A falibilidade da ciência, por Umberto Eco

Por maria utt

Nassif, já que o debate sobre a ciência está em voga aqui no blog, eis minha contribuição, um ótimo artigo do Umberto Eco:

A falibilidade da ciência

Umberto Eco

http://noticias.uol.com.br/blogs-e-colunas/coluna/umberto-eco/2010/06/20/a-falibilidade-da-ciencia.htm

Um artigo recente no jornal italiano “Corriere della Sera” discutia a natureza da investigação científica. O escritor Angelo Panebianco argumentou que a ciência é por definição antidogmática porque ela atua por tentativa e erro e está baseada no princípio da falibilidade, que sustenta que o conhecimento humano nunca é absoluto e está num fluxo constante. A ciência só se torna dogmática, diz Panebianco, no contexto de certas simplificações jornalísticas que transformam o que era meramente uma hipótese prudente em “verdades” estabelecidas.

Mas a ciência também se arrisca a ser dogmática quando não consegue questionar o paradigma aceito por uma determinada cultura ou época. Quer as ideias estejam baseadas nas de Darwin, de Einstein ou Copérnico, todos os cientistas seguem um paradigma para eliminar teorias que saem de sua órbita – como a crença de que o Sol gira em torno da Terra.

Como podemos conciliar a necessidade de paradigmas da comunidade científica com o fato de que a verdadeira inovação só acontece quando alguém consegue lançar dúvidas sobre as ideias dominantes do momento? Será que a ciência não se comporta de forma dogmática quando se entrincheira atrás dos muros de um determinado paradigma para defender seu poder e rotula como heréticos todos aqueles que desafiam sua autoridade?

A questão é importante. Será que os paradigmas sempre devem ser defendidos ou desafiados? Uma cultura (entendida como sistema de costumes e crenças herdados e compartilhados por um determinado grupo) não é meramente uma acumulação de dados; é também o resultado da filtragem desses dados. Qualquer cultura é capaz de descartar o que não considera útil ou necessário – a história da civilização é construída sobre informações que foram enterradas e esquecidas.

Em seu conto “Funes el Memorioso” de 1942, Jorge Luis Borges conta a história de um homem que se lembra de tudo: cada folha de uma árvore, cada rajada de vento, cada sabor, cada sentença, cada palavra. Mas por esse mesmo motivo Funes é um completo idiota, um homem imobilizado por sua incapacidade de selecionar e descartar. Nós dependemos de nosso subconsciente para esquecer. Se temos um problema, sempre podemos ir a um psicanalista para recuperar quais memórias nós descartamos por engano. Felizmente, todo o resto foi eliminado. Nossa alma é o produto da continuidade dessa memória seletiva. Se todos nós tivéssemos almas como a de Funes, seríamos desalmados.

Uma cultura opera de forma semelhante. Seus paradigmas, que são constituídos pelas coisas que nós preservamos e por nossos tabus em relação ao que descartamos, resultam de compartilhar essas enciclopédias pessoais. É sobre o pano de fundo dessa enciclopédia coletiva que travamos nossos debates. Para que uma discussão seja compreendida por todos, precisamos começar a partir dos paradigmas existentes, mesmo que apenas para mostrar que eles não são mais válidos. Sem a rejeição do paradigma ptolomaico então dominante, o argumento de Copérnico de que a Terra girava em torno do Sol teria sido incompreensível.

Hoje a internet é como Funes. Como uma totalidade de conteúdo, não filtrado nem organizado, ela oferece a qualquer um a capacidade de criar sua própria enciclopédia ou sistema de crenças. Num contexto como este, uma pessoa pode simultaneamente acreditar que a água é composta de hidrogênio e oxigênio e que o Sol gira em torno da Terra. Teoricamente, é concebível que um dia possamos viver num mundo no qual existam 7 bilhões de paradigmas diferentes, e a sociedade seria então reduzida ao diálogo fraturado de 7 bilhões de pessoas todas falando uma língua diferente.

Felizmente, essa noção é meramente hipotética, mas o argumento em si só é possível precisamente porque a comunidade científica se baseia nas ideias comuns compartilhadas, sabendo que para derrubar um paradigma é preciso primeiro que exista um paradigma a ser derrubado. A defesa desses paradigmas pode levar ao dogmatismo, mas o desenvolvimento do novo conhecimento é baseado exatamente nessa contradição. Para evitar conclusões apressadas, eu concordo com o cientista citado no artigo de Panebianco: “Eu não sei. É um fenômeno complexo; terei que estudá-lo.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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64 comentários
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Assis Ribeiro

Esse debate aqui no blog se dá pela percepção da necessidade de mudança do paradigma atual que  está demonstrando ser incapaz de explicar satisfatoriamente os processos físicos comuns aos níveis subatômicos, sugerindo que os processos quânticos estão para além do que uma ciência materialista é capaz de resolver.

Quando um paradigma se torna insuficiente em explicar certos fenômenos que se apresentam como cabais e inevitáveis para que compreendamos a natureza da realidade, então há o indicio claro da falência deste paradigma, através de uma revolução científica que culminará na adoção de um novo paradigma por parte da comunidade científica, de modo que esta nova visão de mundo seja capaz de apresentar respostas claras e coerentes a cerca dos pontos que na concepção antiga apresentavam-se problemáticos e paradoxais.

O modelo que se apresenta como substituto ao atual é o Holismo que vê o Universo como uma máquina determinística, sem negar as características mecânicas que se apresentam na natureza, percebe o Universo como uma rede de interrelações dinâmicas e orgânicas.

Bertalanffy, em sua obra "Teoria Geral dos Sistemas", demonstra não concordar com a visão cartesiana do universo, e coloca uma abordagem orgânica da biologia e procura demonstrar a idéia de que o organismo é um todo maior que a soma das suas partes. Em sua obra critica a visão de que o mundo é dividido em diferentes áreas, como física, química, biologia, psicologia, etc. Ao contrário, sugere o estudo dos sistemas globais, de forma a envolver todas as suas interdependências, pois cada uma das partes, ao serem reunidas para constituir uma unidade funcional maior, desenvolve qualidades que não se encontram em seus componentes isolados.

Essa nova visão da ciência nega o reducionismo quando afirma que do todo se pode entender a parte e não da parte se pode entender o todo. Considera que cada parte, quando analisada isoladamente, apresenta características que no todo se modificam. Nesta proposta, o conceito do mundo é de um todo unificado e inseparável, é uma complexa teia de relações onde todos os fenômenos são determinados por suas conexões com a totalidade.

O Universo é uma teia dinâmica de eventos interconectados, onde cada partícula, de certo modo, consiste em todas as demais partículas. Então, a abordagem holística pode ser assim sintetizada: a) Integra e ultrapassa a dualidade e a dialética. b) Estimula a integração transdisciplinar. c)Transcende e amplia as metas preestabelecidas. d) Estimula e encoraja a pesquisa de novos caminhos.

 

Assis Ribeiro

 
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Zarastro

"(...)paradigma atual que  está demonstrando ser incapaz de explicar satisfatoriamente os processos físicos comuns aos níveis subatômicos, sugerindo que os processos quânticos estão para além do que uma ciência materialista é capaz de resolver."

Afemaria Assis, tento ter boa vontade com os seus textos, mas assim fica difícil. Os fenômenos físicos de nível atômico e subatômico só são explicados exatamente por conta da mecânica quântica, cuja origem se baseia em fenômenos materiais que a física clássica nunca conseguiu explicar.

