A retórica na criação de dinheiro, por Thorsten Polleit

Por aliancaliberal

Do Institulo Ludwig von Mises

Os vários eufemismos para a criação de dinheiro

por 

Linguagem confusa, pensamento confuso

De acordo com os ensinamentos do filósofo grego Parmênides, a linguagem ilustra o pensamento (e o raciocínio) humano.  Uma linguagem confusa é, portanto, equivalente a um pensamento confuso; pensamento confuso, por sua vez, provoca ações não premeditadas e resultados não desejados.

A "linguagem dupla" (doublespeak) — um termo que ganhou destaque por meio do trabalho de Eric Blair (1903-1950), mais famosamente conhecido comoGeorge Orwell — é uma notável forma de linguagem e pensamento confusos.  O termo era, na realidade, derivado dos termos "novilíngua" e "duplipensar", os quais Orwell usou em seu romance 1984, publicado em 1949.

 Enquanto estava sob a instrução supressiva do Partido, a mente do protagonista, Winston Smith,mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e, acima de tudo, aplicar esse mesmo processo ao próprio processo.  Esta era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência e então tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar.  Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.

Um eufemismo é uma forma de linguagem dupla: trata-se de um artifício retórico — utilizado às vezes intencionalmente e às vezes não (um paliativo linguístico, o que representa uma distorção da verdade) — empregado em muitos casos para evitar uma ofensa às pessoas.  Na vida real, eufemismos podem ser utilizados por alguns para tentar legitimar ações que vão contra o interesse de outros.  Neste sentido, eufemismos representam uma "manipulação da linguagem" e uma "manipulação por meio da linguagem".

Eufemismos após a crise financeira

Desde a eclosão da chamada crise internacional dos mercados de crédito, os eufemismos têm tido grande destaque.  Isso é válido, em particular, para os especialistas em política monetária, que se esforçam enormemente em propagandear uma variedade de medidas políticas como sendo de interesse do bem comum, uma vez que elas supostamente combateriam a crise de crédito.  Considere os seguintes exemplos:

1. A expressão "política monetária não convencional" retrata a ação do banco central a partir de uma perspectiva bastante favorável. O adjetivo "convencional" significa "hereditário" e "obsoleto", ao passo que "não convencional" pode sugerir algo na linha de uma ação "corajosa" e "inovadora".

2. Utilizar a expressão "política monetária agressiva" funciona da mesma maneira. Por exemplo, ela geralmente se refere a uma drástica redução nas taxas básicas de juros para níveis historicamente baixos, ou a um acentuado aumento na oferta monetária em decorrência da proximidade de uma recessão, transmitindo a idéia de que as autoridades monetárias estão tomando medidas "ousadas" e "corajosas", sempre visando ao bem comum.

3. A expressão "quantitative easing" (afrouxamento quantitativo) faz com que seja extremamente difícil, até mesmo impossível (para o grande público), compreender claramente o real significado de tal política monetária — no caso, uma política de aumento da oferta monetária (criando dinheiro do nada), a qual, por sua vez, é o mesmo que uma política monetária inflacionista.

4. Falar sobre uma "política monetária de juros baixos" encobre o fato de que tal política monetária joga as taxas de juros de mercado para baixo da taxa natural de juros (a taxa de juros que representa a genuína preferência temporal da sociedade), desta forma necessariamente gerando investimentos errôneos e insustentáveis em vez de estimular uma recuperação econômica.

5. Falar sobre "neutralização do aumento da base monetária" é algo claramente enganoso, uma vez que um crescimento na quantidade de dinheiro não é e nunca poderá ser neutro.  Tal medida vem necessariamente acompanhada de efeitos redistributivos — não importa se os recebedores desta injeção de dinheiro adicional (que foi criado do nada) irão manter estes saldos como "reservas em excesso" ou se irão mantê-los na forma de, por exemplo, depósitos a prazo.

