A publicidade infantil e o "eu quero, eu quero"

Por Marco Antonio L.

Da CartaCapital

A publicidade infantil invade a tevê

Por Clara Roman


Instituto rastreou propaganda direcionada ao público infantil e alerta para riscos, como obesidade, erotização precoce e endividamento dos pais Foto: Istock Photos

Sem leis que regulamentem exclusivamente a publicidade infantil, anúncios para crianças pipocam na programação nas tevês brasileiras. Uma pesquisa recente do Instituto Alana, que monitorou 15 canais pouco antes do Dia das Crianças, constatou que 64% das propagandas são direcionadas para este público. O estudo focou em canais da TV aberta, como Globo, SBT, Bandeirantes e Record, e em canais da tevê fechada exclusivos para o público infantil, como Cartoon Network, Discovery Kids e Disney XD.

A empresa de brinquedos Mattel foi o destaque da pesquisa como a que mais anuncia para crianças. Em segundo lugar, a também multinacional Hasbro. A falta de legislação sobre o assunto permite que a publicidade infantil transcorra livremente. Mas, segundo o Instituto Alana, reclamações de pais são bastante comuns. O Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária (CONAR) é financiado pelas próprias empresas e não tem caráter governamental.

“As empresas sabem que as crianças influenciam a compra”, afirma Gabriela Vuolo, do Instituto Alana. A lei Nº5921 de 2001, que tramita há dez anos sem aprovação, proíbe a publicidade e “comunicação mercadológica” dirigida ao público infantil. Dentre os argumentos contra a propaganda, está a falta de discernimento das crianças como espectadoras. Segundo Vuolo, até os 12 anos a pessoa ainda não entende qual é a intenção da publicidade. Até os oito, nem mesmo percebe o que faz parte da programação normal do canal.

A publicidade infantil, explica Vuolo, é interessante para as empresas porque fidelizam desde cedo as crianças aos seus produtos. “Ao mesmo tempo, a publicidade passa valores distorcidos, estimulando o consumismo e a ideia de que é necessário ter para ser alguém”, acrescenta.

Vencedora do prêmio-protesto “Empresa mais Manipuladora” do Alana, a Mattel manifestou que é uma companhia comprometida com o desenvolvimento infantil e acredita nos “benefícios do brincar”. Além disso, afirma que respeita a legislação brasileira e analisa as recomendações feitas pelo Conar. Para o Instituto Alana esse é justamente o problema.

Para as empresas, não há necessidade de infringir as leis, pois elas são suficientemente permissivas. O Conar, por sua vez, não mantém boas relações com o Instituto. No início do ano, o Alana enviou uma “denúncia” ao órgão contra uma campanha do McLanche Feliz veiculada durante o trailer de animação infantil “Rio”. A negativa do Conar veio acompanhada do veto do relator do processo com a seguinte frase: “Vale a fantasia de trocarmos o nome Instituto por outro mais característico – a bruxa Alana, que odeia criancinhas”. Desde então, o Alana deixou de enviar pedidos ao órgão de autoregulamentação.

O Alana questiona a validade do Conselho, com financiamento e participação de anunciantes, agências de publicidade e veículos de comunicação. O Conar, por sua vez, afirma que o Alana é uma entidade “que tem como grande objetivo na vida proibir publicidade para crianças e adolescentes, mas desconsidera a opinião dos pais e a educação familiar”, segundo a assessoria de imprensa.

Vuolo alerta para alguns perigos principais da publicidade. Uma questão ética permeia o debate, já que os anúncios estimulam o consumo inconsciente para um público que não tem a capacidade de fazer essa reflexão, contrariando o discurso em voga da sustentabilidade. Há também o estresse dos pais causado pelo “fator amolação”, quando as crianças infernizam os pais até que seus desejos sejam acatados. Os pais muitas vezes cedem, mesmo que isso signifique endividar-se depois.

“O pai fica numa situação de ‘Davi contra Golias’: a indústria diz que tem que comprar e joga para o pai a tarefa de dizer não”, explica ela. Há outros riscos como o estímulo à obesidade infantil. A maior parte das propagandas diz respeito a produtos com baixos valores nutricionais, com grandes quantidades de açúcar, sódio ou refrigerantes. Além disso, a publicidade pode incentivar a erotização precoce, como em um caso recente de uma marca de sutiãs que vendia peças com enchimento para meninas de 6 anos – com ilustrações do personagem “Sininho”, do filme “Peter Pan”. “A situação para as empresas é muito confortável. Mas as crianças acabam prejudicadas”, afirma Vuolo.

