A força dos Kirchner

Por Tomás Rosa Bueno

Rapidinho, porque hoje a minha carga de trabalho hoje está especialmente cruel.

Estive na Argentina durante todo o processo que culminou com a eleição do Kirchner, e participei ativamente primeiro na oposição ao governo dos farrapos da velha Argentina representados com brio pelo duende Duhalde, e depois na campanha contra as eleições que levaram o Néstor Kirchner ao poder - não contra a pessoa do Kirchner, que pessoalmente me parecia duplamente inofensivo, por parecer inofensivo em si e por não ter a menor chance de se eleger - mas pelo boicote ao processo eleitoral, que para um amplo setor  da sociedade argentina pareciam ser o caminho mais seguro para trazer o inominável (toc, toc, toc!) de volta ao poder.

Ficou provado que estávamos enganados, e que tínhamos subestimado tanto o poder da munição reunida contra o inominável (toc, toc, toc!), que o fez renunciar a concorrer no segundo turno apesar de ter a eleição praticamente garantida, quanto a capacidade do Néstor Kirchner, depois de eleito , de captar o sentimento das ruas e pô-lo em prática no governo, cooptando fatia após fatia de um movimento que estava naturalmente contra ele. Até mesmo pela fragilidade do seu mandato, conquistado com 22% dos votos devido à renúncia do inominável (toc, toc, toc!), o presidente recém-eleito teve de se curvar às exigências de um movimento que já havia derrubado quatro presidentes em três semanas e forçado a convocação de eleições gerais para tentar contê-lo. E parece ter gostado dos resultados, porque adotou essas exigências (basicamente, o calote da dívida externa e o julgamento dos responsáveis pela repressão) com o entusiasmo de um neófito, e fez uma presidência considerada excelente no final do mandato por 70% dos argentinos.

Não fiquei aqui para acompanhar o primeiro governo do casal K, mas uma das coisas que se diziam logo depois de o Néstro Kirchner ser eleito era que, na verdade, quem ia governar era a senadora Cristina. Seria o governo KK, que tem aqui o mesmo sentido que aí. Hoje dizem o mesmo, só que ao contrário, e dito por outros setores da sociedade. O fato é que a Cristina Kirchner tem vida política própria, em grande medida independente da do marido, e sabe muito bem defender-se quando atacada, como bem sabem muitos dos que o tentaram. Se, por um lado, a capacidade de articulação política do falecido ex-mandatário, a quem ela havia delegado essa função, vai fazer falta nos meses que antecedem as próximas eleições, por outro lado a tendência é que os vários setores da esquerda em geral e do peronismo em particular, com exceção dos que já estão na oposição de fato desde sempre, cerrem fileiras ainda mais vigorosamente no apoio à viúva, resultando em que ela saia fortalecida dessa tragédia que foi a morte prematura do marido. A minha expectativa é que os setores liderados pelo Pino Solanas e pela Elisa Carrió baixem o tom das críticas ao governo, apresentando uma frente não digo unida, mas menos dividida, contra a "ameaça de retrocesso", e que a Cristina Kirchner termine o mandato com relativa tranquilidade. Antes mesmo de o velório do ex-presidente começar oficialmente, as manifestações de apoio à presidente jorram de todas as partes do lado esquerdo do espectro político argentino, e a multidão que se acumulou na Plaza de Mayo e nas ruas adjacentes para homenagear o falecido é uma demonstração de que não faltará apoio popular, de tácito a ativo, ao governo.

No que toca as relações com o Brasil, a Cristina Kirchner sempre foi considerada a metade mais "pró-Brasil" do casal por todas as pessoas com quem converso sobre o assunto na Argentina, e a perspectiva de eleição da Dilma no Brasil, com quem a presidente argentina tem em comum a militância juvenil na clandestinidade (e que é tratada por certos setores da sociedade argentina exatamente nos mesmos termos que a Dilma), é um fator não desprezível de aproximação.

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16 comentários
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Ivo Augusto Bertoncello

o inominável é Carlos Menem não é?

Aliás - abrindo aqui um fora-de-pauta estrangeiro - pq ele é tratado assim na Argentina?

Se for apenas por razões políticas, então FHC (toc, toc, toc) tbm deveria ser inominável aqui hehehe. 

 
 
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Tomás Rosa Bueno

Por motivos que desconheço, os argentinos dizem que "trae mala suerte" pronunciar o nome do inominável (toc, toc, toc!). Toque na madeira você também, ou o seu HD vai ser todo apagado, a sua mulher vai começar a olhar pela janela e suspirar e você vai ficar com espinhela caída. :-)

Até na TV, os repórteres fazem todo tipo de ginástica para evitar pronunciar o nome do Dr. Mendes (que já é um desses jeitos, infelizmente vedado aos repórteres, e toc, toc, toc! só pra garantir. É "el senador por La Rioja", "el ex presidente" e outro dia até ouvi um gaiato falando no "ex marido de la ex miss".

 
 
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El Chico Cerrito

 

Cuidado amigo, pronunciar ou escrever o nome de nuestro ex presidente F..(toc, toc, toc), tambiem trae mala suerte, el HD de su equipo se fuera poco, su esposa comienza a tener antojos, ¡cuidado, cuidado!

Tambiém acerca de lo que  se dice el mejor ministro de salud en el mundo de todos los tiempos, creador del cielo y la tierra, sino que también trae mui mui mala suerte hablar, incluso introducir su número en la urna electrónica, en el que caso de mala suerte seria enorme, coletiva y irreparable!

Entonces no me digas que no te lo advertí!

