Estou pensando somente em Você

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Ao nascer, e até mesmo antes do nascimento, fui bombardeado pela palavra amor. Na nossa cultura todos amam. Amam do verbo amar. O maior símbolo da palavra amor é o coração. Criativos fazem corações com as mãos, com o dedo riscam no vento, desenham nas paredes, nos cadernos (nas escolas)... Na televisão esta palavra é proferida tão deliberadamente, que até parece algum tipo de fobia. E todos amam, e muitos amam, e se amam, a vão amando da boca pra fora, e também da boca pra dentro. Se eu um contido tímido, diria que a nossa cultura é a Cultura do Amor. Afinal, antes da carne era palavra, e a palavra mais proferida é a que terá maior vida. Ledo engano, meu. Talvez há não presença viva é que remeta a lembrança da palavra, tão proferida. Então, o que seria o verdadeiro sentido, em nossa cognição, da palavra amor?

 

Nos dicionários é definida como “afeição viva”. “No Banquete” seria uma ligação, o âmago entre o que explicável e o inexplicável. Os filósofos diriam que em epistemologia é aquilo que os seus olhos transitam e brilham, com pulsos no coração. Os céticos afirmam que o amor é irracional, e quanto o seu eu se confunde com seu ego, e ego e eu uma coisa só. Os economistas, sempre econômicos, diriam: amar custa caro. Os materialista que é um bem material, a qual se pode contemplar, e evitar tocar para amortizar o custo de depreciação. Os espirituais que é algo além, quem veio do destino, e da alma, cuja aura se combinam, se misturam e formam (inventam) as múltiplas tonalidades de cor cinza. O certo que existem tantas formas de amar, e tantas maneiras e modos de amor, e por tantas coisas, que já não se sabe se um predicado, um verbo, adjetivo, um tolo, um sujeito abstrato, ou qualquer coisa semelhante.

 

Os sábio fariam pensar: “não existe amor, apenas amar”. O poeta deixaria nossa cultura sem chão, Manoel de Barros afirmou: “A palavra amor anda vazia. Falta gente dentro dela”. O que eu realmente aprendi durante a vida, e as experiências, é que o amor é um tipo de posse ou concessão, voluntária (ou não). Um desejo insaciável em controlar, e um medo incontrolável de perder. Estas características de amor em nossa cultura, ao extremo, leva a atos impensável (e impraticáveis), como o crime passional. Como se o adultério fosse um crime, e não apenas um simples desejo, de palavra e carne. Entretanto e todavia, longe de minha inoperância querer rotular aqui, o certo ou o errado. Muito pelo contrário, quero é entender as raízes profundas deste latifúndio cosmopolita, denominada amor. O amor é um latifúndio improdutivo, um monocultivo, uma apropriação, características intrínsecas (inclusive) de nossa Cultura.

 

O amor é um sentimento largo e banal. Não tem nada mais banal no universo que a indecência das praias e águas doces do Araguaia. Foi lá, caminhando que conheci um Karajá. Conversando sobre as coisas da vida, eu tentando entender com a máxima alteridade, o olhar do outro. Falamos de histórias antigas, de tribos antigas, de culturas passas, de suicídio, de medo, de peixe, de árvore, de bicho e de flor. Ao longo da conversa percebi que havia algo novo e diferente na linguagem utilizada pelo karajá. As palavras deles são mais amplas. Elas são expandidas, expansivas. Qual nome daquela árvore? (Perguntei ao karajá). – Aquela é a fruta cheirosa que a paca consome! Disse, reclamando que preferia utilizar a “nossa” língua, que era mais fácil e simples. Respondi que nem tudo que é mais fácil é melhor, e que talvez (somente talvez), fosse mais rica de conteúdo, o universo comunicativo deles. A nossa pobre. Então perguntei ao karajá, como se diz que está “apaixonado” em karajá? Ele me respondeu algo do tipo: “Jiary õhõtiny kori”. Em seu dialeto cheio e repleto de vogais e sons expansivos e melodia grave. (Algo típico, singular dos povos oriundos de regiões tropicais).

 

A tradução de “Jiary õhõtiny kori” para o português é algo próximo de: Estou pensando somente em você... Foi a primeira vez que a palavra amor e/ou paixão, fizeram sentido entre meio os curtas circuitos do meu cerebelo. Eu que já havia devorado livros, do Ocidente e do Oriente, e jamais me deparei com uma resposta satisfatória. Foi preciso ir na praia fluvial do Araguaia, e conversar com um simples, e quase extinto, karajá para entender as profundidades deste latifúndio, o amor.

 

Então, comecei a pensar e perceber – pela primeira vez – o quanto eu amo. Descobri que sempre estou pensando em todos os lugares por onde deixei meu rastro, marcas pegadas; e nos amigos e amigas de todas as bandas na lembrança. Percebi o quanto penso paulatinamente na lua, nas estrelas, nos rios e no mar, nas florestas e nas savanas, e quanto eu sou passional em matéria de simplicidade. Percebi o quanto penso nas escolas, nas universidades, nos vilarejos, nas casas do campo, no café doce no final da tarde, na batata doce no café da manhã, e das araras alvoroçando as macaúbas ainda verdes, e pensava, caminhando em pensamentos, nas cosias humildes e miúdas desta vida. E quanto penso na minha família, e também nas aves, nas plumas e plumagem que compõem esse imenso Planeta Água. Percebi o quanto eu lembro, e que aquelas memórias eram provas cabais e inabaláveis de amor, deste minifúndio esplêndido, diverso, singular e plural, o amar.

 

Infelizmente, compreender a dimensão desta palavra não fez muita diferença para convivência em minha cultura. A cultura do meu povo. (Não estou aqui tentando negar a minha cultura, ou uma contra cultura. Muito pelo contrário). Diagnosticado que uma informação inútil para o meio, o ambiente que habito. (E quantas coisas inúteis carregam nosso fardo?). “Jiary õhõtiny kori”. Estou pensando somente em você. Estou pensando somente em você. Estou pensando somente em você...

 

 

Há se meu povo, tivesse menos soberba (uma pouca, leve e branda arrogância), um dia conheceria pessoas que, ao menos em suma, em síntese, entendessem mais de vogais de que latifúndios: “Jiary õhõtiny kori”. Estou pensando somente em você. Estou pensando somente em você. Estou pensando somente em você...

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