A perda de influência da grande mídia

Do Portal Luís Nassif

Do Blog de Educação Política

O MAL-ESTAR DA GRANDE MÍDIA

Há um certo mal-estar na grande mídia brasileira. Há descuidos ideológicos, politicagem sem um mínimo bom senso, campanha política de baixo nível, uma insatisfação, uma certa ira, um leve desencantamento, uma agressividade ansiosa.

A grande mídia parece uma fera, que sabe de seu poder, mas se sente um pouco acuada.

Esse mal-estar não afeta somente o jornalismo, mas também a tolerância e a liberdade de imprensa. A mídia começa a usar e abusar do Poder Judiciário contra pessoas que noticiam ou emitem opiniões com críticas a ela. Freud talvez diria que é um mal-estar provocado pelo nascimento de um irmão mais novo. Talvez.

Na realidade, há possivelmente inúmeras razões para a situação em que se encontra a grande mídia, mas longe da psicanálise, algumas considerações podem ser feitas.

A primeira é o próprio desenvolvimento democrático do Brasil. Há no país, apesar de ter apenas 20 anos de democracia, o retorno de uma pressão muito grande por demandas sociais, que estão sendo parcialmente atendidas pelo governo. Isso deveria ser orgulho para a grande mídia, que sempre criticou e mostrou as mazelas do país. No entanto, há um sabor amargo e um certo rancor, visto que essas demandas sociais e democráticas acabam tangenciando os latifúndios cartoriais da mídia. Há, portanto, uma mal-estar pelos avanços democráticos e sociais.

Há Há também um mal-estar provocado pelo desenvolvimento tecnológico, pela internet e outras mídias, pelo barateamento da produção gráfica e audiovisual. Há muita gente com capacidade técnica e tecnológica para produzir conteúdo, há muita gente com possibilidade de publicação e distribuição de conteúdo por meio de novas tecnologias. Isso afeta diretamente a grande mídia porque as pessoas começam a comparar, analisar e questionar a qualidade e as omissões. Começa a haver certa concorrência de conteúdo, que não é exatamente uma concorrência econômica.

Há menos de uma década, a Folha de S.Paulo noticiou que um jovem músico entrou em um estúdio de rádio e, com um revólver em punho, exigiu que o locutor tocasse as músicas de sua banda. Esse era o único meio de dar visibilidade ao seu trabalho artístico. Hoje há novas possibilidades tecnológicas de distribuição, principalmente a internet, que transforma tal fato em algo pré-histórico. Esse poder centralizador da distribuição cultural está ruindo e isso provoca inevitavelmente um mal-estar.

O surgimento da ferramenta de publicação dos blogs é outra potencialização do mal-estar. Há uma grande quantidade de blogs bem estruturados em processos e conhecimentos de comunicação e jornalismo, além de inúmeros outros com a qualidade simples, mas primordial de um bom texto, uma boa análise ou inesperada criatividade. Exemplos não faltam: Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, Rodrigo Vianna, Blog do Mello, Luís Nassif, Na Maria News, Eduardo Guimarães, Rovai, portal Vermelho, Carta Maior, FNDC e tantos outros que nem dá para inumerar, mas que dissecam a relação entre a mídia e o poder. Há uma mal-estar pela sensação de não só pautar, mas também ser a pauta.

Há um mal-estar político e com o governo Lula. É um governo que não prejudicou e nem enfrentou a mídia durante os dois mandatos, mas também não é facilmente domesticado, enquadrado. Há um certo mal-estar porque parece que a mídia culpa o governo por não a socorrer no momento em que o mar parece agitado. Mas há também um mal-estar por apostar em um projeto político da oposição (PSDB/DEM) que está completamente vazio de utopia, é um projeto de manutenção das desigualdades sociais travestido de sonhos gerado pelo marketing político. É um projeto que não pode pegar a bandeira da igualdade, da justiça e nem da fraternidade, moralidade, ética ou mesmo da gestão pública. É um projeto que, no fundo, visa manter o status quo. E isso é desagradável.

