Nossa página está em teste e sua contribuição será valiosa.
Participe com sugestões e auxilie na construção.
Relacione aqui sugestões e problemas que tenha encontrado. Esse espaço também é seu!
Nossa página está em teste e sua contribuição será valiosa.
Participe com sugestões e auxilie na construção.
Relacione aqui sugestões e problemas que tenha encontrado. Esse espaço também é seu!
|
|
|
Brasilianas.Org |
|
Algumas falas da CracolândiaEnviado por luisnassif, seg, 09/01/2012 - 20:39
Autor:
Ricardo Queiroz Pinheiro postado no: http://klaxonsbc.com/2012/01/08/algumas-falas-da-cracolandia/ A loucura se reveste de varias e infinitas formas;é possível que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta; é uma porção de coisas diferentes. Lima Barreto – trecho de Cemitério dos Vivos O taxista Gilberto, 12 anos trabalhando na região da Cracolândia, fala sem pensar muito: - Tem “nóia”, tem menino aventureiro, ladrão, traficante, gente desiludida … e muita tristeza… Gilberto fica parado na Avenida Rio Branco, perto do quadrilátero que já foi chamado do prazer, perto da zona, perto do fim da cidade. A semana da eugenia, da gentrificação, do higienismo, do “vamos vencer pela dor” marca um divisor de águas. Varrer a droga é difícil, então é melhor varrer as pessoas. Não, não, nunca houve uma interrupção na lógica de expulsar. Do centro pra longe. O centro é a síntese da exclusão que a cidade opera no geral. O centro não pode ser dos “nóias”. Avante, espírito bandeirante. E pergunto ao menino seu nome, ele diz que não tem nome há bastante tempo. Não insisto, seu nome foi embora e ficou o olho retesado, o resquício de ironia que ele arranca da boca e me faz sorrir, meio torto: - Minha família tá perdida na quebra, na ZL, eu tô aqui… não tô perdido…tio, depois desse lance da Copa do Mundo a coisa melhora, mas os coxinha … as noites são de horror. Eu fico com meu pensamento confortável a imaginar as noites de horror, de sono interrompido, de sono inexistente. A vida porrada não é videogame. O menino vai embora e dá de ombros dizendo que o um real que eu dei pra ele é falso. Sorri maneiro, ele não tem nome, mas ainda tem graça. Some na rua qualquer. Manhã de sábado, o sol estalando, o comércio correndo solto. Nas bordas da Rua Santa Ifigênia se vende de tudo. Tem gente circulando, não como sempre, pois, mês de férias. Mas o movimento dos nóias é diferente. Um sem rumo, não pode aglomerar, nem bodar na calçada. Tem que circular, os olhos vidrados parecem faróis no meio do clarão do sol, a cidade grande fica pequena. Cobertor encardido, roupa no corpo há dias, mão tremendo, sorriso indefinido ou olhar em lugar nenhum. Não tem glamour nesta droga. E de novo Gilberto, o taxista: - Aos poucos os moradores de rua foram se misturando ao exército da droga e aí ninguém sabia mais quem era quem. Conheço morador de rua que virou nóia, que virou puta, as pessoas mudam toda hora de lugar nesta vida… É evidente que em meio aos viciados em crack nas ruas, têm famílias inteiras, solitários, os perdedores de sempre. A droga é parte da coisa. A quantidade de pessoas pelo centro de SP andando a esmo com os olhos estalados pela química, pelo medo, pela desorientação é impressionante. Os catadores de papel solidários entre si, em geral com suas garrafinhas de plástico com pinga e seus cachorros inseparáveis. Pedro do Boné, catador de papel, 15 anos na rua, golando uma branquinha: - Os nóias se esticam por ai como a gente. Não incomodam. Não mexendo no meu carrinho, vivo a vida. Não cabe romantismo, são vários tipos, o rapaz que veste roupas de marca e que parece apenas ter dormido uma noite por ali. Não esta no trapejo, na batida das ruas. Será nóia, será trafica, meio cismado, misturado ao exército de tipos de rua, cochicha no ouvido de um rapaz e saí vazado pela Rua Vitória. Ao olho nú de quem passa rápido é mais um. Volta depois e faz o movimento. Na função, normalmente. O moço cismado, com a camisa do Atlético – MG sentado no sujinho: - Continua tudo rolando, nada mudou. Quem ganha dinheiro continua a ganhar, quem perde a vida… nóia? Só espalharam por aí… No sujinho perdura a falação, o sentimento geral é de que não vai ter jeito, os nóias vão voltar. Os anos passaram e a convivência com o crack, com os pedreiros e com o movimento ao redor faz parte da vida daquela gente. Tem a violência, a sujeira, as relações se misturam: medo, desprezo, compaixão, repulsa, uma solidadariedade ali e aqui. A cerveja é quente demais. Peço uma Brahma que saí da geladeira formal. Quente. O espaço é confinado. No meio da Duque de Caxias, um brutamonte com um taco de baseball na mão e capacete de