A gestão pública por representantes do mercado

Por Webster Franklin

Da Carta Maior

Crise europeia ilustra necessidade do fim de verba privada a político

Comando de países endividados foi assumido por representantes do 'mercado' que promovem corte de direitos sociais. Depoimento de europeus no Fórum Social Temático expõe riscos da influência do capital privado sobre classe e decisões políticas. Para debatedores brasileiros, poder econômico que financia campanhas é obstáculo a novos avanços sociais e democráticos.

No Brasil, não há influência explícita do “mercado” sobre o governo. Ao contrário. Na quinta-feira (26), o Banco Central (BC) divulgou a ata da reunião da diretoria que oito dias antes havia cortado o juro e, para surpresa do “mercado”, que vê risco de inflação, informou abertamente que colocará a taxa em um dígito (hoje está em 10,5%).

Mesmo assim, há quem considere o capital privado uma má companhia para a política brasileira, um obstáculo ao avanço da democracia e semente de corrupção. Por isso, insiste ser necessário limitar a capacidade de interferência do poder econômico sobre a classe política, com a proibição de doações empresariais a campanhas e partidos e a adoção do financiamento público.

É uma proposta difícil de vingar, pois depende de aprovação do Congresso, onde está a atual classe política, produto ela mesma das contribuições particulares, a troco sabe-se lá de que compromissos. Mas que precisa ser defendida, segundo participantes de debate sobre os rumos da democracia realizado durante o Fórum Social Temático. 

“O financiamento privado provoca distorções”, disse Francisco Whitaker, um dos idealizadores do Fórum, criado há onze anos.

No debate, três participantes europeus - dois de países com dificuldades democráticas por obra do poderio do “mercado”, outro de uma nação que pode ser tragada pelos problemas alheios - deram depoimentos que ilustram as "distorções" e os perigos sociais da presença do capital na política.

“Os mercados deram um verdadeiro golpe de Estado financeiro, derrubaram governos democraticamente eleitos e substituíram por políticos tecnocratas”, afirmou o jornalista Ignácio Ramonet, da endividada Espanha. 

“Essa crise pode levar a uma nova forma de barbarismo. Não há mais diferença entre esquerda e direita”, disse o sociólogo Boaventura de Souza Santos, do endividado Portugal.

“O neoliberalismo tirou a capacidade efetiva de ação dos instrumentos democráticos. Antes havia governos que governavam. Hoje, não há mais”, declarou o jornalista e professor universitário Bernard Cassen, da França, onde estão grandes credores (bancos) de Espanha e Portugal. 

Os depoimentos reforçaram a convicção de um entusiasta de uma reforma política que barre a ação do capital privado nas eleições, o governador gaúcho, Tarso Genro. Quando ministro de Justiça no governo Lula, ele elaborou proposta que, contudo, parou no Congresso. “Não havia interesse do conjunto dos partidos”, disse Tarso, para quem financiamento privado é “escandaloso”.

Segundo ele, o financiamento público também seria importante para revitalizar a democracia. Ajudaria a empurrar à política aquela parcela mais idealista da população que até se interessa pela vida pública, mas que não atua por não querer fazer acordos com empresas em troca de doações, deixando o caminho livre para que os partidos sejam dominados pela "esperteza".

O financiamento público de campanhas foi debatido no ano passado por senadores e deputados. No Senado, a proposta foi barrada. Na Câmara, foi empurrada para 2012, por risco de ter o mesmo destino.

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4 comentários
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Fabio (o outro)

No Brasil, não há influência explícita do “mercado” sobre o governo.


Hoje não há influência explícita porque o país não apresenta nenhum tipo de risco de calote.


Mas que não se esqueça que na bancarrota do governo FHC , quem assumiu o BC , para acalmar os mercados , era um ex - empregado de George Soros - Armínio Fraga.


E durante a agitação financeira que se seguiu à entrada de LULA na presidência , uma das medidas tomadas para se afiançar a estabilidade foi a indicação de um ilustre homem do mercado financeiro para ocupar o Banco Central - Henrique Meirelles. 

 
 
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Morales

Impressionante!


Não me espanta que a "esquerda" europeia e o Fórum Social Mundial estejam em crise (no dizer dos seus próprios representantes). A análise político-social está totalmente imersa no discurso ideológico da classe dominante.


Noções que eram o beabá da esquerda no século XIX estão completamente fora do discurso e das análises desses caras.


Os caras estão preocupados com a "influência" dos mercados na política e no Estado "democrático"! Será que os caras não sabem que o Estado é O instrumento da ditadura de classe? Óbvio que sua atuação tem contradições que podem ser aproveitadas para fazer avançar a causa das classes oprimidas e exploradas, mas a essência desse Estado é a proteção dos interesses da classe dominante, MESMO QUANDO ELE FAZ CONCESSÕES. Os políticos, mesmo os social-democratas, sempre foram os servidores da classe dominante. Quando faziam as concessões que resultaram no chamado Estado de Bem-Estar Social, sua principal preocupação era a manutenção do capitalismo contra a revolta que resultaria da implementação da exploração pura e simples como a que ocorreu nos primórdios da Revolução Industrial. O mesmo SPD que, na República de Weimar, negociava com a burguesia alemã os direitos sociais e a estatização de empresas estratégicas era o que massacrava os trabalhadores insurretos de Berlim com a ajuda dos paramilitares de direita.

 
 
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Calvin

Porque ao invés de trabalhar a esquerda está sempre arranjando motivos para enfiar o dinheiro de quem trabalha em sacos sem fundo?

 
 
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Edmar Roberto Prandini

Calvin,

desde quando os dirigentes da Comunidade Européia foram "de esquerda"? E os presidentes americanos? E, saco sem fundo são os bancos que agem de forma vampiresca retirando, na forma de juros escorchantes ou de capitalização e provisionamento de riscos, toda capacidade da economia florecer na forma do compartilhamento solidário do conforto e bem estar... Com a atual taxa de produtividade disponível, precisaríamos de curtas jornadas de trabalho para que todos pudessem usufruir de padrões dignos de vida, com espaço para a prática do esporte, do lazer, de atividades culturais... ao invés disso, sugam toda a vida e a convertem em patrimônio de irrisórios percentuais de pessoas... o OWS está falando em 1% contra 99%, mas sabemos que o antagonismo é ainda mais acentuado.

Um absurdo essa sua pergunta!

 

Edmar Roberto Prandini www.twitter.com/edmarrp

 

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