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A última entrevista de Guimarães RosaEnviado por luisnassif, dom, 15/01/2012 - 12:00
Por wilson yoshio.blogspot
Clássicos Literários A última entrevista de Guimarães Rosa Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido
16 comentários
superperplexo
MAIOR NO RANKING DO THE GUARDIAN (2002) E MÉDIUM/ESPÍRITA DA LITERATURA? COMO ASSIM? Em 2002 o jornal inglês The Guardiam convocou 100 escritores de todo o planeta para elegerem as 100 maiores obras literárias da humanidade: o único representante brasileiro foi Guimarães Rosa, com “Grande Sertão: Veredas” É muito curioso que um tema amplamente debatido nesse blog, ontem e hoje - a mediunidade de João de Deus, tenha profundas conexões com a vida de Guimarães Rosa. Arnaldo Nogueira Jr.-Projeto Releituras destaca um ponto interessante da biografia de Guimarães: “Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna, então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda em 1930, forma-se em Medicina, tendo sido o orador da turma, escolhido por aclamação pelos 35 colegas. Guimarães Rosa vai exercer a profissão em Itaguara, pequena cidade que pertencia ao município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos. Relaciona-se com a comunidade, até mesmo com raizeiros e receitadores, reconhecendo sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por "seu Nequinha", que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido por Sarandi. Espírita*, "Seu Nequinha" parece ter sido o inspirador da figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo sertanejo, personagem de Grande Sertão: Veredas...” * Ver teses de Mestrado e doutorado de Sandra Mara Moraes Lima - , em Mestrado em Estudos Literários - Universidade Federal do Espírito Santo, UFES, Brasil - Título: CONFORME COMPADRE MEU QUELEMÉM É QUEM DIZ: UMA VOZ ESPÍRITA EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS, Ano de Obtenção: 2005. Doutorado em andamento em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem . Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Brasil. Título: O processo de subjetivação em Grande sertão: veredas Guimarães Rosa , surpreendeu seus leitores ao confessar pelas colunas do jornal "O Estado de Minas" (edição de 26 de novembro de 1967) que as histórias de seus livros lhe chegavam por via supranormal. E mais: que era dado a outros fenômenos, tais como o sonho premonitório e a telepatia. Mas deixemos que ele próprio relate: "Tenho que segredar que - embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica - minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dada às vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias...”
Márcio Xavier
só a título de esclarecimento, isso é o que se chama inspiração e não é a chamada "mediunidade ostensiva". Esse tipo de mediunidade todos temos já que no Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta se os espíritos influem em nossa vida eles respondem "mais do que imaginas. De ordinário são eles que vos dirigem". Beethoven dizia que sua música surgia "do nada" e há vários outros relatos de "gênios" bem parecidos.
Paulo Kautscher
"Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor dos seus olhos." De Riobaldo para Diadorim leia também....
CLICANDO AQUI — “Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo
vera lucia venturini
Em minha opinião o Guimarães Rosa é tão perfeito, mais tão perfeito no uso da Lingua Portuguesa que sua carreira literária internacional foi prejudicada por esse seu preciosismo. Tem uma linguagem límpida, cristalina, deliciosa de se ler e fosse menos regionalista teria a estatura de um Borges, já que seus livros tratam da essencia do que é ser humano. E pela sua inventividade com a lingua portuguesa será que se escrevesse no universal ingles chegaria a James Joyce?
— Vera Lucia Venturini
Jose Fernando Entratice
Concordo com você Vera. Na minha opinião também. Diria até que não alcançou um Nobel, por serem intraduziveis as ideias construidas naquele quase dialeto. Pode transmitir até a idéia do autor. Mas jamais a original e profunda expontaneidade.
Walmir Jose
Acho desimportante para medir importância de um artista as premiações que tenha tido. Mesmo Sagarana ficou em segundo lugar no concurso de literatura de Curitiba. Quem conhece o conto premiado em 1º lugar?
luzete
concordo, sabe, vera. guimarães soube, como raros escritores no mundo, juntar a beleza da palavra com a beleza do pensar. e de uma forma absolutamente inovadora, porque eleva o popular, o saber do sertanejo, a sua mais rica expressão filosófica. e aí fiquei pensando nestas palavras de tolstói: Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia... então... se for verdade... ninguém mais universal do que guimarães rosa, não é mesmo?
