Nenhuma grande surpresa no Oscar. Eu apostava numa divisão dos principais prêmios da noite, mas as vitórias de “o Artista” nas categorias filme, diretor e ator, não podem ser consideradas zebras.
Se 2011 não ficará marcado como uma grande safra de filmes, pelo menos será lembrado como o ano em que o abismo entre o Oscar e o público americano tornou-se intransponível.
Nunca houve um descompasso tão grande entre o gosto da Academia e o gosto do público.
Quer prova?
Dos 40 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2011, apenas um – “Histórias Cruzadas” – foi indicado ao prêmio de melhor filme. Um em 40.
Dos dez filmes de maior bilheteria em 2011, apenas um – “Thor” – não é uma continuação. E todos – repito, todos – são filmes que apelam ao público adolescente (veja a lista aqui).
Ou seja: o cinema adulto não faz mais sucesso.
Compare isso à década de 60, quando todos os vencedores do Oscar foram sucesso de bilheteria, de “The Apartment” (1960) a “Perdidos na Noite” (1969).
Dos campeões de bilheteria de cada ano entre 1960 e 1969, cinco foram indicados ao Oscar de melhor filme: “Lawrence da Arábia” (1962), “Cleópatra” (1963), “Mary Poppins” (1964), “A Noviça Rebelde” (1965) e “Funny Girl” (1968).
Os anos 70 não foram diferentes. Todos os vencedores de Oscar triunfaram na bilheteria: “Patton” (1970), “Operação França” (1971), “O Poderoso Chefão” (1972), “Golpe de Mestre” (1973), “O Poderoso Chefão – Parte 2” (1974), “O Estranho no Ninho” (1975), “Rocky” (1976), “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), “O Franco-Atirador” (1978) e “Kramver vs. Kramer” (1979). Com raríssimas exceções, só filmaços.
Agora, compare isso ao que ocorreu de 1980 para cá: nos últimos 32 anos, apenas três filmes que ganharam o Oscar também foram campeões de bilheteria de seus respectivos anos: “Rain Man” (1988), “Titanic” (1997) e “O Senhor dos Anéis” (2003).
O que aconteceu nesse tempo? Como surgiu esse abismo entre o gosto da Academia e o gosto do público?
Uma palavra: “Tubarão”.
Não é novidade que o filme de Spielberg mudou a história de Holllywood. Pela primeira vez, executivos perceberam que um filme poderia virar um “franchise”.
“Tubarão” foi um dos primeiros filmes a estrear em uma quantidade absurda de salas, e rendeu fortunas com sequências e produtos (para quem quiser se aprofundar no assunto, sugiro ler “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Mudou Hollywood”, grande livro de Peter Biskind sobre o cinema americano dos anos 70).
O que estamos vendo hoje é o auge da infantilização do cinema americano, iniciada com “Tubarão” e impulsionada por George Lucas e “Guerra nas Estrelas”.
Então a culpa é de Spielberg e Lucas?
Não. Eles simplesmente foram os garotos-propaganda de uma revolução comercial inevitável.
É só ver como a indústria da música, a partir dos anos 80, também descobriu o valor do público juvenil, para perceber que essa busca por um consumidor jovem, extremamente suscetível a propaganda e extremamente fiel, que não se importa de ver duas ou três sequências de seus filmes prediletos, faz todo sentido, se você é executivo e só está interessado em fazer dinheiro.
Enquanto isso, o público adulto migra para as séries de TV e dá mesada para os filhotes se divertirem com a enésima parte de “Harry Potter”. Na prática, os adultos estão pagando para destruir o seu próprio prazer de ir ao cinema.
Tempos estranhos os nossos…



O Oscar é um teatro de cartas marcadas (eu sei da redundância, ela é proposital), ponto. Ele não representa a opinião do público, representa a opinião de uma meia dúzia de "críticos profissionais de cinema" que parecem viver em uma dimensão paralela. E geralmente, para ficar ainda mais interessante, esse voto é facilmente comprado por quem pagar mais com o objetivo de alavancar a divulgação do seu filme - por pior que ele seja - como "ganhador do Oscar, então só pode ser bom".
