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A multidisciplinaridade no futebol, por Manoel SérgioEnviado por luisnassif, qui, 22/12/2011 - 12:24
Por superperplexo
Da Folha de S. Paulo JUCA KFOURI O brilhante filósofo português Manoel Sérgio explica o sucesso do time catalão LEIA AQUI parte do que escreveu o filósofo português Manoel Sérgio, publicado na íntegra página da universidadedofutebol.com.br: "Entendo agora por que o escritor catalão Enrique Vila-Matas, um dos grandes escritores da atualidade, faz parte de um grupo de intelectuais que, periodicamente, se reúne com Pep Guardiola. Não, não estou a dizer que o Enrique Vila-Matas sabe mais de futebol do que o Guardiola. Sabe menos! Mas da relação entre os dois (porque o futebol é uma atividade humana e não só uma atividade física) o Guardiola enriquece os seus conhecimentos do futebol e o Enrique encontra novos motivos para os temas da sua prosa. Hoje, em qualquer comunidade científica, a multi e a interdisciplinaridade são procedimentos básicos. Por que não são na esmagadora maioria dos clubes de futebol? Porque se desconhece que só sabe de futebol quem sabe mais do que futebol. Não há área do conhecimento que não se desenvolva sem uma sistemática relação com as demais áreas do conhecimento. A complexidade do real exige a complexidade do pensamento e da ação. E o futebol é bem mais do que a técnica e a tática. Há uma revolução a fazer no futebol. O próprio jogador genial encontra-se em rede com os seus colegas. Compreende-se o Messi sem o Xavi e o Iniesta? Ainda há pouco um aficionado do Barcelona me garantia que o seu clube apresenta uma indelével marca política (que não partidária): "O Barcelona, mais do que os ideais de um clube, representa os grandes anseios políticos da Catalunha". Talvez seja por isso que muitos dos jogadores que a publicidade mais idolatra, das outras equipas, pareçam viver num mundo fictício, convencional, artificial, gritando um clubismo declamatório e balofo, nos órgãos da Comunicação Social e saltitando nas revistas cor-de-rosa, de mãos dadas com jovens artistas de quem se contam grosseiras anedotas. Ao invés, o Messi, o Xavi e o Iniesta, não sendo monges nem deixando de ter vida afetiva, dão bem a entender que, mesmo nas suas horas de ócio, não deixam de cuidar do seu "treino invisível". De facto, fogem daquilo que não interessa, para brilharem (com luz inusitada) naquilo que verdadeiramente lhes interessa. O Barcelona é a melhor equipa de futebol do mundo. E por quê? Em primeiro do mais, porque, nela, o todo é mais do que a soma das partes. E aqui as partes não são só a técnica e a tática e o físico mas também o intelectual e o moral."
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Comentários + votados
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Gustavo Belic Cherubine
22/12/2011 - 12:35
Aqui tá a íntegra.A melhor análise já feita sobre o futebol.“Todo o conhecimento, mesmo o mais físico, é uma produção bio- antropológica, social, cultural, noológica” http://www....
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2
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Eduardo CPQs
22/12/2011 - 14:42
Luna, Gustavo, gente,
eu havia mais sentido que notado objetivamente, inclusive comentei com minha esposa, durantre e após o jogo.
"O Messi mantém uma atitude calma, modesta, quase humilde, não se...
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Aqui tá a íntegra.
A melhor análise já feita sobre o futebol.
“Todo o conhecimento, mesmo o mais físico, é uma produção bio-
antropológica, social, cultural, noológica”
http://www.universidadedofutebol.com.br/2011/12/3,11670,O+TODO+E+MAIS+DO+QUE+A+SOMA+DAS+PARTES+OU+O+JOGO+BARCELONA-SANTOS.aspx
Manuel Sérgio
manuelsergio@universidadedofutebol.com.br
perfil completo
20/12/2011
O todo é mais do que a soma das partes ou o jogo Barcelona-Santos
O que Pep Guardiola aprende em seus encontros com Enrique Vila-Matas
para enriquecer o jogo da equipe catalã
Por quatro golos, sem resposta; com duas bolas nos postes dos
adversários; e 72% de posse de bola – o Barcelona “esmagou” o Santos,
no jogo final do Mundial de Clubes. Porque me considero luso-
brasileiro (não legalmente, mas pelo coração), eu fui, naquele jogo,
que contemplei pela TV, um “torcedor” do Santos.
