Eu sou um burguês?

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Eu sou um burguês?

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Na minha infância eu detestava chinelo. Corria. Eu e a terra éramos um só. Sem nenhum isolante sintético. Na primeira chuva do ano eu sempre me molhava. Minha mãe dizia pra cuidar com relâmpago. Mas somente os trovões me assustavam. Eu andava descalço. Não enclausurava as partes intimas, e camiseta era artigo de luxo. (Pra dia de festa, ocasião especial). Nas minhas origens é que moram o “eu”. Apesar de afirmarem que “O Tempo só anda de ida”. Duvido. Mas também pouco discordo...

 

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Certa vez a professora disse que o japão estava do outro lado da terra. Cavei um buraco no fundo do quintal de casa. Queria chegar ao japão. Encontrei água. Esperei secar para continuar a travessia. Mas a fonte não secou. Eu pensava que geografia era paisagem. Depois que compreendi que é território. Eu neguei água a um amigo certa vez. Ele me acusou de sovina. Mas não era a água. Culpada. Ele era um chato!

 

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Eu gostava de trabalhar de chapa. Queria mostrar que eu era igual a eles [os chapas]. Eles me olhavam com desprezo. Isso me incomodava. Eu trabalhava com eles, fazia o mesmo esforço, as mesmas tarefas. Logo eu conquistava respeito. Eles [chapas] me tinham como um igual. O ribeirinho me chamou de filho do patrão. Peguei uma piranha com a mão. Ela me mordeu. Eu não chorei. Ainda carrego a cicatriz no dedo. Então o ribeirinho me chamou de pirangueiro. E me ensinou a lançar o anzol entre meio a embira. Depois ele [ribeirinho] me ensinou a olhar as horas pelo sol. Pescador não usa relógio. Eu admirava que ele caminhava pela mata, sobre os ganhos secos, feito onça, sem fazer barulho. Eu tinha minha própria enxada. Ela era do meu tamanho, tinha a minha idade. Meu pai disse que quando era criança gostava de trabalhar, só depois fiquei preguiçoso...

 

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Fiquei três noites acordado antes de ganhar a primeira bola. Todos os dias eu lavava ela [a bola], que dormia comigo. Pra jogar bola, em time de verdade, em campeonato tinha que usar caneleira e uniforme. Minha mãe costurou um meião velho. Eu o preenchi com espuma de colchão, e uma garrafa pet cortada ao meio. Agora eu poderia jogar no time da cidade. O técnico se riu de mim. Pra quem tem canela, caneleira é só pra pesar as pernas. Demorei a me adaptar. Naquela época óleo de cozinha vinha em recipiente de lata. Fiz a cabine do carrinho. O chassi era um pedaço de ripa. Pneus de chinelo velho, suportados por um pedaço de arrame liso de cerca. A gente era meio bobo. Se contentava com coisa pouca. Tive um pião, e bolas de gude. Construí um campo de futebol no fundo de casa. A nossa rede era uma tela velha de galinheiro. Quando ela balançava, a gente ia ao delírio...

 

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Tive uma infância boba e cafona. No meio de complexas bacias hidrográficas intermitentes. A nascente do meu rio estava seco. O fogo pintou a paisagem de cinza. Eu presenciei o carinho de uma tamanduá e sua cria. Cresci assim, no meio de mato, bicho e gente humilde. São essas coisas simples da terra, da água e do ar que me deliram. Que me empoderam...

 

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Somente com certa idade que fui ter contato com as “coisas” contemporâneas. Sempre me senti prisioneiro em shopping center. Fast food é legal, mas falta sabor, cheiro de mãos humanas. Sempre gostei de pé de frango porque podia pegar com a mão e se lambuzar. Comida que não suja os lábios, os dedos, mãos e a roupa não tem tesão. As frutas do quintal lá de casa, nunca viram canivete em minhas mãos. (O amor deveria ser assim, como disse Rubem Alves, um caqui). Eu comia e me lambuzava. Sentia o gosto, do sol, do orvalho, da fotossíntese que fez ela amadurecer, até cair em minhas mãos. Tinha caju, cajá, manga, pequi, seriguela, carambola, jaca, jenipapo, goiaba, acerola, graviola, cacau, fruta-pão, jambo, cagaita, mangaba (...). Tinha pé que era árvore. A engrenagem mais cabulosa que já vi, foi ribeirinho comendo farinha de puba com peixe de espinho. É impressionante o malabarismo. Mas na cidade grande eu aprendi muita coisa importante. Aprendi a dar ordens, e abusar dos garçons. Aprendi que uns nasceram pra mandar e outros pra obedecer. Ribeirinho é desconfiado. Não dá trela pra filho de patrão...

