A crítica ao excesso de doutores

Por al-Chwarizmi

De repente vale a discussão é interessante. Faz sentido o que é dito pelo tal professor? 

Professor da UnB critica a formação de doutores no Brasil

  Para Marcelo Hermes, do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília, daqui a quinze anos o país não terá capacidade de fazer ciência de ponta "porque toda a geração se aposentou e os atuais não foram formados adequadamente"

No último dia 10, os consultores do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, apresentou um estudo que concluiu, dentre outros, uma taxa média de 11,9% de crescimento ao ano do número de doutores no país. Para falar da expansão da pós-graduação no Brasil, a ADUNB entrevistou o professor do Departamento de Biologia Celular, Marcelo Hermes. Confira a seguir:

- O estudo do CGEE mostrou que entre 1996 e 2008 o número de doutores titulados no Brasil cresceu 278%. O que o senhor acha da expansão da pós-graduação no país?

A minha visão é contrária à expansão da pós-graduação, especialmente do doutorado. A maioria das pessoas acreditam que o crescimento no Brasil - e na UnB também - é positivo. A taxa de aumento, alguns anos atrás, chegou a variar entre 10% e 20%, um crescimento chinês. E todo mundo comemora isso, exceto alguns poucos. Eu acho que é um crescimento exagerado. Aliás, responder isso agora ficou mais fácil, desde que o país entrou no chamado super aquecimento. Esse crescimento de 9% ao ano o qual o país não suporta, já que não temos estrutura física para tanto bussines. E a mesma coisa acontece na pós.

- Como é essa comparação?

Para se ter pós-graduação são necessárias quatro coisas: os alunos, que querem fazer pós; os professores, que vão orientar e dar aula; os cursos e, claro, dinheiro. Dinheiro não tem sido o problema. Então o que acontece? Você tem um crescimento muito grande tanto no número de cursos, de alunos e de orientadores. Um olhar desatento, pensa "que bom!". Não. Muito pelo contrário. O país está andando para trás com esse crescimento exagerado da pós. Primeiro porque os professores têm uma capacidade finita de orientar. Antigamente, cada professor orientava cinco, hoje está orientando dez alunos. E isso causa uma queda da qualidade. Obviamente, você não consegue dedicar suficiente tempo para orientar esses alunos. Para formar doutores é preciso um trabalho artesanal. Eles têm que ser treinados, pois podem se transformar em orientadores no futuro. Além disso, nem todos têm capacidade de ser orientadores. Tem muita gente que não tem a formação técnica e a capacidade de orientar. E nem todo mundo tem a qualificação necessária para ser orientador de doutorado. E com esse crescimento exagerado, a pós está pegando vários professores que não têm a menor capacidade de orientar, mesmo que não queiram, porque vão pegar uns pontos a mais, vão ter uma promoção. Outro problema é a existência de alunos que não deveriam estar fazendo doutorado, porque não tem capacidade para isso.

- O senhor acredita, então, que nem todo mundo está apto a fazer um doutorado?

Sim. É curioso que hoje já entendemos que nem todo mundo deve fazer graduação. O candidato à presidência José Serra, por exemplo, está fazendo campanha pelo ensino técnico. A ideia é: o que adianta sair com um diploma de administração se você não vai administrar uma empresa? O problema é o mesmo no doutorado. Sendo muito otimista, acredito que metade desses milhares de alunos de doutorado é composta pelos que eu chamo de "doutores mobral", o doutor analfabeto, que mal sabe ler um artigo científico, quanto mais escrever. O Brasil quer formar doutores, então vamos formar de verdade.

- Existe algum outro fator que contribua para a baixa qualidade na formação desses doutores?

Um fenômeno atual é o caso de pessoas que se formaram em faculdades particulares estarem ingressando na pós-graduação. São alunos mais fracos, isso é um fato. Mas estão entrando porque a pós está expandindo. Eu diria que 90% da produção de doutores vêm das faculdades públicas. E diria ainda que 90% dos que vêm das particulares são fracos. Essa produção vai crescer, depois vai estabilizar e lá para 2025 vai começar a cair, porque vai ser quando os atuais orientadores vão se aposentar. Pode até ser que a produção de teses continue a crescer infinitamente. Só que essa segunda geração de "doutores Mobral" vai produzir a tese e não publicar ciência, a menos que as revistas também baixem muito o nível.

- Não existe reprovação em pós-graduação?

Praticamente não tem. 99,9% das pessoas são aprovadas no mestrado. O orientador corrige a tese antes de entregar para banca e muitas vezes a própria banca também reescreve a tese. Então a tese acaba não sendo mais do aluno, não é mais personalizada.

