A União tinha poder para desapropriar Pinheirinho

Por TGS

A única coisa que a nota comprova é a omissão do Poder Municipal, do que, creio, quase ninguém discorda. Agora, isso, de forma alguma, exime a União de sua responsabilidade.

A competência para esse tipo de desapropriação é concorrente, tanto pelo que consta na Constituição como pelo que consta na legislação pertinente. Veja que a Constituição, quando fala da política urbana, embora diga que caiba ao Poder Público Municipal sua execução, em nenhum momento limita a atuação da União (art. 182 e 183 da CF). Já quando fala da Política Agrícola e da Reforma Urbana (art. 184 a 191 da CF) expressamente determina que tal desapropriação cabe à União; isso bem demonstra que, inexistindo qualquer limitação, plenamente possível a desapropriação, pela União, de imóvel urbano para fins de regularização daquela área.

Isso porque o art. 23 da CF expressamente diz que é competência comum da União, Estados e Municípios: "IX - promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico; X - combater as causas da pobreza e os fatores de marginalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos;". Assim, amparado em qualquer desses artigos, poderia sim a União ter intervido na situação e desapropriado a área, principalmente quando percebeu a omissão do Poder Municipal.

Aliás, o Decreto-Lei "3.365, DE 21 DE JUNHO DE 1941" (ainda vigente) expressamente afirma que "Mediante declaração de utilidade pública, todos os bens poderão ser desapropriados pela União, pelos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios". Dispõe, ainda, o referido decreto-lei que "Consideram-se casos de utilidade pública: (...) e) a criação e melhoramento de centros de população, seu abastecimento regular de meios de subsistência; (...) i) a abertura, conservação e melhoramento de vias ou logradouros públicos; a execução de planos de urbanização; o parcelamento do solo, com ou sem edificação, para sua melhor utilização econômica, higiênica ou estética; a construção ou ampliação de distritos industriais (...)p) os demais casos previstos por leis especiais".

Assim, poderia muito bem a União ter se valido dos referidos dispositivos para desapropriar a área em favor da população que lá vivia. Aliás, a Lei nº "4.132, DE 10 DE SETEMBRO DE 1962" (também vigente) dispõe que "Considera-se de interesse social: (...) IV - a manutenção de posseiros em terrenos urbanos onde, com a tolerância expressa ou tácita do proprietário, tenham construído sua habilitação, formando núcleos residenciais de mais de 10 (dez) famílias; V - a construção de casa populares; (...)". Ou seja, há e havia amplo arcabouçou legal à União para, reconhecida a omissão do poder municipal, intervir e desapropriar diretamente a área.

Isso em nada beneficia os poderes públicos municipal e estadual; ambos foram tão ou mais omissos que a União e devem ser condenados. Agora, não podemos tapar o sol com a peneira: o Governo Federal poderia ter atuado, mas preferiu, também, omitir-se e, agora, tentar faturar politicamente em cima de uma tragédia humana, fazendo o comum jogo de empurra-empurra. Assim, dizer que a União foi atropelada é, simplesmente, olvidar-se de todas as possibilidades de atuação que havia para a União.

Por questão de "honestidade", cumpre sinalar: votei no Lula em 2002, no 2º turno em 2006 e não votei na Dilma; jamais, porém, algum candidato do PSDB recebeu meu voto.

Nenhum voto
75 comentários
imagem de alexandre toledo
alexandre toledo

Caro colega, até podia mas não é usual a união partir para essa ação pois passaria por cima dos entes proprios da ação, ou seja, a meu ver a união tem que ser provocada para isso e é bom não esquecer que estava havendo uma negociação para o caso e esta foi atropelada para dizermos o minimo pela ação do estado que acho que todos sabem a motivação ($$$$$$$)

Eu se fosse morador mandava o alkimim enfiar o aluguel que agora ele quer dar naquele lugar que não pega sol e acho que o momento é da Dilma levar o minha casa minha vida la...

 

alexandre toledo

 
imagem de pedro cavalcante
pedro cavalcante

"carlos lacerda" "sandra cavalcanti" " rio guandu"

PINHEIRINHO?