Nenhum voto
22 comentários
imagem de marcos nunes
marcos nunes

À parte os programas educaticos de tevê pública, deveria ser sumariamente probida qualquer programação infantil em rede comercial que não comprovasse eficácia educacional, excetiando-se toda e qualquer propaganda, inclusive em merchandinsing. As pessoas tem que ter consciência que educação não pode se compatibilizar com necessidades do mercado.

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

 
imagem de Guilherme Drumond
Guilherme Drumond

Os programas voltados para as crianças não ser exclusivamente educativos, como regra absoluta. Podem muitas vezes ser meramente divertidos, sem pretensões maiores. Mas nunca, que fique claro, baseados em valores errados.

 
 
imagem de Guilherme LUPS
Guilherme LUPS

Televisão não serve para nada.

Criança precisa é de irmão.

 
 
imagem de Klaus
Klaus

Irmão, amor, atenção, carinho, serenidade, família, escola, esporte, arte etc.....

 
 
imagem de alfeu
alfeu

Publicidade Infantil - Caminhos da Reportagem (24/11/2011) - TV BRASIL

 
 
imagem de Assis Ribeiro
Assis Ribeiro

“És importante que desde pequeño aprenda bien como és todo.”

 

Assis Ribeiro

 
imagem de Edsonmarcon
Edsonmarcon

Se o governo quiser fazer qualquer tipo de regulamentação na propaganda para crianças, o PIG vai gritar que é um ¨ataque à liberdade de expressão¨ e vai nos comparar a países atrasadíssimos, como a SUÉCIA, que não permite propagranda voltada às crianças.

 

¨Liberdade é a liberdade dos que pensam diferente¨ -- Rosa Luxemburgo

 
imagem de Roberto Veiga
Roberto Veiga

Desculpe, Edson, mas ha nao poucas coisas erradas mesmo em paises tidos como altamente desenvolvidos. Nao custa lembrar que a Suecia, se nao me engano muito, praticava a eugenia.

 
 
imagem de Cláudia Stefani
Cláudia Stefani

Até eu fiquei com vontade de comer esse sanduíche.

 
 
imagem de Assis Ribeiro
Assis Ribeiro

McDonald´s: multa de R$ 3 mi por unir comida e brinquedo  multa de R$ 3 mi por unir comida e brinquedo Foto: DIVULGAÇÃO Punição foi dada pelo Procon-SP; prática de venda conjunta de comida e brinquedos foi denunciada por ONG Criança e Consumo por provocar “formação de hábitos alimentares prejudiciais à saúde”; empresa alega que “respeita todas as normas da legislação vigente”; Ronald está sendo injustiçado?

07 de Dezembro de 2011 às 13:01

247, com informações da Agência Brasil – A Fundação Procon de São Paulo multou o McDonald's, rede de lanchonetes de comida rápida (fast food), em R$ 3.192.300,00 milhões pela prática de venda de alimentos com brinquedos, que a empresa faz por meio do McLanche Feliz. O caso foi denunciado pelo Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana – organização que trata do consumo infantil – em 2010, mas publicado no Diário Oficial da União desta quarta-feira, 7. O McDonald's ainda pode recorrer da decisão.

Segundo o Procon, a ONG argumenta que a associação entre a venda de alimentos e brinquedos “cria uma lógica de consumo prejudicial e incentiva a formação de valores distorcidos, bem como a formação de hábitos alimentares prejudiciais à saúde”.

A estratégia da rede de fast food é juntar ao lanche um brinde com brinquedos, geralmente personagens conhecidos pelo público infantil. De acordo com o Procon, desde a denúncia, em 2010, mais de 18 campanhas dirigidas a crianças foram feitas pelo McDonald's. Na atual, os brindes são personagens do filme O Gato de Botas.

Em nota, a assessoria de imprensa da multinacional americana informou que a empresa não comenta processos em andamento, mas “respeita rigorosamente as diretrizes legais na comunicação com seus públicos”. O grupo argumenta ainda que segue um “rigoroso” código de autorregulamentação publicitária, além de compromissos voluntários de normas de conduta na comunicação.

“Quanto ao McLanche Feliz, a rede esclarece que os brinquedos podem ser adquiridos separadamente, ou seja, desvinculados da compra dos produtos. Portanto, a empresa tem convicção de respeitar todas as normas da legislação vigente tanto em relação à comunicação como em relação a práticas comerciais”, diz a nota.

 

Assis Ribeiro

 
imagem de Jotaem
Jotaem

Já ocorreu na Califórnia, esse templo do higienismo. Os parlamentares proibiram a distribuição "gratuita" de brinquedos vinculada a compra do lanche. Levaram o "drible da vaca": o Mac passou a vender o brinquedo separado e doou a receita para a assistência a crianças deficientes (uma fundação do próprio Mac).  As vendas, dos lanches e dos brinquedos, aumentaram.