No entanto, findos os primeiros 45 minutos, já a superioridade do
Barça era tão evidente, que não me restava senão aceitar
desportivamenter a derrota e refletir sobre as razões de tamanho
desnível entre os dois clubes, incluindo entre os jogadores de maior
valia técnica, o Messi e o Neymar: as rajadas impetuosas do Messi
foram o corolário do dinamismo organizacional de uma equipa onde o
todo é mais do que a soma das partes; a ineficácia do Neymar foi o
resultado do trabalho de uma equipa onde o todo é menos do que a soma
das partes.
Em qualquer complexidade sistémica, fomenta-se a relação todo-partes
de modo que esta dialética permita a emergência de qualidades que, por
si sós, nem as partes nem o todo possuem. O que era Barcelona, sem o
Messi? Muitíssimo menos do que hoje é. O que era o Messi, sem o
Barcelona? Igual ao Neymar!
Este, em entrevista televisiva, afirmou, convicta e humildemente, que
o Barcelona acabara de dar ao Santos uma aula de bom futebol. E não só
de bom futebol, mas também doutros temas que é preciso saber no
futebol, como em qualquer outra área do conhecimento.
Entendo agora por que o escritor catalão Enrique Vila-Matas, um dos
grandes escritores da atualidade, faz parte de um grupo de
intelectuais que, periodicamente, se reúne com Pep Guardiola...
Não, não estou a dizer que o Enrique Vila-Matas sabe mais de futebol
do que o Guardiola. Sabe menos! Mas da relação entre os dois (porque o
futebol é uma atividade humana e não só uma atividade física) o
Guardiola enriquece os seus conhecimentos do futebol e o Enrique
encontra novos motivos (incluindo os estilísticos e os retóricos) para
os temas da sua prosa.
Hoje, em qualquer comunidade científica, a multi e a
interdisciplinaridade são procedimentos básicos. Por que o não são, na
esmagadora maioria dos clubes de futebol? Porque se desconhece que só
sabe de futebol quem sabe mais do que futebol (e de medicina quem sabe
mais do que medicina e de direito quem sabe mais do que direito e de
economia quem sabe mais do que economia, etc., etc.).
Não há área do conhecimento que não se desenvolva, sem uma sistemática
relação com as demais áreas do conhecimento. A complexidade do real
exige a complexidade do pensamento e da ação. E o futebol é bem mais
do que a técnica e a tática.
Estou certo que o Pep Guardiola sabe tudo isto o que venho de escrever
e acredito que já tenha tentado recriar o futebol que lidera, como
trabalho que cria conhecimento. Há uma revolução a fazer no futebol.
Estou certo que já começou, no Barcelona. Se não laboro em erro grave:
está prestes a começar no Sport Lisboa e Benfica de Luís Filipe
Vieira, Domingos Soares de Oliveira e... Jorge Jesus!
“Todo o conhecimento, mesmo o mais físico, é uma produção bio-
antropológica, social, cultural, noológica” (Robin Fortin, Compreender
a Complexidade, Instituto Piaget, p. 241). Que o mesmo é dizer: no
futebol, a preparação física depende dos grandes objetivos que animam
a equipa.
O próprio jogador genial encontra-se em rede com os seus colegas.
Compreende-se o Messi, sem o Xavi e o Iniesta? Mas também o todo é
mais do que a soma das partes, se se desconhece o papel das emoções,
no comportamento de uma equipa de futebol.
