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As raízes da mídia: a catarse como estiloEnviado por luisnassif, sex, 27/01/2012 - 10:42Mais um trecho do livro "O jornalismo dos anos 90", de 2002, analisando um dos aspectos mais primários da involução da mídia: o marketing da falsa indignação. Em um post anterior, mostrou-se o papel da mídia com Hermes Lima. Comparando-se fases diferentes da vida nacional, há tantos pontos em comum na ação da mídia que parece que o país jamais conseguiu sair do padrão República Velha. O marketing da notícia Ao longo dos anos 90, o desvirtuamento da objetividade jornalística se deu em cima de um padrão recorrente, que só começou a se desmoralizar no ano passado, depois de um profundo desgaste do estilo junto aos leitores. Listo alguns desses instrumentos. O uso da catarse e as raízes do Brasil Em pleno início de milênio, que papel a mídia tem desempenhado para o desenvolvimento brasileiro? Há um sem-número de críticas ao nosso desempenho. Praticamente inexiste o conceito de relevância na matéria jornalística. Em qualquer cobertura de fato relevante, a tendência é de se realçar o imprevisto, a frase que pode gerar conflito, deflagrar a catarse em lugar de relatar a essência do assunto. Existe dificuldade enorme de se conferir tratamento analítico aos temas, de analisar ponto por ponto os diversos ângulos da questão, apresentar as versões conflitantes, inseri-lo em um contexto mais amplo, em suma, pensar de maneira moderna. Em geral as análises são substituídas por opiniões quase sempre taxativas, quase nunca analíticas, que espelham muito mais as preferências do autor do que análises acuradas. Finalmente, a não ser nos seus aspectos mais pitorescos, as teses mais modernas encontram pouco espaço na mídia. A grande mídia, hoje em dia, representa apenas o chamado público comum, mas de maneira passiva, divulgando o que acha que esse público deseja ouvir, com poucas pretensões de agregar informações novas ou mesmo de relatar objetivamente os fatos, quando acha que poderá desagradar o leitor. Nos setores mais dinâmicos da economia, há um trabalho de foco nos consumidores, mas também um esforço enorme na inovação, da capacidade de desenvolver produtos originais, cuja necessidade jamais seria captada em pesquisas de opinião com consumidores –pelo fato de ainda não existirem. No quadro atual da mídia, isso não ocorre. Ao proceder dessa maneira –de buscar a reação imediata, os aspectos que mais chamam à emoção—o que se conseguiu foi ressuscitar valores culturais que, na década de 40, na segunda edição do clássico “Raízes do Brasil” Sérgio Buarque de Hollanda considerava anacrônicos. Apesar do avanço das cidades sobre o modelo rural, dizia ele, apesar dos novos valores que se disseminavam, das mudanças que ocorriam no país, o modo de pensar brasileiro continuava o mesmo do século anterior. Buarque de Hollanda observava que o brasileiro é mais receptivo à declaração peremptória, definitiva, ainda que vazia de conteúdo, mas que não obrigue a pensar. O brasileiro prefere mais a conclusão que a demonstração, “o que fazer” ao “como fazer”, valoriza mais quem critica do que quem faz. Anotava o mestre que outro aspecto amplamente valorizado é o negativismo, calcado em afirmações peremptórias que jamais apontam rumos, mas sempre sugerem a salvação. Até nossos positivistas –dizia Buarque de Hollanda—eram “negativistas”, misturando o discurso moral ao da negação de tudo, como se, negando tudo, se chegasse por milagre à solução. As declarações não costumam guardar lógica entre si, constatava ele. O crítico é capaz de usar conceitos de uma escola de pensamento, no momento seguinte utilizar outro conceito diametralmente oposto, com a mesma ênfase. Buarque de Hollanda não chegou a analisar outra característica cultural brasileira: a de achar que todo sujeito taciturno é profundo, que todo mal humorado é sério, que todo indignado é sincero. Hoje em dia, no Brasil, a indignação virou valor ideológico em si, seja contra o governo, a oposição, seja contra o estacionamento de supermercado. Pouco importa se há razão ou não nela, se venha acompanhada ou não de sugestões de solução (invariavelmente não vem). A indignação virou um valor em si. É uma mixórdia ideológica tão excepcional que alguns dos mais ardentes defensores do carlismo –símbolo máximo da direita brasileira--, até o início da crise foram enaltecidos, por anos, como símbolos das esquerdas. Algumas publicações alternativas –editorialmente muito bem feitas, aliás— juntam críticos literários de direita, sociólogos de esquerda radical, humoristas de esquerda light, e forma-se um todo editorialmente consistente –são todos “indignados”--, embora ideologicamente componham a orquestra do crioulo doido. Não é à toa que a catarse – o oposto da razão – tenha se convertido em padrão jornalístico nesse novo e tão velho modo de pensar.
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Comentários + votados
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Vânia
27/01/2012 - 11:18
Participe da reação contra a proposta absurda da Oi!
Campanha Banda Larga
http://campanhabandalarga.org.br/index.php/2012/01/26/participe-da-reacao-contra-a-proposta-absurda-da-oi/
A Oi entrou...
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Eduardo Ramos
27/01/2012 - 20:14
Nassif, seu texto me remeteu a dois episódios extremamente lamentáveis que retratam fielmente essa mídia "de catarses" que você denuncia, inclusive auxiliado com as palavras do...