 
 
imagem de IV AVATAR
IV AVATAR

Alexandre, bom comentário. Na verdade essa papagaiada do TGS veio dos porões do TJ/SP e está sendo espalhada na web. Incrível a covardia destes larápios. Os 3 poderes do estado de SP é que poderiam ter impedido este desfecho e no entanto nada fizeram para que essa tragédia não ocorresse, muito pelo contrário, tudo estava traçado para que fosse assim: A limpeza e, ao final, a entrega do imóvel ao mafioiso Naji Nahas. Depois disso, como tudo estava traçado, era só jogar a culpa no PT. Aliás, o PT tem esta utilidade em SP: Servir de desculpa para o eterno governo tucano limpar sua barra. Foi assim quando dos ataques do PCC. Alguém se lembra do Alckmin culpando o PT pelo ataques? Foi assim durante a pane do Metrô quando mais uma vez, agora via Soninha Francine, a administração tucana culpou o PT. Fácil, não  é mesmo. Tenho minhas dúvidas se o modus operandi desse malas ainda funciona por se repetir por diversas vezes. Chega um momento em que cai a máscara.

 

 
 
imagem de Rogério Santiago
Rogério Santiago

Para o tucano TGS e "esquerda" que a direita gosta:

Havia um processo na Justiça Federal, através do qual a União atuou para resolver o impasse. A Justiça Federal, como todos sabem, suspendeu a reintegração de posse, como queriam os moradores de Pinheirinho. O que fez o TJ/SP senão ignorar solenemente esta decisão da Justiça Federal? Agora vem o mesmo TJ/SP e, num show de mau caratismo, vem a público dizer que a culpa foi da União. 

 
 
imagem de Marco St.
Marco St.

Fico só imaginando as manchetes dos jornalões caso a União fizesse essas desapropriações em uma cidade tucana dentro de um estado comandado por tucanos.  1932 ia ser fichinha. 

 

"Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo." Malcolm X

 
imagem de ruyacquaviva
ruyacquaviva

Bem lembrado.

Além disso a prefeitura recorreria e ganharia porque não havia motivo para a intervenção.

Infelizmente o conluio da justiça paulista com especuladores imobiliários e políticos corruptos de extrema direita (Alckmin, estou falando de você) permitiu um crime perfeito, a opressão de uma população pobre para roubar a terra onde viviam com uma ordem judicial para acobertar tudo. Apesar da atrocidade, em termos legais ainda não há motivo para a intervenção.

 

 
 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

Ruy e comentaristas.

O famoso "caxixe" do livro de Jorge Amado (terras do sem fim)

 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de tereza c
tereza c

Intervenção da União em São Paulo para desapropriação seria motivo para o PiG de impeachment de Dilma. Faria o maior escandalo a midia tucana. Por muito menos eles defenderam o impedimento de Lula. O Estado de São Paulo e o Judiciário preferiram usar a violencia  a tentar um acordo com a comunidade do pinheirinho.  E$pecução imobiliaria dá ni$$o. Reformas do Judiciario Já!

 
 
imagem de IV AVATAR
IV AVATAR

Marcos, assino embaixo. Mas eles são tão cínicos que, agora, o TJ/SP está alegando isso. Quer dizer, depois de dizer não à todas as possibilidade de acordo agora vem com essa história de que a União poderia ter desapropriado como forma de dizer que o erro foi do governo federal. A União sendo parte deste processo de desapropriação, através de quem, do INCRA? Do Ministério das Cidades? Seria a primeiraz vez que isso aconteceria desde quando me entendo por gente: A União desapropriando terreno na área urbana de uma cidade para implantar o programa Minha Casa Minha Vida. Como se sabe, isso é feito de comum acordo com os governos estaduais e locais. Para quem não tem memória curta, o Zé Serra sempre impediu este programa de moradias em SP por questão política. Agora me respondam: Como a União poderia desapropria Pinheirinho? Através de uma intervenção no município? 

Sim, seria até bom se a União pudesse desapropriar terras no perímetro urbano das cidades, no entanto isso não prosperaria nem do ponto de vista jurídico nem político, seria derrubado logo logo sob a alegação de autonomia dos Entes do Estado, no caso o municpio e por isso, como ocorreu no caso de Pinheirinho, sempre dependeu do aval final do prefeito, o que foi negado várias vezes, claro, o desfecho que ocorreu já estava traçado há um bom tempo.

