A moral do cascudo no filho

Por Gilberto Cruvinel

Da Revista Isto É - 30/03/2011

A moral do cascudo

Zeca Baleiro - Cantor e Compositor  .

Poderíamos pensar em manter a prática do cascudo para algumas personalidades públicas brasileiras

Há tempos atrás uma deputada brasileira criou projeto de lei que propunha que o cidadão que presenciasse um pai batendo no próprio filho teria o direito de denunciá-lo. Este pai, por sua vez, poderia vir a ser condenado caso se comprovasse a “agressão”. Curioso, pensei. E perigoso também. Antes de tudo, é preciso diferenciar agressão, espancamento e outras barbaridades com o direito – legítimo, penso eu – de pais e mães aplicarem bons “corretivos” nos seus petizes, apesar de isto parecer cada vez mais obsoleto neste tempo de correções políticas e farta hipocrisia.

Há modalidades várias de corretivos, é bom lembrar. Vão desde a hoje folclórica palmada na bunda até a chinelada clássica. Meu pai, um homem amoroso mas firme, conta, com orgulho interiorano, ter batido nos seus filhos mais velhos com um “relho”, chicote de cavalos feito com couro trançado. Fala rindo. E diante dos risos dos filhos castigados, que se deliciam nas festas familiares com a (felizmente) longínqua lembrança. Não era um gesto violento, mas uma atitude de efeito “moralizador” – costuma ele dizer. Nenhum dos filhos parece ter ficado com alguma sequela psicológica, muito menos física. Eu, por ser a “rapa-de-tacho” da família, escapei da terrível sentença. Mas levei, aqui e ali, um tapa-no-pé-do-ouvido ou pescoção. De todos os “castigos” que recebi na infância, no entanto, o que sempre me pareceu mais cruel (e por isso quem sabe mais eficaz) foi o cascudo.

Para quem não se lembra ou não está ligando “o nome à pessoa”, aqui vai: “cascudo”, segundo o dicionário “Houaiss”, é uma “pancada na cabeça com o nó dos dedos dobrados”. Sei que a palavra “pancada” faz o gesto parecer mais violento do que de fato é, mas no mesmo dicionário há outros sinônimos mais brejeiros – cacholeta, cocorote, coque, castanha, etc.

Não quero aqui fazer apologia da violência, absolutamente não. Primeiro porque não sou adepto de nenhuma prática que use ou abuse da força. Mas também porque sei que é um suicídio falar nesse assunto publicamente nestes tempos de patrulha de comportamento, de catequese de boas maneiras sociais. Pobre do pai que confessar bater nos filhos hoje em dia. Será automaticamente condenado. Portanto, não parece tão absurdo que alguém imagine uma lei de tal natureza como essa de que falei acima. Há um livro, “O Reizinho Mandão”, verdadeiro clássico da literatura infantil, da escritora Ruth Rocha, que narra a história de um reizinho mimado e autoritário que dita regras estapafúrdias como “é proibido cortar a unha do dedão do pé direito em noite de lua cheia” ou “é proibido dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês”. O cara só se ajeita quando ao final recebe o merecido castigo.

Ok, deixemos cada pai com seus próprios métodos corretores. Mas poderíamos pensar em manter a prática do cascudo para algumas personalidades públicas brasileiras com o perfil do personagem de Ruth – mandão, mimado, autoritário e cheio de si. Bastaria um, um bem aplicado cascudo, sem violência de linchador, mas com firmeza de pai, para dotar o cidadão de bíblica humildade e repentina lucidez, fazendo-o despertar de seu transe de onipotência e arrogância, de sua embriaguez oligárquica.

Tivesse eu autoridade para tal, sairia por aí distribuindo cascudos a um monte de gente – políticos pés-de-chinelo, jornalistas irreponsáveis, celebridades chulas, jogadores de futebol indolentes e artistas demagogos. Tudo com apenas um, um cascudinho bem aplicado no quengo do cristão. Nada mais.

Média: 4.5 (21 votos)
44 comentários
imagem de nininha
nininha

Mas seriam tantos cascudos que os dedos não iriam aguentar, Zeca. Então, que tal instituirmos o "Cascudo Digital"?  A foto do cara recebendo o corretivo espalhada por aí, como naqueles cartazes de "Procura-se."

 
 
imagem de Paulo Jesus
Paulo Jesus

 

Muito boa idéia a de divulgar uma foto dos políticos levando uma cascudada. Talvez surta mais efeito em nós eleitores na hora de votarmos.