motoqueiro cravado na cabeça corre atrás de uma dúzia de nóias. Blade Runner. A fala é seca, o brutamonte: vocês já conhecem a gente, é simples, só vazar… os rapazes, velhos, crianças, moças, aos trancos e barrancos correm e vazam e nem sabem para onde. Uns xingam, quixotes. Volto ao Gilberto, o taxista: - Quem são esses caras com taco de baseball? – Seguranças das lojas… bom, você não vai me complicar? Tranqüilizo o capixaba que mora no centro desde 1993 e trabalha como taxista desde 2000: - Não tenho como, não vou e não quero te prejudicar, no máximo ponho isso no blog e você se chamará Gilberto, ok? - Esses caras são de empresas de segurança e ficam ali, eles não batem em ninguém, apenas dispersam o povo. Nóia tem lei, morador de rua tem lei, segurança tem lei… agora eles entenderem a lei dos PMS…vixe… O debate do boteco come solto. A conversa passa sobre o prédio que não caiu (acham que roubaram a dinamite), assuntos locais, futebol, as correrias de cada um… e claro, os nóias. A cerveja quente no dia quente já não faz diferença. O amigo do atleticano, com sotaque forte do interior de São Paulo arremata: - É como barata, não tem jeito, tem que matar, senão volta em dobro. Outro dia dei uns trocados pra um deles, voltou com uma faca para me roubar na mesma hora. Trabalho aqui e tenho que me defender, dei umas pauladas… é como barata... Passei por várias praças, todos com carros da PM estacionados. Nem sempre é assim tão rigoroso. Largo Santa Ifigênia, Sala São Paulo, Estação da Luz, Museu da Língua, Praça Princesa Isabel, Praça General Osório … tudo bem guardado. Um rapaz, idade indefinida (não dá pra chutar) abraça uma garota que dá pra definir a idade, tem menos que 15 anos. Os dois deliram no sol, parece sonho conjunto, mas ali no máximo é bad tripde asfalto, pesadelo de verdade, sem música de fundo. Não tem amor que resista. Dois minutos, ele sai praguejando e batendo os braços: - Vai ser muié de coxinha, porra… saí da minha reta… Três horas e meia bandeando por ali, vou ficando sem função, como dizem os descolados: dando guela. Vou embora. Peço pro Gilberto, agora quase brother, pra me levar para o outro lado da cidade (eu tinha pra onde ir). A gente foi papeando, pergunto se ele já não cansou daquela tensão da região. Gilberto olha pra baixo e responde sincero: - Engraçado, acostumei, fui ficando, agora não saio mais… no final das contas todo mundo ali é gente, boa e ruim… A Cracolândia tem gente, uns trabalham, uns moram, outros morrem. Gente não se dispersa assim, não dá pra varrer.
Faça seu login e aproveite as funções multímidia!
|
Comentários + votados
1
-
Lucas Gordon
09/01/2012 - 20:48
Lindo texto!
Usuários de crack também são cidadãos, tem história, nome, dignidade! Tem direito a escolher o que é melhor para sua vida, direito de buscar o serviço de saúde se precisa de alguma ajuda...
5
2
-
Taques
09/01/2012 - 21:39
Se a ação fosse num morro carioca o texto provavelmente seria ufanista mas como foi em São Paulo, lá vem porrada. Olhem que profundo:
"O centro é a síntese da exclusão que a cidade...
5
4
-
Jotavê
09/01/2012 - 22:52
É comovente, mas não podemos perder de vista o problema objetivo, que permanece. Dependência química pode muitas vezes produzir comportamentos anti-sociais. O que pode fazer uma família que vê sua...
5
5
-
José Carlos Lima
10/01/2012 - 07:49
Exto do Ricardo tem um outro viés, muito mais profundo: Nenhum cidadão pode ser restringido a uma peça terapêutica, indo além disso: Há vivências, histórias, belezas, sentimentos... Coisas a...
5
6
-
Raí
09/01/2012 - 21:36
Maravilhosa a sua matéria, Ricardo !
Pena que poucos habitantes desta megalópole, tenham conciencia desta situação surrealista(porem real) destes nossos irmãos, que foram "jogados" na Cracolandia,...
1 Carregando
Posts de hoje
Mais Lidos da SemanaTagsBanco do Brasil
bancos
banda larga
Bolsa Família
Bresser-Pereira
capitalismo
Casa Civil
Cidades
Crise
crise mundial
desemprego
Dilma Rousseff
Economia
Educação
Educação
Folha
Gestão
Gestão Pública
Habitação
impostos
investimentos
IPEA
moradores de rua
municípios
Mídia
oposição
PAC
Política
Políticas Sociais
Software
São Paulo
Tecnologia
telebras
Universidade
Universidades
|
Lindo texto!
Usuários de crack também são cidadãos, tem história, nome, dignidade! Tem direito a escolher o que é melhor para sua vida, direito de buscar o serviço de saúde se precisa de alguma ajuda (como parar de usar, ou apenas diminuir os problemas decorrentes do uso), se ser tratado como gente pela polícia, de ser ouvido e expressar suas opiniões a respeito das políticas públicas que os afeta diretamente.
Maravilhosa a sua matéria, Ricardo !