Há um mal-estar também na mídia porque parece que parte do povo, essa entidade, desprendeu-se do seu cabresto. Há uma certa insatisfação e angústia com a impotência das ações da própria mídia no que diz respeito à sua capacidade de convencimento, de direcionamento. É um mal-estar que beira a insanidade e gera frases como "o povo está contra a opinião pública".

Há um mal-estar por ter de dialogar e de se confrontar de igual para igual com blogs, sites e empresas sem grande capital financeiro. É algo como: "quem é esse Zé mané que está me criticando sem o meu filtro, sem minha permissão?" ou "quem é esse povinho que agora diz quem eu sou e como deve ser o jornalismo?" É aquele mal-estar de ter de falar de igual para igual com quem sempre lhe foi subalterno.

Por fim, há um profundo mal-estar porque estamos em um processo de reorganização das formas produtivas de comunicação. É possível que o capitalismo continue o mesmo na fábrica de sabonete, na usina de aço ou na indústria têxtil, mas há uma profunda mudança econômica e produtiva em andamento na indústria da cultura e isso inevitavelmente provoca uma incerteza, uma angústia, um certo medo.

A má notícia para a grande mídia é que isso parece ser só o começo. Quando organizações sociais, sindicatos e grupos utópicos de diversos setores da sociedade entenderem a comunicação não é simplesmente um front de guerra, mas um espaço de mediação cultural que se porta como uma instância de superação da consciência de classes, de superação da consciência de grupo, aí as transformações serão muito mais aceleradas, muito mais intensas.(Glauco Cortez)

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22 comentários
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Otaciel de Oliveira Melo

Tá tudo aí, Glauco Cortez. Se fosse possível eu assinaria em baixo.

 
 
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Mario Blaya

acho que essa perda de influência ficou nitida na eleição de 2006, a campanha contra o PT e principalmente o Lula nos ultimos dias do 1º turno foi o ponto de inflexionamento da influencia da imprensa, nesse momento conseguiram evitar a vitoria no 1º turno, mas o desgaste foi tremendo, e desde então o governo Lula somente creceu perante um publico, que apesar de bombardeado continuamente com pseudos-escandalos ainda apoia o governo.  Obviamente isso se deve pelo sucesso economico e social e não por materias encomendadas na midia!

 

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." Max Frich

 
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foo

Você pode assinar embaixo: basta clicar nas estrelinhas que aparecem embaixo do post. :)

 
 
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Jorge

Não vejo a situação tão promissora.

A grande mídia ainda é um poder brutal e pode aumentar esse poder com a vitória de Serra. 

É preciso aumentar, em muito, a mobilização e a resistência.

 
 
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Pagu

Concordo plenamente com o Jorge. Hoje mesmo ouvi análise da jornalista Lucia Hippólito, que reforça a

idéia de que a candidata Dilma não vai saber controlar os radicais do PT. Disse que a mesma assina

sem ler. Tudo por conta do programa do PT, entregue quando da inscrição da Dilma. Logo depois

veio o Jabor, ligando o Lula ao ditador africano Obiang Mbasogo, da Guiné Equatorial.

Chamou o pessoal do Itamaraty, de comunistas (só não disse que come criancinha).

 

Pessoas simples acabam influenciadas por esse massacre midiático, de manhã vejo algumas nos bares

tomando café e a TV da parede ,no Bom Dia Brasil. Na fila do banheiro em Petrópolis, uma mulher comum,

do povo, me diz que tem medo do passado da Dilma. Perdi uma hora da viagem, conversando com ela.

 

Pagu

 
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Daniel Campos

A grande mídia é como uma criança malcriada (minha Teoria da Infantilização). Se costumou de uma forma tal à ter todos os seus desejos imediatamente satisfeitos que ao ter que se comportar como um adulto (respeitar os direitos dos outros, falar mas também ouvir, consciência que é mais uma voz e não o todo) começa a chorar e espernear, querendo obrigar os outros à força à continuar satisfazendo suas vontades. E o que se faz com crianças malcriadas?