O governo de SP, TJ e Prefeitura de São José dos Campos, no momento, comemoram o desfecho da operação. O povo ao relento que se dane. 

 
 
imagem de rogerio souza santos
rogerio souza santos

Desconfio que o TGS é da Secretaria de Comunicação do TJ/SP, pois esta bela desculpa de que o governo federal é culpado veio de lá. Aliás, essa história do govenos tucanos de SP culparem o PT nestas horas é mais antiga do que caranguejo andar prá trás.

 
 
imagem de Mircon
Mircon

Quer dizer então que....

A União não fez as desapropriações por que nosso governo não implantou a "Ley de Medios"?

Se existisse a "Ley", provavelmente não teria do que o governo temer o PIG.

Portanto, a União está optando pela omissão da defesa de 2 mil famílias pobres em nome do "medo" do PIG?

É preferível não mexer com o PIG, custe o que custar, do que defender milhares de pobres?
 

 
 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

...e ambos aplaudem a repressão..


Re: A União tinha poder para desapropriar Pinheirinho
 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de Zarastro
Zarastro

PQP, Paulo. O inimigo não é o governo federal e você sabe disso.

Colocar uma foto como essa deslocada de qualquer contexto serve direitinho aos interesses do PSDB e da mídia. Tenho certeza que você é melhor do que esse raciocínio tosco que essa imagem sugere.

 

-----------------------------------------------------------------

This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

Nosso lema nas últimas eleições foi " derrotar Serra nas urnas e Dilma nas ruas. O cerimonial do Planalto poderia arranjar mil desculpas e enviar um representante do 2º escalão.

Agora temos também o "pragmatismo não ideológico" da Presidente.  "Cría cuervos y te sacarán los ojos."

Re: A União tinha poder para desapropriar Pinheirinho
 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de edisilva
edisilva

Não é, não, Zarastro. É issso mesmo que você tá vendo. São os "indiguinados" (assim mesmo). Tô cansado deste povo: "votei no Lula e na Dilma, mas tô decepcionado". Vai ao TSE e retire seu voto. Entre com um processo no procon. 

Tem hora que cansa.

 
 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

Eh,eh

petistas são umas "gracinhas!.

"votei no Lula e na Dilma, mas tô decepcionado"

Ainda vão adaptar o lema "petismo ou barbárie"

Onde está escrito que votei em "revisionistas" ou nos fascistas.

Se orienta.

 

Re: A União tinha poder para desapropriar Pinheirinho
 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de Alipio
Alipio

Pelo visto a central ¨soninha¨ já entrou na área. Como se não bastasse o estrago que essa fez na última eleição quando Dilma tinha tudo para ganhar com mais de 80% dos votos no primeiro turno e ela com apenas um computador levou tudo para o segudo turno. Embora os petismo só  se valido de blogueiro requenquela

 
 
imagem de IV AVATAR
IV AVATAR

Paulo K, lembre-se desta foto também, Dilma como a presidenta de todos os brasileiros e não apenas dos petistas, ela tinha que fazer o que, recusar o convite para ser homenageada pela maior cidade do Brasil e responsável pelo maior PIB? Que tal uma leitura de "Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo". Nem quero lhe passar lições sobre política, tens bastante conhecimento sobre este assunto, reconheço, no entanto nem tudo tem que ser como gostaríamos que fôssemos, a política é complexa, Dilma tem que alimentar milhões de brasileiros:

 

dilma aniversário de spRoberto Stuckert Filho/PR

Presidente Dilma cumprimenta o público em homenagem. Ela recebeu medalha comemorativa do aniversário de SP


 

 O clima de cordialidade entre políticos que já estiveram de lados opostos em eleições passadas prevaleceu na homenagem que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, concedeu nesta quarta-feira (25) à presidente Dilma Rousseff, ao governador paulista, Geraldo Alckmin, e ao ex-presidente FHC (Fernando Henrique Cardoso). Os três receberam, na sede da Prefeitura, a Medalha 25 de Janeiro, em comemoração ao aniversário de São Paulo, que completa 458 anos.

 

Leia mais notícias no R7

Na cerimônia, que durou pouco mais de 50 minutos e foi realizada na Prefeitura da capital paulista, todos substituíram o discurso político por declarações de amor à cidade. Kassab justificou a entrega da medalha dizendo que se tratava de uma homenagem de São Paulo “aos méritos pessoais de dedicação aos pobres, independente da bandeira partidária”.