Pena que poucos habitantes desta megalópole, tenham conciencia desta situação surrealista(porem real) destes nossos irmãos, que foram "jogados" na Cracolandia, pela falta de assistencia médica preventiva e curativa, das nossas ineficientes Secretarias de Saúde Municipais e Estaduais, e que isto os façam repensar a educação que deve começar em casa, continuar na escola, e ser acompanhada constantemente.
A demonstração de fôrça que as Polícias Civil e Militar estão fazendo, é puro teatro, e efetivamente, só irá espalhar aqueles pobbres coitados, ora em fuga, para outras áreas, e assim como todo pó, quando ligamos o ventilador, ele não some, apenas espalha-se, e volta a incomodar.
Sempre ficamos mais experientes, após perdermos algumas batalhas, na guerra diária da vida.
Se a ação fosse num morro carioca o texto provavelmente seria ufanista mas como foi em São Paulo, lá vem porrada. Olhem que profundo:
"O centro é a síntese da exclusão que a cidade opera no geral. O centro não pode ser dos nóias. Avante, espírito bandeirante".
Para um desavisado a cidade deve ser a meca da exclusão.
Pergunto ao autor: qual metrópole do mundo que elegeu como prefeito um descendente árabe (Maluf), um negro (Pitta), uma nordestina (Erundina), uma sexóloga de família ultra tradicional (Marta) e um alcoólatra (Jânio) ??? Bem preconceituosa essa gente bandeirante, né companheiro ???
É a merda que dá partidarizar toda ação.
PS: Acho que os donos dos blogs "progressistas" tinham de repensar essa perseguição à São Paulo, tachando-a como "separatista", "racista", "higienista", "elitista", entre outras baboseiras. Passou do ponto. Encheu.
Meu prezado: passou do ponto ? Encheu ? Então, adeus.
É comovente, mas não podemos perder de vista o problema objetivo, que permanece. Dependência química pode muitas vezes produzir comportamentos anti-sociais. O que pode fazer uma família que vê sua vida transformada num verdadeiro inferno por um filho que agride e rouba para comprar droga? O que fazer diante de pessoas que estão MORRENDO no meio da rua, abandonadas, sem força nenhuma para lutar contra a dependência da bebida ou do crack? É preciso haver uma resposta institucional para esse problema, e a resposta não pode ser simplesmente - "vai lá, conversa com o cara e tente convencê-lo". A experiência mostra que 90% dessas pessoas não se convencem DE JEITO NENHUM. É preciso haver um mecanismo INSTITUCIONAL para lidar com essas pessoas.
É internação compulsória, sim. O resto é lorota.
Tá com peninha, leva os nóias pra casa.
Tá com dó? Leva pra casa!
(A pedidos, segue um aviso: Cuidado! Texto com ironias. Leiam com atenção.)
Essa frase faz sucesso aqui no blog. Principalmente entre os leitores que usam seu Tico-e-Teco apenas no Natal para poder quebrar nozes e depois os mantém em animação suspensa sob temperatura de vinho branco. É proferida ad nauseam quando o tema é a dura barra enfrentada pela gente parda, fedida, drogada e prostituída que habita o Centro da pujante São Paulo – locomotiva da nação, vitrine do país, que não segue, mas é seguida e demais bobagens que floreiam discursos ufanistas patéticos caindo de velhos. É só falar da necessidade de políticas específicas que garantam qualidade de vida para esse pessoal mas, ao mesmo tempo, respeitem seu direito de ir e vir e ocupar o espaço público, que reacionários vociferando abobrinhas saem babando, querendo morder o blogueiro. Rrrrrrrrrr, au!
Afinal de contas, quem você pensa que é, jornalistazinho de merda metido a intelectual, que fundamenta seus orgasmos na estética da miséria, refestelando-se com situações-limite que colocam em risco nossa civilização, expondo as famílias de bem à escória do mundo e Zzzzzzzz… Ahn? Como? Ah, desculpe, cochilei… Enfim, tá com dó? Leva pra casa!
http://blogdosakamoto.uol.com.br/2012/01/04/ta-com-do-leva-pra-casa/
"Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável." (Umberto Eco)"
Não adianta ficar discutindo os meios de lutar contra a droga. Não seria muito dificil uma sociedade "pujante economicamente" como é São Paulo ter um projeto consistente de atendimento a população de rua. ( mendigos, drogados, crianças abandonadas) outras sociedades capitalistas ja enfrentaram isso e até com certo grau de sucesso. O que falta mesmo é vontade de agir. Terra de dirigentes que só enxergam seus umbigos.
Exto do Ricardo tem um outro viés, muito mais profundo: Nenhum cidadão pode ser restringido a uma peça terapêutica, indo além disso: Há vivências, histórias, belezas, sentimentos... Coisas a serem vistas e respeitadas, parabéns ao autor por ter captado isso.
OOO http://www.advivo.com.br/user/13544 Juriti do Cerrado http://www.advivo.com.br/user/7757 Tatu Bola http://www.advivo.com.br/user/3084 D http://www.advivo.com.br/user/7514 Spin http://www.josecarloslima.blogspot.com
Postar novo Comentário