- Qual o motivo para o investimento no crescimento da pós-graduação no Brasil?

Para ter produção de ciência deve existir mão de obra para fazer pesquisa. E quem é que faz a pesquisa? O pesquisador coordena; 80% das pesquisas são feitas por alunos de doutorado. São eles a mão de obra. A Capes entendeu que, ao expandir ao máximo o doutorado, maior a produção e quantidade de resultados. A cada ano aumenta o número de alunos formados doutores e a cada ano aumenta o número de trabalhos publicados. A própria Capes usa isso como propaganda para mostrar como é positivo esse aumento do doutorado no Brasil. Fazem questão de divulgar que o Brasil, a cada ano, eleva sua posição no ranking de países que produzem ciência, ocupando o 14º lugar. Mas isso é criminoso: você forma o doutor para produzir a média de dois artigos. E é isso o que ele vai fazer. Veja o custo do país para formar uma pessoa cujo objetivo é fazer dois artigos. E, muitas vezes, quem vai escrever é o orientador, pois ele não tem condição de fazer isso. Porque é tudo muito rápido, prazos restritos e tem que fazer funcionar. O crescimento da ciência e da pós-graduação brasileira é uma neoplasia, um tumor e um dia isso vai explodir.

- O senhor acha que essa situação se sustenta no futuro?

Seria sustentável se as pessoas vivessem para sempre. Mas as pessoas morrem, se aposentam. Essa política está completando 6, 7 anos. Começou na era FHC em que se estimulavam os pesquisadores a publicar. Na era Lula a pressão é para se publicar o máximo que puder. Então os estudantes que estão sendo formados agora e que estão sendo ultra pressionados não sabem fazer pesquisa direito. Está sendo uma formação a jato, massificada, e quero ver essas pessoas quando a minha geração morrer ou aposentar. Quero ver se eles vão dar conta do recado, porque eles não tiveram a formação necessária. E quero vê-los formando outros profissionais dentro dessa visão de mega-produção de baixa qualidade. A minha crítica não é à publicação. Sou "produtivista". Mas sou contra ao mega-produtivismo.

- O senhor acha que esse panorama é contornável?

O que está acontecendo no Brasil é uma farsa e uma fraude com dinheiro público. Se fosse algo que pudesse ser resolvido mudando a política, mas não é. Será um "dano irreparável". Eu diria hoje, sem problemas, que temos de 30 a 40 mil doutores "Mobral" no Brasil, disputando empregos. Qual o problema para o Brasil? Imaginamos o país daqui a quinze anos sem capacidade de fazer ciência de ponta porque toda a geração se aposentou e os atuais não foram formados adequadamente.

- Como o senhor acha que essa questão do crescimento da pós-graduação é vista pelos outros pesquisadores?

Eu fiz uma pesquisa, publicada em 2008 em uma revista canadense, em que entrevistei vários colegas pesquisadores, selecionados ao acaso, sobre o que eles achavam da pós-graduação brasileira em vários aspectos. A grande maioria, e eu comparei com alguns señiors latino americanos (mexicanos, argentinos e chilenos), critica esses problemas de regras muito ruins da pós-graduação, de overwork e má qualidade dos recém-doutores sendo formados. O doutor tem que ser qualificado. Na minha área (Ciências Biomédicas) ele tem que ser capaz de propor um projeto de pesquisa, de executar esse projeto de pesquisa, de montar uma equipe, de buscar verba para isso, de publicar em periódicos internacionais, de ser avaliador de outros artigos, de dar palestras. Eu e os pesquisadores que entrevistei acreditamos que a maioria que está sendo formada não tem mais essas qualificações. Algumas pessoas falam que a qualidade do ensino como um todo está caindo. Não gosto de analisar por esse viés, não sou sociólogo. As coisas são mais simples: a pressão é muito grande, não está havendo tempo de formar as pessoas. Por exemplo, tenho um amigo no campus da Unifesp, que é professor titular, que reprovou os 10 candidatos de um concurso para professor e todos tinham doutorado. Que "ótimos" doutores.

Soim,

permita-me meter minha colher na discussão, uma vez que sou doutora e pesquiso sobre ciência e inovação no Brasil:

1. Não conheço o prof.que fez a entrevista, mas enxergo nela, de saída um problema fundamental: o argumento que o "Brasil está crescendo demais, não há como supotar tantos doutores" - é uma falácia sem tamanho. O Brasil tem menos doutores do que necessita, ainda mais em áreas ditas "não humanas", como biologia, enegenharia, física, etc. A pesquisa científica é um dos caminhos necessários para capacitação do país para inovar. Isso aparece em qualquer paper sobre desenvolvimento de ciência ou inovação - a relação doutores/habitante ou doutores/PIB é muito baixa para um país como o nosso. Acho que faltou a ele ler um pouco mais.