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Campanha Banda Larga
http://campanhabandalarga.org.br/index.php/2012/01/26/participe-da-reacao-contra-a-proposta-absurda-da-oi/
A Oi entrou com um pedido de anulação das metas de qualidade para a banda larga definidas em outubro pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Essa atitude demonstra que a empresa não tem nenhum compromisso com a oferta de um serviço de internet de qualidade – nem na banda larga fixa, nem na móvel – via celular ou modem 3G.
A definição dessas metas foi uma conquista da sociedade, que pressionou a agência a adotar, pela primeira vez, parâmetros rigorosos para a qualidade da banda larga, que ainda nem entraram em vigor. O pedido de anulação está nas mãos da Anatel, que abriu uma consulta pública até 1º de fevereiro para ouvir a opinião da sociedade sobre o assunto. Precisamos nos manifestar para impedir qualquer retrocesso!
O Idec produziu uma campanha para reações em massa sobre o tema, com apoio da Campanha Banda Larga é um direito seu! O Avaaz também produziu uma campanha sobre o tema. Entrem e divulguem.
Na segunda-feira, dia 30, haverá um tuitaço para divulgar as campanhas. A ideia é concentrar os tweets por volta de 16h. Algumas sugestões de frases vão abaixo.
#Oicontraqualidade Diga não à proposta da Oi de derrubar os parâmetros de qualidade para a internet! bit.ly/y30A3D @digaoi
#Oicontraqualidade Não deixe a Anatel aceitar a chantagem da Oi contra a qualidade na internet! bit.ly/y30A3D @digaoi
#Oicontraqualidade A Oi é contra a qualidade da internet. Simples assim. Não deixe a Anatel ceder às pressões! bit.ly/y30A3D @digaoi
É importante deixar claro que o pedido da Oi não se sustenta porque:
Entre na página preparada pelo Idec/Campanha Banda larga é um direito seu! e mande sua contribuição para a consulta da Anatel:
http://www.idec.org.br/mobilize-se/campanhas/oicontraqualidade
Entre também na campanha da Avaaz:
http://www.avaaz.org/po/brazil_anatel_vs_oi
Precisamos mobilizar a sociedade para evitar esse retrocesso.
Nassif, você podia dar o link para fazer o download do livro, como nos deu uns anos atrás, para o pessoal que ainda não frequentava aqui.
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”. (Joseph Pulitzer – 1847/1911)
Nassif, seu texto me remeteu a dois episódios extremamente lamentáveis que retratam fielmente essa mídia "de catarses" que você denuncia, inclusive auxiliado com as palavras do Sérgio Buarque de Holanda. O primeiro, a forma sórdida que toda a mídia tratou o acidente da TAM, todo o quadro que você cita, ali exemplificado e até amplificado, com toda a sorte de manipulações. O objetivo era apenas um: provar que "o governo do retirante analfabeto" era uma lástima, que o "PT", e não erro da TAM ou dos pilotos, como se comprovou, era o responsável pela tragédia. "Especialistas" alinhados com a idéia, usavam esse tom, o "indignado", para falar das tais ranhuras da pista, cuja ausência era a "principal causa do aceidente". Houve uma manipulação tão ordinária naquele evento, num primeiro momento, que jornalistas chegaram a chamar Lula de "assassino". O objetivo era "deixar claro" à população como estávamos "entregues às baratas", à incompetência de gente irresponsável, despreparada para governar o Brasil. Tudo o que você bem narra como bom jornalismo - análise apurada dos fatos, debate sob vários ângulos, busca da verdade, etc, etc., simplesmente não passou perto daquele fanatismo obscuro e indigno. Um dos momentos mais sujos da mídia brasileira.
O outro momento, recente, e que talvez as pessoas nem tenham se apercebido da gravidade, foi o artigo do historiador Marco Antonio Vilas no "O Globo", quando utilizando uma linguagem raivosa ("indignada" para os que detestam esse governo...), e de artificialismos pueris, chegou ao ponto de falar em "esgoto montado no Planalto..." - um absurdo, uma insanidade, como se Dilma ou alguém do governo tivesse alguma coisa a ver com o livro, a pesquisa do Amaury Ribeiro Jr. Aqui, como no outro episódio, vergonha atrás de vergonha, falta de caráter atrás de falta de caráter... Nada de verdade, nada de análise racional dos fatos - o que o livro narra e documenta - nada de levantar debates úteis aos brasileiros. Apenas raiva, rancor, tolices e um amontoado de grosserias e mentiras óbvias.
Qualquer um de nós escreveria sem dificuldade, mais algumas centenas de exemplo assim. Esses dois, pelo exagero do baixo nível moral e ético, foram os que mais me chocaram. Aparentemente, a coisa tornou-se tão vulgar e suja na grande mídia, a ponto da repórter da Época, em outro caso recente, pedir que não colocassem seu nome na reportagem sobre o desfile da "Gaviões da Fiel". Ou seja, os próprios profissionais, provavelmente, já não estão suportando esse nível, essa sujeira, esse anti-jornalismo, panfletagem vulgar, nada mais.
Abraço!
Belo texto, Nassif, esse e o outro, do Collor. Falta mapear as referências externas, de Murdoch et caterva.
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