As mudanças globais em tempo real

Coluna Econômica - 29/01/2012

Pela primeira vez na história, o mundo assiste em tempo real a uma crise econômica global, o desmonte das ideias centrais que prorrogaram a vida do velho modelo e as primeiras sementes plantadas para o nascimento os novos tempos.

As crises anteriores davam-se no espaço restrito das altas finanças. Havia uma redoma impedindo que o conhecimento acumulado transbordasse para o mundo da política, da incipiente opinião pública da época e mesmo dos economistas não familiarizados com o mundo financeiro.

A defesa que Celso Furtado fez da política monetária de Rui Barbosa - a maneira como implementou o papel moeda na economia - focalizou apenas o princípio legitimador - criar crédito para a industrialização - não o modo de operação - uma esbórnia ampla beneficiando aliados financeiros, que acabou comprometendo todo o modelo.

Em seu artigo sobre as saídas para o capitalismo, o colunista Martin Wolff, do Financial Times, menciona as análises de Hyman Minsky, que estudou a maneira como o sucesso do financismo planta as raízes para a crise seguinte.

Na primeira etapa, o valor das empresas é dado pelo fluxo de caixa descontado. Ou seja, estimam-se os resultados por um prazo xis e se traz a valor presente de acordo com determinada taxa de juros.

Na privatização, a maneira de derrubar o valor das estatais colocadas à venda era subestimar o fluxo futuro de resultados ou aumentar a taxa de retorno esperada.

A segunda fase é quando o faturamento das empresas pagava os juros.

Parte relevante das privatizações brasileiras foi feita nos chamados “projects finances”. O comprador conseguia um financiamento do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico s Social). Depois, os próprios resultados da empresa pagavam o financiamento contratado.

Muitas jogadas especulativas foram montadas em cima dessa lógica.

A terceira fase é quando especuladores tomam recursos emprestados e adquirem companhias esperando pagar com a simples valorização dos ativos. É o chamado “efeito Ponzi”, que acaba por estourar as bolhas especulativas.

Com o fim do financismo, entra-se em uma nova etapa.

Na crise de 1929, o modelo vitorioso foi do New Deal, de Roosevelt, calcado na geração de empregos, na retomada das atividades básicas da economia, na legitimação política e no combate à especulação.

Agora, entra-se em fase semelhante.

No meio da semana, Martin Wolff, do Financial Times, chamou a atenção do mundo para a importância das políticas sociais – não só como maneira de reconciliar o povo com a política econômica, como de revigorar o mercado de consumo.

Na 5a feira, no Fórum Internacional de Davos, coube a um dos principais arautos do chamado Consenso de Washington – a série de práticas recomendadas a países, que marcou a introdução do neoliberalismo nas economias periféricas – Larry Summers apontar as atividades voltadas ao bem estar da população (educação, saúde) como o novo motor de recuperação das economias.

Aos poucos, a economia global caminha para o mesmo desfecho que levou, no pós-guerra, às três décadas de ouro do capitalismo.

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9 comentários
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Assis Ribeiro

Será mesmo que o único modelo possível seja o capitalismo?

Nada de novo se pode criar que rompa com um modelo que pela sua essência não comporta a solidariedade, palavra que o mundo grita nas várias manifestações pelo mundo afora?

Querem mais uma vez roubar o grito das ruas e substituir por um"avanço" que visa a embromação de mais uma vez prometer a justiça social, como cruelmente, mais com muita "vaselina" o próprio texto menciona? "No meio da semana, Martin Wolff, do Financial Times, chamou a atenção do mundo para a importância das políticas sociais – não só como maneira de reconciliar o povo com a política econômica, como de revigorar o mercado de consumo."

Será que realmente acreditam que o capitalismo será capaz de incluir a "solidariedade, a divisão justa de riqueza? Se assim for terá que mudar de nome do modelo.

Concorrência, competição, lucro, que são máximas "Sine qua non" do capitalismo não permitirá o surgimento de um novo modelo.

Estão mais uma vez querendo enganar com novas promessas que são incompatíveis com o que clama a sociedade, volto a frizar: "solidariedade".

Sem a "solidariedade" que é incompatível com o capitalismo as promessas de inclusão, as preocupações com a fome e pobreza no mundo,  a economia sustentável, se tornam deslavadas mentiras.

 

Assis Ribeiro

 
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Avelino

Caro Nassif

Não é esta a primeiram vez e nem será a última, é apenas o velho capitalismo buscando uma roupa nova, já que a antiga está se desfazendo.

O capitalismo já fez e irá fazer novas mudanças para continuar a  sobreviver.