De resto, as bases matemáticas da mecânica quântica estão perfeitamente estabelecidas, como você mesmo poderá verificar em qualquer livro introdutório de mecânica quântica em seus primeiros capítulos. Ficar com aquela historinha de que os símbolos usados pela física quântica (e que de resto são usados em muitas outras áreas da física) são muito parecidos aos caracteres em sânscrito dos indus não passa de brincadeira de adolescente, mas que ajuda a vender um montão de livros.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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Ronaldo Correia Junior

Assis

Parece que você não sabe do que tá dizendo, pois não se pode defender um Universo deterministico e validar a mecanica quantica ao mesmo tempo, porque é intrinsecamente probabilistica e recentemente se demonstrou que a não-localidade tá sujeita ao Principio de Incerteza - ou seja, qualquer influencia do todo sobre a parte, quando existe, é tb probabilistica.

 
 
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Ana Cruzzeli

 Toda a visão  depende de quem a  vê. Nunhuma verdade é absoluta, para  cada uma há pelo menos duas outras  que as contradiz.

  A ciencia que é manipulada por um ser imperfeito, será imperfeito como o manipulador. A incerteza é a unica certeza que nós temos.

  E que ninguém confunda: Eu não estou em cima do muro. Sou  apenas um pendulo que vai pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...

   

 

  

 
 
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acastro

O autor do texto pode entender muitas coisas, mas de ciência ele dá mostras de ignorância total a respeito do método científico; apesar de modismos como o holismo, o Tao da Física e outros, a ciência ainda é o único guia confiável neste mundo absurdo em que vivemos. Gostaria de saber qual foi ou quais foram as contribuições da "abordagem holística" para o avanço do conhecimento da natureza.

 

acastro

 
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Odd Eye

Ignorância total não é o caso, pois pelo menos ele tem consciência de que a ciência não trabalha com verdades absolutas e sim com evolução constante.

Uma pessoa que perde a capacidade de questionar a ciência pode dizer tudo, menos que entende de ciência. Isso de não questionar verdades absolutas é coisa de religioso radical.

 
 
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maria utt

qual autor, o Assis, certo?

 
 
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Marroni

Umberto Eco está repetindo Popper. Este tipo de crítica ao conhecimento científico só seria válido se todos se comportassem de maneira dogmática. 

O espantoso é a tentativa de transformar a falibilidade da ciência em chancela para alegações metafísicas e religiosas.

O reducionismo não é necessariamente um paradigma da ciência mas uma forma de ler a ciência.  Não se considera os processos complexos da natureza explicáveis ou compreensíveis por um punhado de causas. A alegação de que o aquecimento global é causado pelas emissões de CO2 de origem antropogênica pode ser denunciado como simplista e reducionista. Mas os interesses não-científicos subjacentes influenciam e dirigem as conclusões mais que os dados e as pesquisas. 

 De um  modo geral, uma teoria deve ser coerente em si mesma e convergente com o estado de desenvolvimento das ciências como um todo. O desenvolvimento da ciência necessariamente vai estabelecendo um corpo articulado e coerente de conhecimentos que nada tem de reducionista.

Não se pode conhecer e compreender a origem da espécie humana sem a compreensão da genética, da geologia, da climatologia, da geografia, etc.. De um modo geral, não se pode compreender a história da nossa espécie sem compreender a história da vida e a história do planeta Terra. 

A crítica à ciência não pode ser convertida em apologia da metafísica. Existe uma profunda unidade no universo mas esta unidade não pode ser reduzida a uma única causa metafísica, não se pode reduzir o universo como um efeito fantasioso de um deus.

 

 

Somos a consequência de nossas escolhas.

 
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maria utt

Meu caro, Umberto Eco é uma biblioteca ambulante, o título é uma referência a Popper, mas a ideia do texto é muito próxima de Thomas Kuhn (e isso que eu consegui captar). Não subestime o italiano, que já foi muito fundo nessas questões, como em seu livro Kant e o Ornitorrinco.

 
 
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Marroni

Não subestimo ninguém a princípio. O que estou criticando é a tentativa de alguns de se apropriarem do texto para validar as alegações pseudo-científicas baseando-se na falibilidade necessária da ciência.

 

Somos a consequência de nossas escolhas.

 
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Assis Ribeiro

Os avanços revolucionários exigem uma expansão de perspectiva, de consciência.

A revolução copérnica, que teve inicio no séc. XVI, baseada em uma reconsideração fundamental da estrutura do universo, provocou o surgimento da ciência racional, e subsequentemente, da revolução industrial, que transformou completamente a face da Terra.

É pouco provável que Copérnico tinha a intenção ou fosse capaz de prever os efeitos do seu trabalho. Na realidade ele já estava morto havia 70 anos quando a sua teoria recebeu o seu maior impulso, da parte de Galileu. Ao espiar através do seu novo telescópio, Galileu observou luas girando em torno de Júpiter, o que confirmava uma implicação fundamental da teoria de Copérnico, ou seja, que nem todas as coisa giram em torno da Terra.

Havia ainda outra implicação, muito mais difícil de ser engolida pelas pessoas racionais daquela época. De acordo com a teoria, as 24 horas do dia teriam que ser causadas pela rotação da Terra em torno do seu eixo. Entretanto, os sensatos cientistas da época argumentaram que, se isso fosse verdade, todos sairíamos voando pelo espaço.

Foi preciso que Sir Isaac Newton, cinquenta anos após a morte de Galileu, apresentasse o conceito de gravidade para que o problema pudesse ser resolvido.

Nem sempre obtemos a solução dos problemas processando racionalmente os dados. O químico alemão Friedrich Kekulé descobriu a forma de anel simétrica da molécula de benzeno em um devaneio, solucionando desta maneira o desconcertante problema de como explicar todos os seus componentes moleculares. Ele contou aos seus colegas em uma palestra que visualizara uma cobra mordendo a cauda (imagem esotérica da serpente “Ouroborus”) e compreendeu que esta era a solução para a problemática estrutura da molécula de benzeno: os átomos estavam ligados em um círculo.

Esses são exemplos das dificuldades que os avanços revolucionários radicais precisam enfrentar.

Os esforços feitos por pessoas para transcender as tendências do “status quo” impostas por guardiões acadêmicos que empunham as suas marcas limitantes de lógica e decoro podem ser repetidamente observados. Geralmente a verdade acaba aparecendo, embora seja, com frequência, vilipendiada e marginalizada.

O acúmulo cada vez maior de dados e informações é inexpressivo se a consciência do pesquisador não elaborar o problema corretamente. A estrutura de idéias revolucionárias e a maneira como elas são recebidas e incorporadas pelos guardiões do consenso foi examinada de forma magistral por Thomas Kuhn. Em primeiro lugar, ele observa que, com muita freqüência, os avanços revolucionários são feito por pessoas de fora, que não pertencem ao mundo acadêmico. A razão disso é o fato de que as perspectivas do consenso tendem a reforçar a si mesmas. A perspectiva do consenso avança por si própria para um canto formado pelas suas limitações autodefinidas, de modo que é preciso de alguém de fora, uma pessoa não restrita por preconceitos arraigados, empurre a coisa para a frente.

 

 

Assis Ribeiro

 
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Zarastro

A história de Kekulé não é única. O próprio Wolfgang Pauli disse ter descoberto o seu famoso princípio de exclusão durante um show de can-can em Paris.

Porém, o que torna ambas as descobertas eventos científicos é o fato de que ambos foram à escrivaninha e/ou ao laboratório para verificar se a inspiração que tiveram era verdadeira. A fórmula do benzeno imperou no final das contas não porque Kekulé disse que recebera uma inspiração divina mostrando-lhe a serpente de Ouroboros, mas sim porque fez experiências e cálculos que comprovaram essa inspiração - experiências e cálculos que depois foram comprovados por outros cientistas.

