As dúvidas sobre a TV Cultura

Autor: 

Do Estadão

Cultura pra quê?

Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo

Um dia a massa há de provar do
biscoito fino que fabrico.
(Oswald de Andrade)

Que pena. Cada vez que me decido a escrever uma crônica mais leve nesta coluna (não ouso dizer literária. Bem, já disse), o sentimento do mundo me pega não como a doce melancolia do poeta, mas como um paralelepípedo na testa. Não sou capaz de recusar o debate público. Deve ser um sintoma grave, desses que não têm cura depois de certa idade.

Desta vez, a acalorada discussão em torno do projeto de desmanche da TV Cultura me pegou pela cabeça e pelo coração. O economista João Sayad é um homem público respeitável. Conseguiu botar em ordem as finanças da Prefeitura de São Paulo depois da calamitosa gestão Celso Pitta. O ministro Fernando Haddad contou que foi em conversa com ele que surgiu o projeto dos CEUs, oásis de cultura e sociabilidade a quebrar a aridez da vida nos bairros mais pobres da cidade. João Sayad não precisa de prestígio. Já tem.

Por isso não entendo o que o levou a assumir a presidência de um empreendimento que ele não conhece, não parece interessado em conhecer e, acima de tudo, evidentemente não gosta. Até o momento não li nem ouvi falar de nenhuma proposta criativa de Sayad para a TV Cultura. Nenhum novo projeto de programa, de modificação na grade, nenhum novo conceito sobre o papel da única tevê pública de canal aberto do Estado mais rico do Brasil. Tudo o que se sabe é que o economista veio para cortar gastos. Demitir ¾ dos funcionários! Impossível imaginar que a Fundação abrigasse 1.400 empregados inúteis. Tal enxugamento da folha de pagamentos visa a exterminar o quê? A própria programação.

Tudo leva a crer que Sayad não tinha ideia do que a TV Cultura já fez e ainda faz; em reunião interna demonstrou desconhecer até mesmo um diretor da importância do Fernando Faro, embora não haja sinais de que vá interromper o melhor programa musical do País, que além do mais se tornou um arquivo vivo da memória da música brasileira. Fora isso, terá vindo apenas para encolher os gastos da emissora, com a fúria de um exterminador do futuro? Não haverá argumento que o convença da importância de usar dinheiro público para a experimentação, a invenção e a aposta em programas de qualidade, diferenciados da mesmice das emissoras comerciais? As primeiras notícias falam em venda dos estúdios e dos equipamentos, demissões em massa e redução da TV Cultura a um pequeno e mesquinho balcão de compra de enlatados. Faz tempo que uma decisão política não me causava tristeza tão grande.

Sendo a economia de verba sua única proposta, gostaria de saber qual o destino de todo o dinheiro que ele haverá, sem dúvida, de poupar com o encolhimento da Cultura. Que se revejam as contas da emissora para eliminar possíveis desperdícios e inoperâncias, vá lá. Mas por que um Estado rico como o nosso precisa ser tão mesquinho nos gastos com sua TV pública? Uma Secretaria (infelizmente entregue a outro homem que não gosta disso) que pode manter a Osesp para usufruto da elite paulista, que pode construir um luxuoso Teatro da Dança, outro da Ópera, para a mesma elite - não pode manter uma TV experimental para um público, não necessariamente elitista, mas pequeno? O argumento é que ela é irrelevante em termos de Ibope. Então, tá. Quantos milhões de telespectadores são necessários na planilha do atual gestor para justificar a existência de uma emissora que funciona como laboratório de programas ligados à cultura brasileira e internacional, e que conta com um público muitas vezes mais numeroso do que o que cabe na Sala São Paulo? Não escrevo isto para criticar a Osesp. Que floresçam mil Osesps pelo Estado, pelo País. Uma só Osesp é mais progressista do que todas as pontes e viadutos que um governo possa construir. Faço a comparação para mostrar o absurdo de se desmontar, com argumentos de planilha, uma televisão pública que utiliza sua verba para oferecer biscoito fino à massa.

Escolho, para terminar, o triste exemplo de um programa que já foi extinto pela atual direção: Manos e Minas. Um corajoso programa de auditório dedicado ao hip hop, levado ao ar ao vivo nos sábados à tarde sob o comando de Rap in Hood, que estreou em CD lá por 2000, cantando: "eu tenho o microfone/ é tudo no meu nome". Ter acesso ao microfone e falar em nome próprio: na plateia, meninos e meninas de pele escura, "bombeta e moleton", não se distinguem dos mesmos meninos e meninas que sobem para dar seu recado no palco. Enfim, alguém teve a ousadia de dar visibilidade à atividade musical dos jovens da periferia de São Paulo, acostumados a só existir na mídia quando algum dentre eles comete um crime.

Manos e Minas não precisa de argumentos de segurança pública para se justificar. Dar espaço ao rap na televisão é importante por si só. Mas a decisão de acabar com o programa nos faz refletir sobre o modo como a elite paulista concebe a inclusão simbólica da periferia na produção cultural da cidade: não concebe. Daí que a pobreza, aqui, seja um problema exclusivo de segurança pública. A extinção de Manos e Minas lembra, não pelo conteúdo, mas pelo princípio operante, as desastradas políticas de "limpeza" da cracolândia. Quem mais, senão uma TV pública, poderia investir na visibilidade dos artistas da periferia? 

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16 comentários
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Flavio

São Paulo tem governador? Ou o homi é insubstituivel e alguem tá lá só para sentar na cadeira?

 

Paulistas, continuem votando nos tucanos e sejam felizes!