Ele irá, isto sim, se aproveitar das mudanças que já esão ocorrendo, como no Egito ou ainda no Brasil, para dar novas regras ao futuro.

Aliás, se eu fosse um mega capitalista, adoraria ter governos como do Lula e Dilma, que pelo menos, para mim, será modelo a ser seguido.

Saudações

 

 
 
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urbano

Parabens pelo texto claro e didatico. Esse deveria ser o principal papel do jornalismo economico. Ajudar um leigo em economia a acompanhar o desenvolvimento da crise sem se perder em tecnicalidades que só interessam aos especialistas.

Cada vez fica mais importante o jornalismo que esse bolg (e outros) vem fazendo para reconquistar os leitores que estavam desiludidos com o cinismo e a espetacularização da velha imprensa

 
 
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Abdala

O que tem faltado no Brasil é uma imprensa que saiba identificar essa importante transformação para não deixá-la sem análise. Mas, o que percebemos é que a mediocridade do jornaismo tupiniquin nos tem jogado num mundo de ilusões baratas e políticas rasteiras. Salve, pois, os remanescentes de jornalistas pensantes do país! Òtimo post. Parabéns!

Tomara que jovens jornalistas estejam lendo (às escondidas) o que você escreve para tentar entender o novo mundo que emerge da crise dos anos 2000 sob outra luz. Afinal, a esperança ...

 
 
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Eugênio José Zoqui

Bom dia Nassif e leitores.

A sua visão de crescimento através da criação e da distribuição de renda é muito sensata. Vai de encontro ao divulgado pelo DIEESE em dezembro. Com um pequeno detalhe pouco divulgado: o aumento, que já será pago no quinto dia útil de fevereiro, acarretará gastos extras de R$ 19,8 Bi, porém gerará receita sobre o consumo de R$ 22,9 Bi. Ou seja o saldo ainda será positivo em R$ 3,1 Bi. É a injeção de dinheiro na base que faz a economia crescer. Uma obviedade assustadora, pouco compreendida e muito atacada...

http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/12/28/novo-salario-minimo-vai-injetar-na-economia-r-47-bilhoes-diz-dieese

Novo salário mínimo vai injetar na economia R$47 bilhões, diz DieeseAutor(es): agência o globo:Paulo JustusO Globo - 28/12/2011 

 

Reajuste para R$622 beneficia 47 bilhões e estimula consumo no país

SÃO PAULO. A entrada em vigor do novo salário mínimo de R$622 em 1º de janeiro de 2012 deveinjetar R$47 bilhões na economia brasileira, segundo estimativa divulgada ontem pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Considerando o valor de R$545 em março de 2011, o novo mínimo teve um reajuste nominal de 14,13%; descontada a inflação no período, o ganho real chega a 9,2% para o trabalhador.

Economistas estimam que o novo piso salarial não pressionará as contas públicas. Tampouco deve ter um grande impacto na inflação, num momento em que o Banco Central (BC) ainda luta para levar a taxa para o centro da meta (de 4,5%).

Segundo o Dieese, o aumento de R$77 do salário mínimo trará uma despesa adicional de R$19,8 bilhões sobre a folha de benefícios da Previdência Social do próximo ano, calculado a partir de uma estimativa de R$257 milhões por ano para cada R$1 de aumento no mínimo. A arrecadação sobre o consumo, segundo a entidade, deve mais que compensar esse gasto e crescer R$22,9 bilhões.

- O aumento está perfeitamente dentro das possibilidades das contas públicas. O governo tinha, inclusive, espaço para arredondar o salário para R$625, como já fez em anos anteriores - diz José Silvestre Prado de Oliveira, coordenador de relações sindicais do Dieese.

No caso da inflação, ao contrário do que ocorreu neste ano (em que a renda maior se refletiu num aumento do consumo e da inflação de serviços), o ganho salarial de 2012 deve ser destinado mais ao pagamento de dívidas, segundo o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, Nicola Tingas. Isso porque a desaceleração da economia ao longo de 2011 já se refletiu na queda de consumo no Natal e veio combinada a uma maior inadimplência:

- Mesmo antes do aumento do salário mínimo, a renda líquida já havia diminuído, por causa da inflação e do aumento da renda comprometida com pagamentos parcelados.

Ganho real de 9,2% é o 2º melhor nos últimos 10 anos

A demanda por serviços, que exerceu a maior pressão na inflação ao longo de 2011, também deve arrefecer por causa desse comprometimento de renda, de acordo com Tingas. O professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Antonio Corrêa de Lacerda também acredita que a pressão sobre os serviços em 2012 será menor que a registrada este ano. Ainda assim, diz que a alta dos preços dos serviços deve ficar acima da média geral de inflação.