Wolfgang Pauli fez as contas com seus spins e verificou que a inspiração que tivera fora verdadeira; ainda assim, submeteu esses resultados a seus colegas, que independentemente verificaram as contas feitas por Pauli.

Evidentemente, a ciência é sujeita à falhas e é ainda incompleta; afinal de contas ela é feita por seres humanos que, por definição, são falíveis e incompletos. Porém, o que faz a ciência algo único é que, justamente por ser feita por indivíduos fundamentalmente diferentes, o conhecimento por ela acumulado se torna uma soma maior do que o conjunto de suas partes.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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César Bento

Nem o conjunto da obra, nem este artigo de Umberto Eco permitem supor que o italiano está abrindo caminho para o sobrenatural como forma de explicação. Essa tentativa foi feita pelo primeiro comentador, sr. Assis Ribeiro. O artigo de Eco é claro: a crítica de certos paradigmas científicos só pode ser feita, consistentmente, com a utilização de outros paradigmas. Eu resumiria dizendo que a ciência é superior não por causa desta ou daquela descoberta ou teoria, que podem ser superadas por outras, mas pelo seu método.

 
 
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maria utt

Enfim! Já estava perdendo as esperanças com os comentários desse post. 

 
 
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Marroni

A falibilidade da ciência não é prova da infalibilidade da religião.

A crítica que se faz à ciência é a crítica do que se entende por ciência. O crítico define seu alvo mas pode estar criticando um espantalho criado por ele mesmo. 

A Falácia de Espantalho é muito comum nestas críticas "filosóficas".

Como disse Richard Feyman " A filosofia da ciência é tão útil aos cientistas como a ornitologia é para os pássaros".

 

 

Somos a consequência de nossas escolhas.

 
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altamir josé pagani

Que o artigo do Eco não seja um Espantalho a ser refutado... Me pareceu bem equilibrado e nada metafísico no sentido fantasioso que se costuma dar à palavra quando se pretende defender uma visão de ciência, às vezes, positivista.

 
 
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alessandroduarte

http://shawnotto.com/foolmetwice/

 

Alessandro B. Duarte (Usa GNU/Linux) www.alessandroduarte.com.br

 
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JarbasPassarão

Prezado Nassif

Parece haver uma certa confusão entre a prática científica (uma atividade humana ) e a procura por Leis Naturais (Ciência) . Por exemplo , na Biologia a lei final  da evolução biológica ainda não está finalizada !. Mas a percepção dos seus fundamentos já são absolutamente claros ( mudanças funcionais da morfologia de "seres vivos " no meio ambiente , são devidas a tentativas de "adaptação" a este meio ambiente físico e feitas no nível molecular destes mesmos seres  -Charles Darwin ). Já o mecanismo detalhado destas mudanças-mutações  ( O Código genético - a molécula dupla hélice DNA de Watson e Crick) , ainda existem muitos pontos não completamente entendidos (especialmente no campo da microbiologia ).E aí, a prcepção de falibilidade científica quando novas descobertas são feitas .

Por exemplo na Física -especialmente na Física Quântica , ainda existe uma terrível falta de linguagem não-matemática para a descrição  dos seus fenômenos .Já na Física Clásica , todos entendem conceitos como o movimento, repouso, corpo , etc.....Certamente não faz sentido dizer que um elétron esta parado ou em movimento , ou sofre aceleração , ou até mesmo se aquele elétron existe de uma forma individualizada ! (O famoso princípio da indeterminação de Heisenberg!) .E como dizia o grande Físico Dirac , corroborado por outro grande físico  (RP Feynman ) : "Quando alguém quer conversar comigo sobre Mecânica Quântica , eu começo a escrever equações no quadro negro . Fora deste contexto , se está na Torre de Babel da descrição linguística !".

 

Floresta!

 
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Glauber

E quem disse que a ciencia nao se tornou uma religiao? O que mais vejo no meio cientifico sao pesquisadores fundamentalistas, incapazes de ir alem do paradigma corrente, por interesse ou desconhecimento. Mesmo aqueles que nao aceitam o paradigma nao estao isentos de criticas. Felizmente, a critica pos-moderna acordou para o fato de que a ciencia utiliza o mesmo tipo de narrativa usada no discurso religioso, por mais que seus apologetas neguem. O simples fato de usar o metodo cientifico nao elimina da ciencia sua fragilidade discursiva. Os cientistas tratam a ciencia como um assunto abstrato, livre de sensacionalismo e distorcoes. Doce e triste ilusao. Como se a ciencia pairasse acima do bem e do mal, como se cientistas fossem seres privilegiados, alheios as vicissitudes terrenas, enclausurados em seus laboratorios, imparciais diante dos seus modelos e resultados. E nao se trata apenas de cientistas que estacionaram num dado paradigma, a dita "ciencia normal" de Thomas Kuhn, mas inclui mesmo aqueles fazendo ciencia para quebrar paradigmas.

Eh interessante observar que a resposta mais comum dos cientistas eh dizer algo do genero "O espantoso é a tentativa de transformar a falibilidade da ciência em chancela para alegações metafísicas e religiosas", como alguem disse ai acima. Ou seja, qualquer coisa que nao passe pelo metodo cientifico eh taxado imediatamente como metafisico. Trata-se ou nao de um fundamentalismo?

 

"Toda unanimidade é burra." Nelson Rodrigues

Obs.: mas nem todo ceticismo é inteligente.

 
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JB Costa

Eita, agora lascou! Ciência não tem narrativa(sic)e, sim, método. .

Impressiona como há certas mentalidades que insistem em confrontar Ciência e Religião, como se isso fosse possível. Parecem ser viajantes do tempo que resolveram sair da Idade Média e por aqui aportaram.  

 
 
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Reynaldo

Lendo rapida e superficiamente, o texto é baseado em Thomas Khun e resvala em Feyrabend, através de alguns preconceitos. O próprio conceito de revolução científica de Khun é limitado, já que não há nenhuma  proposta  de " critério de delimitação" que procure separar uma descoberta "comum", de uma mudança de paradigma...afinal, onde e quando termina um paradigma e começa outro?

O relativismo contido em alguns comentários aqui realmente lembra Feyerabend, e Khun negou veementente ser um relativista.

No mais, graças ao método científico podemos todos estar aqui debatendo instantaneamente, de lugares distantes no mundo

Realmente,  concordo que "O espantoso é a tentativa de transformar a falibilidade da ciência em chancela para alegações metafísicas e religiosas", como alguem disse ai acima.

E discordo que "qualquer coisa que nao passe pelo metodo cientifico eh taxado imediatamente como metafisico".

Uma " coisa" que possa ser testada pelo método científico, mesmo que não atualmente, que se vislumbre que possa ser testada no futuro, não é chamada de "metafísica", é chamada de "hipótese não testada". Não deixa de ser científica.

O que se chama de " metafísica"  são aquelas afirmações que não podem e provavelmente jamais poderão ser testadas,  por exemplo, a afirmação " Deus criou todas as coisas e seres viventes que existem"
 
São as conclusões que tiro de uma leitura superficial do texto e dos comentários, e do meu sofrível conhecimento de filosofia da ciência, afinal, sou dentista, não filósofo. 

[  ]s 

 
 
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Marroni

"Eh interessante observar que a resposta mais comum dos cientistas eh dizer algo do genero "O espantoso é a tentativa de transformar a falibilidade da ciência em chancela para alegações metafísicas e religiosas", como alguem disse ai acima. Ou seja, qualquer coisa que nao passe pelo metodo cientifico eh taxado imediatamente como metafisico. Trata-se ou nao de um fundamentalismo?"

