condições para o licenciamento das obras, gerava um prejuízo às classes criativas, e que no fim das contas afetava a própria produção cultural e intelectual que o copyright, em sua origem, buscava proteger. A solução, ao menos parcial, para tais problemas viria por meio do Creative Commons.
Falta de Informação
Um problema enfrentado logo de cara quando o assunto é Creative Commons é o fato de que muitos profissionais das áreas criativas e jurídica ainda desconhecem quase que completamente o funcionamento das licenças. Isso se dá, provavelmente, pelo fato de que a matéria “propriedade intelectual” não é tratada com o mesmo rigor pelas Faculdades de Direito, do modo como são as outras matérias que compõem a grade do curso no Brasil. O pouco que muitos profissionais conhecem sobre o assunto são reproduções de argumentos criados por professores e doutrinadores que não tiveram contato com a Internet ou a cultura digital. O embate se polariza, então, entre aqueles que defendem conceitos de liberdade e domínio público na Internet, e aqueles que defendem os interesses de grandes grupos econômicos ou associações que sobrevivem da arrecadação de direitos autorais. Os interesses dos autores em si acabam se perdendo em uma área cinzenta no meio do caminho.
“Mas o que, afinal, seria uma licença de uso?”, você se pergunta. Licenças de uso nada mais são do que um nome que se dá para uma espécie de contrato, chamado genericamente de “contrato de adesão”. Existem diversos tipos de contratos de adesão, por exemplo: aqueles que você assina com a sua operadora de telefonia celular, ou com a sua operadora de TV a cabo, onde você aceita uma série de condições em troca da prestação de um serviço. Esses tipos de contratos também são utilizados por grupos econômicos que fecham acordos com artistas e criadores, por exemplo: os contratos de gravadoras musicais, onde não raramente um artista abre mão da exploração patrimonial (econômica) de uma obra, em troca de uma série de benefícios, como os de distribuição de suas músicas, pagamento de royalties, etc.
Onde o Creative Commons se encaixa nessa história? Ele é uma licença de uso e, portanto, em sua essência, um contrato. A lei brasileira de direitos autorais (Lei número 9610/98), assim como a de muitos países ao redor do mundo, reservam todos os direitos sobre uma obra ao seu autor. No caso do Brasil, inclusive, não é necessário a efetivação de qualquer registro da obra para que o direito sobre ela exista (o registro é uma mera formalidade, que serve como via de prova para a existência do direito). Como quem pode mais também pode menos, é possível se fazer contratos onde parte desses direitos são negociados ou transferidos. É o caso, por exemplo, dos contratos que os artistas fecham com as gravadoras musicais, permitindo a elas a exploração econômica de suas criações.
O Contexto Atual
Até aí, nada de errado. Os grandes conglomerados da indústria cultural (conhecidos pelos estudiosos estrangeiros como “cultural gatekeepers”) ganhavam o seu pão de cada dia com a exploração das obras de artistas e escritores, e esses recebiam um percentual em troca, o suficiente para comprar um pão bem menor e mais amassado. No entanto, com o advento da Internet e a subsequente ascensão do file-sharing, peer-to-peer e das redes sociais, as coisas foram mudando de figura. De repente, as classes criativas começaram a se munir de meios mais baratos e eficazes para produzir suas obras, ao mesmo tempo em que os meios de divulgação foram se multiplicando. Não era mais necessário bater nas portas de uma editora ou de uma gravadora para divulgar a sua criação. Tudo podia ser feito diretamente a partir de um computador pessoal.
A perseguição empreendida pela indústria cultural aos file-sharers e evangelistas da cultura digital foge ao escopo desse artigo, cujo objetivo é meramente fazer uma explicitação acerca das licenças Creative Commons. A contextualização acima, no entanto, é necessária para se entender os pontos a seguir desenvolvidos.
O Creative Commons
Como já explicitado, o Creative Commons é um contrato de adesão. A diferença dele para os demais contratos de adesão é que quem estabelece os termos desse contrato é o próprio artista. Tal entendimento já poderia ser feito por meio da lei de direitos autorais, que prega o fato de todos os direitos sobre a obra pertencerem ao autor. Ocorre que dezenas de anos de contratos leoninos praticados por grandes corporações junto aos artistas, em prol de benefícios de produção e divulgação, nos fizeram esquecer do poder que o autor tem sobre a sua própria criação.