6. Referir-se à "ampla liquidez" (como um fator que contribui para a "crise de crédito") tende a encobrir o fato de que os bancos centrais inflacionaram a oferta monetária (por meio da expansão dos meios fiduciários).  O termo "liquidez" tende a encobrir o fato de que as condições monetárias desfavoráveis são um inevitável resultado da ação dos bancos centrais.

Um bom exemplo de um recente eufemismo no campo da política monetária foi o anúncio feito pelo Conselho Administrativo do Banco Central Europeu (BCE), ainda em 10 de maio de 2010, dizendo que iria:  

conduzir intervenções nos mercados da dívida pública e privada da zona do euro (Programa de Mercados de Capital) para garantir profundidade e liquidez àqueles seguimentos de mercado que estão disfuncionais.  O objetivo deste programa é atacar o mau funcionamento do mercado de capitais e restaurar um adequado mecanismo de transmissão de política monetária.

Tal política monetária pode ser vista como um subsídio aos preços dos títulos de alguns governos na zona do euro — isto é, aqueles que são vistos pelos investidores como cada vez mais insolventes —, favorecendo, portanto, alguns governos endividados (e os investidores detentores de seus títulos) à custa de outros.

Na prática, tal política equivale a uma política de preços mínimos para os títulos de alguns governos deficitários, pois as compras destes títulos empreendidas pelo banco central fazem com que os preços destes títulos se mantenham acima daquele valor que, de outra forma, teriam prevalecido.

Linguagem confusa, resultados indesejados

Com os especialistas em política monetária fazendo uso crescente de linguagem confusa, as forças corretivas contra políticas monetárias perniciosas são enormemente reduzidas.  Isso acontece porque uma linguagem confusa — e sua consequência, o pensamento confuso — faz com que se torne cada vez mais difícil para o público entender as consequências a médio e longo prazo das medidas adotadas; e tal compreensão é claramente necessária para se resistir a políticas danosas.

O uso perpétuo de linguagem confusa pode resultar em consequências sociais que, na verdade, são desejadas por poucos.  Considere o caso de uma progressiva expansão do governo.  A razão pela qual o aparato estatal continua crescendo à custa do setor privado é, principalmente, devido à detenção, por parte do governo, do controle total da produção de dinheiro.  Detendo o monopólio da oferta monetária, o governo pode aumentar a quantidade de dinheiro por meio da expansão de crédito sem que haja nenhuma poupança real sustentando tal expansão creditícia.

Com um papel-moeda fiduciário, o governo pode aumentar — e realmente o faz — seus gastos muito além do montante que os pagadores de impostos estão dispostos a conceder ao estado.  Como resultado, mais e mais pessoas se tornam dependentes dos gastos do governo (algumas até de forma voluntária), seja como servidores públicos, empreiteiros, ou recebedores de pensões, saúde, educação e segurança públicas.

Cedo ou tarde, a dependência da ajuda estatal alcança, e até ultrapassa, um nível crítico. Desta forma, as pessoas verão uma política monetária de constantes aumentos na quantidade de dinheiro como sendo preferível a o governo decretar calote em suas dívidas, o que iria abolir qualquer esperança de receber benefícios do estado no futuro.  Em outras palavras, a política inflacionária, ou mesmo hiperinflacionária, será vista como a política do mal menor.

Graças à linguagem dupla dos especialistas em política monetária, a utilização de políticas monetárias que levam a uma alta inflação pode não ser perceptível pelo grande público.  Uma determinada política monetária com a qual a população presumivelmente não concordaria caso estivesse informada sobre suas consequências a médio e longo prazo pode, portanto, ser implementada.

Como resultado, há uma forte razão para se temer que a confusa linguagem orwelliana e o pensamento confuso que ela produz pavimentem o caminho para a entronização da inflação.

Colaboraram Marcelo Aguiar Cerri e Raysa Sales

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8 comentários
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ed.

Uma das armas para preservação do poder é evitar a compreensão de como ele é exercido...

 
 
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aliancaliberal

O uso do obscurantismo serve para a população não compreender a politica economica.