O que me irrita é que as pessoas ainda acreditam que o filme ganhar Oscar signifique que ele então deve ser bom, quando na verdade o que realmente aconteceu foi do filme cair nas graças de algum alienado com poder de voto ou ter pago o bastante pelos votos... Enquanto que filmes que realmente mereciam algum tipo de reconhecimento ficam de fora da "premiação". É como nas pomposas e ridículas cerimônias de premiação que os políticos volta e meia fazem para massagear os egos uns dos outros, dando-se entre si "medalhas" e "comendas" enquanto as pessoas que mereceriam mesmo tais homenagens ficam esquecidos em um canto.
(O radio esta igual tambem! A gente escutava programa serio em toda radio quando eu tava crescendo ate os anos 80. Depois descobriram o formato "top 40" e ele comecou a se infantilizar insuportavelmente. Reclamei outro dia mesmo a respeito das musicas que minha filha tem pra escutar.)
Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.
MTV idem. Não dá para sequer passar o canal! Só dá Restart (depois pesquisa para você ver que coisa ruim).
"MTV idem":
Com MTV foi intencionalissimo, K. MTV ja havia se degradado completamente ao final dos anos 80, e nunca vai voltar a ser o que foi.
Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.
Seria interessante a leitura de "A Cauda Longa", que trata dessa cultura dos Top 40 ( ou de sua pulverização).
Esta materia pode ser lida de forma mais abrangente, e aí perceberemos que a nossa música, nossa relação interpessoal, etc. se infantilizou, nestas últimas décadas.
Claro, em um mundo que prega o pragmatismo, a forma individual do ser, a busca da "excelência", a louca competitividade, um mundo onde o consumo está associado à única forma possível de felicidade, torna a sociedade "liquida", como bem delineia o criador deste termo, Bauman.
Desta forma a sociedade se afasta de tudo o que é coletivo e se individualiza dentro de uma redoma, não mais se importando com nada que seja diferente à sua busca individual e imediata da felicidade.
Isso infantiliza as pessoas que se afastam do pensamento que deveria marcar as suas relações com a sociedade e se encolhem apenas naquilo que toca diretamente a sua individualidade.
Os filmes, a música, os livros, e tudo o mais infantilizado ajuda aos seres humanos a fugirem desses dilemas.
Daí o sucesso de filmes e livros como Harry Potter, O Crepusculo, e tanto mais.
Assis Ribeiro
Tem toda a razão, Assis. Nossas relações sociais nos amadurecem tremendamente, além de nos proporcionar uma visão de mundo diferente. O mundo está precisando, cada dia mais, conversar consigo mesmo, olhar os contrastes entre o que cada um pensa individualmente e como agimos em conjunto.
O fantasioso não é uma alternativa ao racional, pois baseia-se no delírio de uns e na ingenuidade de muitos.
Péssimo exemplo de uso de espaço democratico para a perda de tempo que representa o texto acima.
Inicialmente pelo mandatário no texto: André "das couves".
André não sei das quantas escreve de tudo um pouco, inclusive "resolveu" resenhar o livro: Privataria Tucana, logo ele que tabalha na empresa missivista: Uol/Folha.
Provavelmente foi ameaçado pelo dono do jornaleco para dar o ar de que o ambiente do jornaleco é um espaço democrático (sic).
Ele cita no texto a tão temida "infantilização", disso sim ele tem PHD com especialidade no PIG.
O que aconteceu nesse tempo? Como surgiu esse abismo entre o gosto do Uol/Folha e o gosto do público?
Uma palavra: "PIG" = Uol/Folha.
Não estou falando de censura, estou falando de aproveitarmos o espaço democrático para o que realmente vale a pena ser dito.
"para o que realmente vale a pena ser dito."
Também concordo, quando começa a votação para decidirmos "o que realmente vale a pena ser dito"?