2. Quanto a qualidade dos doutores, é uma generalização rasa dizer que todo mundo sai "doutor mobral". Uma das ferramentas que funcionam (ainda que sujeita a críticas e imperfeições, como todo indicador) é a avaliação Capes, que dá notas de 1 a 7 para os programas de pós-graduação strictu sensu. As instituições que têm nota abaixo de 3 são descredenciadas e sofrem uma série de restrições quanto a recebimento de bolsas e financiamento de pesquisas. e se não me engano, são impedidas de continuar seus programas se repetem o mau desempenho. Um doutor de um programa 2 ou 3 pode sair mal formado, mas duvido que um doutor saído de um programa 5,6 ou 7 assim o seja.

3. Todos indicadores de produtividade de ciência estão em ascensão - publicações, patentes. Estamos no caminho certo. Ele é longo, há imensas dificuldades (falta financiamento, laboratórios, as bolsas são baixas, etc, etc) mas não há como dizer que temos que parar de formar doutores. Claro que nem todos doutores são perfeitos, nem todos vão concorrer ao Prêmio Nobel, mas o caminho é este. O que precisa, é a iniciativa privada começar a contratar os doutores em seus departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento - e algumas empresas já o fazem, buscando os incentivos da lei de inovação. Aí sim, seria criada demanda para os doutores aleemd a universidade.

4. O argumento que nossos doutores são ruins porque não são aprovados em concurso é furado tbém: um concurso procura um professor para um determinado perfil - não significa que um pesquisador reprovado em um concurso seja ruim em absoluto, pode ser "ruim" para aquela vaga em si.

5. A história de que tem administrador demais é outro agumento fraco: é óbvio que falta formação e conhecimento em gestão e administração no país - senão como explicar que 95% das micro e pequenas empresas vão para o buraco antes de completar 1 ano de vida? Claro que pode se alegar a economia, os juros,a concorrência, mas se a pessoa que vai abrir um negócio tivesse um pouco de formaçnao na área, saberia fazer um plano, analisar viabilidade financeira, estudar a concorrência e decidir se abre ou não - ou caso o negócio já exista, saberia calcular fluxo de caixa, gerenciar estoques, etc, enfim, gerir bem a empresa.

Em resumo, não concordo com o professor. E sendo bem ácida, acho que ele falha justamente naquilo que ele tanto critica em nossos doutores - a falta de argumentação lógica, parece que ele não usou da metodologia científica para explicar  seu argumento. Ele tem uma tese - a de que formamos doutores em grande quantidade e baixa qualidade. Faltou a ele levantar resultados que comprovassem sua tese - ele apenas usou generalizações e declarações vagas. Eu não o escolheria para me orientar não ...

Média: 4.4 (12 votos)
79 comentários
imagem de Maria Helena Correa
Maria Helena Correa

Deixo claro que dei nota 5 para a discussão, até  porque concordo com o argumento de Drinds de que o professor-doutor não apresentou tese consistente.

 
 
imagem de Rafael Vilela
Rafael Vilela

Esse discurso de "boa era a minha geração" não convence ninguém. Concordo em gênero e número com os argumentos da(o) Drinds.

O blog do entrevistado fala por si:  cienciabrasil.blogspot.com

Entre outras pérolas maiores: "Oi pessoal,
Se o Brasil perdeu a Copa para os "laranjinhas" da Holanda, pelo menos poderemos torcer para o time de nosso vizinho, Paraguay, que achávamos que só serve para vender energia de Itaipú a preços alucinados, e para nos fornecer muamba. Mas eles têm muito mais. Eles têm Larissa Riquelme."

Recuso-me a levá-lo a sério.

 

 

Rafael

 
imagem de Marcelino Gonçalves
Marcelino Gonçalves

O professor quer menos doutores e mais "ensino técnico"! Claro, para que filho de pobre vai fazer administração ou qualquer outro curso? Pobre não precisa apreender o conhecimento para depois ficar na favela ou trabalhando de servente de pedreiro, pois podem acabar se revoltando. O fato é que para o professor doutor tudo deve ser definido mantendo tudoemseu lugar. Pobre vai para escola técnicado PSDB, são os braçais, classe média vai para faculdade e os ricos compram os cérebros e os corações da classe média, que explora os braços da classe trabalhadora mobral. Para dirimir o receio do professor doutor, acho que ele deveria pedir ao PSDB implantar no Brasil a estrutura de ensino publico que "funciona" em São Paulo, com uma reforma, pobre só ficaria na escola até o fim do ensino básico e prenderia francês, para poder ler nos restaurantes frequentados pelos doutores os rótulos e tipos de uva. Particularmente prefiro a mistura cabernet-sauvignon. Perdoem-me, até quando tento ser chic sou mobral. Para terminar, perdoe-me novamente doutor, mas vá ver se o Serra tá lá na esquina, entregando a "foia" de graça !

