A maré recessiva, por Saul Leblon

Por Marco Antonio L.

Da Carta Maior 

Recessão mundial: o Brasil que se cuide

por Saul Leblon

Os dados mais favoráveis exibidos pela economia norte-americana facilitam a vida eleitoral de Obama mas não podem ser confundidos com o fim da crise mundial. Levantamentos da Comissão da UE, divulgados nesta 5ª feira, mostram que na Europa, ao contrário, a dinâmica recessiva predomina e já não se restringe à agonia de países pobres, casos da Grécia e Portugal, tendo se instalado também no coração das maiores potencias do euro, a exemplo da França, Itália e Espanha.

A previsão para este ano é de uma queda de 0,3% no PIB europeu. A maré recessiva, observa Nouriel Roubini, acossa ainda os costados da Ásia, dobrando a espinha dorsal de seu eixo ordenador, a China. O mercado imobiliário chinês está em desaquecimento. Os preços das casas começaram a cair. O investimento do país em infraestrutura perde fôlego. Grandes projetos, a exemplo dos trens de alta velocidade, estão sendo engavetados.

O lento dobrar-se chinês gera ondas que arrebanham o restante do bloco asiático: Singapura teve queda de atividade no último trimestre de 2011; Taiwan entrou em recessão no mesmo período; a economia da Coréia do Sul, segundo Roubini, exibe o ritmo mais lento dos últimos dois anos; o PIB do Japão caiu mais que o esperado em 2011. Diante de tanta fragilidade, os novos picos nos preços do petróleo - US$ 123,2 o barril, nesta 4ª feira - decorrentes da tensão entre Irã/Israel, no Oriente Médio, tendem a restringir o espaço para uma efetiva retomada do crescimento. 

Graças à preservação da Petrobrás como instrumento do Estado brasileiro, o mercado nacional mantém-se, há anos, relativamente imune às turbulências originárias do Oriente Médio, blindagem reforçada pela regulação soberana das reservas do pré-sal. Há flancos, porém, e um deles remete a eventual desaceleração das exportações aos mercados asiáticos. Mas não só. 

Cada vez mais, o gigantesco mercado interno brasileiro, um dos poucos em expansão no mundo torna-se o alvo cobiçado da ociosidade existente em parques fabris de todas as latitudes. Medidas protecionistas,associadas à maior rapidez no corte dos juros, para desvalorizar o câmbio e inibir as importações, ganham assim contornos de prioridade emergencial. 

A demanda de massa, robustecida pelo ganho real do salário mínimo e das aposentadorias - a contrapelo da ladainha ortodoxa - deve ser preservada à produção nacional. Mas se as importações continuarem mais atraentes que o produto local esse trunfo se perderá: em 2011 o varejo brasileiro cresceu quase 7% enquanto a produção industrial avançou 0,3% . Em janeiro de 2012 veio o ajuste: o emprego com registro em carteira caiu 21,8% em relação ao mesmo período de 2011. 

É a fatura da ortodoxia monetária só flexibilizada recentemente pelo BC. Se a política econômica se guiasse integralmente por ela não teríamos tampouco o colchão de investimentos públicos do PAC, do pré-sal e das obras associadas à Copa de 2014, com o qual o país afronta a contração mundial. Dados da Abimaq indicam que o investimento em bens de capital no governo Dilma passará de R$ 3 trilhões. Significa que o Brasil hoje está aplicando mais de 11% do PIB em grandes máquinas e equipamentos, constituindo-se no 3º maior investidor do mundo numa área estratégica que gera novas fábricas e obras. 

O acerto da estratégia heterodoxa em tantas frentes argui a persistência da bola de chumbo monetária que ainda penaliza áreas essenciais, como a da saúde pública, por exemplo, vítima de corte de gastos para pagar juros aos rentistas do Estado brasileiro. O Brasil tem trunfos para enfrentar a recessão mundial mas, sobretudo, tem lições a aprender com a sua própria experiência. A ver.

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5 comentários
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Cláudio José

Por que os pobres devem pagar, pelo os erros dos homens mais ricos do mundo? Essa gente não sabe que enquanto tem gente morrendo de fome em vários países do mundo e algumas das maiores riquezas do mundo se concentra em poucas famílias, e que a venda de um carro de luxo,  por exemplo daria para salvar a vida de várias  crianças famintas. Com certeza, Deus não terá piedade dessa gente que prefere esbanjar luxo e riqueza ao inves de salvar vidas. O maior tesouro do homem é a sua conciência, que nessa vida fez algo de bom para o seu semelhante.

 
 
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Claudio Almeida

 Mais um comentário vazio à respeito desse assunto. Não deu prá entender se estamos bem, mas estamos mal, ou se estamos mal, mas estamos bem. A grande verdade é que, diante das atuais circunstâncias mundiais, estamos muitíssimos bem administrados, e que temos um cacife imensamente superior aos das outras nações, e só. Os índices que estão disponíveis atualmente, parecem apontar que se o Brasil vier à experimentar problemas graves, a maioria já terá explodido. O resto, ou é puro palpite, ou então mera manifestação ideológica.