Com o Creative Commons, o autor estabelece de antemão as permissões que ele dá ao seu público para o uso de sua obra, sem que ninguém precise entrar em contato com este para pedir a permissão expressamente (uma grande vantagem no cenário digital, onde o público da obra pode atingir dimensões globais). Essas permissões podem ser extremamente maximalistas (permitindo apenas a veiculação e compartilhamento da obra), altamente permissivas (permitirem a criação de obras derivadas, o uso comercial da obra, desde que citada a autoria, etc.), ou um saudável meio-termo. Tudo se faz de forma simples pela Internet, com a vantagem de se tratar de uma licença reconhecida mundialmente, contando até com sinais gráficos, parecidos com placas de trânsito, que facilitam em muito a acepção por leigos (não obstante a dimensão jurídica das licenças se traduzir na forma de contratos muito bem redigidos).
Abaixo, reproduzimos uma tabela (em inglês) com os significados das permissões que podem vir a integrar uma licença. Para uma descrição detalhada das licenças, em português, clique aqui.
Tabela com os significados simbólicos de cada tipo de permissão
Perguntas Frequentes
O Creative Commons é uma ferramenta indispensável?
A resposta é “não”. Tudo o que o Creative Commons faz é padronizar uma série de liberdades que o autor tem para com a sua obra, e que já decorrem da lei. É possível que o autor crie os seus próprios termos sem adotar a chamada “grife” (termo usado pejorativamente pelos detratores da licença) Creative Commons, e para isso, provavelmente deverá contratar os serviços de um advogado. Foi exatamente esse o rumo optado pelo Ministério da Cultura na atual Administração. As desvantagens, no entanto, é que essas permissões não costumam ser perfeitamente redigidas (no caso do MinC, eles citam que o conteúdo do seu site pode ser reproduzido livremente, mas não fazem menção a outros tipos de uso, como a distribuição, que não é a mesma coisa que reprodução na lei brasileira). Outra vantagem de se adotar o Creative Commons é que, pelo fato dele contar com sinais gráficos reconhecidos mundialmente, as licenças conseguem ser comunicadas ao público leigo, não importando a sua nacionalidade.
Se, no entanto, o uso que o autor deseja permitir não se encaixe em nenhuma das hipóteses previstas pelas licenças, e ainda assim ele opte em abrir mão de alguns direitos em prol da coletividade, o rumo aconselhado é que redija a sua própria licença de uso, de preferência assistido por um advogado.
O Creative Commons impede o uso comercial da obra?
A resposta, mais uma vez, é “não”. Muitos escritores e músicos hoje em dia se valem da licença para a divulgação de suas obras, mas não abrem mão de sua exploração comercial. O que precisa ficar claro, é que o uso do Creative Commons estabelece que você, no mínimo, permitirá a divulgação da sua obra por terceiros. É muito comum observar autores de livros lançarem uma cópia digital gratuita de suas obras, e uma outra em formato físico, para venda nas livrarias.
O Creative Commons atende aos interesses nefastos de grandes corporações?
Este é um argumento usualmente utilizado pelos detratores das licenças Creative Commons. O que se coloca aqui é que empresas como Google (dona do YouTube), Flickr, Vimeo e outras plataformas de publicação de conteúdo criativo que se utilizam do creative commons estariam crescendo com base nas obras criativas que são armazenadas em seus servidores. Em síntese, quem defende esta tese, defende que todos os uploaders de vídeos no YouTube deveriam receber uma parcela do lucro que ele teve ao se vender para o Google.
Pois bem, o que essas plataformas fazem é garantir um meio aos seus milhões de usuários de darem vazão à sua criatividade e publicar suas criações em um lugar onde elas poderão ser vistas por milhares de pessoas. Já foi discutido aqui que o Creative Commons não impede a exploração comercial de uma obra. Tais plataformas de publicação de conteúdo nada mais são que um serviço de marketing pessoal, uma grande commodity na chamada “era da informação”, onde a auto promoção é capaz de gerar lucros para quem sabe explorá-la. É bem diferente de tentar fechar um contrato com um canal de televisão ou uma gravadora musical, que não possuem estrutura ou interesse em todo o conteúdo que esses sites são capazes de armazenar, atuando como verdadeiros guardiões meritocráticos do que você pode ver, ler e ouvir.
Por fim, é mesmo ótimo que essas plataformas existam, se multipliquem e prosperem. Isso significa mais dinheiro para contratar mais serviços de hosting para o conteúdo que elas abrigam, gerando em troca um serviço muito melhor, que no fim das contas se traduz como um portifólio pessoal para os seus usuários, não raramente oferecido de modo gratuito.
E, concluindo…
E você, o que acha do Creative Commons? Concorda ou não com a atual política do Ministério da Cultura em relação à licença? Não deixe de fazer o seu comentário e alimentar a discussão.
http://b33p.me/2011/02/04/guia-quem-tem-medo-do-creative-commons/
Esqueci de colocar no início do texto a observação: "ironia legada". O que é uma brincadeira com o artista, pois das músicas dele eu gosto.