 
 
imagem de Não ao técnico
Não ao técnico

De fato, ensino técnico é mais para criar mão de obra para trabalhar duro e ganha pouco, enquanto engenheiro só assina  projeto. Por isso é que Lula tem priorizado transformar escola técnica em instituto de ensino superior que faz com que o aluno passe logo do nível técnico para o superior. A situação em SP ficou tão horrível que foi preciso Haddad criar o novo enem para que os alunos pobres de SP tivesse uma chance de ir fazer curso superior em outros estados. 

 
 
imagem de evandro condé de lima
evandro condé de lima

Para iniciar um debate. Para que serve o ensino médio, pelo menos nos padrões existentes, a não ser "preparar" alunos para fazer vestibular? Dê uma pesquisada e veja da necessidade real de termos mais técnicos.

 
 
imagem de luddita
luddita

A Drids disse tudo, e outra, generalizar , expor opiniões pessoais infundadas e fazer propaganda política eu também sei fazer: o brasil tem é muito doutor velho, capenga, que tem medinho de se aposentar, viva Lula, viva Dilma!

 
 
imagem de André
André

Em todo caso, é preciso indagar o quanto que a pós-graduação está sendo desvirtuada em função da pressão das empresas brasileiras que tanto querem gente com no mínimo mestrado para fazer trabalho que um graduado faz com um pé nas costas.

 

Rastreado 24 horas/dia via patrulha ideológica

 
imagem de Jair Fonseca
Jair Fonseca

Claro que há problemas quando a demanda pela pós-graduação aumenta tanto, e tão rápido. Mas o que propõe o professor, a partir de seu diagnóstico simplificado, simplificador e simplista? Nada.

Parece "o candidato à presidência José Serra, [que] por exemplo, está fazendo campanha pelo ensino técnico". O professor só não diz que no governo do Presidente Lula foram feitas mais escolas técnicas do que em todos os governos juntos da República. Uma coisa é fazer campanha, professor, outra é fazer. Ponto.

 
 
imagem de Francisco Castro
Francisco Castro

Na minha modesta opinião, nem tanto um, nem tanto outro.

Claro que é extremamente necessário que façamos formemos técnicos, assim como é importante formarmos doutores. Precisamos das duas formações para podermos construir uma sociedade equilibrada.

Precisamos de pessoas que possuam capacidade de gerar novos conhecimentos, que sejam capazes de realizar pesquisa de base, construindo um novo conhecimento. No entanto, não corroboro o argumento que apenas universidades públicas sejam capazes de criar conhecimento, de formar bons doutores, sou capaz de citar pelo menos 5 universidades diferentes e particulares, que são excelentes na formação de administradores.

A FGV por exemplo, é uma universidade de ponta, particular, que tem grande relevância econômica, assim como a PUC-Rio, que contribuiu e continua a contribuir com uma linha de pensamento econômico, se concordo ou não é outro ponto, mas é uma universidade com grande capacidade de formar economistas.

No entanto, o que posso observar em São Paulo pelo menos, é a criação de uma universidade atras da outra. O que podemos ver neste momento é que muitos destas universidades são criadas como se criam shoppings centers, colocando a educação como um produto, onde você vai a prateleira e pega, sem se preocupar com a qualidade do que entrega. No geral, a entrega é de um produto de qualidade inferior, compativel com o preço que é pago por ele.

Alguns alunos muito bons saem dessas universidades, mas, em sua maioria, essas universidades criam estudantes muito fracos. Imagina os alunos/consumidores médios, certamente eles são mais fracos que os outros do mesmo curso mas de uma universidade de ponta. No entanto, isso não é deixado claro para os alunos, apenas quando se formam é que isso é deixado claro.

Hoje, o mercado tem dado muito valor ao diploma, de que adianta um motorista com diploma? Particularmente prefiro um motorista que tenha curso de direção defensiva, primeiros socorros e afins a ele saber falar inglês.