Cria-se assim o mito que de o cidadão comum não entende de economia, vemos isso aqui no blog "eu não entendo de economia ......"

Um povo que viveu 30 anos com inflação alta, perdeu a sua poupança em 1990, e vive com um salário minimo falar que não entende de economia é ser injusto consigo mesmo.

 

"Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta." Nelson Rodrigues.

 
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alcidescarp

Há um erro fundamental nesses textos do IVM: tratar a economia como ciência. Nunca foi. Nunca será. "Falar sobre uma "política monetária de juros baixos" encobre o fato de que tal política monetária joga as taxas de juros de mercado para baixo da taxa natural de juros (a taxa de juros que representa a genuína preferência temporal da sociedade), desta forma necessariamente gerando investimentos errôneos e insustentáveis em vez de estimular uma recuperação econômica.".

Investimentos errados são resultantes do desconhecimento do futuro e de todas as incógnitas do sistema. Independe da taxa de juros. Sempre haverá destruíção de capital em qualquer atividade humana, seja por erros de avaliação ou desperdício. Nem por isso a humanidade se extinguirá.

 
 
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Bento

Você está absolutamente certo e qualquer um que leu Mises sabe disso, mas o autor acima claramente ou leu e não entendeu nada, ou pior, leu e ignorou tudo o que era relevante para guardar consigo apenas as falácias triviais. Infelizmente, a retórica econômica desaconselha falar a verdade, por uma série de razões: não interessa como vc descreve a realidade e muito menos se o que vc diz funciona, mas apenas se isso pode ser reduzido a preceitos simples para ser usado como instrumento para justificar alguma bandeira política. Por isso argumentar que incerteza existe e que as pessoas erram sistematicamente não dá ibope algum. O que dá ibope é provar que mesmo errando elas ainda acertam no "agregado". E se erram ali também, é porque o maldito Estado atrapalhou de alguma forma. Provar que o Estado é necessário sempre é tolice, dado que todo mundo sabe disso e logo ninguém ganha nada com isso. Legal é mostrar que onde ele não é necessário, pois ali sim há oportunidade econômica a ser garimpada.

A maior tragédia de Keynes foi justamente essa: ele achou que fazia ciência (e por isso seria ouvido) ao argumentar que as firmas erram, que o desperdício existe, e a tentar propor soluções para isso. Ninguém quer solução para o desperdício, pois isso implica ação coletiva e numa sociedade complexa isso significa quase que inexoravelmente Estado na veia. As pessoas ouviram a "ciência" de Keynes com atenção quando ela era útil para justificar a recuperação econômica e o esforço de guerra e para afugentar o espectro do socialismo. Quando tudo isso foi superado, Keynes foi devidamente escanteado também e logo promoveram à gênio da vez algum outro sujeito que disse que tudo o que Keynes afirmava era tolice. Ideias econômicas vem e vão, ms não costumam ir muito longe (e há quem diga que nunca saem do mesmo lugar). A economia sim se transforma, mas essas ideias não. Porque elas representam visões políticas da sociedade, e esta (ou seja, as instituições) demora muito mais para se transformar.

 
 
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alfredo machado

Caro aliancaliberal:


O artigo mostra a realidade.


Os eufemismos utilizados pelos “especialistas” do mercado, cujo verdadeiro objetivo é mascarar os reais motivos causadores de turbulências nos mercados, são um fator que desanima qualquer pessoa a compreender o que se passa.


No patropi, o noticiário televisivo, além daquela incompreensível sopa de números e percentagens, ainda se utiliza de diversas expressões em inglês (porque exigir que o grande público saiba o significado de IPO?), uma maneira pouco sutil de esfregar na cara da maioria dos telespectadores a sua “ignorância”.


É inegável o aparente sucesso desta tática, daí o medo que as pessoas ainda sentem do mercado financeiro, ambiente entendido como para os bem aventurados, os “inteligentes”.     


