A crise do etanol

Por Nicolas Timoshenko 

Da BBC Brasil

Etanol vive 'crise de meia-idade' no Brasil, diz 'Economist'

A edição desta semana da revista britânica The Economist traz uma reportagem sobre os desafios da produção de etanol no Brasil, em meio às eleições, ao foco na exploração de petróleo no pré-sal e ao que o setor da cana-de-açúcar considera serem falhas regulatórias do governo.

Intitulada "a crise de meia-idade do etanol", a reportagem diz que a cana abriu caminho para formar "o núcleo de um novo complexo agroindustrial e de energia renovável", além de tornar o país o maior exportador da commodity.

Mas a Economist avalia que a indústria ainda está lutando para "transformar todos esses benefícios econômicos e ambientais em lucros confiáveis" e cita trocas de acusações entre o setor e o governo quanto a marcos regulatórios.

Desde que o Brasil aliviou os controles sobre o preço e a produção da cana, há duas décadas, sua colheita aumentou duas vezes e meia, segundo os cálculos da Economist, e o uso do etanol mais que dobrou desde 2002.

Meio ambiente

Por conta das vantagens ecológicas – sua produção libera muito menos emissões que a de petróleo ou de etanol de milho –, o "etanol da cana-de-açúcar tem o potencial para se tornar uma indústria global", opina a Economist.

No entanto, enquanto o Brasil exporta 70% de sua produção de açúcar, 75% do etanol produzido no país destina-se ao mercado interno, principalmente em decorrência das práticas protecionistas de EUA e União Europeia.

Aumentar as exportações também requer grandes investimentos em infraestrutura, aponta a revista. "Até que o mercado global do etanol decole, os produtores brasileiros permanecerão incomodamente dependentes das vendas internas e da Petrobras (...), que é tanto sua maior compradora [ao misturar etanol na gasolina] quanto sua principal concorrente" no fornecimento de combustível ao público.

O setor da cana-de-açúcar se queixou à Economist que, enquanto o preço do etanol sobe e desce dependendo da demanda mundial pelo açúcar, o preço da gasolina no Brasil não se ajusta rapidamente a mudanças no preço do petróleo. Já membros do governo defendem que, para garantir um fornecimento estável, o etanol deveria ser regulado pela Agência Nacional do Petróleo.

O debate é ofuscado, segundo a revista, pelas novas descobertas de petróleo no Brasil e pela possível eleição de Dilma Rousseff à Presidência, "que acredita mais fortemente que [Luiz Inácio Lula da Silva] no planejamento estatal da indústria energética", diz aEconomist. 

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6 comentários
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Jofran Oliva

Nenhuma cultura agrícola, nem soja, nem milho ou trigo tiveram um desenvolvimento tecnológico tão grande como a cultura de cana de açucar, ao mesmo tempo a indústria (destilarias/usinas) tiveram forte desenvolvimento levando esse setor canavieiro entre um dos mais lucrativos do setor agropecuário, só perdendo para a citricultura. Ao lado de grandes rentabilidades, chega a superar os 20% em determinados anos, quando a rentabilidade cai para 10% ou menos entram em "quebradeira", é um setor que apresenta as novas unidades com forte percentual de endividamento. Dizer que não competem com a agricultura de grãos é uma meia verdade, competem sim!, especialmente com os pequenos agricultores arrendatários de terras que são praticamente expulsos de regiões onde domina a cana de açucar. Para minorar esse efeito negativo deveriam tornar obrigatório o arrendamento de terras para grãos, de ciclo curto, como :amendoim, feijão, painço, sorgo, etc, quando da renovação dos canavais que ocorre a cada 6 ou 7 anos. Essa prática já é usada com sucesso em canaviais da região de Ribeirão Preto-SP.

 
 
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drigoeira

A industria de etanol mudou o panorama da agricultura brasileira, mais produtiva que as outras, fazendo um nivelamento para cima.

Entretanto a indústria ainda possui as mazelas do capitalismo selvagem.