Folha, Globo, Estadão e tantos outros precisam de uns bons "tapas na bunda" para acordar para a realidade, para seus donos sairem da "ilha de fantasia" onde seus pais os colocaram.

 
 
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MauroSobral

                  O artigo é perfeito.A visão imposta pelos controladores da velha mídia está  em rota de colisão com as novos tempos(Internet,blog etc..).A aposta da velha midia é que a eleição de Serra dê uma sobre vida a este controle, o que eu não acredito.As mudanças estão vindo na forma de um tisuname e vai reduzir a influência daqueles que insistirem em não vê o obvio.Há uma nova ordem mundial  que tem o epicentro na novas tecnologias.

 
 
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Ruy Barbosa Maciel

É o meu grande sonho, ver o que aponta otexto em relação ao futuro da mídia realmente ocorrer.

Esta nossa mídia gorda, controlada por poucas famílias, não muda desde priscas eras. É de um fascismo e um udeismo lacerdista, gritante o seu conteúdo.

Basta ler qualquer editorial furioso contra o governo e movimentos sociais ou qualquer coisa que venha a beneficiar o povo e compará-lo com os editoriais do corvo da rua Chile, falo de lacerda, até as palavras eles pegam dele emprestadas, já que não têm o brilhantismo e as mesmas facilidades que tinha o corvo com as palavras.

Um editorialista que ousa chamar um líder político de expressão de internacional e o presidente da república do Brasil de  cavalgadura, é ignominável, falo do jornal O Estado De São Paulo, normalmente chamado na blogsfera de The State Of New York, este jornalão é o símbolo do atraso e do reacionarismo, eles estão ainda em 32 e sonham em ganhar do caudilho sulista, falo de Getulio.

Pois que fiquem na década de 30, o progresso passará por cima denes inexoravelmente.

Ruy Barbosa Maciel- Governador Valadares MG

 
 
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Muito bom texto.

Queria dizer que se o Governo Lula quisesse, isto lá pelo início do seu primeiro mandato se lembro bem, quando o dólar foi a 4, podia ter nocauteado a Globo que estava no corner bambalenado com sua dívida, se não me falha a memória quanto à moeda, o montante era de 3 bilhões de dólares.

Tivesse ele um instinto de Getúlio, montava uma estratégia e mantinha a moeda neste patamar até bater o gongo, tomava as rédeas e dava outro rumo pra aquilo.

 
 
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Joao Carlos RB

A questão não é essa. Apesar do que o Jabor fala, comparando Lula aos piores ditadores da África,  Lula é um dos presidentes que mais respeitou a Democracia.

Lula não peita a globo, mas também não a apóia. Que, na verdade, é a atitude mais correta.

 
 
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Pagu

Também acho que o presidente Lula foi o que mais respeitou a democracia.

O cerne da questão, não é esse. É que o massacre midiático, acaba influenciando

pessoas que recebem essas informações diariamente,

algumas vezes até de forma

subliminar, através de situações nas novelas e etc.

 

Muita gente ainda não tem internet e as notícias tendenciosas, não são desconstruídas.

Se bem, que não podemos subestimar a sabedoria do povo.

 

Pagu

 
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Monier

Se ele tivesse peitado com truculência e tomado o controle no Globo, virava mais um Chavez e haveria apenas uma substituição dos ocupantes do espaço de poder. A reação ao monopólio do microfone parece ter seguido outro caminho político mais interessante: projeto da Banda Larga Popular, iniciativa do Blog da Petrobrás, início do Blog do Planalto, estruturação de conteúdo na TV Brasil, e uso de mídias alternativas nos debates do governo tais como o E-democracia, o Cultura Digital e mesmo este Portal sendo repercutido com seriedade, justamente por ser um canal livre e que reúne alguns milhares de interessados construindo uma pauta.