 
 
imagem de comicsbuz
comicsbuz

nininha,

ótima idéia do cascudo digital nos salafrários q assolam nosso país (e nosso dinheiro, lógico!).

político tem uma pele grossa (cara de pau, mentiroso cotumaz, corrupto no dna), e talvez um simples cascudo não resolva, então....

já q estamos querendo ser politicamente corretos, chame a super Nani e aplique o castigo do tapetinho pra safado pego em flagrante...
(mas acho q não vai adiantar nada... rsrs)

o cara (qquer tipo de funcionário público) foi pego transgredindo duas vezes, por ex, É PÉ NA BUNDA, DEMISSÃO POR JUSTA CAUSA DO SERVIÇO PÚBLICO (seja juiz, funcionário concursado, ministro, presidente, vereador) e aposentadoria reduzida!!!!
é esse papo de sermos condescendentes, tolerantes e "esperar a justiça" é só conversa fiada para pessoas de má índole se locupletarem sobre as boazinhas e éticas... enquanto as boazinhas e INOPERANTES, discutem CENTENAS de pontos de vista, as más agem assertivamente, objetivamente, contra os cofres públicos, usam e abusam do tráfico d influência e depois morrem de rir do "papo cabeça" das boazinhas...

acordem!!!! safado e corrupto adora essa conversa de ser inocente até q se prove em 5 instâncias judiciais a culpa, a presunçao de inocência, réu primário, aposentadoria com salário integral, blá blá blá...
esse discurso de tolerância só serve para a parte infratora!!!
(e a parte afetada continua discutindo.... maravilha!)

 
 
imagem de Euripedes
Euripedes

Taí, ó! Concordo com o Zeca. Um cascudinho rápido faz o "cascudado" lembrar-se da falta cometida por muito tempo. Meu pai, de vez em quando dava uns "croques". De leve, só pelo efeito moral. Minha mãe, professora de curso primário, dava puxôes de orelha. Doia pacas, mas a gente aprendia. Minha mãe costumava dar umas chineladas também. Mas em mim não! Só nos meus outros seis irmãos. Niki ela pegava a chinela, eu desmaiava ou bebia fôlego. Como ela não sabia se era fingimento ou não, em caso de dúvida, ela preferia perdoar. Os bocós dos meus irmãos aguentavam firme, depois ficavam chamando-me de maricas. Preferível ser um maricas ileso do que um valentão com a bunda ardendo.

 
 
imagem de diogojfaraujo
diogojfaraujo

O problema é ficar num cascudo só...

 

ANTIFA!

 
imagem de Helio - Lauro de Freitas.Ba
Helio - Lauro de Freitas.Ba

Aqui pra nos, o cascudo tem tb um efeito psicologico. Principalmente pra quem o dá. Eu ja tomei muito cascudo de minha mãe e surra de taka de cavalo do meu Pai. Tb ja dei alguns em minhas filhas. Nen eu ne minhas filhas temos o menor problema psicologico causado por essa "agressão". Alias, qdo nos reunimos em familia, damos boas rizadas lembrando desse corretivo que tem efito full time.

 
 
imagem de politicsbuz
politicsbuz

fala diogo, bão?

ow, viu a úlitma resposta pra vc em
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/fora-de-pauta-283?page=1
(começa com "sem pressa...")

se leu, por favor dê um ok lá, como comentário ao meu.

gostou, nada a ver? todas anteriores, nenhuma das anteriores? rsrs

se tiver algum questionamento ou sugestão, põe na roda!

bra, bro, e td de bom!

 
 
imagem de diogojfaraujo
diogojfaraujo

Vi sim brow... Concordo1

 

ANTIFA!

 
imagem de Monier
Monier

Excelente. Valeria a pena estacionar o blog o domingo inteiro nesse texto, só para saber quem apareceu na mente de cada um que leu "mandão, mimado, autoritário e cheio de si". Se o cascudo ressocializador fosse implantado, nem precisava de lei ficha limpa. Mas o povo também precisa parar de se derreter diante do poder de um político, e passar a aplicar seus cascudos, especialmente em reuniões de negócios e na hora em que precisa de alguma vantagem. Esse texto vai dar um patrulhamento danado, porque nada melhor que censurar um artista em nome do politicamente correto. Mas é por essa coragem de pensar que eu sou fã do Zeca Baleiro.

 
 
imagem de alfredo machado
alfredo machado

Caro Monier:

Só um milagre evita o patrulhamento neste post.

Como é assunto fácil prá ficar bem na fita, vai aparecer de tudo, com a maioria do politicamentes corretos batendo o ponto no domingo. Assim foi nos posts do italiano tarado por ter dado um beijo na filha, do termo feminazi, do goleiro Bruno e tantos outros.