Sua produção se desloca para açúcar ou alcool, dependendo do valor do açucar nas bolsas de valores (afetando a segurança do uso do alccol no Brasil). Outra coisa é a quebra de contratos (vulgo calote) aos arrendamentos feitos junto aos agricultores menos preparados.

Se quiserem uma redução no preço da gasolina é só abaixarem o preço do alcool, combustível que o povo brasileiro já está disposto a fazer uso em massa.

O resto é chororô.

 
 
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luka

Essa era a hora de fazer pressão nos EUA, depois do que aconteceu com a BP.

 
 
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Andre Araujo

E como seria essa pressão, se mal pergunto?

 
 
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Vitor Gaspar

É... acho que a discussão sobre a produção do etanol é um pouco mais complexa do que a baixa exportação do produto.

É muito relativa a afirmação do etanol ter vantagens ecológicas, talvez tenha pra quem não mora cercado por um deserto de cana. A monocultura da cana está contribuindo bastante pra redução da qualidade socioambiental das regiões onde se instala, além do problema das queimadas (que tende a quase acabar em alguns anos), temos o problema do uso excessivo do agrotóxicos e fertilizantes (químicos ou orgânicos) que prejudicam a qualidade do solo e dos mananciais. Não sei se é regra geral, mas a maioria dos canaviais que visitei não respeitam as APPs (áreas de preservação Permanente - Topos de morro e várzeas de corpos d'água). Alem disso, as lavouras de cana são verdadeiros desertos verdes que precisam de um volume absurdo de água para irrigação, água essa que todo ano no período entre julho e setembro torna-se muito preciosa. Além disso,tem o problema que um colega comentou antes, regiões dominadas pela cana de açúcar tendem a homogeneizar-se, há grande pressão sobre os pequenos produtores para estes venderem ou arrendar suas terras para produção de cana.

Posso não entender muito de economia, mas na minha opinião é mais vantajoso para o Brasil se a venda de etanol ficar limitada ao mercado interno. Se aumentarem as exportações suponho que possa ocorrer elevação do preço do açúcar e do etanol no mercado interno e/ou a expansão exagerada das lavouras devido a demanda crescente.

 
 
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Vitor Gaspar

É... acho que a discussão sobre a produção do etanol é um pouco mais complexa do que a baixa exportação do produto.

É relativa a afirmação do etanol ter vantagens ecológicas, talvez tenha pra quem não mora cercado por um deserto de cana. A monocultura da cana está contribuindo bastante pra redução da qualidade socioambiental das regiões onde se instala, além do problema das queimadas (que tende a quase acabar em alguns anos), temos o problema do uso excessivo de agrotóxicos e fertilizantes (químicos ou orgânicos) que prejudicam a qualidade do solo e dos mananciais. Não sei se é regra geral, mas a maioria dos canaviais que visitei não respeitam as APPs (áreas de preservação Permanente - Topos de morro e várzeas de corpos d'água). Alem disso, as lavouras de cana são verdadeiros desertos verdes que precisam de um volume absurdo de água para irrigação, água essa que todo ano no período entre julho e setembro torna-se muito preciosa. Além disso,tem o problema que um colega comentou antes, regiões dominadas pela cana de açúcar tendem a homogeneizar-se, há grande pressão sobre os pequenos produtores para estes venderem ou arrendar suas terras para produção de cana.

Posso não entender muito de economia, mas na minha opinião é mais vantajoso para o Brasil se a venda de etanol ficar limitada ao mercado interno. Se aumentarem as exportações suponho que possa ocorrer elevação do preço do açúcar e do etanol no mercado interno e/ou a expansão exagerada das lavouras devido a demanda crescente.

O uso do etanol é apenas menos pior do que o uso do petróleo, ainda é uma fonte de energia não muito satisfatória em uma análise de seus reais impactos socioambientais. Acho que o artigo apresentado mostrou apenas um ponto de vista, o que seria bom aos produtores, nem se discute qual o impacto no mercado interno de um eventual aumento no número da exportaçãos de etanol.

 
 

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