A sangria na política monetária

Coluna Econômica - 06/02/2012

Vamos ampliar um pouco mais a discussão sobre a relação Selic-PIB, retomando o tema da última coluna.

A maneira como a Selic impacta a economia lembra muito o uso de sanguessugas para o uso da sangria no tratamento de saúde. Se contasse para um médico como a Selic atua sobre a economia, haveria denúncia ao Conselho Federal. 

A idéia central de uma política monetária é atuar sobre o nível de atividade. Se a economia está aquecida, há risco de aumento de preços. Aumentam-se os juros para reduzir a atividade e, com isso, aliviar a pressão sobre preços. E vice-versa. Se a economia está desaquecida derrubam-se os juros para estimular a atividade econômica.

Na prática, ocorre o seguinte.

O Banco Central aumenta a Selic: 

1. O efeito sobre o canal de crédito é mínimo. Um comentarista do Blog (www.luisnassif.com.br) comentou que a cada aumento da Selic seu banco aumenta as taxas de juros.

Experimente calcular o efeito sobre o valor final da prestação. Dado o elevadíssimo nível de juros do crédito, variações da Selic são inexpressivas. 

Por exemplo, um bem de R$ 1.000,00, por 36 meses a taxa de 3% ao mês (42,6% ao ano) resultará em uma prestação de R$ 45,80. Um aumento de 1 ponto na Selic (que provoca comoção nacional), se repassado para o financiamento, resultará em uma prestação de R$ 46,21. Um aumento de 3 pontos na Selic anual resultará em uma prestação de R$ 47,03. Pergunto: impactará a decisão de compra do consumidor? Evidente que não. Portanto, o efeito do canal de crédito é inexpressivo. 

2. Decisão de investimento privado. 

Suponha um investimento de R$ 1 milhão, com uma taxa anual de retorno de 10% e um prazo de 10 anos para amortização. O fluxo de caixa terá que ser de R$ 162,7 mil por ano para amortizar o investimento em 10 anos (sem considerar o valor residual).

Se a taxa de retorno exigida aumentar 3 pontos, o prazo de retorno aumentará para 14 anos. É evidente que ocorre um corte em todos os investimentos que proporcionem um retorno inferior. 

É uma lógica maluca. A política monetária atua sobre a demanda visando corrigir o descompasso com a oferta. No entanto, a maneira que tem de atuar sobre a demanda agregada é inibir o aumento da oferta - isto é os investimentos. Só um país da jabuticaba para aceitar essa lógica. 

3. Um terceiro efeito é sobre o câmbio. Aumenta a Selic, atrai mais capital especulativo, que pressiona o câmbio tornando mais baratos os chamados produtos exportáveis - os importados e aqueles controlados por cotações internacionais. É o uso da sangria no tratamento médico. Interfere-se em um preço fundamental da economia, com implicação direta sobre as contas externas e sobre a competitividade, para atingir o objetivo de controlar a inflação. Mesmo assim, hoje em dia o efeito é pequeno. 

4. Reduz investimentos públicos. 

Esse é o ponto mais nefasto da operação sanguessuga. 

Aumenta a Selic. Há uma pressão adicional sobre as contas públicas e sobre a relação dívida/PIB. Para contrabalançar, exige-se um aumento do superávit primário. Cortam-se investimentos públicos e, com isso, reduz-se a demanda agregada. 

Depois, alega-se que o país não pode crescer (e tome juros altos para segurar o crescimento) porque não tem infraestrutura adequada. 

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10 comentários
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Sergio Saraiva

Brilhante, parece aquela coisa do Orwell, o contra-pensar.

Deixa ver se eu entendi.

Se baixa-se a SELIC nem por isso os preços ao consumidor abaixam, já que estes estão fortemente escorados nos juros cobrado nos financiamentos e que não são afetados significativamente pela SELIC e sim pelas práticas do mercado financeiro que arbitra a taxa de juros dos financiamentos apostando em quanto brasileiro aceita pagar. Logo, baixar a SELIC não afeta a demanda nem leva a um aumento da inflação.

No entanto, baixar a SELIC pode ter um efeito muito positivo para os investimentos produtivos, pois uma SELIC baixa desestimula a ciranda financeira. Ou seja, previlegia-se o ganho econômico ao invés do ganho financeiro. Mais investimentos privados, mais oferta de produtos, menos inflação e, talvez, uma baixa de preços. O que levaria a mais consumo e crescimento sustentável.

Baixar a SELIC também desistimula a entrada de capital especulativo no país, já que os ganhos não seriam tão atraentes. Menos capital especulativo, menor valorização do real. Real desvalorizado, aumento da competitividade das exportações. Aumento das exportações combinado com aumento da oferta gera aumento da riqueza sem aumento da inflação. Crescimento sustentável.

Baixar a SELIC também diminui o quanto o governo tem de pagar pelos juros das contas públicas. Desembolsando menos em juros sobra mais para investimentos em infra-estrutura. Melhor infra-estrutura menor custo de transporte. Menor custo de transporte, menos inflação e maior competitividade.