 

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A vida é feita de desafios. É muito mais desafiador conquistar o respeito e admiração do ribeirinho, do chapa, do garçom do que letrear-se em títulos. Disso eu tenho certeza, ou quase. Maltratar os “inferiores” nos faz bem. Nos faz sentir superiores. Mesmo sabendo que engolimos pela mesma boca, pensamos com cérebros semelhantes, sentimos o mesmo frio e o mesmo calor. E escrutinamos pela mesma boca. Maldita!

 

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Chamar alguém de idiota é um gozo impressionante. Chamar de medíocre, cafona, analfabeto, povinho, ralé (...). Tudo isso é fundamental para impressionar nosso confuso ego. Pra enganar a lucidez que lhe pergunta: como ele é diferente de mim, se somos tão semelhantes? Acreditar em coisas de outros planetas que interferem nas decisões políticas [geopolíticas] na terra, foi a forma que os “superiores” encontraram para dizer que não são responsáveis. Pelo menino que morre de fome. Pela mãe sem leite. Pela mão calejada que esmola um pão. Funciona. Até certo ponto bem. Mas em qual porto essa ilusão deságua? A vida é um mar, um maremoto...

 

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A Verdade é dolorida e silenciosa. Corrói por dentro, mais que soda desentupindo pia. Entretanto, lavam as mãos em fantasias externas, e o travesseiro lhes proporcionam um pesadelo diário. Com diarreia, todo homem ou mulher, independentemente da posição social ou status, chora. E corre pra privada. Eu tive que vim pra cidade pra cidade grande pra aprender essas coisas importantes da vida. Isso acontece quando vejo o lobão vomitando. Ele não mudou. Apenas voltou pra casa, para as origens.

 

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Um amigo me confessou certa vez. Um “intelectual” burguês quando envelhece retorna as infâncias. Eu acho que entendi a mensagem. Hoje eu estava triste e confuso. Um vazio imenso habitava minha órbita. Somente um mendigo lavador de carros me compreendeu. Ele foi ousado, ao olhar no fundo de meus olhos e me informar um sermão. Porque ele [mendigo] se importa comigo?

 

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Aquela menina é burguesa e tenta [finge] não ser. Ela está se enganando? É uma iludida? Será que ela vai voltar pra casa quando a idade chegar? Ou será, que essa mania de classificar, dividir, separar, segmentar uma doença da lógica do explorador? Acho que ela tem um sorriso puro e sincero. Suas convicções são pujantes, sublimes, esplêndidas. A burguesia não conseguiu contaminá-la? Eu estava caminhando de cabeça baixa. Não queria olhar ninguém. Muitos acham que eu sou bravo. Se entendessem de timidez. Se olhassem a galáxia com os olhos da arte, com a insignificância dos artistas. Se se preocupassem um pouco consigo, se entenderiam melhor? E talvez melhorassem a si e ao mundo. Esta máxima é tão velha, e tão contemporânea. “Conhece a si?”... 

 

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Eu estava caminhando, com passos lentos. Um infeliz que recebe ordens me parou. Olhou meu rosto e me tomou com sorriso amigo. Fiquei confuso, e ele disse pausadamente e sorrindo. – É você que escreve aquelas coisas na internet? Quando você publicar um livro, eu quero que guarde um exemplar pra mim. Fiquei feliz, agradeci a estima. Eu conquistei o seu respeito? Bem, isso eu não sei...

 

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Mas hoje eu realizei a descoberta mais importante da minha vida. Eu descobri que estou voltando as Origens, as minhas [raízes] Infâncias!

 

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