- Todos têm história de luta em favor do Brasil e aqui recebem o reconhecimento sincero de São Paulo.

O primeiro a falar foi Fernando Henrique, que receberia a medalha no ano passado mas não pôde comparecer à cerimônia porque estava fora do país. Identificando-se como um “carioca-paulista”, o tucano disse que seu primeiro bairro na cidade foi Perdizes. 

- Estou nesta cidade há mais de 70 anos [...] Quando cheguei aqui, fui morar no bairro de Perdizes, que não tinha quase nada. A entrega de pão era feita por uma carroça puxada por um burro.

Ao tomar a palavra, Alckmin cumprimentou FHC, “um dos protagonistas que mudou a história deste país”. Sobre Dilma, lembrou que foi a “primeira mulher eleita presidente do Brasil” e que “exerce seu mandato com espírito público e retidão”.

- São Paulo é onde japonês fala português com sotaque italiano. Talvez uma marca de São Paulo seja esse DNA nacional, porque aqui encontra gente do país inteirinho.

Última a tomar o microfone, Dilma lembrou de Sampa, a música que Caetano Veloso escreveu sobre a cidade. A presidente descreveu o que sentia toda vez que ouvia o trecho “alguma coisa acontece no meu coração quando cruza a Ipiranga com a São João”.

- Uma sensação de esperança: a de que todos aqueles que saíram do Norte e Nordeste para ganhar a sua vida viam que o país poderia ser do tamanho de São Paulo.

 

Confira também



Ao falar da atual “pujança do país”, ela disse que “São Paulo sempre será o farol para nosso país”.

 

- Aqui nasceu a capacidade desse país de ter uma relação generosa com outras regiões, porque São Paulo gera desenvolvimento para todas as regiões do Brasil.

A entrega das medalhas ocorreu no momento em que Kassab negocia tanto com o PT quanto com o PSDB uma possível aliança com seu novo partido, o PSD, para a disputa eleitoral de outubro, quando será escolhido seu substituto.

Protestos

Nenhum dos participantes comentou a manifestação que militantes da esquerda fizeram no centro da cidade. Mais cedo, houve confusão na Praça da Sé, quando Kassab deixava uma missa celebrada por ocasião do aniversário da cidade.

A comitiva de carros da prefeitura foi cercada pelo protesto e a Polícia Militar agiu para dispersar os manifestantes, que seguiram em marcha até a sede da administração municipal, no Viaduto do Chá. Uma pessoa ficou ferida.

O protesto tinha como alvos a operação da PM na região da Cracolândia, em São Paulo, e a desocupação do bairro de Pinheirinho, em São José dos Campos, no interior paulista.

Pouco antes da cerimônia de entrega das medalhas, cerca de 300 pessoas bloquearam o Viaduto do Chá, com bandeiras e gritos de ordem contra Alckmin, considerado por eles o responsável pela retirada de aproximadamente 9.000 moradores da ocupação.

http://noticias.r7.com/brasil/noticias/em-clima-cordial-dilma-fhc-e-alckmin-recebem-homenagem-de-kassab-no-aniversario-de-sp-20120125.html

 
 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

Eleições

.

Amadeu Bordiga

Nós também esperávamos, e logo se compreenderá por qual motivo, que não houvessem eleições.  Mas a partir de agora é necessário abandonar toda a esperança. As eleições serão feitas. O que fará o partido comunista?

Deixando de lado todas as formas de participação que os órgãos competentes podem estabelecer, seria conveniente, de acordo com certos companheiros, esboçar esta questão: o PC deve ou não deve participar nas eleições? Do meu ponto de vista, este problema não tem razão de ser. Por razões muito claras de disciplina tática internacional, o PC deve participar e participará nas eleições.