 
 
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Fabio (o outro)

Nouriel Roubini eu já escutei falar.


Mas de onde saiu SAUL LEBLON ? Será que mora em IPANEMA ?

 
 
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Joao Carlos RB

A política monetária já mudou com a presidência do Tombini. A taxa selic está deixando de ser a ferramenta anti-inflacionária, para ser susbstituída peals medidas macroprudenciais. A taxa real da selic vai baixar para 2% real. Erra quem apostar que o Banco Central vai para de baixar a taxa de juros quando bater em 9% em meados de 2012.

O fato de ter questionado as planilhas dos economistas do mercado é um dos indícios (existem outros) que o Banco Central pretende ser mais ousado do que dizem os jornalistas econômicos. A taxa selic vai baixar gradualmetne, meio ponto de cada vez, até cerca de 2% acima da inflação (para uma inflação de 4,5% será uma taxa selic entre 6,5% e 7%).

O que vamos ver a partir do ano que vem é o pessoal deixar de reclamar que a taxa de juros está muito alta, para ver esse mesmo pessoal reclamar que a taxa está muito baixa e não dá lucro para os rentistas.

Quanto à inflação, nesse ambiente de recessão mundial vai baixar até a meta. Aumento do salário mínimo e programas sociais continuam a expandir o mercado de consumo. Programas de obras do governo garantem que a construção civil e a produção de aço, cimento e outros materiais de construção sejam setores muito ativos. E a baixa da selic vai dar sobra no orçamento federal para o governo tocar mais obras do que está tocando agora. Está sendo feito tudo ao contrário do que foi recomendado à Grécia por aqui...

 
 
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Waldyr Kopezky

O grande problema de se tentar descrever com precisão um grande cenário é acertar no atribuir-se razões e causas reais (de longa data) a consequências que desenharam a atual situação, descartando-se as teses simplistas, momentâeas e descabidas. Saul Leblon nitidamente não quer: fala como se o remédio para determinada situação do setor industrial brasileiro (responsável pela dependência de fornecimento externo) fosse essencialmente responsabilidade do governo atual ou do imediatamente anterior a este - e totalmente desconectado dos problemas de uma política neoliberal que globalizou não só os lucros das corporações, mas também a dependência das sociedades. Vamos contextualizar:

1º fato: A desindustrialização no Brasil começou com o governo Collor no alvorecer dos anos 90, e foi levada a cabo (com maior ou menor intensidade) até o último dia de FHC. Durou pouco mais de doze anos, foi profunda e agravou as desigualdades sociais e dependências externas, além de desamparar e quase extinguir uma elite empresarial nativa verdadeiramente empreendedora - que foi substituída por outras, de perfil de ação no primeiro setor (agrpecuário/extrativista) e exportador, no terceiro setor (mas agindo mais como importador) ou financista - todos extremamente refratários a correr riscos nos negócios.

2º fato: A desindustrialização é um fenômeno global, não local - há violenta desindustrialização nos EUA, e sua capacidade de bancar uma balança comercial cada vez mais desfavorável (importa mais do que exporta, ano a ano) é duvidosa; e eles não possuem a menor idéia de como reverter isso: trazer para o território linhas inteiras de produção significaria empregar mais - mas tb aumentar os preços da produção, reduzindo lucros, perdendo em competitividade global e voltando ao ciclo das demissões em massa. Tanto lá quanto cá, não há (ainda) luz no fim do túnel.

3º fato: Destruir é sempre mais fácil do que erigir - e não seriam 12 anos de um governo que enxerga a importância de estimular o empreendedorismo/ desenvolvimento tecnológico que iriam reverter os 12 anos de políticas industriais de "terra devastada". Pedir hoje por medidas estimuladoras de mercado é aumentar também os benefícios e ganhos para grandes empresas estrangeiras atuantes em nosso mercado - e que tornam-se cada dia mais hegemônicas em seus segmentos de mercado sobre as pequenas brasileiras sobreviventes.

4º fato: O articulista (ao defender a produção industrial brasileira) defende não o empreendedor nativo, mas sim a empresa transnacional produtora aqui instalada - e que alimenta a matriz com a prosperidade realizada no Brasil. Ele (Saul Leblon) pede para os que estão lá fora obterem mais, fazendo daqui a "alavanca" de seus (maus) negócios globais - e isso ainda com as nossas benesses governamentais.

Em resumo: vêem como é mais difícil entender a realidade dos fatos do que a mentira que eles contam? Porque uma mentira sempre vem no meio de duas verdades - aí, ninguém percebe o erro e aceita o engôdo. Sabe o que eles querem, no final? Que o governo não distribua a prosperidade realizada pelo cenário favorável! Não invista, só ajude mesmo quem já está estabelecido - e não é mais 100% daqui...

 
 

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