Quanto a Kirchner foi um lutador pelo bem estar de seu povo e do povo da América do Sul, assim como sua mulher a presidente Cristina, e está com muita justiça sendo velado no salão dos patriotas latino-americanos da Casa Rosada.

É uma luta livrar o continente da má influência dos neoliberais e dos entreguistas.

 
 
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Adlessa

Olá Nassif,

Sem querer ser egoísta, coloca hoje o video da NBR com o início da exploração comercial do Pré-Sal.`Tá muito bacana. Fizeram até uma homenagem ao Lula, batizando o marco de "Marco Lula".

 
 
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claudio rosa

O Menem renunciou com a eleição praticamente garantida?

Renunciou porque a derrota seria por mais de 30 pontos, segundo as pesquisas.

sds

 

 
 
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thor

Nassif,

Vamos dedicar uma música ao Serra pra variar? Bob Dylan.

 

Come you masters of war
You that build the big guns
You that build the death planes
You that build all the bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks.

You that never done nothin'
But build to destroy
You play with my world
Like it's your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly.

Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain.

You fasten all the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion'
As young people's blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud.

You've thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain't worth the blood
That runs in your veins.

How much do I know
To talk out of turn
You might say that I'm young
You might say I'm unlearned
But there's one thing I know
Though I'm younger than you
That even Jesus would never
Forgive what you do.

Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul.

And I hope that you die
And your death'll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I'll watch while you're lowered
Down to your deathbed
And I'll stand over your grave
'Til I'm sure that you're dead.

 
 
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thor

Nassif,

Vamos dedicar uma música ao Serra pra variar? Bob Dylan.

 

Come you masters of war
You that build the big guns
You that build the death planes
You that build all the bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks.

You that never done nothin'
But build to destroy
You play with my world
Like it's your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly.

Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain.

You fasten all the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion'
As young people's blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud.

You've thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain't worth the blood
That runs in your veins.

How much do I know
To talk out of turn
You might say that I'm young
You might say I'm unlearned
But there's one thing I know
Though I'm younger than you
That even Jesus would never
Forgive what you do.

Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul.

And I hope that you die
And your death'll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I'll watch while you're lowered
Down to your deathbed
And I'll stand over your grave
'Til I'm sure that you're dead.

 
 
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Calvin

 

O que este blog está enxergando que o mundo inteiro não vê? As ações de empresas argentinas dispararam (prá cima, entendam) depois do ocorrido. Significa que entendem possibilidades de um futuro melhor....

 
 
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Gabriel

Caro Calvin,

 

A vida não é medida por ações que sobem ou descem. Há muito mais coisas entre o céu e a terra...

 
 
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Clever Mendes de Oliveira

Calvin (Quinta-feira, 28/10/2010 às 17:24),

Além da observação do Gabriel em comentário junto ao seu e enviado hoje, quinta-feira, 28/10/2010 às 20:15, é bom que se atente que o futuro melhor é para eles (os donos das ações) e não para a Argentina.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 28/10/2010

 
 
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marinildac

Será que você não enxerga que quando um patriota morre os "investidores" festejam?

Então você deve ter entendido, como o Serra, que as ações da Petrobras subiram com o resultado do primeiro turno porque os investidores acham o Serra competente, não é? Perdeu, peixe! É que os investidores, que não são bobos como certos candidatos e seus eleitores, sabem que com o Serra eles teriam a Petrobrax!

Afffe, é cada ingênuo... 

 
 
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Carlos Henrique

E aí, continua achando Cristina K. uma "boneca de ventríloquo"?

 
 
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Jair Fonseca

Tomara que a morte de Kirchner e o perigo da volta da direita reúna a esquerda. Solanas poderia cumprir um papel importante nisso, ele que brigara com a turma dos Kirchner.

Fiz um curso de cinema com Pino Solanas (que era casado com uma atriz brasileira), há muitos anos, e é claro que falávamos bastante de política, também.

 
 
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Jair Fonseca

Digo: "... reúnam..."

 
 
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Jorge Campelo

Nassif, duas ótimas notas ( a primeira já esperada e a segunda é uma excelente notícia) que estão no blog "O Biscoito Fino e a Massa", que peguei no blog "Guerrilheiro do Entardecer":

"PS: A matéria feita pelo Jornal da Globo sobre Kirchner é uma coleção de infâmias sexistas.

PS 2: As buscas por PHA, Nassif, Vianna, Brizola e Biscoito já ultrapassaram as buscas pelos blogs UOL-Globo-Veja (incluídos Noblat e Reinaldinho)."

 
 
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Clever Mendes de Oliveira

Tomás Rosa Bueno,

Boa recordação. E valeu por valorizar a Cristina Fernández de Kirchner maltratada até pelas mulheres. Agora mesmo se se toma pelo artigo de Miriam Leitão pode-se ver que elas não põem muitas expectativas no governo de Cristina Fernández de Kirchner sem o marido.

Lembro que até o Luis Nassif embarcou nessa de desacreditar a Cristina Fernández de Kirchner. Ali em 2008 ele publicou um post chorando a situação da Argentina pelo fato da presidente ser a Cristina Fernández de Kirchner (Se bem que me pareceu que o post visava mais produzir a cizânia entre os comentaristas).

Agora, você deve pedir para colocar um PS para alterar a informação que você deu sobre o segundo turno das eleições na disputa de Carlos Saúl Menem contra Néstor Carlos Kirchner. Na verdade, com a fama de machão, Carlos Saúl Menem não toleraria ser batido no segundo turno e por isso desistiu vendo que a derrota seria iminente. Aliás, o Cláudio Rosa, no comentário de 28/10/2010 às 16:10 já havia observado esse equivoco nas suas lembranças.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 28/10/2010

 
 

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