Ainda há pouco um aficionado do Barcelona me garantia que o seu clube
apresenta uma indelével marca política (que não partidária): “O
Barcelona, mais do que os ideais de um clube, representa os grandes
anseios políticos da Catalunha”. Talvez seja por isso que muitos dos
jogadores que a publicidade mais idolatra, das outras equipas, pareçam
viver num mundo fictício, convencional, artificial, gritando um
clubismo declamatório e balofo, nos órgãos da Comunicação Social e
saltitando nas revistas cor-de-rosa, de mãos dadas com jovens artistas
(ou desportistas) de quem se contam grosseiras anedotas.
Ao invés, o Messi, o Xavi e o Iniesta, não sendo monges nem deixando
de ter vida afetiva, dão bem a entender que, mesmo nas suas horas de
ócio, não deixam de cuidar do seu “treino invisível”. De facto, fogem
daquilo que não interessa, para brilharem (com luz inusitada) naquilo
que verdadeiramente lhes interessa.
O Barcelona é a melhor equipa de futebol do mundo. E por que? Em
primeiro do mais, porque, nela, o todo é mais do que a soma das
partes. E aqui as partes não são só a técnica e a tática e o físico –
mas também o intelectual e o moral. E até os aspetos epistemológicos,
que o Pep Guardiola também já mostra entender.
*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um
dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em
Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor
Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.
Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da
motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos
Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de
Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de
poesia.
Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua
portuguesa, de Portugal.
Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br
Tags: barcelona, motricidade humana, lionel messi, cultura,
integração, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, Filosofia,
história, sociabilização
Grato, Gustavo. Excelente o artigo.
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”. (Joseph Pulitzer – 1847/1911)
Esse texto instigante e altamente provocativo de um filósofo que eu desconhecia ajuda a quem reflete atentamente sobre a grande exibição do Barcelona. Em tempos em que se discute a multidisciplinaridade, especialmente na Educação (onde atuo), acho oportuno fazer a seguinte sugestão, acho que também provocativa: que tal eliminarmos de uma vez as famigeradas "mesas redondas", os programas esportivos em que um "comentarista" se julga mais "especialista" que os outros, para tanto exibindo um arsenal de estupidez e má educação? No que tais programas ajudam a entender de futebol e promover a cultura de um povo? Com raríssimas exceções (e botem raríssima nisso), como José Trajano, Tostão, Juca Kfouri, os outros "comentaristas" e seus respectivos "debates" são verdadeiros insultos à inteligência e à dignidade do espectador. O Barcelona, com certeza não é para ser entendido por esses "entendidos", então, que vão fazer outra coisa e acabem logo com essas "mesas redondas".
Esse texto instigante e altamente provocativo de um filósofo que eu desconhecia ajuda a quem reflete atentamente sobre a grande exibição do Barcelona. Em tempos em que se discute a multidisciplinaridade, especialmente na Educação (onde atuo), acho oportuno fazer a seguinte sugestão, acho que também provocativa: que tal eliminarmos de uma vez as famigeradas "mesas redondas", os programas esportivos em que um "comentarista" se julga mais "especialista" que os outros, para tanto exibindo um arsenal de estupidez e má educação? No que tais programas ajudam a entender de futebol e promover a cultura de um povo? Com raríssimas exceções (e botem raríssima nisso), como José Trajano, Tostão, Juca Kfouri, os outros "comentaristas" e seus respectivos "debates" são verdadeiros insultos à inteligência e à dignidade do espectador. O Barcelona, com certeza não é para ser entendido por esses "entendidos", então, que vão fazer outra coisa e acabem logo com essas "mesas redondas".
Luna, Gustavo, gente,
eu havia mais sentido que notado objetivamente, inclusive comentei com minha esposa, durantre e após o jogo.
"O Messi mantém uma atitude calma, modesta, quase humilde, não se faz de "estrelo" em face, por exemplo, do jogador português do Real Madri."
Agora estendo esta impressão a todos os seus companheiros.
Este artigo explica muito!
Valeu a leitura.
Abraços.
Ótimo!
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”. (Joseph Pulitzer – 1847/1911)
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