http://www.marxists.org/portugues/bordiga/ano/mes/eleicoes.htm

 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

Amadeo Bordiga e a democracia burguesa

por Nildo Viana

Amadeo Bordiga foi um dos líderes do PSI (Partido Socialista Italiano) e, posteriormente, do PCI (Partido Comunista de Itália), onde se tornou bastante influente e sua corrente predominava sobre a corrente de Gramsci, que, pouco depois, conquistaria a “hegemonia” no partido. A. Bordiga também foi o principal teórico da chamada “esquerda comunista italiana” e foi, por isso, alvo das críticas mal fundamentadas de Lênin em O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo juntamente com os esquerdistas da Inglaterra, Alemanha e Holanda. A principal contribuição de Bordiga ao marxismo se encontra na sua análise do modo de produção capitalista e, em segundo plano, em suas críticas à União Soviética (definida por ele como capitalismo de estado), ao stalinismo e à democracia burguesa. Trataremos, em particular, deste último aspecto do bordiguismo.
É interessante notar que Bordiga já havia respondido na década de 20 às formulações do euro-”comunismo” e das “esquerdas” brasileiras na defesa da tese da “democracia (burguesa) como valor universal”. Esta tese apresenta três pontos fundamentais que a sustentam: a) a democracia (burguesa) foi uma conquista dos trabalhadores; b) ela é condição necessária para a implantação do socialismo; e c) a democracia (burguesa, representativa) será mantida no regime socialista. Vejamos como Bordiga trata dessas questões na sua crítica à democracia burguesa.
Para Bordiga, a democracia burguesa não foi uma conquista da classe trabalhadora mas sim uma criação da burguesia para combater a nobreza feudal e manter o seu domínio sobre o proletariado. Segundo ele: “a crítica socialista demonstra claramente que toda a bagagem da filosofia liberal é uma ideologia própria da burguesia capitalista, que dela se serve para justificar sua luta contra os grilhões do regime medieval e, principalmente, a instauração do seu domínio social sobre as massas trabalhadoras exploradas” (1).
Quanto a tese de que a democracia burguesa é uma condição para a implantação do comunismo, Bordiga já havia deixado claro que “a soberania popular realizada com o voto, a liberdade e a igualdade política, é uma mera ficção, quando subsistem a divisão da sociedade em classes e a desigualdade econômica. As câmaras eletivas, o estado, permanecem constantemente nas mãos de uma minoria dominante e servem exclusivamente aos interesses dela” (2). Para ele, a burguesia só cede o direito de voto às massas porque sabe que elas, devido às suas condições de vida desfavoráveis, não saberiam escolher seus representantes. Poderíamos dizer que Bordiga esquece dois pontos fundamentais que dificultam a escolha dos representantes mais adequados pelas massas: a intensa manipulação do sistema eleitoral pela burguesia e a integração das “esquerdas” no sistema partidário e parlamentar, fenômeno, aliás, observado pelo próprio Bordiga. Além disso, resta questionar a própria existência de “representantes mais adequados”, pois, na verdade, estes nem sequer existem, com raras exceções, do ponto de vista dos interesses do proletariado. O direito de representatividade das minorias, segundo Bordiga, serve apenas para justificar a representatividade da classe burguesa que utiliza seu poder econômico para conquistar a maioria no parlamento.
Além da falsidade das liberdades democrático-burguesas e das dificuldades que as massas encontram para escolher os melhores representantes, existe, para Bordiga, um outro elemento negativo na democracia burguesa, que é a corrupção que esta cria no movimento revolucionário: “apesar do crescimento desse perigoso núcleo revolucionário, pronto para estourar e fazer em frangalhos a velha casca, o regime burguês nada sofria; muito pelo contrário, reforça-se. Os fervorosos revolucionários, no ambiente burguês parlamentar, se aplacavam, se domesticavam; em pouco tempo, este se tornava reformista, aquele reacionário, aquele outro ministro, e assim por diante” (3). Por isso, “o proletariado não deve ser iludido e entorpecido com a luta eleitoral; deve convencer-se da ineficácia revolucionária da conquista das cadeiras no parlamento e deve conhecer qual é o caminho a seguir e em que sentido seu esforço pode tornar-se útil” (4). Bordiga, a partir disto, chega a conclusão oposta à dos ideólogos da “democracia como valor universal” que afirmam ser a democracia representativa uma condição necessária para a implantação do socialismo: “não é pelo desenvolvimento e pela intensificação das formas democráticas que o socialismo espera atingir sua própria realização, mas pela luta social entre as classes e pela vitória revolucionário do proletariado” (5). Definitivamente, a luta de classes não ocorre no parlamento (…).
Amadeo Bordiga não nega que a participação no parlamento possa influenciar nos acontecimentos mas nega que esta influência possa ser revolucionária: “penso que nossa atual missão histórica nos deu uma tática nova e bem definida, isto é, a recusa à participação parlamentar, por não ser mais um meio de influir sobre os acontecimentos no sentido revolucionário” (6).