Construiu-se alternativas para a comunicação para quem quiser desviar do pensamento único e dirigido nos canais de TV e jornais. Ou mesmo para quem deixou de acreditar na comunicação passiva empresa-consumidor. Em vez de desmanchar as instituições- como ficou a imagem para o Chavez feita pelos próprios meios de comunicação - construiu-se outra via.

Neste ponto este governo está sendo bastante competente (e não vamos restringir o mérito ao Lula, que é apenas o chefe a permitir a construção, mas estender aos técnico que tem executado coisas bem feitas como o Cultura Digital e os debates do MINC) - as iniciativas tem funcionado e gerado frutos e a volta dos debates públicos, sem precisar passar pelo filtro dos antigos nós da rede.

A Globo demorou algo como 40 anos para ser construída. Para que o processo de readequação da concorrência no mercado de informação se complete é natural demorar mais um pouco. Mas alguma coisa está acontecendo, a julgar pelos motes da Copa, que com uma audiência de bilhões de pessoas teve como grandes polêmicas brasileiras o "Cala Boca Galvão / Tadeu ", o incidente da SPORTV com o Paraguai, e a quebra dos privilégios da Globo pelo Dunga.

A Globo teve um baque neste período de 20 anos de transição para a democracia política, com o desfazimento do mito do padrão de qualidade, a queda importante de audiência dos últimos anos e a entrada de competidores no seu nicho.

O segundo baque está sendo esta abertura da democracia comunicativa nos meios de massa, em que não apenas o padrão de qualidade do conteúdo da emissora, mas o próprio sentido dos fatos que ela divulga está sendo amplamente contestado.

Se antes os desconfortáveis eram virtualmente mudos para a massa, agora eles constróem uma nova versão dos fatos, e com a força de uma construção coletiva, que se opõe à versão de um âncora só. A julgar pela velocidade das transformações e o incômodo demonstrado pela emissora, eu não duvido que em pouco tempo o império da Globo se torne algo importante como a TV Tupi ou os Diários Associados, cujos sucessores estão por aí, mas já não são os donos da bola no que se refere a definir a nossa cultura e política.

 
 
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Mauricio Santaliestra

E ainda bem que a própria mídia tem colaborado bastante à sua própria "perde de influência".

Do vídeo "ridículo" sobre o Paraguai.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/paraguai-globo-nao-precisa-de-in...

Carta da embaixada do Paraguai à direção da Rede Globo.

Pra mim, alguém das comunicações ou das relações exteriores deveria ter feito um pronunciamento em rede nacional, explicando que não se trata de uma "visão nacional".

 
 
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Roberto Grimaldi

A grande vantagem da Internet é que, em breve, toda comunicaçâo, inclusive a TV vai passar pela rede. É que todos estão plugados nesta rede e podem ler, ver, escutar, interagir com o que quiserem.

Isto dá um poder tremendo ao internauta, que passa a determinar quem terá sucesso ou não. A grande mídia luta contra a perda do controle da comunicação, que era, veja bem, era propriedade sua. Podia e ainda pode, em termos, manipular as informações a seu bel prazer.

Com a Internet é possível desmascarar rapidamente o mau jornalismo, aquele sempre utilizado em prol dos mais bastados ou de interesses escusos. Em breve os jornais impressos vão passar um grande perrengue e seu faturamento vai despencar, porque teremos informação de forma gratuita na rede.

Não vejo a hora deste dia chegar e olha que está bem perto.

 
 
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José Honório

Nassif, a FSP faz propaganda "subliminar" (cunho da Quirrò) a favor de Serra o tempo todo e negativa contra Dilma e o governo. Entretando o MPE nunca se interessou por isto, mas se interessou em representar contra os blogs a favor de Dilma.  A Quirró (antiga Cureau),  por exemplo, com sua visão unilateral de de propaganda ilícita, tem ganhado notoriedade e com certeza ganhará uma capa de Veja logo ... logo. A ação contra alguém do Congresso a respeito de encher o a bola de Serra, era uma ação de mentirinha para mostrar que era isenta, mas era uma ação presivelmente natimorta pois o parlamentar é imune pelo que fala da tribuna. Voce acha que a grande mídia esta forçando o MPE através de seus barões?