Gui
Por favor Vera Lucia, mesmo que estejamos no campo dos neologismos Roseanos, o "mais" que voce usa não é uma adição "mas" sim uma interjeição. É o principal erro de português que vejo nos documentos que analiso, principalmente quando se trata de jovens abaixo dos 25 anos. Não se fala "mais, então", e sim "mas, então".Guimarães Rosa agradece.
Reginaldo Gomes
Maravilha de postagem, parabéns!! — Gostaria de ser lembrado como um homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos. Amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas. Odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas.
AlvaroTadeu
Era uma coisa esquisita: 4 ou 5 importantes figuras da política ou intelectualidade brasileiras foram entrevistados pela revista Realidade e morreram menos de um ano depois. Eu me lembro de Adhemar de Barros, Carlos Lacerda, Guimarães Rosa (não conseguiram entrevistá-lo, fizeram uma reportagem sobre ele entrevistanto seus melhores amigos). Luiz Fernando Mercadante (era esse o nome?) escreveu uma obra de ficção, com Jânio Quadros sendo eleito presidente em 1985. Por incrível coincidência, Jânio se elegeu prefeito de SP em 1985 e em 1989, seu clone, Collor de Mello, elegeu-se presidente da República. Na obra de ficção, Janio sofreria um atentado e não terminaria o mandato. Collor, quando viu o impeachment crescer pelo flanco, renunciou. Mas teve os direitos políticos suspensos assim mesmo. Seus maiores bajuladores viraram-lhe as costas quando viram que a coisa estava feia.
Joca Ramiro
Nassif minino malungo, De tempo a tempo eu venho ciscar em seu terreiro. O senhor perdoe a invasão. Bicho homem não foi feito pra ficar sozinho. Mesmo aqui, nesse algodoal de brancuras e nuvens, eu fico amodorrado. A bem verdade eu sinto é saudade de uns tiros. Eu sinto é saudade do bicho homem, com suas quizilas e suas bicheiras. Aqui, no Céu do Sertão, tudo é bom, mas às vezes é meio chato. Só o que enterte, vez em quando, é escutar meu cumpade Joãozinho Bem-Bem contar suas estripulias, comendo sua jacuba com rapadura, rapada bem fininha. Céu que se preza tem que ter uma boa jacuba. Fala pro seus minino aí, pararem de se ferroar, porque bicho homem num dá esquadro de jeito nenhum. É que nem fôia de cebola, num tem berada. Se fosse formar juntas de boi com o bicho homem, não se formaria junta nenhuma. Porque o homem é marruais. Bicho homem só forma junta a mando de Deus-todo-Poderoso, o Carreiro-Chefe. E aí desce aí pra Terra, pro Sertãozão, sofrer com o ferrão da guiada de Deus. Êh! E aí o carro canta bonito. Fala pro seus minino parar de fazer gincana com o Sêo João. Dia desses, Sêo João mais o Sêo Machadinho tavam jogando uma partida de gamão (mais uma coisa boa daqui), e deram boas risadas com a tentativa doceis daí da Terra de medir os dois. Bestagem. Logo depois passou o Púchkin, o Negro de Petersburgo, que veio tomar uma reverência com os dois. Tava preocupado com as coisas lá na Mãe-Rússia. Indagorinha passou por aqui o Kutuzov, generalão de farda e berloques, numa paciência de Sóveno, a desmontar umas matrioshkas, bonequinhas pintalgadas de lindas. Deixem de ingrisias com o Sêo João, que médium, mediador e medianeiro todo mundo é um pouco...