Precisamos de técnicos, assim como precisamos de doutores, não sei se 10 orientandos é bom para o orientador ou se este fica sobrecarregado, mas poderia ser realizada uma pesquisa no mundo e verificado qual a quantidade média de orientandos, e com isso fazer o mesmo tipo de proporção no Brasil. Assim teríamos orientadores que poderiam orientar com a dedicação necessária, não tendo orientadores ociosos ou orientandos mal amparados.

Bom, acredito que não seja nem tanto um. nem tanto outro, mas que é importante o Brasil investir tanto em um como em outro, os dois tipos de formação são interessantes.

Abs

Francisco

 
 
imagem de Militao de Maya Ricardo
Militao de Maya Ricardo

 

Sou graduado em universidade pública (UnB). Fiz meu mestrado e minha carreira de docente nas particulares. Dizer de forma simplista que as faculdades particulares e os doutores formados em universidades particulares são ruins é uma simplificação (sem fatos de comprovação apresentados) que desqualifica a argumentação do Doutor. Existem várias instituições particulares fazendo pesquisa séria no Brasil. E formando gente muito boa. Num país com a distribuição de renda assimétrica do Brasil é difícil sustentar a pesquisa nas universidades particulares com as mensalidades dos alunos.

É muito fácil um professor de universidade pública reclamar das qualidades das particulares, pois ele está (mal) acostumado a dar aula para a elite (os alunos que tem recursos econômicos e os mais inteligentes) que consegue vaga nas universidades públicas. Seria muito pedagógico dar aula para alunos que tem que contar os vinténs para imprimir e encadernar a monografia que a banca vai examinar. Uma boa aula da antiga (a atual) disciplina do Estudo de Problemas Brasileiros, que cursávamos na UnB. O atual governo dirigiu  a maior parte das verbas para a universidade pública em detrimento do ensino médio. Os alunos chegam na universidade (pública ou particular) com sérias deficiências básicas. Eu sei bem porque ele diz que tem doutores com deficiências de escrita. Eu enfrento as consequências do problema no meu dia a dia. E não consigo entender como formar menos gente seria a solução.

 
 
imagem de Anonimo
Anonimo

O fato concreto é que universidade pública trabalha para formar cientista. Portanto, aproveitando 4 alunos de cada turma já é de tamanho até grande.

 
 
imagem de Álvaro
Álvaro

Grande parte dos recém-graduados segue para a pós-graduação por falta de alternativa para assegurar a sobrevivência, em busca das bolsas de auxílio, posto que os empregos são difíceis e, quando os há, pagam muito pouco. Assim, a pós-graduação se transformou em bolsão de contenção de desempregados ou de gente que precisa reforçar o orçamento doméstico. Desse modo, fazer ciência é a última das prioridades. Outra parte vai em busca apenas de recheio para currículo, na ilusão de que isso facilita a busca de emprego.

 
 
imagem de Maria Lima
Maria Lima

Acredito que você conheça muito pouco sobre a realidade da pós-graduação no Brasil. A maioria pesada dos alunos trabalha e faz um sacríficio enorme para fazer a pós-graduação, bolsas não são distribuídas assim. Há alguns programas em que é mais fácil, mas na maoria, é difícil obter bolsa. Essa idéia de que estudante de pós é vagabundo que não quer trabalhar e que mamar numa bolsa não é só falsa, mas é também mau-caráter e perniciosa. Precisamos de muito mais bolsas e de valores mais altos, isso sim.

 
 
imagem de Álvaro
Álvaro

Maria,

Quem foi que disse que estudante de Pós é vagabundo?  Essa conclusão é só sua!  Repito: a Pós no Brasil é uma alternativa de vida para jovens recém formados que encontram dificuldades para conseguir o primeiro emprego e que necessitam de reforço na renda. Isso é  um dado da macroecnomia do País; tem relação com as mazelas das políticas educacionais e a falta de um programa de desenvolvimento independente.

 
 
imagem de Daniel
Daniel

Não concordo com o doutor da UnB. Também tenho essa percepção de deficiências na formação dos doutores mas os argumentos dele são fracos. Temos muito o que melhorar e colocar mais gente nos cursos de doutorado é um dos caminhos.