O Oscar é nomeado por ganhadores de Oscar da mesma categoria (editores escolhem os nomeados a categoria de edição, por exemplo). A Academia de Filmes é composta por mais de 6.000 membros, ou seja, isso de meia dúzia de críticos escolhem os ganhadores fazendo marmelada, é falso. Os membros, espalhados majoritáriamente pelos EUA, mas também encontrados nos quatro cantos do mundo (todos os extrangeiros ganhadores de Oscar) recebem um kit com os filmes e formulários para a votação, e enviam isso para a PriceWaterhouseCoopers (empresa de auditoria) para a contagem. Quando os apresentadores abrem os envelopes, são os primeiros a saber (lógico, os auditores também sabem antes). Aída Bortnik e Luis Puenzo, ganhadores pela História Oficial, explicaram esse mecanismo públicamente há anos, e pode conferi isto no site dos Oscars. Acontece que os membros ganharam com filmes semelhantes. E ao longo do tempo, os gostos pelo feito recentemente pelas novas gerações vão sendo majoria, em detrimento do critério dos membros mais velhos, que vão morrendo.
A respeito dos premiados e da infantilização dos ganhadores, e da produção cinematográfica em geral, penso que a concentração das salas nos multiplexs dentro dos shoppings centers mundo afora é a causa de tal virada no conteúdo cinematográfico atual. Antigamente, ir pro cinema significava um passeio pelas ruas da cidade, e isto era visto com perigoso para os pais de adolescentes e crianças. Hoje, o ambiente seguro de um shopping permite que os adolescentes se encontrem nos centros de consumo moderno com muita mais frequencia que antigamente, pois os pais se sentem tranquilos de saber que seus filhos estão num shopping, ao invés de estarem nas ruas. Além disso, o poder de compra dos adolescentes aumentou significativamente nas últimas duas décadas, os adultos de hoje (como eu, que tenho 44 anos) cresceram vendo quadrinhos na tv, lendo gibis, que hoje servem de roteiro para a produção cinematográfica. A computação gráfica permitiu que esses filmes fossem realizados com resultados espetaculares, coisa que nos 80's era impossível ( basta lembrar que Homem Aranha foi feito nos 80"s, eu ví no cinema, e era igual que o Batman da TV dos 60's, mas dirigido a uma audiência que já jogava PacMan, e o resultado era visto como desastroso) o que deu um novo gás ao gênero de filmes de superherois. Eles tem apelo pros adolescentes, mas também pros pais desses adolescentes na casa dos 40 anos. Por último, essa geração, a minha, veste e consome produtos semelhantes aos dos jóvens (jeans, tênis, camisetas, rock, pop, música eletrônica, videogames) a diferença dos nossos pais, que tinham uma cultura diferente da nossa. Por último, 40 anos de expansão do crédito, bolsas em alta, aumento do valor das marcas publicitárias, euforía geral, fez com que a cultura virasse pop, os assuntos dramáticos dessem espaço para as comédias e assuntos ligeiros e amenos, ao invés dos dramas dos 70"s, produzidos numa sociedade pós Vietnam, traumatizada, em plena recessão econômica e alta dos juros. Aposto que nos próximos anos, filmes retratando as consequências da crise econômica mundial começarão a ter mais apelo pros jovens que virarão adultos e lembrarão das agruras do desemprego e da falta de perspectivas. Coisas dos ciclos econômicos, mais do que da estupidez desta ou a esperteza daquela geração.
Muito bem, Dayli Turek de Oliveira !!
O post-matriz não diz nada de novo (mesmo que seja bom repetir o óbvio, voltar aos temas, sim).
Em novembro de 2011, na revista Cult, o cineasta Werner Herzog dizia isso do post e muito mais, com mais gabarito.
O texto matriz foi plágio barato.
- Marcelo Coelho, da mesma FSP (em tudo pode haver brechas e exceções,nem que seja pra dourar a pílula, a cerja no bolo)
há muito tempo disse da infantilização do sexo, e não a precocidade do sexo nas crianças, e da nossa infantilização geral. E em mais de uma crônica contra a corrente do politicamente correto e contra a pseudointelectualidade geralmente midiática.
(os bumbuns, ao invés de bundas, os termos "caracas" no neo-pudicismo moralistas e sempre hipócrita da linguagem global que o povo termina imitando o mau exemplo, os trajes, os trejeitos, os fios dentais que as realmente liberadas dispensam, e nem empinam a bunda, nem rebolam - mas minha amostragem é pequena, até podem ser liberadas, mas escravas do modismo e do machismo e dos preconceitos que pretendem superar).
_____"Onde está o conhecimento que perdi na informação , e onde está a sabedoria que perdi no conhecimento?" . . . - T.S. Elliot , segundo um post lido num outro blog. ____________
Com a internet, rádio, cinema, televisão perderam a importância, posso assistir e escutar o que quiser.