O outro lado da medalha, o lado perverso, é o reduzido número de participantes pessoa física nas bolsas nacionais por conta do enorme desconhecimento das vantagens que tais aplicações podem oferecer, quando comparadas com a poupança, renda fixa, títulos de capitalização (socorro!!!), fundos de investimento, planos de previdência com suas magníficas taxas de administração e cláusulas quase sempre incompreensíveis( nos seguros de vida, a mesma coisa) ou seja, as aplicações que qualquer gerente de banco oferece às suas vítimas, ou melhor, clientes.


Sem o conhecimento mínimo de matemática, o sujeito está condenado a ficar reclamando do governo federal, a ser amigo do tal gerente e a ser assaltado por ele (na verdade, pela banca) até o final da vida.  

 
 
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Bento

Para alguém que se propõe a criticar - com razão - o eufemismo e a linguagem dúbia dos governos diante da recente crise, seria salutar que o autor pelo menos evitasse incorrer em falácias tão simplórias, inclusive recorrendo ele próprio a eufemismos quando se mostra incapaz de descrever os fatos de forma a justificar sua ideologia peculiar. O texto está bem redigido, mas seu conteúdo é tão volátil que mal dá vontade de criticar. Mas como estou com tempo ocioso hoje, então lá vai:


1. A expressão "política monetária não convencional" retrata a ação do banco central a partir de uma perspectiva bastante favorável. O adjetivo "convencional" significa "hereditário" e "obsoleto", ao passo que "não convencional" pode sugerir algo na linha de uma ação "corajosa" e "inovadora".

"Não convencional" nos dias de hoje significa tão somente que os Bancos Centrais jogaram a toalha diante da perspectiva de uma depressão igual ou pior que a dos anos 30, mas que nem por isso abandonaram seu compromisso com uma política monetária comedida. Convencional continua sendo bom pra eles, não tem nada de obsoleto. Não há nada de corajoso ou inovador em entregar os pontos, só o autor com seu pré-julgamento subjetivo vê uma aura positiva onde os próprios presidentes dos Bacens mundo afora só enxergam perigo e impotência diante da realidade, por eufemismo tosco ou por má fé mesmo.

2. Utilizar a expressão "política monetária agressiva" funciona da mesma maneira. Por exemplo, ela geralmente se refere a uma drástica redução nas taxas básicas de juros para níveis historicamente baixos, ou a um acentuado aumento na oferta monetária em decorrência da proximidade de uma recessão, transmitindo a idéia de que as autoridades monetárias estão tomando medidas "ousadas" e "corajosas", sempre visando ao bem comum.

A função do Bacen estabelecida em Constituição é sempre visar ao bem comum, definido como um ambiente econômico estável e de pleno emprego. Elas agem continuamente para tal, e suas ações não tem atributo algum de coragem ou ousadia pois não são ações humanas, mas medidas econômicas. É o "mercado" que está sempre a enxergar "coragem" ou "medo" nessas decisões,  a função da autoridade monetária é tão somente agir pouco importa como essa ação pareça ao mercado. Então se o autor acha que as autoridades monetárias mundo afora não querem o bem comum, ele deveria apontar provas disso, ao invés de acusá-las de agirem com "ousadia" só porque o mercado que diz que elas são ousadas. Novamente, ao usar a imagem (subjetiva) que o mercado atribui à ação do Bacen para criticá-lo, ao invés de se concentrar em seus atos concretos, o autor demonstra uma má fé sem tamanho.

3. A expressão "quantitative easing" (afrouxamento quantitativo) faz com que seja extremamente difícil, até mesmo impossível (para o grande público), compreender claramente o real significado de tal política monetária — no caso, uma política de aumento da oferta monetária (criando dinheiro do nada), a qual, por sua vez, é o mesmo que uma política monetária inflacionista.