 
 
imagem de Washington Borba de Queiroz Denuzzo
Washington Borba de Queiroz Denuzzo

Bom dia Nassif,

A crítica à pós-graduação no Brasil deve ser estendida a todo o modelo acadêmico, principalmente à gestão do conhecimento  no âmbito da universidade pública brasileira. É cada vez mais frustrante ver como as coisas funcionam nesse meio acadêmico, pois a titulação, na maioria dos casos, só agrega ela mesma, ou seja, o próprio título. O conhecimento é estancado na feitura burocrática e quase automática de mestres e doutores. Fico até envergonhado de ter visto coisas que vi durante a minha vida acadêmica, e conversando com pessoas de outras áreas de formação constatei que a dinâmica de obtenção de títulos é a mesma. Nas universidades públicas, os professores precisam da titulação para serem efetivados, bem, então essas mesmas universidades abrem programas de pós-graduação para atender a uma clientela que podemos chamar de doméstica. Vi livres docentes patentemente ruins, mas ruins de dar dó. E olha que estou falando de Unesp, Usp e Unicamp. Os grandes professores (eles existem) ficam de mãos amarradas com essa "pressa" em dar títulos e mais títulos (muitas vezes até oprimidos devido a seriedade de seus trabalhos), como se pudesse haver uma automática relação entre o atendimento dessa necessidade estatística e a produção de pesquisas e pesquisadores de verdade. Em suma, gostaria de ser desmentido, mas o mundo acadêmico se mostrou a mim como um exercício de estilo, onde o pós-graduando cumpri as exigências de um modelo formal carente de autoria intelectual legítima, ou seja, em si, um simulacro do que deveria ser. Mas, pessoalmente acho que o país pode reverter seu crescimento econômico a favor do seu crescimento científico. Aumentar a atratividade da pesquisa é fundamental. Fazer com que o pesquisador tenha maiores possibilidades de ganho financeiro com seu trabalho, ou seja, que lhe seja garantida a exploração econômica de seu trabalho (durante e após sua conclusão) com uma nova política de incentivo. Bolsas melhores  e mais transparência na forma de titulação ajudaria muito aos que querem fazer ciência, que são consumidos pelo modelo e acabam desistindo dando espaço para os caçadores de títulos profissionais que habitam a burocrática e viciada academia.

 
 
imagem de Valdir Lamim-Guedes
Valdir Lamim-Guedes

Uma leitura para completar este debate.

Notícias Quarta-Feira, 07 de julho de 2010   JC e-mail 4044, de 02 de Julho de 2010.   6. Doutores demais e profissionais de menos, artigo de Wanderley Messias da Costa
  "O país tem problemas sérios nas relações do universo acadêmico com o mercado de trabalho"

Wanderley Messias da Costa é professor titular do Departamento de Geografia da USP e um dos idealizadores do Centro de Biotecnologia da Amazônia. Artigo publicado em "O Estado de SP":

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=71904

 
 
imagem de Léo
Léo

Concordo inteiramente com Drinds.

Fico curioso em saber o que o Prof. Hermes pensa sobre os laboratórios de Harvard, Rockefeller University, Stanford, onde existem vários laboratórios com 15, 20  alunos de pós-graduação, quando não mais. Pelo que a gente vê esses alunos não viram uns zeros à esquerda. Obviamente que ter menos orientandos por orientador é melhor, mas essa conclusão apocalíptica do Prof. Hermes chega a ser risível.  Mesmo os EUA que são a referência para modelo de ciência sofrem do mesmo "problema", não são todos os doutorandos que decidem continuar na academia, o que não é um problema necessariamente, pq essa pessoas vão trabalhar na industria. 

Pra ser honesto achei o texto desse Prof. extremamente arrogante. Quer dizer que sem a geração "maravilhosa" dele a ciência no Brasil irá para o buraco. Engraçado que eu escuto justamente o contrário (embora num ambiente pequeno) do Dep. de Física da UFMG. Ouço vários elogios dos Professores sobre os alunos de Pós e sobre os Prof. novos.

Esse Prof. parece que não quer reconhecer as coisas boas que têm acontecido com a ciência do país, inclusive destacadas por dois artigos da "Nature" que foram divulgados aqui no blog.

Talvez a opinião do Prof. Hermes esteja um pouco nublada pelo seu partidarismo, a paixão dele pelo Álvaro Dias dá uma dica para qual lado a balança dele está pendendo.

http://cienciabrasil.blogspot.com/

Olhem a lista de Blogs que o Prf. recomenda, dentre eles estão o do Álvaro Dias e do "grande" Tio Rei. E já entecipo que no Blog do Prof. vc vai ler coisas do tipo : 'esquerdopata'

Só pra deixar claro que eu não acho que a ciência do Brasil é perfeita e acho que as críticas têm que ser feitas, mas como bem explicou o Drinds os argumentos do Prof. Hermes são muito fracos, mas piores que isso, são de uma arrogância extrema.

 
 
imagem de Léo
Léo

Pisei na bola no comentário acima ao colocar os blogs que o Prof. segue, como sendo algo que demonstrasse o motivo da sua opinião sobre a política de ciência no Brasil (isto é , contra qualqeur política do governo). Retiro essa parte do meu comentário pq não tem nada a ver.