Meu pai cansou de me esfolar e, anos depois, teve que suportar calado a gozação, enquanto o meu filho, por conta de meia dúzia de cascudos, realmente meia dúzia, me acusa prá valer de tê-lo espancado (qualquer dia vai dizer que também foi queimado com ponta de cigarro), sinal dos tempos.

Um abraço

 
 
imagem de Marcia
Marcia

Amigo Alfredo, vc disse tudo, mas o pior  de todos foi o caso do italiano que chegou a ser preso porque deu um beijo na sua filha!

 

Bem lembrado, e agora vou ver meu pai, depois eu volto.

 

Abraço.

 
 
imagem de alfredo machado
alfredo machado

Marcia:

Tudo bom por aí?

Um ótimo final de domingo prá você.

Um abração

 
 
imagem de Marcia
Marcia

Alfredo, tudo bem e ai?

 

Pra vc tb e uma otima semana (sem acentos, estou no cp de minha irmà).

 

Bjus.

 
 
imagem de randombuz
randombuz

Márcia, falta de acento? não por isso.... rsrs

(aperte alt, digite o número e solte o alt)
Alt+130 = é
Alt+133 = à
Alt+135 = ç
Alt+136 = ê
Alt+147 = ô
Alt+160 = á
Alt+162 = ó

vai descobrindo mais caracteres da tabela ascii aí...

 
 
imagem de Marcia
Marcia

Randombuz, obrigada,  vou aprender..rs

 
 
imagem de João Aguiar
João Aguiar

isso aqui tá parecendo feicibúqui rs

 

você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte em vida, às vezes. Charles Bukowski

 
imagem de Monier
Monier

Caro Alfredo. 

Ao final das contas a educação é o mais importante e se faz a dois. Obviamente sem compactuar com a turma que desconta pura agressividade em crianças até machucar, mas isso é outro problema. Meu pai tinha um método muito bom para me fazer andar na linha. Dizia com todo o bom humor do mundo que ia me matricular na escola pública. Pelo sim, pelo não, eu achava melhor estudar direito. 

E quando eu passava dos limites da educação, ele perguntava com ironia se pagava colégio de padre para eu aprender daquelas coisas. Nós dois ateus, ríamos, mas o recado ficava claro. E nenhum dos dois perde a oportunidade de dar risada dessas coisas até hoje, com direito a eu perguntar, como advogado, se ele se incomoda com um pedido de assédio moral. E a resposta é: se a indenização compensa com o que ele gastou com colégio, ou se eu fico devendo mais algum para ele no final das contas.

Se fosse pelo politicamente correto extremado, ele ia exigir as coisas com algum blablablá, eu ia fingir que aderi. E acabava aí a chance de dois bons amigos rindo no futuro. E muito provavelmente não aprenderia nada também.

Grande abraço.

 
 
imagem de bruno bh
bruno bh

Pela lei das probabilidades, uma pessoa que escreve uma coluna semanal, mesmo que muito inteligente, um dia escreverá uma tolice arrematada. Foi a vez do zeca baleiro, por quem tenho grande admiração. A coluna é um amontoado de bobagens almejando com sofrequidão aquele tipo de irreverência que não contraponha, pelo contrário, corra de braços abertos para o senso comum mais rasteiro. Não vejo porque mereceu um post aqui. No máximo, poderia ser assunto de boteco em fim de noite. Uma lástima

 
 
imagem de sidclei gondim
sidclei gondim

Adorei a idéia do grande compositor! kkkkkkkkkkkkkkk Principalmente, seu jeito nordestino de dizer as coisas. Como cidadão do Ceará, me sinto representado por esse texto.

 
 
imagem de elder
elder

a 'palmada doutrinadora' é uma falacia. o que voce poderia ensinar pro seu filho batendo nele? a dialogar com as patas, tal como fazem os animais? a reagir com violencia quando é contrariado? a oprimir os mais fracos? porque é só isso que uma agressão é capaz de ensinar a alguém!

depois das sessões de 'palmadinhas do bem' temos como resultado uma sociedade incivilizada e ninguém sabe o porque... dizem que é falta de mais palmadas, e iniciam um ciclo de violencia pior que o anterior...

a bem da verdade é que a 'palmada' nunca é planejada, ela sai num momento de irritação. e na maioria das vezes, o motivo nem é a conduta indisciplinada da criança, é o esporro do chefe, o engarrafamento no transito, a falação da esposa no ouvido, enfim... essas coisas chatas da vida que geram frustração, que é descontada nos filhos, porque teoricamente são possessões nossas e também por eles não conseguirem se impor.

tem que ter autocontrole no trato com as crianças, que assim ensinamos a elas se controlarem também.

digo isso baseado em duas observações:

- os indios não batem nos filhos, por não considerarem aceitavel ferir alguém que voce ama. e as guerras deles acabam quando o lado inimigo tem uma baixa. as nossas só terminam depois que todos os homens do lado adversario estiverem mortos, as mulheres estrupradas e as crianças escravizadas... com quem será que os nossos guerreiros aprendem a ser tão violentos, hein?