O "quantitative easing" já está aí desde 2008, indo para sua terceira rodada, a base monetária dos EUA explodiu, mas mesmo assim a inflação do país mal não chega a 2% a.a. e a recessão e o desemprego permanecem. Esses são os fatos. O autor poderia fazer um esforço de tentar compreendê-los, como todos os economistas sérios nos EUA e mundo afora. Ao invés disso, ele simplesmente proclama que a política é "inflacionista" porque criou "dinheiro do nada". Onde estão essa inflação e esse dinheiro ele não mostra. Não precisa. Como todas as demais falácias, imprecisões ou mentiras deslavadas desse artigo, ele também os criou "do nada" apenas para bater no Fed. O mesmo Fed que acabou de adotar um sistema de metas de inflação centrado em 2% a.a. , que responsabilizará suas autoridades caso não seja atingida. Será essa a inflação de que o autor tem tanto medo? 2%?

4. Falar sobre uma "política monetária de juros baixos" encobre o fato de que tal política monetária joga as taxas de juros de mercado para baixo da taxa natural de juros (a taxa de juros que representa a genuína preferência temporal da sociedade), desta forma necessariamente gerando investimentos errôneos e insustentáveis em vez de estimular uma recuperação econômica.

Não é preciso entender de economia pra ver a falácia tosca da afirmação acima. Basta perguntar a qualquer empresário se ele investe mais quando o juro cai "abaixo do natural", ou a um consumidor se ele compra mais com menos juros. Os 2 responderão a mesma coisa: isso é irrelevante, o que eu quero saber é se tenho dinheiro na mão hoje pra gastar e se terei amanhã para pagar a conta. Afora  a tolice que é falar em investimento errôneo e insustentável num contexto de incerteza, que é (ou deveria ser) a base do empreendimento numa sociedade capitalista. Investimento certo é aquele que dá certo e errôneo é o que dá errado? Que genial, que profundo (e ainda chamam isso aí e teoria). Mas o que me espanta mesmo não é nem a quantidade de tolice afirmada, mas a vinculação de um pretenso austríaco a um modelo neoclássico de equilíbrio geral que pressupõe pleno emprego. O sujeito poderia ter começado a frase dizendo "uma vez que todos agentes estão empregados", mas ele não faz isso porque sabe que é mentira. E afinal, o que é uma mentirinha dessas se eu posso usá-la para atacar o governo não é mesmo? Os fins justificam os meios.

5. Falar sobre "neutralização do aumento da base monetária" é algo claramente enganoso, uma vez que um crescimento na quantidade de dinheiro não é e nunca poderá ser neutro.  Tal medida vem necessariamente acompanhada de efeitos redistributivos — não importa se os recebedores desta injeção de dinheiro adicional (que foi criado do nada) irão manter estes saldos como "reservas em excesso" ou se irão mantê-los na forma de, por exemplo, depósitos a prazo.

Pela primeira (e única) vez o autor falou a verdade, mas, como veremos, "eufemisticamente" pois ele o que ele quer em seguida é emendá-la uma mentira para justificar sua posição ideológica. É óbvio que alterações na base monetária tem efeitos redistributivos. O que não é óbvio (e o autor conta com isso) é que o Estado não controla toda oferta de moeda. A maior parte dela é realizada pelos bancos, portanto "privatizada" no melhor sentido do termo. São eles que decidem o que farão com o estoque de moeda que o governo lhes deu - se o emprestarão (favorecendo alguns agentes em detrimento de outros), se o entesourarão (favorecendo a si mesmos no caso de uma turbulância) ou se simplesmente enviarão esse dinheiro para fora do país para buscar novas oportunidades mais rentáveis (precisamente o que os bancos dos EUA fizeram desde 2008). Mas mesmo com tanto poder discricionário, os bancos privados não merecem atenção do autor. A culpa, é claro, é só do governo. Por que? Será porque preferiu dar o dinheiro a eles ao invés de jogá-lo de helicópteros nas ruas diretamente para o povo?