E isso?

Mas, Nassif, se é tão simples, por que temos ainda uma das maiores taxas de juros do planeta?

Ninguém mais além de você estaria vendo isso?

 
 
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drigoeira

Além disto aí Sérgio, tem a enorme demanda reprimida da população brasileira (classe A, B, C, D ) que vai ficar assombrando a inflação por pelo menos uns 30 anos.
Diminuir os juros do crédito pessoal então, nem pensar.
E quero financiar a construção de minha casa na CAIXA (não enquadro no Minha Casa Minha Vida), nas simulações feitas pela internet, a taxa de juros cobrado (20 anos de empréstimo) é de 12,5% ao ano.
Maior que a Selic, vai entender.

 
 
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Chagas

Nassif,


Você acha que tem alguém interessado no país? Quem manda aqui (incusive na mídia) são os banqueiros e para eles tá tudo muito bom. Ainda não apareceu um Estadista no Brasil. Nem Lula nem Dilma têm coragem para enfrentá-los, pois significa enfrentar a mídia também.

 
 
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roberto felisberto barroso

e eu continua inconformado com o fato de ter quitado uma divida com o BB a 8 anos conforme a lei do consumidor, que oferece disconto sobre juros abusivos, e ainda considerado devedor ao BB, ai eu pergundo, isso é lei?  E apos o banco comprar a Nossa caixa, minha conta de funcionario publico foi para o BB, dai tudo bem, porem apos 5 anos eu quitar meu emprestimo consignado, vem a surpresa, que nao posso fazer outro ja que estou impedido por normas internas do banco, que negociou com o governo tucano o direito, se isso é direito, em me controlar os meus emprestimos, ou seja o gov. tucano vendeu ao banco, meus direitos, e como tolo, nao posso fazer qualquer tipo de emprestimo, nem cheque, nem conta especial, ou seja nada, e ainda o banco me cobrava, 27 reais mensais para manter uma conta sem qualquer beneficio, e depois de muita discusao, a gerenta de minha conta nao aceitou transformar minha conta em conta salario, ja que por ter um emprestimo rural do extinto Nossa Caixa, se diz impossivel a mudança, e que talvez conseguiria nao me cobrar taxa alguma para manter a conta mais que com certeza nao a mudaria para conta salario.   Mais o que me interessa é o emprestimo que me impedem de fazer, um direito tolhido tanto pelo BB como pelo gov tucano do Geraldo.  O que fazer?

 
 
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Roberto São Paulo-SP 2012

.... Há espaço para uma política de afrouxamento monetário no Brasil, com elevada probabilidade àconcretização de um cenário que contempla a taxa de juros se deslocando para patamares de um dígito, sem comprometer o nosso objetivo de trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% em 2012.

E para reforçar o nosso mix abrangente de política, foi reafirmada a continuidade da consolidação fiscal.Neste momento, a atenção à solidez fiscal deve ser redobrada. Essa questão não está mais circunscrita à Europa, passando a ser ponto de monitoramento constante dos agentes de mercado em outras economias relevantes.

No atual contexto internacional, a situação fiscal brasileira pode ser considerada um dos principais ativos que a nossa economia possui. Nos fóruns internacionais, a experiência brasileira de ajuste das contas públicas ao longo dos últimos anos e de construção de um arcabouço de monitoramento e disciplina fiscal tem sido apontada como modelo a ser estudado e absorvido pelas economias maduras.

>Finalmente, seguindo o mesmo quadro de raciocínio no novo contexto de 2012, importa mencionar que os instrumentos prudenciais-regulatórios (a nossa caixa de ferramentas) são amplos e capazes de atuar na prevenção de vulnerabilidades excessivas no sistema financeiro. Podemos sempre e tempestivamente decidir, sabendo agora da sua eficácia e complementaridade, sobre o mix de medidas micro e macro prudenciais conjuntamente com a calibragem das condições monetárias, para atingir os objetivos de estabilidade macroeconômica e financeira.......

 

04-02-2012 - Discurso do diretor de Regulação do Sistema Financeiro, Assuntos Internacionais e Gestão de Risco Corporativo, Luiz Awazu Pereira da Silva, no V Encontro Nacional Fenaprevi  (PDF - 444 KB)
Banco Central do Brasil 04-02-2012

 

2010

 
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Roberto São Paulo-SP 2012

Creio que vai ficando cada vez mais claro que o Copom vai vez mais aproveitar o aumento do superávit primário, para reduzir os juros da Selic, compensando a queda da demanda do setor público com estímulos ao consumo das famílias e do setor privado, e para eliminar o diferencial de juros.

 

2010

 
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Marcelo Sobral

Será que o uso da Selic na verdade é para ajudar a rolar a dívida federal, e indiretamente conter a inflação ? O impacto na economia seria por retirada de dinheiro de circulação (investido em títulos do governo), e a consequente redução de investimentos causaria em certa medida redução do nível de emprego, manutenção de preços altos, e resistência a reajustes de salários. Assim, o efeito depressor da economia seria alcançado não por redução do crédito, mas por uma dose de recessão controlada. Por fim, como em toda atividade econômica, isso criaria um ecossistema que sobrevive da remuneração desses títulos - ao invés de sobreviver produzindo bens ou prestando serviços para a sociedade.