 
 
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Erly Ricci

Excelente artigo, que assino embaixo e, se me permite, faço questão de postar no meu blog.

O que a grande mídia faz e sempre fez é a apologia da violência e a vituperação das virtudes humanas - no sentido mesmo de desprezo às virtudes - destacando espaços importantes do noticiário em temas como o caso do goleiro Bruno e espaços do entretenimento ao tratar personagens que demonstram  princípios de ética e honestidade, ternura e afetividade como idiotas, fracos e fracassados.

O seu desespero é também, devo acrescentar, porque vê desmascarada a sua agenda setting, o seu jornalismo de esgoto, a sua ganância e o seu terrorismo cultural cotidiano através da tecnologia que vêm democratizando a informação e a comunicação.

A grande mídia está frustrada em seu insano jogo de influências.

 

"pelos caminhos que ando um dia vai ser, só não sei quando" - Paulo Leminski

 
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ademar s teixeira

Isso só faz aumentar a urgencia e a importancia de um plano nacional de Banda larga, o acesso a internet, tornou-se tão essencial quanto vc ter agua e luz em casa, para alguns, talvez até mais.

 
 
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Erly Ricci

Do Carta Maior

DEBATE ABERTO

A velha mídia está derretendo

Pesquisa aponta que quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa brasileira são tendenciosas. Oito em cada dez brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro, maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula.

Como um iceberg a navegar em águas quentes e turbulentas, a velha mídia está derretendo. O mundo está mudando, o Brasil é outro e os brasileiros desenvolvem, aceleradamente, novos hábitos de informação.

Um retrato desse processo pode ser visto na recente pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom-P.R.), destinada a descobrir o que o brasileiro lê, ouve, vê e como analisa os fatos e forma sua opinião.

A pesquisa revelou as dimensões que o iceberg ainda preserva. A televisão e o rádio permanecem como os meios de comunicação mais comuns aos brasileiros. A TV é assistida por 96,6% da população brasileira, e o rádio, por expressivos 80,3%. Os jornais e revistas ficam bem atrás. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% são leitores diários dos jornais tradicionais.

Quanto à internet, os resultados, da forma como estão apresentados, preferiram escolher o lado cheio do copo. Avalia-se que a internet no Brasil segue a tendência de crescimento mundial e já é utilizada por 46,1% da população brasileira. No entanto, é preciso uma avaliação sobre o lado vazio do copo, ou seja, a constatação de que os 53,9% de pessoas que não têm qualquer acesso à internet ainda revelam um quadro de exclusão digital que precisa ser superado. Ponto para o Programa Nacional da Banda Larga, que representa a chance de uma mudança estrutural e definitiva na forma como os brasileiros se informam e comunicam-se.

A internet tem devorado a TV e o rádio com grande apetite. Os conectados já gastam, em média, mais tempo navegando do que em frente à TV ou ao rádio. Esse avanço relaciona-se não apenas a um novo hábito, mas ao crescimento da renda nacional e à incorporação de contingentes populacionais pobres à classe média, que passaram a ter condições de adquirir um computador conectado.

O processo em curso não levará ao desaparecimento da TV, do rádio e da mídia impressa. O que está havendo é que as velhas mídias estão sendo canibalizadas pela internet, que tornou-se a mídia das mídias, uma plataforma capaz de integrar os mais diversos meios e oferecer ao público alternativas flexíveis e novas opções de entretenimento, comunicação pessoal e “autocomunicação de massa”, como diz o espanhol Manuel Castells.

Ainda usando a analogia do iceberg, a internet tem o poder de diluir, para engolir, a velha mídia.