Não, não é uma questão de fundamentalismo, como a geléia geral do relativismo pós-moderno levianamente gosta de tratar a tudo e a todos. É uma questão de provas e evidências. Sempre será. 

E não precisa se chamado de metafísico. Pode ser relativamente chamado de religião, fantasia, superstição, delírio, psicopatia, non-sense, baboseiras, crendices, etc.. Usando a insípida linguagem pós-moderna, chamemos de alegações não-validáveis. O deus das lacunas se converteu em filosofia das lacunas. Um dia eles desaparecem.

As extrapolações filosóficas e metafísicas sobre temas que delas não dependem são ociosas, nocivas e, sim, inúteis. As credenciais da filosofia são pobres e inferiores as da ciência para criticar a ciência. De fato, suas credenciais estão obsoletas. 

 

Somos a consequência de nossas escolhas.

 
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Assis Ribeiro

Alguns comentaristas preferiram a percepção de que eu critico a física, outros a percepção que estou relatando a insuficiência do paradigma newton cartesiano e sua falibidade. Portanto Ciência X Filosofia da Ciência. Então aqui vai outra colaboração.

A ontologia materialista na Ciência Moderna

 A ontologia materialista da ciência moderna nasce como fruto da fusão entre o materialismo atomista grego e o mecanicismo filosófico cartesiano.

Em “A mecânica de Newton e sua influência sobre a formação da Física Teórica”, Albert Einstein salientou que:

  “A importância dos trabalhos de Newton consiste principalmente na criação e na organização de uma base utilizável, lógica e satisfatória para a mecânica propriamente dita”.

(Albert Einstein – Como eu vejo o mundo – Rio de Janeiro, Nova Fronteira – pg. 186)

  Na verdade, a história da ciência moderna é a história do desenvolvimento do pensamento mecanicista materialista (com suas implicações éticas, culturais e políticas). Sobre o ponto essencial do pensamento da física clássica, escreve Einstein:

 “Assim, pois, este sistema teórico em sua estrutura fundamental se apresenta como atômico mecânico. Portanto todos os fenômenos têm de ser concebidos do ponto de vista mecânico, quer dizer, simples movimentos de pontos materiais submetidos à lei do movimento de Newton”.

 (Albert Einstein – Como eu vejo o mundo – Rio de Janeiro, Nova Fronteira – pg. 194)

   Esse paradigma mecanicista foi primeiramente formulado e difundido pela filosofia de Descartes. O pensamento cartesiano foi extremamente influente na física de sua época, e muito influiu sobre o desenvolvimento posterior dessa ciência.

 “Nos seus Principia Philosophia, de 1644, Descartes apresenta os fundamentos de seu sistema filosófico e científico, os princípios gerais da Física e detalhadas considerações a cerca de fenômenos terrestres e celestiais. A influência dessa obra, a partir do século XVII, pode ser aferida pelo fato de que não há livro de Física publicado ente 1650 e 1720 (incluindo os Principia Mathematica de Newton) em que os problemas levantados e analisados por Descartes, sob sua ótica mecanicista, não fossem considerados.”

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 24).

   Entretanto, embora pioneiro do mecanicismo, Descartes não conseguiu formular uma teoria física consistente, capaz de explicar os fenômenos naturais. Partindo, pois, do mecanicismo, foi Newton quem o fez.

 “Coube a Newton lançar as bases de uma nova cosmovisão e iniciar uma nova fase do Mecanicismo.”

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 25).

    Todavia, se os detalhes técnicos do sistema físico elaborado por Descartes revelaram-se incompatíveis com as observações empíricas, e se mesmo o seu formalismo matemático foi insuficiente para servir de alicerce para a física clássica, a sua contribuição filosófica para a ciência marcou-a tão profundamente, que podemos dizer que a filosofia cartesiana encontra-se como um paradigma, uma visão de mundo norteadora do empreendimento científico dos últimos séculos. O que estamos à dizer, é que a visão mecanicista de mundo, apresentada pela filosofia cartesiana, inspirou por séculos a ciência física. Ou seja, se não sobreviveram os detalhes técnicos de sua física, o mesmo não podemos dizer de seu ideal mecanicista, que permaneceu vivo no coração da ciência moderna, como notamos nas palavras dos professores Francisco Caruso e Victor Oguri, do Departamento de Física Nuclear e de Altas Energias da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, quando tratam em sua obra, sobre o pensamento de Descartes:

“Seu projeto mecanicista de explicar a pluralidade dos fenômenos físicos a partir das interações entre partículas, no entanto, sobrevive; e’ retomado, por exemplo, no programa einsteiniano de geometrizar a Gravitação”.

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 25).

    É claro que sistemas idealistas, que conceberam a existência de algo para além da matéria, surgiram ao longo dos séculos. Pensadores como Platão, Berkeley e Bergson, cada qual em sua época e ao seu modo, apresentaram teorias nas quais discorriam sobre a coexistência entre um plano transcendental de realidade arquetípica, e o plano físico de nossa experiência empírica. Berkeley foi além, levou o idealismo ao extremo e postulou que todas as coisas não são nada mais do que manifestações do pensamento divino. De acordo com sua tese, tudo, todas as coisas, eu, você, o mundo, são partes do pensamento que Deus pensa. A existência de um mundo material real e independente, fora do pensamento de Deus, é pura ilusão. Mas tal ilusão não significa que estejamos sonhando. Deus é quem sonha. Nós somos o sonho.

   Os estóicos e Spinosa elaboraram teorias monistas, nas quais Deus está presente em todas as coisas, em cada partícula de matéria, cada célula, cada gota de sangue.

  Mas, mesmo havendo tantas teorias idealistas, foi o realismo materialista, que se sistematizando em mecanicismo, tornou-se paradigma cientifico, pois além de parecer mais óbvio e gerar resultados empíricos concretos, o materialismo é interessante economicamente, por impulsionar o progresso da exploração dos recursos naturais, favorecendo o enriquecimento financeiro e o fortalecimento político de nações e mercados, afinal, na base desta teoria, encontra-se a visão de que a natureza, bem como todas as coisas, constitui matéria prima passiva, devendo ser utilizada para o saneamento das vicissitudes de nossa espécie. Não que seja esta a única motivação, mas muitas vezes a construção de uma verdade perpassa por uma estratégia de poder. Aceitamos como verdadeiros, os conceitos que nos são convenientes, que nos servem, em propósitos úteis, para determinados fins e durante certo tempo. Na passarela por onde os homens desfilam suas ambições e mostram-se sedentos por progresso, a “Verdade” deixa de ser uma questão metafísica e torna-se mais um instrumento político. Possuir a “Verdade” é ter o domínio sobre os recursos, os meios de produção, os aparelhos de poder e força. Sendo assim, historicamente, o materialismo serviu bem aos nossos antepassados, empenhados na exploração de novos “mundos”, na abertura de mercados, e em um positivismo industrialista crescente. Por isso, se tivermos em mente o sentido de “Verdade” enquanto “aspecto autêntico da realidade”, temos de admitir o materialismo, não como “Verdade”, já que não há prova de que todas as estruturas do universo possam ser descritas como composições de partículas de matéria. Na astrofísica contemporânea, a constatação de que há mais massa do que matéria em algumas partes do universo, e que esse excedente não material, chamado de matéria e energia escuras, correspondem a mais de 95% do universo, é prova cabal de que uma fé cega no materialismo, disfarçada sobre um pretenso intelectualismo, não se justifica. A teoria da relatividade especial revela que a matéria não é nada mais do que energia condensada. Portanto, é preciso que reflitamos a cerca de nossas convicções, e que, ao invés de considerarmos certos conceitos como verdades, tratemo-los como estratégias do intelecto. Há sempre motivações, mesmo que inconscientes, por detrás do que acreditamos.