6. Referir-se à "ampla liquidez" (como um fator que contribui para a "crise de crédito") tende a encobrir o fato de que os bancos centrais inflacionaram a oferta monetária (por meio da expansão dos meios fiduciários).  O termo "liquidez" tende a encobrir o fato de que as condições monetárias desfavoráveis são um inevitável resultado da ação dos bancos centrais.

Os bancos centrais de fato inflacionaram muita coisa, menos a inflação, pelo menos pelo que os indicadores mostram até aqui. Neste quesito eles fracassaram miseravelmente, não obstante esse fosse seu principal objetivo segundo o argumento posterior do autor. Mas o que é legal aqui mesmo é a postura do autor creditando toda a responsabilidade pela liquidez do sistema exclusivamente aos bancos centrais. Deixa eu ver se entendi: se o Bacen dá dinheiro pro banco privado e este não repassa aos agentes econômicos, então a culpa é do Bacen porque... bem porque isso era "inevitável" desde o início oras. Entendeu? Não? Leia o texto de novo! Leia até se convencer!  A culpa é dele! TEM QUE SER!! Começo a suspeitar que esse autor realmente levou a sério as artimanhas orwelianas, pois com certeza não as economizou para tentar convencer seu público..

Um bom exemplo de um recente eufemismo no campo da política monetária foi o anúncio feito pelo Conselho Administrativo do Banco Central Europeu (BCE), ainda em 10 de maio de 2010, dizendo que iria:  conduzir intervenções nos mercados da dívida pública e privada da zona do euro (Programa de Mercados de Capital) para garantir profundidade e liquidez àqueles seguimentos de mercado que estão disfuncionais.  O objetivo deste programa é atacar o mau funcionamento do mercado de capitais e restaurar um adequado mecanismo de transmissão de política monetária.

Tal política monetária pode ser vista como um subsídio aos preços dos títulos de alguns governos na zona do euro — isto é, aqueles que são vistos pelos investidores como cada vez mais insolventes —, favorecendo, portanto, alguns governos endividados (e os investidores detentores de seus títulos) à custa de outros.

É óbvio que sim. É uma decisão política clara de beneficiar no curto prazo os países da periferia da Europa e especialmente seus credores, e como toda decisão política ela tem uma contrapartida: que os governos desses países implementem uma série de reformas draconianas para se "ajustarem" a um sistema que já nasceu desequilibrado e assim  continuará (mas isso é outra estória). O BCE tem autonomia legal e moral para fazer isso. Se o autor é europeu e não gosta da decisão política do BCE, então exerça seu direito democrático de questionar essa decisão por meio do voto. mas que fique claro que está criticando uma decisão política. Economicamente não há nada de "errado" e muito menos de "imoral" na conduta do BCE, como tampouco haveria se esta entidade decidisse simplesmente cruzar os braços diante da crise europeia (embora fosse uma estupidez do ponto de vista político).

Na prática, tal política equivale a uma política de preços mínimos para os títulos de alguns governos deficitários, pois as compras destes títulos empreendidas pelo banco central fazem com que os preços destes títulos se mantenham acima daquele valor que, de outra forma, teriam prevalecido.

Agora quem está usando eufemismos de forma irresponsável é o autor. O preço dos títulos desses países não está "acima de valor de mercado", pelo simples fato de que não tem valor nenhum há tempos, os mercados evaporaram para eles. O autor confunde uma operação de salvamento do governo com uma manipulação simplória de preços no mercado, tal qual a ação de um especulador. Novamente: eufemismo ou má fé?

Linguagem confusa, resultados indesejados

Com os especialistas em política monetária fazendo uso crescente de linguagem confusa, as forças corretivas contra políticas monetárias perniciosas são enormemente reduzidas.  Isso acontece porque uma linguagem confusa — e sua consequência, o pensamento confuso — faz com que se torne cada vez mais difícil para o público entender as consequências a médio e longo prazo das medidas adotadas; e tal compreensão é claramente necessária para se resistir a políticas danosas.