Jandui Tupinambás
é de vera.
mariazinha
J.G.Rosa foi paixão, logo na PRIMEIRA ESTÓRIA. A pequenina bisbilhotava os livros do PAI, sem ELE saber. Belo começo de estória: "Aquilo na noite do nosso teatrinho foi de Oh. O estilo espavorido. Ao que sei, que se saiba, ninguém soube sozinho direito o que houve. Ainda, hoje adiante, anos, a gente se lembra: mas, mais do repente que da desordem, e menos da desordem do que do rumor. [PIRLIMPSIQUICE-JGR] Sobre genialidade: nas terapias com grupos em diversos estágios de esquizofrenia, nota-se com perplexidez inteligências sobrenaturais, aguçadas. Fica a impressão de que possuem algo tão grande em seus cérebros que não cabem em si. P.UBALDI, filósofo italiano dizia: ".....a loucura nada mais é do que grandes pensamentos que assoberbam pequenas caixas cerebrais; no futuro, crânios serão maiores para comportarem tais." http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ubaldi.html http://www.ubaldi.org/biblioteca/reflexoes/1242-os-dois-tipos-biologicos
Rosana Alen Presotti Zuccheratte
Isto é cultura
Maria Luisa
Que beleza ler uma entrevista de Guimarães Rosa, tão raras. E a gente lê a entrevista e parece estar ouvindo alguns de seus personagens falar. Igualzinho. Fiquei olhando a foto de Rosa demoradamente e fiquei pensando com meus botões: que coisa, Guimarães diz que escreve o que ouve, que se inspira do homem, do humano, da lingua portuguesa diversa, multipla, não se fecha a estilismos, a não ser o prazer de escrever a mesma coisa com os mais variaveis sinônimos. Não foi o que Jorge Amado, do jeito dele, com a cultura e costumes baiano, o fez ? "Porque eu nunca substituo as palavras a esmo". Postar novo Comentário
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Comentários + votados
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superperplexo
15/01/2012 - 12:57
MAIOR NO RANKING DO THE GUARDIAN (2002) E MÉDIUM/ESPÍRITA DA LITERATURA? COMO ASSIM?
Em 2002 o jornal inglês The Guardiam convocou 100 escritores de todo o planeta para elegerem as 100 maiores obras...
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Paulo Kautscher
15/01/2012 - 13:18
"Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor dos seus olhos."
De Riobaldo para Diadorim
leia também....
Mais um cadinho do encantado Guimarães Rosa e o Grande Sertão: Veredas.
Publicado...
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Joca Ramiro
15/01/2012 - 17:53
Nassif minino malungo,
De tempo a tempo eu venho ciscar em seu terreiro. O senhor perdoe a invasão. Bicho homem não foi feito pra ficar sozinho. Mesmo aqui, nesse algodoal de brancuras e nuvens, eu...
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Márcio Xavier
15/01/2012 - 18:18
só a título de esclarecimento, isso é o que se chama inspiração e não é a chamada "mediunidade ostensiva". Esse tipo de mediunidade todos temos já que no Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta...
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Jose Fernando Entratice
15/01/2012 - 18:24
Concordo com você Vera. Na minha opinião também. Diria até que não alcançou um Nobel, por serem intraduziveis as ideias construidas naquele quase dialeto. Pode transmitir até a idéia do autor. Mas...
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luzete
15/01/2012 - 20:28
concordo, sabe, vera. guimarães soube, como raros escritores no mundo, juntar a beleza da palavra com a beleza do pensar. e de uma forma absolutamente inovadora, porque eleva o popular, o saber do...
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Walmir Jose
15/01/2012 - 22:54
Acho desimportante para medir importância de um artista as premiações que tenha tido. Mesmo Sagarana ficou em segundo lugar no concurso de literatura de Curitiba. Quem conhece o conto premiado em 1º...
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Arnaldo Saraiva
Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?
Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.
Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Itabira de Drummond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de contar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses...
Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Hamburgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.
Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?
Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto muito do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Guimarães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.
Mas não chegou a conhecer Aquilino?
Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi alguns livros dele, o empregado perguntou-me se eu queria conhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.
Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os "notáveis escritores e poetas" que estavam a "encostar a pena contra a lava" que ia no Brasil "sepultando prosódia e morfologia da língua-mater"? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal...
Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.
Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.
Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, como infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.
Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?
Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Portugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Bernardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” estão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me separa dos portugueses.
Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Guimarães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado nenhum livro de cavalaria, nem nenhuma novela bucólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Grande Sertão: Veredas”...
Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Bernardim (Bernardim Ribeiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Camilo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal...
... que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” - e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso - pelo campo da “invenção linguística?
Quando escrevo, não penso na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Moçambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Portugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sempre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.
Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo: “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Corpo de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção...”.
Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.