Para Bordiga, ao contrário do que pensam os reformistas contemporâneos, socialismo e democracia representativa são incompatíveis: “é absolutamente paradoxal a concepção de que as atuais formas políticas, que foram criadas pela burguesia para a própria dominação de classe, possam elas próprias, tornarem-se os órgãos de uma função absolutamente contrária” (7). Segundo Bordiga, foi justamente a participação na democracia burguesa e a aliança com os setores “democráticos” da burguesia que ofuscou a visão da verdadeira relação entre socialismo e democracia: “a nefasta política de conciliação, que tanto prejuízo e confusão causou por meio da colaboração entre os socialistas e os democratas burgueses, fez perder de vista esta antítese programática, fundamental, entre socialismo e democracia” (8). Para Bordiga, que identifica democracia burguesa com democracia em geral, o socialismo não cria uma “democracia socialista” ou uma “democracia operária” mas abole todo e qualquer tipo de democracia, pois este é um conceito burguês que expressa uma relação social burguesa: a forma política assumida pela dominação burguesa. É impossível, portanto, reunir conceitos como o de democracia ao de socialismo, seria puro contra-senso.
Mas o que substituirá o regime democrático-burguês? Bordiga responde: “para regulamentar, organizar, disciplinar as novas relações sociais, fundadas não mais no direito da propriedade privada, mas na associação dos trabalhadores, deverão necessariamente surgir novos institutos, adaptados para estas funções, profundamente diversas das que constituem as bases do estado burguês” (9). Esse novos institutos são os “sovietes” (conselhos operários) que seriam as bases do “estado operário” (10) . Neste sentido, Amadeo Bordiga se aproxima da teoria autogestionária de Marx expressa na fórmula “livre associação dos produtores”. Isto significaria a extensão da democracia real a todos os membros da sociedade e não apenas de uma classe e com isso a contradição entre a etimologia do termo democracia (governo do povo, autogoverno) e a realidade deixaria de existir.
Pode-se contra-argumentar que os reformistas contemporâneos estão com a razão, pois as teses de Bordiga foram elaboradas no início do século. A democracia avançou muito de lá para cá. Realmente, a democracia burguesa avançou muito e por isso se transformou num instrumento de dominação de classe muito mais eficiente. As “esquerdas” também avançaram muito, só que rumo ao reformismo e à integração na sociedade capitalista. Além disso, a tese social-democrata de que “a democracia é um valor universal” é uma criação do início do século e foi elaborada pela primeira vez, no movimento socialista, por Karl Kautski. Ele apenas deu “coloração” ideológica ao entusiasmo eleitoral dos militantes social-democratas da época (e é daí que surgiu a crítica bordiguista) e retomava sob o disfarce de “marxismo” a velha ideologia burguesa da “liberdade, igualdade e fraternidade” e de todas as outras conquistas da revolução burguesa como sendo uma conquista de toda a sociedade, adquirindo assim, o caráter de valor universal. Vivemos num mundo maravilhoso de liberdade, igualdade e fraternidade e também, nunca podemos esquecer, de democracia. Sartre dizia, sabiamente, que toda tentativa de “revisão do marxismo” se revelava uma volta às idéias pré-marxistas. A tese da “democracia como valor universal” e a da democracia burguesa surgiram com a revolução burguesa e com a constituição da burguesia e do proletariado e cada uma expressando o ponto de vista de uma ou outra classe. O que define a veracidade de uma teoria não é a “moda” e nem o número de seus “crentes”  e sim sua identificação com a realidade. A tese social-democrata da “democracia como valor universal” é uma reprodução de uma tese burguesa criada há séculos atrás.
Se o aprofundamento da democracia representativa levasse ao socialismo, tal como alguns dizem, então nos países onde ela está mais desenvolvida o socialismo devia estar mais próximo. A democracia está muito mais consolidada e as liberdades democráticas estão muito mais ampliadas no capitalismo superdesenvolvido da Europa Ocidental. Mesmo assim, o autonomista Lúcio Magri na Itália e o bordiguista Jean Barrot na França defendem a superação da democracia burguesa. Quais as causas disto? Encontramos a resposta disso em Hebert Marcuse: “na sociedade repressiva, destarte, até mesmo os movimentos progressistas ameaçam  transformar-se em seus opostos na medida em que aceitam as regras do jogo. Ou, para citar um caso mais controvertido: o exercício dos direitos políticos (tais como votar, escrever cartas aos jornais, aos senadores, etc., demonstrações de protesto como renúncia a priori da contra-violência) na sociedade de administração serve para fortalecê-la, pois reconhece a existência de liberdades democráticas que, na realidade, mudaram o conteúdo e perderam a eficácia. Em tais casos, a liberdade (de opinião, de assembléia, de expressão) transforma-se em instrumento de servidão absolvedora” (11) .
Os ideólogos da “democracia como valor universal” na Europa Ocidental, além de Magri, Barrot e Marcuse, encontraram como opositor o Luxemburguista italiano Lélio Basso: “mas, se a via democrática ao socialismo deve significar uma mistura de esperança do socialismo futuro e aceitação atual das estruturas políticas hoje existentes, temo que a via ao socialismo não se abra nunca, porque não creio que se possa chegar a uma transformação radical das relações sociais capitalistas utilizando somente os instrumentos que estas relações determinaram, muito mais para a sua conservação do que para a sua superação” (12). Para Lélio Basso, o socialismo supera as liberdades formais e meramente políticas, submetidas ao poder econômico, e constrói uma democracia que se manifesta na prática cotidiana de todos e de cada um, ou seja, em todos os domínios da vida social. Portanto, segundo Lélio Basso, a “democracia” implantada pelo socialismo é direta ou, utilizando outra palavra, é autogestão.
Portanto, as teses de Amadeo Bordiga sobre o caráter elitista e burguês da democracia representativa foi confirmado e aprofundado por outros teóricos que se debruçaram sobre as modernas formas de dominação burguesa na “sociedade repressiva”. Por isso, para nós é muito mais útil ler Bordiga do que os vulgarizadores das ideologias burguesas ou das idéias reformistas do início do século 19.