 
 
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braga

nota dez com louvor. parabens mesmo.

 
 
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luismalheiro

Em matéria de 2008 da Bravo:

São Paulo Companhia de Dança: R$ 13 milhões

Osesp: R$ 43 milhões

Segundo este link da própria TV Cultura, em  2007 sua verba era de R$150milhões.

Eu não sei quantas pessoas a OSESP e a SPCD alcançam, mas arrisco chutar que a TV Cultura tem melhor relação custo/benefício, principalmente se pensarmos que fica no "ar" muito mais tempo que a OSESP e a SPCD... Porém não sei dizer quanto a OSESP e a SPCD arrecadam em ingressos, assinaturas, patrocínio.

Já que o problema do Sayad parece ser administração de planilhas, não seria o caso de juntar mais alguns dados e mais atuais, só para efeito de comparação? Além do gasto e público coberto, existe a faixa de renda dessas pessoas, a disponibilidade no interior e o número de funcionários das instituições, só para começar.

 

 

 
 
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socram pb

Acho que essa linha de pensamento é equivocada quando se trata de cultura. Uma orquestra sinfônica ou um grupo de balé não pode ser classificado dentro de uma relação custo/beneficío direta. Não importa quantas pessoas diretamente assistem a OSESP - que praticamente lota o teatro 3 vezes por semana - mas o impacto que causa na cultura como um todo.

Esse conceito pode e deve ser extendido a quaisquer outras manifestações culturais : escola de samba, um show de tango argentino, uma exposição, uma peça teatral, um show de rap, e por aí vai.

E também esse mesmo raciocínio se extende à TV Cultura. O impacto dela é maior do que sua audiência direta.

O pensamento cultural não é capitalista no sentido de lucro. Não se pode ter uma TV Cultura, uma OSESP, ou qualquer manifestação cultural visando lucro. Aí deixa de ser cultura e passa a ser produto de mercado (o que obviamente também tem sua importância cultural ainda que em 2º plano).

 
 
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jotaí de oliveira

Bravo! bravíssimo! Alguém tinha que falar desse absurdo. Esse desmonte é mais uma criação teratológica do pensamento imediatista, sem qualquer altruísmo ou visão de longo prazo. É por isso que alguns administradores da coisa pública ficam com os nomes gravados na História com marcas indeléveis, e outros que não merecem nem nota de rodapé. O governo de SP, nesse episódio, é do segundo tipo.

 
 
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Gabriela Martins

Já disse outras vezes, TV e Rádio Cultura de São Paulo preferem dar visibilidade a um concerto de órgao no Mosteiro de São Bento a investir em cutura popular. Afinal, quem conhece obras de órgão?  

 
 
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ALON

Maria Rita Kehl sempre maravilhosa.

As vezes dá vergonha de morar na cidade onde se concentra a elita branca cheirosa.

 
 
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Natália

Nassif, acho que o projeto dos CEUs não foi idéia do Sayad, não.

O projeto dos CEUs veio de uma equipe de arquitetos da EDIF/PMSP que desenvolveu a idéia de Centros de Estruturação Urbana, (rebatizados de Centro de Educação Unificada pela gestão do PT) que concentrariam administração/cultura/educação/saúde em cada subprefeitura.

vai aí um link de interesse:

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.055/517

 
 
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Alexandre Rodrigues Vianna

A ideia dos CEUS é de Anísio Teixeira, conforme consta aqui:

http://www.umes.org.br/umes/noticias.php?ID=649

 
 
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Natália

Não, a idéia dos CEUs foi inspirada nas propostas do Anísio Teixeira. Quem desenvolveu o conceito do CEUs, inspirado no A.Teixeira, foram os arquitetos da EDIF/PMSP (Pref. Municipal de São Paulo). Esses arquitetos foram meus professores na faculdade.

Abraço

Natália

 
 
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Natercia

Natália,

O Ministro, diga-se de passagem, ótimo Ministro, sempre quer ser o autor da idéia dos CEUs.

Ainda bem que você veio recuperar a verdade!!!!

 
 
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Marco Vitis

Maria Rita

Não se iluda com o João Sayad. Confirme com os conselheiros da TV Cultura. Ele sempre defendeu que a TV Cultura tenha uma programação que atenda à elite econômica paulistana.  Não é por acaso que Manos e Minas teve o privilégio de ser detonado. Trata-se de uma concepção elitista e que se apropria de recursos públicos para benefícios privados. 

 
 
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Jair Fonseca

Salve, Maria Rita Kehl. Salve-se a Cultura!

 
 
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anonimo

TV pública tinha que ser só para artista do povo, gente que vive no meio do povão. Dezenas de jovens que fazem TV em escola pública  e favelas é que deveriam trabalhar nessa. E não quem já é  milhionário as custa até do PIG.

 
 
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Paulo Vianna

Perfeito.

 
 
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"Ricardo"

Até eu que não vi metade da década de 80 acontecer (nasci nas Diretas) já sei do tamanho da obra do Bacharel Fernando Faro. E o Haddad devia ir atrás das idéias do Darcy Ribeiro, se for verdade que precisou esperar tanto para receber a idéia do CEU. Quem sabe fica conhecendo o Paulo Freire também, e de quebra o Sergio Buarque, o Chico, e aquele pessoal todo da ligado àquele movimento lá. E quem sabe arejar um pouco das rodas do clube do poder amplie as idéias, e ele vá ver a periferia que exige ler o Flaubert, e discute Direito Autoral no MPB, de um jeito que nem os doutores conseguiram, ainda.

 
 

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