Este texto de Cae não é de alguém que não acessa a internet, que fica offline, que é da turma de fora. Muito pelo contrário, ele sabe de tudinho que se passa na blogosfera, o que discutimos aqui, dos assuntos mais centrais, offline ele não é com certeza, plugado sim, conta outra Cae
" e de destruir toda mediação que nos possibilita selecionar " Na opinião do Caetano, todo mundo deveria ler matérias de fontes 100% confiáveis. Como O Globo, Veja, Folha...
Vou fazer um questionamento sem juízo de valor, apenas pensei sobre o assunto e quero opiniões.
A internet possibilita o aumento do leque de opções de informação e debate, nos permitindo buscar outras fontes que não a velha mídia. Qualquer um pode ter seu blog e não precisamos ficar lendo jornalistas que são dos veículos tradicionais. Mas se analisarmos os blogs chamados "progressistas", temos como os mais lidos este do Nassif, o Conversa Afiada, Viomundo e Escrevinhador. Tem vários outros blogs de jornalistas menos conhecidos nesse campo, mas os de grande repercussão e número de acessos são de jornalistas consagrados na velha mídia, é como um selo que nos chama a dar uma credibilidade.
Não existe nenhum blog de política de grande repercussão que não seja de um ex-jornalista da grande mídia, isso demonstra a força que marca tem nas nossas cabeças?
Eu adoro esse blog, estou apenas refletindo.
Caetano não muda, genial quando canta, mas péssimo quando escreve.
Genial quando cantava. Depois que deu de fazer aqueles trinados com o queixo e cantar cucurucucu paloma virou uma meleca.
E quando fala !?
Pense !!
No riquíssimo diálogo entre pelé e caê...
Eu passei a não gostar depois que ele gravou "Sozinho". Quando era acompanhado eu gostava. kkkkk
"Caetano não muda, genial quando canta, mas péssimo quando escreve":
Voce ja chegou a ficar perplexo com o artigo de Cae pro NYTimes ha uns 15 anos atraz quando ele mencionou a falta de calcinhas de Carmem Miranda?
Procure o no site do NYTimes. Eh de cair o queixo.
Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.
Faltou ele dizer no final "ou não!" Com todo respeito ao fã do artista, mas Caetano calado é de uma inteligência impar!
Abraços a todos
Alex
É bom ler um texto do Caetano atual, pois o que ele destila insere nos interesses corporativos e de classe, inclusive no atual momento que está na moda criticar o Lula e elogiar a Dilma - ontem, quarta, o Jabor fez a mesma coisa... Na atual conjectura, a Direita arma-se de todas suas armas para cooptar a todos, políticos, artistas, entre ele está o nosso Caetano Veloso, que responde com muita maestria e bom texto suas idéias retrógadas e conservadoras, como diria um professor com que estudei, "nada mais na manjada onde tudo que é moderno é porque já foi institucionalizado". Sendo assim, Caetano Veloso não repete nada mais que é seguro, pequeno burguês, que são os interesses comezinhos (nem tanto), assim como os verdes. Isso! Os nossos verdes, que são tão caretas, retrógados e conservadores, mas o discurso é "mordenex", assim como defender o mico leão dourado, os saguis... tão bem identificado na nossa representante da Autarquia do Artesanato, Soninha Francine.
Na atual conjectura, tenho medo da Dilma, dela se institucionalizar ao discurso da Direita e fazer mais concessões que o Lula já fez. No atual ministério da Cultura voltamos muito pra trás: o Creative Commons nem tão polêmico é assim.
Achei bem razoável o ponto de vista dele.
Cada um tem seu artista maior. Que pode coincidir com a maioria... ou não. Quanto à opinião de Caetano sobre qualquer coisa, é meio confusa... ou não. Agora, ser meio colega de jornalista e defender a meia dúzia de veículos de famiglias tradicionais, sai prá lá.
"Pela democratização dos veículos de comunicação e pela queda do império da Piglobo."
Nosso artista ( com o ego ) maior está sempre tão confuso, onde estou, sou de extremo centro, ou não?
A última frase tem apenas o intuito de provocar risos, como se ninguém soubesse do poço de vaidades que habita o artista-mor de Santo Amaro.
Ele vai fazer algum show por esses dias? Lanço essa pergunta por que nos últimos tempos o Caetano, recorrentemente, em busca de promoção "gratuita" dos seus shows, desanda a falar e meter bordoada no Lula para ganhar a simpatia e aceder a manchetes na "grande" mídia.
Parceria clara é só recordar as últimas entrevistas, das mais polêmicas, que sempre precediam os shows de sua recente temporada, quando Caetano chegou a chamar o Lula de analfabeto...
O PIG se deleita com as bobagens que o Caetano fala e ele aproveita para promover seus shows!
Mário de Oliveira
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