- Apesar de ficar acima da média no próximo ano, a alta dos preços de serviços deve ser compensada por uma desinflação dos preços das commodities e dos produtos industrializados. Por isso, acredito que a inflação deve fechar o ano no centro da meta definida pelo governo, de 4,5% ao ano - afirma Lacerda.

Os principais setores beneficiados pela alta do mínimo devem ser o alimentício e o de bens de consumo semiduráveis, como calçados e vestuário. Essas são as indústrias mais sensíveis ao ganho salarial da população de baixa renda, segundo Oliveira.

O reajuste do mínimo deve atingir 47,6 milhões de pessoas, entre beneficiários da Previdência e trabalhadores. Mais da metade das pessoas empregadas no Brasil (50,3%) recebe até um salário mínimo. A proporção dos beneficiados é maior nas regiões Norte, onde chega a 63,2%, e Nordeste, onde 63,2% das pessoas estão nessa faixa de renda. O reajuste real de 9,2% é o segundo melhor dos últimos dez anos, atrás apenas dos 13,04% registrados em 2006.

 
 
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Luiz Lima

Dificilmente haverá qualquer avanço se não for resolvida a questão, inexorável, da destruição do capital fictício, isto é, o write-off massivo de títulos financeiros. Em 2009, o total de ativos financeiros alcançava cerca de USD 212 trilhões. Somando-se o estoque de derivativos, o total chega a mais de USD 800 trilhões. Isto significa que precisamos de cerca de 12 Terras para satisfazer os direitos sobre a riqueza criados em um único planeta...

Como esta questão se resolverá, deixo à imaginação d@s amig@s. Lembro apenas que a Grande Depressão de 1873 (que foi "tratada", como a atual, com "remédios" liberais) foi resolvida com a I Guerra Mundial, e a depressão de 1929, com a II GM...

 
 
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Chico Pedro

Há um desejo danado de dizer a respeito de processos históricos altamente complexos. Caminha muito mais para o prazer da profecia que por observação prudente das coisas.

Boa parte das pessoas que participaram desse financismo estão hoje ao lado do Obama.

Boa parte da vontade de punir culpados e regulamentar o sistema financeiro norte-americano não existe mais hoje. Sob a ótica de uma economia global há hoje mais desemprego, desigualdade e o risco de algumas ondas de migração, xenofobia e desastres ambientais.

As possibilidades são muito amplas e o que de fato acontece é dentro de um mesmo país ou região ocorrer simultaneamente avanços e retrocessos. Depois de sempre foi assim, inclusive, apenas é mais evidente nos dias de hoje.

O nosso caso é exemplar. A economia cresce? a importação de produtos chineses também. Investe-se mais em tecnologia? O INPI demora 10 anos para conceder uma patente. Vendem-se mais carros? A mobilidade urbana nunca foi tão ruim.

E por aí vai..

 
 
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Calvin

"prorrogaram a vida do velho modelo"?

Desculpe, mas prá mim nada é mais velho que o getulismo...

 
 
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Aall

um pequeno anddeo:a economist faz uma injustie7a ao ne3o acrescentar no processo a discusse3o alca, unie3o europe9ia-mercosul. para a china, assim como para jape3o e core9ia, uma parceria com o brasil sf3 e9 urgente numa situae7e3o de formae7e3o de um bloco comercial que ve1 exclued-la. como o bloco ne3o e9 formado, o processo se arrasta e a ameae7a ne3o vem. essa ne3o e9 nova. artigos de 93, 95 e 2000 je1 dizem a mesma coisa. outra coisa: cooperae7e3o entre governos e9 uma coisa. cooperae7e3o comercial ne3o existe. e o brasil o mundo inteiro, enfim ne3o tem condie7f5es de competir. o problema todo e9 que a china no momento ne3o tem competidor no mundo. he1 um meas a china comee7ou a exportar carros para a europa, que custam quatro mil df3lares a menos que o mesmo modelo feito na europa e cinco mil df3lares a menos que o modelo americano. os empregos nesses dois lugares ve3o virar pf3 antes de algo acontecer a china. com o jape3o foi fe1cil. foram le1, manipularam o sistema e pronto. com o leste asie1tico tambe9m. mas e quando o teu competidor, ale9m de mais eficiente e barato, tambe9m tem poder militar?e a ameae7a da edndia ne3o e9 te3o se9ria assim. a maior parte dos investimentos na china e9 asie1tica. e9 meio difedcil que seja deslocada para outro continente. o padre3o de investimento asie1tico e9 diferente do ocidental. ne3o foi pequeno, no fim, mas pelo menos e9 um anddeo.

 
 

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