Notas(1) BORDIGA, Amadeo. A Constituinte? in: TRAGTENBERG, M. (Org.). O Marxismo Heterodoxo. São Paulo, Brasiliense, 1981, p.
(2) BORDIGA, A. A Constituinte? ob. cit. p.
(3) BORDIGA, A. A Ilusão Eleitoral. In: ob. cit. p.
(4) BORDIGA, A. A Ilusão Eleitoral. In: ob. cit. p
(5) BORDIGA, A. A Constituinte? ob. cit. p.
(6) BORDIGA, A. Réplica a Lênin Sobre o Problema do Abstencionismo. In: ob. cit. p.
(7) BORDIGA, A. A Ilusão Eleitoral. In: ob. cit. p
(8) BORDIGA, A. A Constituinte? ob. cit. p.
(9) BORDIGA, A. A Ilusão Eleitoral. In: ob. cit. p.
(10) Bordiga aqui não observa o contra-senso que existe em negar a expressão democracia, por ser uma forma de dominação burguesa, e utilizar a expresso “estado”, que é a forma que se reveste a dominação da classe dominante, não só da burguesia mas de todas as classes dominantes em todas as sociedades de classes, para manter e reproduzir as relações de produção e o conjunto das demais relações sociais. Por conseguinte, também não se poderia falar de um “estado operário”.
(11) MARCUSE, Hebert. Tolerância Repressiva. In: MARCUSE, Herbert; WOLF, Robert; MOORE JR. B. Crítica da Tolerância Repressiva. RJ, Zahar, 197
(12) BASSO, Lélio. A Democracia e o Socialismo na Europa Ocidental. In: Revista Encontros com a Civilização Brasileira.

[Incluí links para os textos de Bordiga referidos. Têm comentários iniciais cuja autoria penso ser de Maurício Tragtenberg. Nota do autor do blogue]

 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de André Sanchez
André Sanchez

Prezado amigo,

 

Vejo que o Sr. lê muito e se instrui bastante, mas lamentavelmente  tem pouca noção do que fazer com o que CONSOME, porque diante da realidade contemporânea o Sr. me parece um esquerdista do século 19.