- nos paises mais desenvolvidos, não se bate em criança. e os indices de violencia neles são bem baixos. um bom contraste é os eua, país onde a cultura da 'palmadinha' ainda vigora. coincidentemente, os eua são o país mais violento entre os desenvolvidos. que coisa, não?

 
 
imagem de Jairo Fernando
Jairo Fernando

Ih... Demorôô...

 
 
imagem de Reynaldo666
Reynaldo666

...

 
 
imagem de YRD
YRD

Há uma geração inteira lá fora perdida, sem futuro.

Pais que fingem criar e filhos sem educação, mimados.

 

Esquecem que os castigos no nível familiar é uma prévia do que será a sociedade - transgrediu, há punição. 

 
 
imagem de Edmar Melo
Edmar Melo

 

Excelente e oportuno texto. Levei muito cascudo quando criança, mas um dia resolvi reagir e coloquei uma pedra dentro do boné que sempre usava na cabeça, como forma de castigar também meu pai. Não deu outra, meu pai quase quebra os dedos quando me deu um cascudo que chacoalhou meus neurônios. Daí pra frente foi só surra de chicote e palmatória. Confesso que o trauma até hoje foi zero, mas nunca precisei usar dos mesmos expedientes com meus filhos. Achei genial a idéia da comentarista nininha, de se criar um “Cascudo Digital” para punir político safado.

Abs.

Edmar Melo.

 

 
 
imagem de Egler
Egler

Deixou sequela no Zeca, sim! ou vocês acham que ele usa bonés à toa?

 
 
imagem de João Aguiar
João Aguiar

a situação familiar é uma metáfora política e tudo é válido pra poesia, mas pode se questionar este modelo tradicional de educação autoritária do relho e do cascudo. lamento muito as palmadas que eu dei na minha filha quando criança, mas me redimi com o lema que funcionou até pouco tempo atrás, "vai obedecer ou quer dançar no papo?". está ficando cada vez mais difícil defender os meus pontos de vista, bom pra mim e bom pra Elisa.

 

você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte em vida, às vezes. Charles Bukowski

 
imagem de luzete
luzete

ia destacar este momento do texto "Bastaria um, um bem aplicado cascudo, sem violência de linchador, mas com firmeza de pai "... e é um bonito momento mas, afora a poesia, tem casos em que não há cascudo que resolva, sabe...

veja que muitos dos casos aludidos no texto são de sujeitos que foram criados no tempo do cascudo, da surra, do castigo severo,  e... olha o resultado! é que tem certos casos que cascudo não resolveu e não resolverá. espalhemos cascudos como faria a ira paterna, aos que precisam,  mesmo que sejam cascudos morais (ainda é tempo), mas que um bom judiciário faz falta, ah, isto faz!

 

 
 
imagem de evandro condé de lima
evandro condé de lima

Lembrando o que postei outro dia, e a propósito de quem citou a mãe professora: aluno de escola pública agrediu a professora com pontapés (não, não era um menininho), e, aparece a declaração da mãe dizendo que era bipolar. Eu me perguntei: será que na minha infância estes bipolares eram mais discretos?. E mais, deveria a professora admitir ?

 
 
imagem de Marcelo Vieira
Marcelo Vieira

Se tiver carinho e atenção não precisa cascudo. Falo por experiencia. E de qualquer forma a ameaça da força física sempre vai estar no horizonte. É inevitável(isso é uma coisa que me imcomoda). E também é natural e necessário que a criança teste os limites. Mas repito, com carinho e atenção não há necessidade de cascudo.

 
 
imagem de Antonio F B Neto
Antonio F B Neto

Não há como concordar com esse raciocínio do Zeca Baleiro. Ele e tantos outros artistas que ganharam voz na mídia são daqueles que, a partir de um exemplo pessoal, tentam generalizar um comportamento equivocado.

Está claríssimo, como diz o Marcelo, que não se pode tomar um ato de "violência controlada" como eficiente e menos nociva que a violência generalizada em nenhum caso, quanto mais em se tratando da educação das crianças e de sua formação moral.

Talvez Zeca Baleiro não se dê conta das diferenças entre a sociedade em que viveu sua infância (ele faz 45 anos em 2011) e também da formação de seu pai com a realidade de hoje, com pais cada vez mais despreparados, e mesmo mal formados, para educar seus filhos numa sociedade de valores consumistas e imediatistas.

 

Antonio Neto jornalista

 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!