A pesquisa da Secom-P.R. dá uma boa pista sobre o grande sucesso das plataformas eletrônicas das redes sociais. A formação de opinião entre os brasileiros se dá, em grande medida, na interlocução com amigos (70,9%), família (57,7%), colegas de trabalho (27,3%) e de escola (6,9%), o namorado ou namorada (2,5%), a igreja (1,9%), os movimentos sociais (1,8%) e os sindicatos (0,8%). Alerta para movimentos sociais, sindicatos e igrejas: seu “sex appeal” anda mais baixo que o das(os) namoradas(os).

Estes números confirmam estudos de longa data que afirmam que as redes sociais influem mais na formação da opinião do que os meios de comunicação. Por isso, uma informação muitas vezes bombardeada pela mídia demora a cair nas graças ou desgraças da opinião pública: ela depende do filtro excercido pela rede de relações sociais que envolve a vida de qualquer pessoa. Explica também por que algo que a imprensa bombardeia como negativo pode ser visto pela maioria como positivo. A alta popularidade do Governo Lula, diante do longo e pesado cerco midiático, talvez seja o exemplo mais retumbante.

Em suma, o povo não engole tudo o que se despeja sobre ele: mastiga, deglute, digere e muitas vezes cospe conteúdos que não se encaixam em seus valores, sua percepção da realidade e diante de informações que ele consegue por meios próprios e muito mais confiáveis.

É aqui que mora o perigo para a velha mídia. Sua credibilidade está descendo ladeira abaixo. Segundo a citada pesquisa, quase 60% das pessoas acham que as notícias veiculadas pela imprensa são tendenciosas.

Um dado ainda mais grave: 8 em cada 10 brasileiros acreditam muito pouco ou não acreditam no que a imprensa veicula. Quanto maior o nível de renda e de escolaridade do brasileiro (que é o rumo da atual trajetória do país), maior o senso crítico em relação ao que a mídia veicula - ou “inocula”.

A velha mídia está se tornando cada vez mais salgada para o povo. Em dois sentidos: ela pode estar exagerando em conteúdos cada vez mais difíceis de engolir, e as pessoas estão cada vez menos dispostas a comprar conteúdos que podem conseguir de graça, de forma mais simples, e por canais diretos, mais interativos, confiáveis, simpáticos e prazerosos. Num momento em que tudo o que parece sólido se desmancha... na água, quem quiser sobreviver vai ter que trocar as lições de moral pelas explicações didáticas; vai ter que demitir os pit bulls e contratar mais explicadores, humoristas e chargistas. Terá que abandonar o cargo, em que se autoempossou, de superego da República.

Do contrário, obstinados na defesa de seus próprios interesses e na descarga ideológica coletiva de suas raivas particulares, alguns dos mais tradicionais veículos de comunicação serão vítimas de seu próprio veneno. Ao exagerarem no sal, apenas contribuirão para acelerar o processo de derretimento do impávido colosso iceberg que já não está em terra firme.

 

Antonio Lassance é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professor de Ciência Política.

 

"pelos caminhos que ando um dia vai ser, só não sei quando" - Paulo Leminski

 
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Werner Piana

falta uma rede de tv NACIONAL que seja democratica e popular...

pessoal gosta de ver tv - e se ver na tv...

 
 
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Felipe Pait

Se essa "grande mídia" é assim tão poderosa, como é que ela está perdendo influência? E se ela não está mais com esse poder todo, para que perder tanto tempo criticando?

 
 
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luisnassif

Não entendi. Nunca ouviu falar de países, pessoas ou revistas que, mesmo permanecendo poderosos, perderam influência?

 
 
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Felipe Pait

Em alguns momentos, a imprensa é descrita como um monstro que decide os destinos do país e controla nosso futuro. Em outros, como um anão ultrapassado pelas novas tecnologias, sem influência nenhuma. Parece incoerente. Se a grande mídia é tão irrelevante, não há porque temer. Dá a impressão que esse blog escolhe os fatos de acordo com o argumento que deseja fazer.

 
 

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