   Vivemos em sociedades filosófico-científicas, nossos padrões, nossos preconceitos, nossas posturas e comportamentos, mesmo que não percebamos, são construções diretas e indiretas de uma visão de mundo filosófico-cientificista.

   Interessa-nos neste capítulo, verificarmos sobre quais alicerces teóricos, a física clássica se ergueu.

   Para Amiti Goswami, doutor em física nuclear e professor titular de ciências da Universidade do Oregon, a física clássica tem como paradigma filosófico o realismo materialista. Quais serão os fundamentos conceituais de tal paradigma? Vejamos:

 “Os cinco princípios seguintes, portanto, enfaixam a filosofia do realismo materialista:

Objetividade forte
Determinismo causal
Localidade
Monismo físico, ou materialista.
Epifenomenalismo”.
(Amiti Goswami – O Universo autoconsciente – Rio de Janeiro, 2007 – pg. 35, 36)

   Trabalharemos com essa visão de Goswami, e analisaremos cada um destes cinco pontos. Mas, antes, ressaltamos que, a pressuposição subjacente a estes cinco princípios é a tese materialista de que toda a realidade, conhecida ou desconhecida, visível ou invisível, perceptível ou não, é constituída por micro partículas de matéria, não havendo nada que não o seja. Os três primeiros princípios dizem respeito diretamente à pressuposto da física clássica, e os dois últimos, às suas conseqüências na visão geral de mundo do ocidente (moderno, pós-moderno e contemporâneo).

  Qual o conceito de Objetividade? Segundo Goswami:

 Descartes tomou emprestada de Aristóteles a idéia de objetividade. A idéia básica era que os objetos são independentes e separados da mente (“consciência”).

(Amiti Goswami – O Universo autoconsciente – Rio de Janeiro, 2007 – pg. 33, 34)

Este conceito se tornaria, na física clássica, conhecido como Objetividade Forte, e seria um de seus pilares de sustentação. Toda a mecânica de Newton, por exemplo, só faria sentido, se de antemão, o princípio filosófico da objetividade fosse considerado como verdadeiro. Afinal, a mecânica clássica trata dos fatores causais da configuração física do mundo, e estes, por sua vez, são independentes da existência de sujeitos conscientes, não havendo interação entre observadores e objetos, a não ser pelos processos da motricidade humana, agindo fisicamente sobre os corpos externos. Podemos notar a influência deste ideal sobre a descrição dos fenômenos naturais por parte da física clássica, no texto a seguir, de autoria de Einstein:

  “Os grandes filósofos da antiguidade helênica exigiam que todos os fenômenos materiais se integrassem em uma seqüência rigorosamente determinada pela lei de movimentos dos átomos. Jamais a vontade de seres humanos poderia intervir (...)”.

(Albert Einstein – Como eu vejo o mundo – Rio de Janeiro, Nova Fronteira – pg. 194)

  A idéia expressada acima por Einstein trata dos germes do determinismo causal e da objetividade. O conceito de determinismo causal é o de que todo movimento, por menor que seja, é determinado por uma causa mecânica objetiva, de modo que, quando conhecemos as forças físicas exatas que operam sobre certo sistema, podemos determinar com perfeição todos os detalhes a cerca de sua realidade futura, bem como de seu passado, por mais remoto que seja. Sendo assim, todo movimento poderia ser previsto, levando em conta as leis do movimento, as posições e as velocidades iniciais dos corpos. De acordo com tal visão, o universo é completamente determinado pelas leis da mecânica, de modo que se soubéssemos as posições e velocidades iniciais de todas as partículas de matéria do universo, então poderíamos, calculando seus movimentos, prever inequivocamente toda a história do cosmos, das eras cósmicas mais remotas, até a infinidade dos tempos. Esta visão de mundo, tão cara à Newton, Laplace, e enfim, à toda a ciência praticada nos últimos séculos, perdurou ainda no início do século XX. Esse ideal remonta aos filósofos gregos. Os professores Caruso e Victor apontam dois traços fundamentais da filosofia grega que “marcaram a trajetória cultural do Ocidente” (CARUSO & OGURI, 2006, p.1 ):

“Por um lado, a busca de uma visão da Physis baseada em relações causais, estabelecidas a partir da razão, cujo expoente máximo foi Aristóteles de Estagira. Por outro, a idéia de simplicidade manifestada desde quando se buscou compreender racionalmente a natureza a partir de um único princípio, de uma matéria primordial organizada pela ação dos contrários, e finalmente, a idéia norteadora de que existe um Cosmos, termo grego que significa um todo organizado.”

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 1).

   Como vimos, o ideal filosófico de que a natureza é regulada por uma profunda ordem interna está na base deste determinismo moderno.

 “A concepção de um determinismo absoluto de cunho mecanicista, nos moldes de Laplace, repousava na convicção de que era possível explicar o caos molecular a partir da ordem e da certeza.”

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 65).

    O que chamo de paradigmas filosóficos da ciência, pode ser entendido como sendo visões de mundo a partir das quais o empreendimento científico irá se desenvolver. (Pensemos, por exemplo, no cultivo de vinhas. Temos que, um determinado vinho seja considerado de ótima qualidade. Não nos será possível pensar que o produto final, excelente, poderia existir, se o meio ambiente no qual ele é produzido, por questões tais como climáticas, geográficas, químicas e culturais, não fossem exatamente como o são. Esse conjunto de fatores, que tornam aquele ponto específico do globo, como sendo potencialmente fértil para a produção de um bom vinho, está diretamente ligado ao produto final, é, pois, assim, que quando se bebe um bom cabernet sauvignon, está se bebendo a própria França, ou mesmo o Chile, por exemplo, e enfim, está se bebendo todos aqueles fatores que, reunidos, possibilitaram que o tal vinho viesse a existir e fosse tal como o é, atribuindo-lhe suas características específicas. Da mesma forma, o ambiente cultural de uma sociedade, é como uma estufa, que propícia o crescimento de determinadas árvores do saber, enquanto inibe o desenvolvimento de outras. O que dizemos, é que a ciência não nasceu à toa na Europa, e não no Tibete, por exemplo. E isto porque, a Europa, e não o Tibete reunia os fatores culturais, os pensamentos filosóficos necessários para o desenvolvimento da ciência moderna. O paradigma é  pois, aquela condição de possibilidade para o desenvolvimento de uma cultura).Trata-se de entender que, servindo de alicerce para a ciência, existem certos conceitos ou concepções, que, mesmo não sendo nada além do que visões de mundo, servem como diretrizes intelectuais, indicando os caminhos a serem trilhados pela comunidade científica. Características fundamentais do empreendimento científico, como a busca por teorias unificadas e por simplicidade, são frutos, senão, de uma espécie de fé nos ideais filosóficos de Cosmos, Causalidade, entre outros. É também neste sentido, que toda a Ciência, e em nosso caso, a Física, é alicerçada e precedida pela Metafísica. Isto quer dizer que estes ideais que tanto inspiram o empreendimento científico não são constatações, nem da razão, nem empíricas, mas tão somente disposições intelectuais que nutrimos, e que nos levam à fazer ciência da forma que fazemos. Durante séculos a ciência vem se ocupando em tentar entender e explicar o mundo, movida pela fé (convicção) de que (1) os fenômenos da natureza possuem causas específicas, e (2) que um conjunto de leis da natureza é a causa simples que configura toda a realidade, e (3) que, no fim das contas, conseguiremos explicar que toda a diversidade do universo se origina das mesmas causas naturais. Vemos isto claramente em dois momentos. Em Newton, quando declara que todo o saber pode ser sintetizado em um processo de focalização do conhecimento em torno de questões centrais, das quais todos os demais problemas variados irão surgir, e em uma citação sobre a obra do historiador da Ciência Gerald Holton, na qual o mesmo enfatiza como o ponto de partida do empreendimento científico são pressupostos filosóficos compartilhados ou ao menos disponíveis nas sociedades em que vivem os homens de ciência. Vejamos:

 “Ofereço (os Principia) como os princípios matemáticos da filosofia, pois toda a essência da filosofia parece consistir nisso – a partir dos fenômenos de movimento, investigar as forças da natureza e, então, a partir dessas forças, demonstrar os outros fenômenos.”