Concordo plenamente e digo mais: o uso de linguagem confusa, além de perigoso para sanidade do sistema econômico, é extremamente contagioso. O autor acima é a maior prova disso.

O uso perpétuo de linguagem confusa pode resultar em consequências sociais que, na verdade, são desejadas por poucos.  Considere o caso de uma progressiva expansão do governo.  A razão pela qual o aparato estatal continua crescendo à custa do setor privado é, principalmente, devido à detenção, por parte do governo, do controle total da produção de dinheiro.  Detendo o monopólio da oferta monetária, o governo pode aumentar a quantidade de dinheiro por meio da expansão de crédito sem que haja nenhuma poupança real sustentando tal expansão creditícia.

No capitalismo contemporâneo o governo emite moeda por meio do sistema privado e não às custas dele, pois a forma clássica de expandir a base monetária é inundar os bancos de dinheiro, e eles decidem o que fazer com ele depois. O autor está afirmando que o governo tem controle sobre a política de gestão de recursos desses bancos, o que é uma afronta não apenas à lei, mas à própria inteligência alheia - se o governo quisesse controlar toda oferta monetária, pra que faria uso dos bancos privados? Neste caso não estamos diante de uma falácia, mas de uma mentira deslavada do autor, que chega a usar o tyermo "monopólio" mostrando que não sabe sequer o significado da palavra. Só na terra dele empresas monopolistas utilizam a estrutura física de firmas concorrentes (sic) para realizar sua prórpia produção.

Com um papel-moeda fiduciário, o governo pode aumentar — e realmente o faz — seus gastos muito além do montante que os pagadores de impostos estão dispostos a conceder ao estado.  Como resultado, mais e mais pessoas se tornam dependentes dos gastos do governo (algumas até de forma voluntária), seja como servidores públicos, empreiteiros, ou recebedores de pensões, saúde, educação e segurança públicas.

Pois é, faltou dizer que o papel-moeda representa menos de 10% da base monetária em países com um histórico de forte intervenção governamental no sistema financeiro (tal como o Brasil) e menos ainda nos países desenvolvidos. Todo o restante da "moeda" existente na economia é constituída de crédito, em larga extensão privado. Se o autor acredita que esse crédito deriva em sua totalidade dos gastos do governo, é um direito seu. Mas com certeza ele nunca teve sequer uma conta em banco, senão saberia o tamanho da tolice (mentira?) que está falando. Até imagino a cena, o gerente negando crédito pro sujeito dizendo: "olha, o sr. me desculpe mas o governo gastou muito pouco este mês, então eu não posso te dar um tostão.."

Cedo ou tarde, a dependência da ajuda estatal alcança, e até ultrapassa, um nível crítico. Desta forma, as pessoas verão uma política monetária de constantes aumentos na quantidade de dinheiro como sendo preferível a o governo decretar calote em suas dívidas, o que iria abolir qualquer esperança de receber benefícios do estado no futuro.  Em outras palavras, a política inflacionária, ou mesmo hiperinflacionária, será vista como a política do mal menor.

Já há muito o autor ultrapassou o nível crítico que separa o auto-engano da mentira e da má fé, creditando ao governo a responsabilidade exclusiva por erros e falcatruas cometidas pelo setor privado na gestão da moeda no sistema capitalista. As frases acima evidenciam isso. Ao contrário do que o autor afirma, inflações e hiperinflações não são jamais vistas como mal menor - ao contrário, elas precipitam revoluções, e são a forma mais fácil de acabar com o capitalismo justamente porque acabam com a confiança do povo no Estado, como sugeriu Lenin. A única inflação que é vista como mal menor é aquela que não aparece em termos monetários nos contratos, mas sim nos preços dos ativos, notadamente no setor imobiliário. Essa inflação, alegremente alimentada pelo setor privado com base em crédito farto e irresponsável (posto que sem controle algum do governo), não aparece nos indicadores oficiais e é vista até como evidência do bom momento que vive uma economia. Mas contra essa inflação, que faz os bancos privados darem calote no Estado ("socializando" o prejuízo depois de terem embolsado o lucro "privadamente") e deixa devedores a mercê  de cobradores intransigentes e agentes de despejo, essa inflação não interessa ao autor. Pois ele sabe que ela só tem resultado em mais poder para os grandes bancos e corporações privadas.