 
 
imagem de Paulo Kautscher
Paulo Kautscher

Acertastes na mosca. Ao invés de vcs que são esquerdistas conciliadores do seculo 21.

Vc é marxista? Creio que não.De uma "lidinha no último paragrafo do Manifesto Comunista do seculo 19.

"Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins. Proclamam abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder nela a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.
Proletários detodos os países,uni-vos!


Escrito por Karl Marxe Friedrich Engels em dezembro de 1847 — janeiro de 1848. Publicado pela primeira vez em Londres em fevereiro de 1848. Publicado de acordo com o texto da edição soviética em espanhol de 1951, traduzida da edição alemã de 1848. Confrontado com a edição inglesa de 1888, editada por Friedrich Engels.

Re: A União tinha poder para desapropriar Pinheirinho
 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
imagem de Ricardo Luz
Ricardo Luz

Oscar Niemeyer é lulista e dilmista roxo, tá mais para conciliador do que para o marxismo ortodoxo

 
 
imagem de Wilsoleaks Alves
Wilsoleaks Alves

Pega leve Claus...

 
 
imagem de Jotage
Jotage

Não Mirco.

A união não tem que intervir nos assuntos do estado de São Paulo só porque os paulistas elegeram um maluco fascista que precisa ser controlado para não cometer atrocidades.

Ele é um problema dos paulistas que o colocaram lá. Os paulistas tem que fazer agora o mea culpa e não procurar culpados para as ações do nazismo paulista.

 
 
imagem de Zarastro
Zarastro

Em outro comentário, você disse que a maior parte das prefeituras não tem corpo técnico para fazer os projetos porque sua infraestrutura é pequena, meio que tentando tapar o sol com a peneira com a alegação velada de um município como SJC não tem condições de ter um corpo técnico desse tipo. Ora, faça-me o favor.

E agora você vem e encampa essa tese do TJ/SP, que quer jogar o custo do estrago no colo do governo federal, quando todo mundo aqui sabe o que significaria - em termos de repercussão pelo PIG - uma desapropriação dessas num estado comandado pelo PSDB em uma prefeitura também do PSDB. E a omissão é do governo federal?! Vai ver se estou na esquina, pô!

 

-----------------------------------------------------------------

This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
imagem de Mircon
Mircon

Zarastro,

Sabemos que a culpa dessa desapropriação terrorista é de quem a praticou (Prefeitura e Governo estadual). Porém, a ação deles já era esperada há muito tempo.

É o Gov. Federal que tapa o sol com a peneira com um programa MCMV que joga a necessidade do povo em ter uma casa nas mãos de diversos Prefeitos e Governos estaduais que não dão a mínima prá essas famílias desamparadas e desorientadas. Existem muitos empecilhos prá essas casas realmente chegarem aos que mais necessitam.

E é realidade essa que 90% das prefeituras não tem conhecimento, tampouco corpo técnico para elaborar propostas e projetos para a União. Falei isso prá mostrar que o MCMV é burocrático demais.

É claro que SBC tem técnicos e condições prá fazer um projeto, porém, no caso de Pinheirinho, seriam pelo menos 100 Milhões de Reais que um prefeito que não gosta nem um pouco desse povo teria que investir em contrapartida.

Da questão jurídica, da possibilidade da União intervir no caso de Pinheirinho, eu não posso afirmar nada. Mas se realmente havia a possibilidade disso, creio que houve omissão do Governo, se foi por medo da mídia, a tendência é piorar ainda mais e ocorrerem novos abusos por parte dos Prefeitos tucanos.

Quanto ao MCMV, é necessário uma revisão urgente, com participação maciça de técnicos.

 
 
imagem de Marco Antonio L.
Marco Antonio L.

Agora a culpa é do governo federal. Isso é coisa de tucano com cheiro de derrota.

 
 
imagem de Ivan Moraes
Ivan Moraes

Tinha. Mas nao o fez. Quem lidou com isso foram todos lunaticos, a comecar do judiciario.

QUEM FOI DONO DESSA TERRA ANTES DE NAJI NAHAS?

 

Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.

 
imagem de Ivan Moraes
Ivan Moraes

QUEM FORAM OS JUIZES ENVOLVIDOS NA "VENDA" DA TERRA A NAHAS?

 

Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.

 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!