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 65).

 Newton revela aqui, sua convicção metafísica, de que todo o universo poderia ser entendido, desde que pudéssemos compreender as forças da natureza, enquanto causas primordiais de todos os demais (e diversos) fenômenos naturais, é tal convicção metafísica, que ele chama de essência da filosofia, e que, portanto, é também a essência da ciência, bem como sua motivação maior. A citação abaixo, é também exemplo significativo do que aqui tratamos:

“A relação entre causa simples e efeitos complexos, como bem enfatiza o historiador da ciência Gerald Holton, não e’ uma necessidade nem lógica, nem experimental, mas, poderia ser acrescentado, apenas uma convicção metafísica.”

(CARUSO & OGURI, 2006, P. 65).

   Sendo assim, ressaltamos os conceitos de Objetividade e Determinismo como paradigmas norteadores da ciência moderna.       

   Mesmo em pleno nascimento da mecânica quântica, levaria um tempo para que fosse percebido o fato de que a velha física e seus princípios, que outrora se acreditara serem de alcance universal, eram agora limitados por uma fronteira: O “Mundo Quântico”. A realidade nas escalas subatômicas. Russel, pensador já do século XX, foi um dos que não perceberam, entre muitos, que a nova física reformularia totalmente nossa visão determinista de mundo. Russel revelou-se, ainda, crente no determinismo causal:

 “Se por outro lado, admitirmos as afirmativas do método científico, não podemos evitar a conclusão de que a causalidade e a indução são aplicáveis à volição humana tanto quanto a qualquer outra coisa. Tudo quanto aconteceu no século XX em matéria de física, fisiologia e psicologia serve para reforçar esta conclusão”

(Bertrand Russel – Ensaios Céticos – Rio de Janeiro, 1970 – pg. 84, 85)

   O princípio da Localidade foi desenvolvido muito depois de Newton.  O seu formulador, um homem dos nossos tempos, foi Albert Einstein. A teoria da relatividade é uma teoria da gravidade, sendo uma extensão da teoria clássica da gravidade aos objetos que traçam movimentos em velocidades muito elevadas. Segundo tal teoria, há um limite de velocidade para o deslocamento dos corpos. O princípio da localidade implica que qualquer interação entre objetos se dá por meio de uma ligação material, ou seja, objetos que se influenciam (que interagem), necessariamente, propagam essa influência entre si, através de sinais locais, que são sinais que se deslocam pelo espaço-tempo numa velocidade sempre inferior à velocidade da luz, que é de trezentos mil quilômetros por segundo. De acordo com esse princípio os corpos que compõem o universo estão dispostos no espaço-tempo, sendo separados e independentes uns dos outros. Para que informações sejam compartilhadas entre dois corpos, ela deve viajar através do meio que os separa, sempre abaixo do limite de velocidade previsto pela teoria.

   Na teoria de Descartes, havia dois planos distintos de realidade. De um lado, a mente e de outro o corpo. Espírito e corpo encontrar-se-iam na glândula pineal. Neste ponto do cérebro, o espírito se assentaria no corpo, e a partir dele o comandaria. Com o desenvolvimento da fisiologia, da física e da química, a ciência moderna negou o dualismo cartesiano, descartando a existência do espírito e afirmando que só a matéria é real. A ironia, foi que a própria filosofia cartesiana, postulando que o objeto da ciência era a matéria, e propondo uma fundamentação mecânica para o mundo, concorreu para o estabelecimento do materialismo científico. Esta visão de mundo, no qual tudo que existe é necessariamente material, é chamada de monismo materialista. Como já vimos, a difusão e consolidação desse monismo materialista é historicamente indissociável do mecanicismo-atomista da física clássica. Embora tanto Galileu, quanto Descartes, Newton, entre tantos outros, declarassem sua fé em um Deus, a verdade é que, dentro do sistema mecânico-atomista, não havia espaço para conceitos místicos, como Deus, e níveis sutis de realidade, uma vez que o próprio sistema exigia que exatamente tudo que existe deveria ser fisicamente explicado, como bem nos lembra Tomas S. Kuhn, em “A Estrutura da Revoluções Cientificas”:

 “Por exemplo, depois de 1630 e especialmente após o aparecimento dos trabalhos imensamente influentes de Descartes, a maioria dos físicos começou a partir do pressuposto de que o Universo era composto por corpúsculos microscópicos e que todos os fenômenos naturais poderiam ser explicados em termos da forma, do tamanho, do movimento e da interação corpusculares. Esse conjunto de compromissos revelou possuir tanto dimensões metafísicas quanto metodológicas. No plano metafísico, indicava que espécies de entidades o Universo continha ou não continha – não havia nada além de matéria dotada de forma e em movimento. No plano metodológico, indicava como deveriam ser as leis definitivas e as explicações fundamentais: leis devem especificar o movimento e a interação corpusculares; a explicação deve reduzir qualquer fenômeno natural a uma ação corpuscular regida por essas leis.”

(Tomas S. Kuhn- A Estrutura das Revoluções Científicas – São Paulo, 2001 – pg. 64, 65)

Esse trecho acima citado é significativo para pontuarmos algo importante: ele desmistifica a visão de que a ciência é a busca imparcial pelo conhecimento da realidade. Essa, por certo, é uma visão romântica e ingênua a cerca do que é ciência. Vemos que, a ciência é um empreendimento intelectual, que tenta representar a natureza por meio de modelos e teorias, baseadas em determinados pressupostos. Sendo assim, tendo sido um modelo teórico consolidado e aceito, há um esforço em fazer com que todos os fenômenos físicos estejam de acordo com as previsões do modelo. Caso um fenômeno isolado não concorde com o modelo, e mesmo após várias tentativas de ajuste entre ambos, o tal fenômeno seja contrário aquilo que o modelo aceita e prevê, então a busca pela explicação desse fenômeno será abandonada, sem romantismo. Esse fenômeno será simplesmente considerado sobrenatural, e pejorativamente desdenhado como algo impossível e inexistente, e seus teóricos, como ignorantes ou charlatães. Por certos, alguns fenômenos sem explicação não serão logo descartados, mas também por que não discordam tanto dos modelos científicos. Tudo se passa como se não fosse a ciência que devesse concordar com a natureza, mas a natureza que devesse concordar com a ciência. Somente quando uma série de fenômenos importantes para a nossa compreensão do mundo começam a revelarem-se discordantes em relação aos modelos científicos estabelecidos, é que a ciência se vê obrigada a reavaliar seus modelos, e alargá-los, refiná-los, ou em casos extremos, até abandoná-los, a fim de construir novos alicerces teóricos que dêem conta de absorver, sem contradições, esses novos fenômenos que o sistema antigo não conseguiu acomodar e compreender.