Graças à linguagem dupla dos especialistas em política monetária, a utilização de políticas monetárias que levam a uma alta inflação pode não ser perceptível pelo grande público.  Uma determinada política monetária com a qual a população presumivelmente não concordaria caso estivesse informada sobre suas consequências a médio e longo prazo pode, portanto, ser implementada.

Se a população estivesse informada das consequências a médio e longo prazo de metade das políticas públicas existentes, já estaríamos vivendo há tempos um regime autoritário absoluto, pois ninguém admitiria que tantos recursos e vidas fossem desperdiçados num sistema deliberativo tão disfuncional como a democracia contemporânea. No entanto, graças a Deus temos a ubiquidade da incerteza, pois é ela que permite que o contraditório e a inovação tenham seu lugar na política e na economia. Voltando ao exemplo acima, o autor mais uma vez mostra que não entende nada de política, ao "presumir" que a "população" seria contrária a uma medida que necessariamente beneficiará parte dessa mesma população, dado que a mesma não é homogênea e muito menos tem acesso democratizado aos canais de informação. Se o autor está se referindo exclusivamente aos pobres, pior ainda, pois se eles soubessem o quanto perdem com a inflação de ativos patrocinada pelo setor financeiro privado (posto que não têm propriedade em imóveis e muito menos em ações e títulos), eles demandariam de imediato a estatização de todo o sistema bancário. Como esse não é nem de longe o objetivo do autor, por aí se vê o quanto ele é capaz de refletir sobre as consequências de suas próprias ideias estapafúrdias. 

Como resultado, há uma forte razão para se temer que a confusa linguagem orwelliana e o pensamento confuso que ela produz pavimentem o caminho para a entronização da inflação.

Isso já aconteceu, então debater se há o que temer é ocioso. A maior prova disso pode ser encontrada no próprio texto acima, como vimos. O autor faz questão, por indigência intelectual ou má fé escancarada, de discorrer apenas sobre o único tipo de inflação que não existe hoje (a de papel moeda) para culpar o Estado pelos erros do setor financeiro privado, ignorando por sua vez os efeitos da inflação que existe e é poderosissima (a de ativos) e pune cada vez mais as classes menos favorecidas na imensa jogatina global que se transformou o capitalismo moderno. Essa inflação de ativos o próprio autor já "entronizou" tanto que foi capaz de ignorar por completo, enquanto tenta alertar seus leitores contra  os terríveis malefícios da inflação de 2% a.a. que o Fed lhes entrega anualmente. E o faz de forma tão sutil e diligente, com tantos pensamentos confusos e linguagens orwellianas, que realmente ficamos na dúvida se o sujeito é simplesmente limitado, pretensamente caricato ou, o que parece cada vez mais evidente, apenas lamentavelmente mal intencionado.

 
 
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Thiago BR

Instituto von mises ? Vamos discutir o ultimo episodio do manhatan connection tambem ?

 
 
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Bento

Por favor, não misture as coisas. Instituto Von Mises defende o pensamento libertário e existem outros think tanks que representam o pensamento conservador, que é outra coisa. Mas Manhattan Connection não representa coisa alguma a não ser bizarrice política, subserviência intelectual e nanismo moral, então é ofensivo comparar um programa tão tosco a estas instituições que orezam pela seriedade e pelo debate honesto (muito embora vários de seus filiados esqueçam disso com frequência, tal qual o autor aí de cima). Não é porque um babaca se diz "de direita" que vc deve usá-lo como régua para medir todo o pensamento conservador e libertário, mesmo sendo "de esquerda". Até porque há muito mais em comum entre as correntes socialista e liberal do que supõem muitos de seus pretensos filiados.

 
 

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