Tem fundamento essa hipótese ?

 
 
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Ana Cruzzeli

 Eu entendo sua posição Nassif, e acho que o encaminhamento governamental é nesse sentido, o que eu tenho preocupação  é quanto aqueles que querem uma politica de queda abrupta da taxa Selic.

  Acho que o governo vem fazendo o que os economistas desenvolvimentista querem o de transformar o Brasil num pais de vendedor de produto de valor agregado. Esse gera mais emprego, empregos mais valorizados e principalmente uma população de maior conhecimento e desenvolvido em todas as áreas do conhecimento. Essa tem sido a meta, só que muitos concertos da era FHC devem acontecer.

Como podemos mudar a politica para exportador se as industrias de base foram destruidas por FHC? Devemos começar por aí.  Novas industrias estrangeiras que vão migrar para o Brasil  ( serão milhares para 2012/2013) a fim de usar nossa demanda interna reprimida querem saber disso. Falo principalmente da CSN. Nossa maior industria de siderurgia mudou seu foco radicalmente. Temos que ter uma substituta, parece que a Vale vai ocupar esse espaço deixado pela CSN. Para produzirmos maquinas e trilhos e tudo o mais precisamos de siderurgicas e metalurgicas.  Isso diminui o custo de produção de produtos de valor agregado.

O  FHC quando priorizou essas duas sabia o que estava fazendo...

 Hoje temos que reconstruir praticamente do nada o que foi destruido por esse senhor. Isso leva tempo.Eu não entendo nada disso, contudo venho analisando essa Selic no sentido cambial e inflação externa, que nesse mundo globalizado interfere na inflação interna. Outras variaveis na Selic devem ser abordadas o tal do protencionismo em nivel mundial para proteger a economia interna de cada pais, mas princinpalmente trabalhando sua demanda reprimida. As exportação chineses devem cair afinal a Europa e EUA devem consumir cada vez menos. A China já se volta para o consumo interno, o Brasil também aí tem algumas curiosidades, como as empresas do mundo vão migrar com toda a força para esses paises. Brasil, China,Russia, India e grande parte para os paises pacificados da Africa.  

Nessa Matéria, Paull Craig Robets faz várias colocações pertinentes que vão influenciar o Brasil

Paul Craig Roberts: A economia americana está morta

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=174718&id_secao=2

Eu posso está errada, mas acredito que pela primeira vez na historia mundial estaremos vendo pessoas juridicas pedindo ex-patriação. Se o que Paul diz, e eu acho que ele está mais do que certo, as empresas tanto dos EUA como da Europa vão sair da zona morta e por simples questão de sobrevivencia vão migrar suas matrizes para os paises periféricos até a poeira abaixa. Pelo que Paul sinaliza, ( ele não diz, essa é uma interpretação minha)  isso pode ser para esses 4 anos seguintes. Então o Brasil não precisa se preocupar com as industrias secundárias e sim com as primárias. A concorrencia interna provocará um acordar das industrias nacionais no sentido de se modernizarem para enfrentar essa nova situação. 

O salário é um atrativos para essas industrias, mas o diferencial entre o Brasil para com a China e India será o consumo maior. Afinal maiores salarios maior consumo. A China tem muitos consumidores e India também só que o salário minimo é muito baixo, isso interfere no consumo interno. 

A Selic é uma questão importante para mais adiante tipo 2014. Parece que a Dilma estava prevendo isso, uma queda gradual para um ataque violento em 2014 tipo, esse será o ano das exportações. As empresas nacionais precisam entender esse momento e se voltar para o comercio interno melhorando e melhorando seu desempenho, reduzindo e reduzindo custos e nunca olhando os salarios de seus funcionarios como custo e sim investimento na grande arena do comercio nacional

Eu acho que o Tombini, o Guido e logicamente a Dilma estão entendendo essa engenharia global. Como eu não entendo nada de macro-economia me miro neles, até agora está tudo certo. A selic tem que  ter queda  gradual para chamar as empresas do mundo para cá.

A  economia  como um organismo vivo tem que se movimentar, tem que girar, contudo  só cresce com dinheiro novo, dinheiro vindo de fora. Não existe dinheiro melhor do que aqueles que vem já com empresas prontas.

 

 

 
 
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Ana Barbosa

Há ainda um componente importante na pressão sobre a Selic, mas que não entra nas análises porque aparentemente não é impactante.

São as pressões que “especialistas” na mídia como Sardenberg e Miriam Leitão exercem diariamente forçando a alta da inflação para que o BC se obrigue a subir a Selic e faça a festa dos rentistas  (“amigo$” do pessoal da velha mídia).

 
 
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Alexandre Weber - Santos -SP

E eu acreditando que Selic era instrumento de controlle remoto de inflação futura rsrsrsrsrsrs

 

Follow the money, follow the power.

 

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