   Enfim, notamos que foi com base no pressuposto de que o Universo é compreendido apenas materialmente, que todo idealismo (tese, ou de que: (1) o nível da consciência, existente como um nível sutil de realidade, é a causa de toda a realidade material, ou que: (2) existem outros níveis de realidade que são metafísicos, ou simplesmente de que: (3) as experiências subjetivas, tais como pensamentos e emoções, não podem ser reduzidas à explicações materialistas) foi relegado como ilusão.

  Assim surgiu outro princípio que ora listamos entre os cabais para a ciência clássica. Este princípio remonta ao pensamento de Pierre Gassendi, filósofo francês do período moderno, e sua teoria de que o pensamento, bem como os sentimentos e demais experiências subjetivas, são conseqüências físicas da mecânica fisiológica da matéria cerebral. Este é o princípio do epifenomenalismo, segundo o qual a mente, a consciência, pensamentos, sentimentos, emoções e vontades (toda a experiência subjetiva) são fenômenos secundários derivados dos processos eletroquímicos neurológicos. Pensamos que pensamos, e nos iludimos ao pensarmos que temos sentimentos, quando na verdade tanto o nosso pensamento quanto o que julgamos sentir são apenas fenômenos que só existem como conseqüências de nossa atividade cerebral.

O epifenomenalismo, por mais estranho que possa parecer ao homem comum, é necessariamente inferido dentro de um sistema determinista materialista, como é o caso da mecânica clássica, implicando que tudo, inclusive os pensamentos (enquanto processos físicos eletroquímicos neurológicos) e as ações humanas (enquanto simples efeitos físicos-motores dos comandos cerebrais), são totalmente determinados pelas leis e processos mecânicos que regulam o universo.

   Podemos, portanto, aventar que estes sejam os princípios da filosofia do realismo materialista que servem como paradigmas científicos na modernidade.

   O primeiro, objetividade forte, afirma que a realidade de cada coisa é independente da consciência dos observadores que as percebem. O segundo, determinismo causal, estabelece que sempre há uma causa mecânica para o movimento dos corpos, de modo que toda realidade se encontra determinada a partir destas causas, podendo ser rigorosamente descrita e prevista. O terceiro, localidade, concebe que só pode haver ligação e interação locais entre os corpos, de modo que a influência entre dois objetos se propagam pelo espaço-tempo numa velocidade finita, pressupondo que toda a realidade existe no espaço-tempo. O quarto, monismo materialista, reafirma que todas as coisas são feitas de matéria, de modo que tudo pode ser descrito em termos de estruturas físicas e químicas. O quinto, epifenomenalismo, endossa que não existe consciência como entidade independente da matéria, de modo que são as condições da matéria cerebral que criam e determinam as experiências mentais, tais como pensamentos e sentimentos.

      Entretanto, a despeito de toda esta tradição, os conceitos da física clássica estão demonstrando ser incapazes de explicar satisfatoriamente os processos físicos comuns aos níveis subatômicos, sugerindo que os processos quânticos estão para além do que uma ciência materialista é capaz de resolver.

Stephen Hawking, doutor em cosmologia e professor Lucasiano de Matemática da Universidade de Cambridge, que ocupa a cadeira de Isaac Newton naquela instituição, discorre, em sua obra “Uma nova historia do tempo” sobre o caráter da ciência e a natureza das teorias científicas. (Em o “Universo numa casca de noz”, Hawking assume compartilhar da visão filosófica de Karl Popper, segundo a qual, as teorias científicas são modelos de descrição dos fenômenos naturais, e não representações exatas e precisas da natureza, e que portanto, qualquer teoria científica está sujeita à revisões) Segundo ele:

 “Uma teoria será boa se satisfazer duas exigências. Ela deve descrever com exatidão uma grande classe de observações com base em um modelo que contenha somente poucos elementos arbitrários e deve fazer previsões bem definidas sobre resultados de observações futuras (...). Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de ser apenas uma hipótese; nunca há como prová-la. Não importa quantas vezes os resultados dos experimentos estejam de acordo com a teoria, você nunca poderá ter certeza de que, na próxima vez, o resultado não a contradirá. Como enfatizou o filosofo da ciência Karl Popper, uma teoria é caracterizada pelo fato de fazer varias previsões que, em princípio, poderiam ser refutadas ou invalidadas pela observação (...) se algum dia for constatado que uma nova observação é discordante, precisaremos abandonar ou modificar a teoria”.

(Stephen Hawking – Uma Nova história do tempo – Rio de Janeiro, 2005 – pg. 23, 24)

    Se a física quântica apresenta apenas paradoxos quando seus resultados são vistos através das lentes do materialismo,  é possível que o problema esteja não nos seus resultados, uma vez que estão devidamente comprovados, mas nas tais lentes pelas quais os interpretamos. Muitos autores, como John Weller, Paul Davies e Amiti Goswami vêm propondo uma mudança radical no paradigma norteador da ciência, postulando que os dados da física quântica devem ser interpretados a partir de uma visão idealista de mundo, ou seja, de uma visão não materialista, que conceba uma profunda interconexão entre a consciência e a matéria, com primazia da primeira sobre a segunda, sugerindo-nos que o atual paradigma deixou de apresentar resultados, de modo que se continuar a ser adotado, não conseguiremos aprofundar nossos conhecimentos, ficando presos num mar de paradoxos e confusões, de tal feita, que ou deixamos de ser mecanicistas materialistas, ou deixaremos de fazer ciência.

Vinicius Carvalho da Silva é
Bacharel em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro,tendo sido admitido para o Mestrado em Filosofia na UERJ. Foi premiado pelo Elos Club Internacional da Comunidade Lusitana,Universidade Catolica de Petropolis,Academia Petropolitana de Letras,Prefeitura de Petropolis,Fundaçao Cultural de Petropolis,Jornal "Tribuna de Petropolis" e Familia Dumont,de Carlos Alberto Santos Dumont. Foi Monitor em Filosofia da Ciência da Dra. Elena Morais Garcia e bolsista CNPq de Iniciação Científica, do Dr. Ricardo Barbosa, IFCH-UERJ.

Cursos: Cosmologia - Observatório Nacional.

Projetos educacionais: International Master Classes High School - CERN - Centro Europeu de Pesquisa Nuclear - UERJ.

Sua principal linha de pesquisa é Filosofia da Ciência Contemporânea, com foco nos problemas filosóficos da Mecânica Quântica. BLOGS: http://logosfilosofia.blogspot.com/ http://kyotoestudosmultidisciplinares.blogspot.com/ Dados no CNPq: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4432805H6

 

Assis Ribeiro

 
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Zarastro

"Sendo assim, tendo sido um modelo teórico consolidado e aceito, há um esforço em fazer com que todos os fenômenos físicos estejam de acordo com as previsões do modelo. Caso um fenômeno isolado não concorde com o modelo, e mesmo após várias tentativas de ajuste entre ambos, o tal fenômeno seja contrário aquilo que o modelo aceita e prevê, então a busca pela explicação desse fenômeno será abandonada, sem romantismo. Esse fenômeno será simplesmente considerado sobrenatural, e pejorativamente desdenhado como algo impossível e inexistente, e seus teóricos, como ignorantes ou charlatães."


Se a ciência funcionasse como o exposto acima, tanto a mecânica quântica quanto a relatividade geral jamais teriam sido concebidas. Não havia modelo teórico que pudesse explicar satisfatoriamente nem o fenômeno da radiação do corpo negro - dado que a catástrofe do ultravioleta prevista pela teórica clássica nunca foi observada - nem a falta do arrasto da Terra através do éter, conforme demonstrado pelas experiências de Michelson e Morley. E nem por isso Max Planck ou Albert Einstein passaram para a história como charlatões. Ao contrário, usaram justamente do método científico para mostrar que suas teorias estavam corretas. Planck meio a contragosto, pois ele mesmo admitia que a introdução da quantização da energia era uma "medida desesperada" para resolver o problema.