Ainda descordo do entrevistado quando ele diz:

"Qual o problema para o Brasil? Imaginamos o país daqui a quinze anos sem capacidade de fazer ciência de ponta porque toda a geração se aposentou e os atuais não foram formados adequadamente."

 Como falou o Prof. não é todo mundo que possui a capacidade para ser um orientador, mas isso não é necessariamente um problema, pois ser orientador ou professor não  é o único caminho para um doutorando. O fato é, que uma pessoa com um doutorado provavelmente possui maior conhecimento e experiência do que uma sem. Mesmo que o doutor não seja apto para ser orientador ou um professor, eu imagino que ele tenha condições de contribuir com algo para uma empresa, por exemplo, ou ser só um pesquisador (que não tem necessariamente que dar aulas ou orientar alunos).

Esse "problema" não existe somente no Brasil, aqui nos EUA tem doutorando à torto e à direita. Acho que a lógica é que vc tendo um grande número de doutorandos, inevitavelmente, vc pega esses caras talentosos que serão os bons Professores e Orientadores, e os outros vão para empresas ou viram pesquisadores, e contribuem de alguma forma.

Pra terminar, embora eu não concorde com alguns dos conteúdos do Blog do Prof. Hermes, ele tem umas estatisticas interessantes sobre publicações e ciências no blog.

 

 
 
imagem de jclop
jclop

O problema do Brasil é o constante desequilíbrio nas diversas áreas de atuação dos governos, ao longo das décadas. Ora peca pela falta, ora pelo excesso.

Nos períodos passados, queixava-se que não havia pesquisas nem pesquisadores e que o Brasil seria um "copiador" de ciência das outras nações. Hoje, diz-se que temos muitos futuros cientistas.

É claro que pode haver um descontrole nos cursos de pós-graduação, por conta da carência em que se encontravam, mas nada que não possa ser modificado.

O problema mesmo, é saber o que se pesquisa, para não perder tempo e dinheiro em "descobrir o sexo dos anjos"

 

 
 
imagem de Mauro Nogueira
Mauro Nogueira

Eu concordo com o professor da UNB e descordo do comentário que vem em seguida.

Ora, de que adianta a CAPES dar nota para as instituições de ensino se os orientadores praticamente reescrevem as dissertações e/ou teses de seus alunos?

A verdade é que tudo no Brasil funciona na base da politicagem e do coleguismo, e no meio acadêmico não é diferente. Existe muita corrupção e se for apurar muita coisa podre vai sair de dentro do baú. O aluno que é indicação de fulano tem todos os privilégios, todas as bolsas e as melhores notas, mesmo que seja um chucro, que não tenha um projeto de pesquisa relevante e que muitas vezes não saiba nem a leitura de um segundo idioma.

Lamentável.

 

 
 
imagem de Jair Fonseca
Jair Fonseca

Lamentável é esse tipo de desqualificação e generalização. Cuidado com o complexo de vira-lata!

"A verdade é que tudo no Brasil funciona na base da politicagem e do coleguismo..." Se é assim nas universidades que você conhece, poderia dar nomes aos bois?

 
 
imagem de Mauro Nogueira
Mauro Nogueira

Já que você acha que só existe corrupção na política, e só na política de Brasília, então você está precisando ampliar seu leque de fontes de informações seguras e deixar um pouco de depender dos velhos jornalões da grande mídia brasileira.

E se quer nome aos bois aí vai; UNIFESP, USP, UNICAMP, UNESP, Universidade São Francisco. Conheço pessoalmente casos de coleguismo em todas essas. Casos em que alunos sem preparo algum se graduaram mestres e foram direto para o doutorado, com bolsa para pagamento de mensalidade e ajuda de custo mensal, sem saber escrever um artigo científico

.

 
 
imagem de Álvaro
Álvaro

Quem frequenta o ambiente acadêmico no Brasil sabe que sem ser da turma não se consegue vaga na Pós e, muito menos, bolsa. Mas isso não é de hoje! Vem de décadas e décadas. Com exceção de alguns poucos centros de excelência e, nestes, de algumas áreas específicas, no geral a produtividade acadêmica é baixíssima. Ou não?

 
 
imagem de Jair Fonseca
Jair Fonseca

Onde fiz mestrado e doutorado, na UFMG, na minha área, havia (e, pelo que sei, ainda há) provas difíceis e concorridas para admissão aos cursos de pós-graduação. E critérios para distribuição de bolsas da Capes e do CNPq, que iam para os primeiros colocados nas provas, e para os que teriam dedicação exclusiva.