 
 
imagem de Klaus
Klaus

Até eu fiquei com vontade de comer esse sanduíche. (2)

As imgens já fazem seu papel por sí só!

 
 
imagem de Cláudia Stefani
Cláudia Stefani

Acham ruim a Alana? Que tal um desse aqui?

 
 
imagem de krishna
krishna

A sociedade de consumo, o deus-mercado, preparando as novas gerações de idiotas.                    
Como Jacques Fresco diz, Isso tem que acabar:

 http://youtu.be/eZGpzDWwKG8

ou

http://www.youtube.com/watch?v=eZGpzDWwKG8&feature=player_embedded

 
 
imagem de Gledson Shiva
Gledson Shiva

"A lei Nº5921 de 2001, que tramita há dez anos sem aprovação, proíbe a publicidade e “comunicação mercadológica” dirigida ao público infantil".

Se ta difícil coloar a mera Classificação Indicativa em programas inpróprios para as crianças, imagina uma lei que tem como alvo um mercado de bilhões, a galinha dos ovos de ouro da maioria das empresas do mercado privado?!

Tem que haver uma mobilização social a nível nacional para conscientizar a população dos males da publicidade dirigida ao público infantil!

Vejam um vídeo meu sobre o assunto:

http://www.youtube.com/watch?v=fWuj6o6QYsg

 

@gledsonshiva

 
imagem de Roberto
Roberto

Temos dois sobrinhos que criamos como filhos, a mais velha que tem 3 anos todas vez que entra o comercial de algum brinquedo nas tvs pagas pede, tio compra pra mim!

 
 
imagem de Rui
Rui

DEPENDE. Tenho um guri de 5 anos. É óbvio que os comerciais despertam o desejo, mas temos regras universais aqui em casa. Tipo, tempo de brinquedo é aniversário, dia das crianças e natal. E mesmo assim, com óbvias limitações. Embora ele não saiba, ele tem direito a uma, digamos, previsão orçamentária, e na medida do possível pode escolher os presentes (brinquedos) até atingir o valor. Com isso, a propaganda serve mais como menu mesmo, cardápio onde ele pode escolher o que quer. Claro, a gente orienta junto, tipo, o brinquedo que consiste em "cabeças de combate com controle remoto" sofre a nossa "contra-propaganda". É feio, é chato, você pode escolher dois ou três brinquedos diferentes se não escolher esse, ou porque ainda não é pra sua idade. Em último caso, é necessário um sonoro não mesmo: não vai comprar porque eu e sua mãe não gostamos desse brinquedo.... 

Ás vezes um brinquedo pode ser um prêmio, por algo que ele conquistou, ou um dia em que ele foi especialmente bonzinho. Daí dependendo podemos comprar alguma coisa que ele tenha mencionado que queria, etc. 

Acho perigosa qualquer regulamentação de publicidade que não seja a feita pelo próprio mercado. É uma linha de pensamento paternalista, e se eu não consigo educar meu filho quanto aos comerciais da TV, às promessas de políticos e às mulheres fáceis, não vai adiantar muito regulamentar isso. 

 
 
imagem de JB Costa
JB Costa

Propaganda direcionada para criança? Desde quando criança é consumidora? Qual o marco que constatou que uma criança tem discernimento para entender o que significa um anúncio comercial? 

Direcionar marketing para crianças não é inadequado; é um crime. Só aceitando um consumismo sem peias, ou um capitalismo soberano, é que se aceita tal absurdo. 

Já basta o pieguismo de face ideológica explorado nas propagandas dos adultos ao se utilizar a inocência e a face telúricas delas. 

Oh mundo podre esse nosso!

 
 
imagem de the_outsider
the_outsider

Um conselho que dá uma reposta dessas (definindo um instituto como uma "bruxa") merece algum crédito?

 
 
imagem de mellobarros
mellobarros

Acreditar  em  autorregulação,  como  os     conar    da  vida,  dá  nisso...

   Resta-nos  torcer  para  que   um  certo  país   não  passe  a  ser  a  nova  potência  mundial,  pois  os  autocolonizados  vão  achar  carne  de  cachorro  uma  maravilha e  as  empresas  de publicidade  vão  estimular  o  seu  consumo,  inclusive  por  crianças.

 

mello

 
imagem de Luciano Bastiani
Luciano Bastiani

Tenho dito que se auto-regulamentação servisse para alguma coisa não existiria confessionario em igreja e nem fiscal na prefeitura.....

 
 
imagem de Vânia
Vânia
 
 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!