Por outro lado, é interessante dizer que o mecanicismo de Descartes serve a uma visão concentradora de poder e às classes dominantes. Ora, durante toda a idade media a igreja católica exerceu o poder temporal por toda a Europa, mobilizando recursos materiais para massacrar infiéis - por exemplo, os muçulmanos - e mesmo aqueles que a igreja católica considerava hereges, como os cátaros - os quais, interessantemente, formavam uma das sociedades mais tolerantes da Europa. Então, entendo que desqualificar o materialismo da ciência com a alegação de que ele justificaria a opressão às pessoas ou é uma piada de mau gosto ou é má-fé mesmo.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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Ronaldo Correia Junior

Assis

Na mesma época em q Franz Capra tavfa escrevendo "O Taso da Física", outros físicos formularam a teoria da decoerencia, pela qual basta um objerto em sobreposição(ou coerencia) de estados interagir com outro para sua função de onda colapsar, mesmo q não haja um observador, uma conmsciencia presente. Isso transforma os termos de todo debate sobre o papel da consciencia na criação da realidade física: é a *interação* que causa o colapso da função de onda, sendo a observação(consciencia) apenas um tipo de observação. Mais ainda: a função de onda sempre foi considerada uma estatistica, mas no ano passado foi demonstrado que, se fosse assim, não haveria diferença entre sistema emaranhados e não-emaranhados - como essa diferença existe, a frunção de onda tem de ser encarada como realidade física, o que seria a pá de cal na idéia de que a consciencia gera esta. Pobre Goswani!

 
 
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Glauber

"E não precisa se chamado de metafísico. Pode ser relativamente chamado de religião, fantasia, superstição, delírio, psicopatia, non-sense, baboseiras, crendices, etc.. Usando a insípida liguagem pós-moderna, chamemos de alegações não-validáveis. O deus das lacunas se converteu em filosofia das lacunas. Um dia eles desaparecem."  

Marroni

"Uma " coisa" que possa ser testada pelo método científico, mesmo que não atualmente, que se vislumbre que possa ser testada no futuro, não é chamada de "metafísica", é chamada de "hipótese não testada". Não deixa de ser científica." 

Reynaldo


O que vemos aqui eh uma tipica manifestacao de arrogancia epistemologica, que funciona assim: os apologetas da ciencia acreditam que o unico modo de acesso ao conhecimento eh por meio do metodo cientifico e tudo aquilo que contraria esse metodo nao eh uma fonte confiavel para entender a realidade. Se nao podemos testar as hipoteses com os recursos disponiveis, eh pela simples razao de que nao nos foi dado tempo suficiente para desenvolver o metodo, ou modelo cientifico adequado, mas o futuro nos trara inexoravelmente uma resposta. Simples, nao?

Acontece que, dada a complexidade do universo - pasmem, apologetas, o universo eh um sistema complexo!!! e ele nao cabe na planilha de voces - existe uma diferenca absurda entre o que os arrogantes realmente sabem - ou o quanto eles jamais saberao - e o quanto eles pensam que sabem. Naturalmente, eu entendo a ciencia como uma atividade humana onde a arrogancia pode ser uma variavel (por que nao?), inserida num contexto historico, e nao como uma abstracao pairando no ar. E esse hiato no conhecimento nao se da por uma mera questao temporal, tipo "isso nao eh conhecido por enquanto", porem no mais das vezes por uma impossibilidade epistemologica decorrente da nossa falta de recursos cognitivos para lidar com sistemas complexos. 

A ciencia eh util, sem duvida, mas achar que o metodo cientifico consegue lidar satisfatoriamente com sistemas complexos eh desconhecer o completo fracasso da biologia molecular na luta contra o cancer e o completo fracasso da econometria em prever crises economicas, para ficar apenas em alguns exemplos. 

 

"Toda unanimidade é burra." Nelson Rodrigues

Obs.: mas nem todo ceticismo é inteligente.

 
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Zarastro

"A ciencia eh util, sem duvida, mas achar que o metodo cientifico consegue lidar satisfatoriamente com sistemas complexos eh desconhecer o completo fracasso da biologia molecular na luta contra o cancer e o completo fracasso da econometria em prever crises economicas, para ficar apenas em alguns exemplos. "

http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_caos. Ou então, para uma explicação mais completa, http://en.wikipedia.org/wiki/Chaos_theory.

 

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This is not right. This is not even wrong!

(Wolfgang Pauli)

 
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JB Costa

Eita, agora lascou 2: foi essa ciência que (AINDA,AINDA,AINDA........) fracassa em entender e criar O  remédio para o cãncer que criou medicamentos, inclusive para ele próprio, que curam e atenuam o sofrimento de milhões de pessoas. Se a ciência não explica hoje, não implica que não explique amanhã. Trata-se de um Conhecimento aberto, sempre sujeito a reavaliações. 

O que pertuba os "espíritos religiosos" é que tudo que conseguimos em termos de progresso, ou seja a escalada do Homem, deve-se as Ciências. Tanto pertuba que vivem a alegar, por absoluta falta de argumentos, essa suposta auto-suficiência das mesmas.

Nada tenho a opor quem se refugia na Religião. Acho, inclusive, que ela é uma categoria importante das tantas que distinguem o Homem na natureza. De uma certa maneira, é uma forma também de Conhecimento. Mas, a partir daí querer torná-la êmula das Ciências, é demais. 

Por fim, Econometria não é uma ciência e, sim, uma ferramenta estatística. 

 
 
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tioalb

Nossa JB, belissimo comentário. Deixa eu tentar ajudar.

"o metodo cientifico não consegue lidar satisfatoriamente com sistemas complexos".

Vamos definir 'satisfatoriamente'.

"é desconhecer o completo fracasso da biologia molecular na luta contra o cancer e o completo fracasso da econometria em prever crises economicas".

Vamos definir 'completo fracasso'.

Essa ultima é a pior de todas... estes são os 'contra-exemplos' para a ciência não funcionar 'satisfatoriamente'?

Fala sério. O pouco que se conhece de biologia molecular foi pela ciência. PONTO. Nego reclama agora, que já tem muuuuuuuuuuuita coisa explicada, documentada, provada, tudo em livrinhos cheirosos na prateleira... facim, facim. Adicionar uma novidade e espalhar pelo mundo é que são elas...

A econometria PODE sim ajudar a prever crises... quem se habilita a tentar? E, se VC 'descobrir' um jeito, tem certeza que vc não vai querer 'vender' para ficar milionário, como uns fizeram lá fora e quebrou boa parte do mundo?

O ponto aqui é um só: ciência é ciência. A aplicação dela são outros quinhentos.

 
 
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Marroni

Assis,

E eu estou criticando a filosofia como formadora de qualquer juízo válido sobre ciência. 

Repito sempre, é uma questão de provas e evidências, não de discursos.

A falibilidade da ciência, mesmo com seu constante aperfeiçoamento e refino das técnicas e instrumentos, não pode e nem deve ser evitada. A capacidade da ciência em produzir conhecimento  deriva da capacidade intrínseca de perceber e corrigir seus próprios erros. 

Por outro lado, a filosofia tem um grau de falibilidade muito maior e esta insuficiência não a permite produzir críticas válidas sobre ciência. 

 

Somos a consequência de nossas escolhas.

 

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