Se não há nada disso nessas universidades, desculpe-me, então a corrupção nelas é generalizada. Todos aceitam essa situação de loteamento de vagas e bolsas? É tudo pessoal?

E desculpe-me, novamente, mas não dá pra acreditar que todos esses pós-graduandos de todas essas universidades "nem sabem escrever um artigo científico".

Essas universidades de São Paulo estão mal mesmo, hem?

 
 
imagem de Mauro Nogueira
Mauro Nogueira

Não precisa ser tão literal assim, Jair. Para bom entendedor...

 

É como na política; quando se fala em política a primeira coisa que normalmente vem à mente é corrupção, mas é preciso salientar que existem muitos políticos honrados e honestos que se incomodam com esse tipo de rotulação.

 

Recentemente eu soube de um caso em um universidade pública de São Paulo em que o nome do bolsista já estava definido antes da realização do processo seletivo. Todos os candidatos passaram por todas as provas e entrevistas sem saber que havia carta marcada.

Não acredito que só em São Paulo existe esse tipo de coisa? Acho que aí na terra do pão de queijo não deve ser muito diferente não.

 
 
imagem de the_outsider
the_outsider

Acho que não é bem assim. Na área de Economia, há uma prova extremamente difícil e trabalhosa (Anpec) para se poder ingressar em um curso de pós graduação, e você só consegue entrar num centro de excelência se ficar entre os melhores.

Não sou pós-graduando nem fiz a prova em questão, mas desconheço qualquer suposto caso de pessoas que burlaram a mesma.

O que eu já vi, e posso afirmar, são casos em que o aluno arruma um professor dentro da faculdade para orientar um projeto de mestrado que, no entanto, não tem concessão de bolsa. Isso acontece mesmo e, talvez, diminua a qualidade final do referido, já que, se o professor assumiu a orientação, dificilmente vai deixar que um trabalho desleixado seja apresentado a uma banca.

Mas não se pode misturar alhos com bugalhos, são casos totalmente distintos. Fazer isso é o mesmo que jogar no mesmo balaio funcionários públicos concursados e comissionados nomeados.

 
 
imagem de Jair Fonseca
Jair Fonseca

Mauro, sou professor e pesquisador. Nem todo mundo na universidade age assim como você afirma. Eu não compactuo com isso e muita gente que conheço também não. Considero leviandade acusar sem provas ou saber de algo assim e não fazer nada. Acho que se não se faz nada para mudar as coisas, pelo menos que não se envenene o ambiente.

 
 
imagem de Frugalista
Frugalista

Ele acha que no Brasil ha pressao sobre os professores e doutorandos? Bom, imagino como ele iria sobreviver no meio academico em outros paises, como os Estados Unidos, por exemplo, onde se o professor nao publicar uma media de artigos por ano, e demitido, Ele realmente nao sabe o que pressao. Nos EUA, a pressao e enorme. Mas o pais tem as melhores universidades do mundo. Isso e indiscutivel. 

 
 
imagem de Rapha Feres
Rapha Feres

Se existe uma coisa que concordo sobre esse assunto é sobre o estudo tecnico no Brasil, que deveria ser mais incentivado (apezar de ter crescido bastante no governo Lula).

Dou como exemplo uma prima que tenho, que vem de classe mais humilde. Ela é uma menina bastante esforcada e acabou de terminar o segundo grau, naturalmente quer mudar de vida entao decide concorrer ao pro-uni pra fazer uma universidade. Como estudou em escola publica toda sua vida ela nao tem uma formacao das melhores (apezar de esforcada), entao naturalmente vai tentar fazer um curso menos concorrido e nao um curso mais tecnico cientifico. Vai passar 4 ou 5 anos na faculdade (tendo dificuldade para viver e tendo que ter um outro trabalho) e ao fim tera pouca chance de encontrar um emprego na area que escolheu.

Caso fizesse um bom curso tecnico, formaria em dois anos, teria muito mais facilidade de encontrar um trabalho e provavelmente teria ainda um melhor salario que se tivesse curso superior em determinadas areas. Ai depois, ja com esse bom emprego tecnico, poderia fazer a faculdade de seus sonhos com seus proprios recursos e sem outras preocupacoes (caso ainda tivesse vontade).

Acho que esse deveria ser o foco do novo governo: ensino tecnico de qualidade no pais. Essa a maneira mais facil, barata e pratica de fazer pessoas mais humildes subirem na vida (como aconteceu com o proprio presidente Lula) e ainda é uma necessidade de mao de obra urgente para o pais.

 
 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!