Cinema sempre foi um negócio. Desde a época dos Estúdios filmes eram/são feitos para se fazer dinheiro. Antigamente o público alvo era mais diversificado: havia os filmes de matiné para a criançada e os filmes de adultos para as sessões noturnas. O que, hoje em dia, mantém a indústria do cinema são filmes como Avatar, Harry Porter, Crepúsculo, filmes de terror sanguinolentos que adolescente adoram etc. Adulto, dentre outras coisas, nos dias atuais, não vai a cinema a) por que não tem tempo;b) cinema é caro; c) não existem mais o cinemas de bairro [fica difícil sair de Itaquera para ir à sessão das 21:00 horas num shopping] e d) hoje nós temos, em casa, computador, aparelho de blu ray, tvs de 50 polegadas e TV a cabo.
Se o adulto não vai a cinema o jeito é fazer filmes para adolescentes. Dizer que o cinema está se infantilizando não seria a análise mais adequada para o problema. “A pele que habito”, “Melancolia”, “O cheiro do ralo” [bom filme brasileiro], “Amor à flor da pele” [belíssimo filme chinês] e, tantos outros ótimos filmes “para adultos”, ficam à moscas nos cinemas por que adulto não vai a cinema. Nem no Brasil e nem no restante do planeta. O Oscar só reflete e repercute o, atual, momento do cinema.
Sugiro para leitura o livro "Consumed: How Markets Corrupt Children, Infantilize Adults, and Swallow Citizens Whole", de Benjamin R. Barber, cuja tese central é justamente a infantilização dos adultos como consequência de estratégia do marketing capitalista.
http://www.amazon.com/Consumed-Markets-Children-Infantilize-Citizens/dp/0393330893/ref=sr_1_2?s=books&ie=UTF8&qid=1330635332&sr=1-2
Ainda bem que a Academia tem se mantido fiel e elegido filmes e não produtos para serem premiados. Esses filmes baseados em personagens de história em quadrinhos, trogloditas violentos ou best sellers para adolescentes são produtos comerciais, não tem nada a ver com cinema.
E ainda assim nem sempre os melhores filmes são premiados pela Academia. Mas enquanto o cinema americano tiver Sean Penn, Woddy Allen, os irmãos Cohen,Clint Eastwood, Terrence Malick, Copolla pai e filha, Martin Scorcese, Ridley Scott, Tim Burton e inúmeros outros cineastas do mesmo nível podemos ficar tranquilos porque sempre teremos bons filmes para assistir.
Vera Lucia Venturini
Spielberg e George Lucas são até hoje acusados de infantilizar o cinema, eles tem um pouco de culpa, mas não podemos esquecer que o mundo ficou mais careta e ignorante desde a revolução conservadora de Reagan-Tchatcher. Esse é um processo que passou por uma transição nos anos 80 e 90 e chegou ao ápice nos anos 2000.
Nos anos 80 e 90 havia filmes com objetivo de lucrar nas bilheterias, atingir o grande público jovem mas que tinham pelo menos conteúdo (De Volta para o Futuro, Curtindo a Vida Adoidado, Duro de Matar, etc).
Sempre achei o Oscar um prêmio fraco para redefinir a qualidade cinematógráfica, o Festival de Cannes é muito melhor. Cito filmes americanos ousados que saíram vencedores em Cannes, mas passaram distantes do Oscar:
- Mash
- Taxi Driver
- Apocalypse Now
- Sexo, Mentiras e Videotape
- Pulp Fiction
Edison,
li este artigo e lembrei de você assistindo seus seriados.
Bjs,
Regina
Adulto hoje em dia curte ver filme em casa com a mulher, amigos, etc... em uma TV de 40 polegadas. Não tem programa melhor. Cinema, só se o filme valer muito a pena. Agora, a garotada, se for moda, vai ver filme até do Backyardigans, por isto esta dissociação. Foi o aprimoramento da tecnologia para ver filmes em casa que acabou segmentando o publico de cinema.
Um complemento à tese do Barcinski está no surgimento dos Multiplex, concentrados em shoppings, a partir da década de 90.
E os executivos do cinema americano não são mais Thalbergs, sequer Selznicks.
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