Eu, o Mendigo e o Outro
Enviado por Edson Joanni, qui, 19/05/2011 - 19:04Naquele dia eu acordei com raiva. Mas muita raiva, de mim e do mundo. Estava multiplamente insatisfeito. Comigo mesmo, com meu trabalho, com tudo. Enfim, eu tinha raiva e me sentia só. Mais só que uma antena no telhado. Desgostoso da vida e com vontade de mandar tudo às favas. Chovia fino, ventava, fazia frio, o trânsito estava péssimo e eu precisava sair para trabalhar. Tudo contribuía para aumentar minha agonia.
Saí de casa resmungando entre dentes, com um mau humor digno de corintiano que na véspera perdera mais um título. Andei os costumeiros três quarteirões que me separavam do ponto de ônibus distribuindo caras feias a quem cruzava meu caminho e tentando evitar a chuva que insistia em congelar-me. Quando finalmente cheguei à parada, tratei de ignorar a tudo e a todos, prestando atenção somente ao fluxo dos carros, de onde viria minha condução. Como o ônibus demorasse, fiz o que todo fumante faz nessa situação: acendi um cigarro, pois todo fumante sabe que é só acender um cigarro para que o ônibus apareça.
Não foi o que aconteceu. Ao levantar os olhos da brasa dei com os olhos dele. Do outro lado da rua, debaixo de uma marquise, o Mendigo repetia meu gesto, e enquanto soltava sua baforada, me olhava. Ficamos assim, olho no olho, por um instante. Logo me desvencilhei do incômodo e voltei aos meus botões. Raiva! E também raiva de estar com tanta raiva, e de sentir-me tão só naquela manhã fria de São Paulo.
Talvez por isso, para espantar a raiva, decidi olhar de novo para o outro lado da rua. Foi então que se deu início à cena que é o motivo desta crônica.
O Mendigo já estava também lá com os botões dele. Vasculhava um saco de estopa onde trazia suas coisas e do qual retirou uma garrafa de plástico cheia de café com leite. Retirou também um pedaço de pão, um copo e um pratinho descartável. Mas o que me fez esquecer a raiva foi o fato de ele estar falando sozinho. Sorria e falava sozinho enquanto enchia o copo. Continuou sorrindo e falando sozinho quando picou metade do pão e colocou no prato. Nesse ponto eu também sorria comigo mesmo, imaginando que, afinal de contas eu não estava tão mal assim, a ponto de falar sozinho. Cheguei a gargalhar em pensamento quando o Mendigo, sorrindo e falando sozinho, molhou de café com leite o pão picado no prato. Pensei que, depois de tudo, ele estava mais só do que eu, mais louco do que eu. Foi então que, dentre as dobras do cobertor que ele trazia no colo, apareceu o Outro. Falando e sorrindo o Mendigo colocou o cachorrinho em frente ao prato, tomou um gole do copo, e de novo olhou para mim. Fugindo daqueles olhos, dei o último trago no meu cigarro e voltei para casa sem me importar com a chuva. Chorando e falando sozinho.



Nossa, Edson! Muito bom.
So tive pena de voce nao saber falar sozinho ainda! Eu falo o tempo todo, kkkkkkkkk...
Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.
Bela crônica! Instalamo-nos satisfeitos, sorrindo conosco mesmo, numa realidade que construímos a partir das deduções que fazemos do que vemos; mas quando acontece de a realidade real, verdadeira, de repente se desvendar, cair na real dói. Assim somos. Bela ilustração dessa nossa condição.
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”. (Joseph Pulitzer – 1847/1911)
Sabe Joanni, com raiva, eu já comi um cigarro, aceso...
Sabe Joanni, com raiva, eu já engoli uma pedra de gelo enorme que saiu rasgando o esôfago adentro...
Sabe Joanni, com raiva, eu bati a porta da minha casa e voltei 20 anos depois...
Concordo plenamente quando temos que nos lembrar da dor e do sofrimento que está além da calçada. Na dor e do sofrimento que está do outro lado do muro, no além do horizonte, no além do alcance visual e ao alcance das nossas mãos.
Eu não estou em Aracaju, nem no Alabama... lembre-se que, da próxima vez que estiverdes com tal ira e desgosto, que nós te amamos, que tem quem te ama. Afinal, quem já não teve uma manhã desta??? Depois, dizem que só quem tem TPM é mulé...
Após um de meus muitos acessos de ira, eu pensei então: Da próxima vez eu vou mandar flores ao Delegado, vou bater na porta do vizinho e desejar bom-dia e abraçar o português da padaria... Eu morava num apartamento que, ao meu lado tinha um Delegado da Pol Civil (e eu numa boa... e ele me adorava), meu padeiro era um português e eu tinha um vizinho que era um chato mal educado por ter uma mulher boazuda... Acho que o Zeca se inspirou em minha história para fazer esta música... Eu gosto muito destas três versões, escolha uma, eu escolhi as três.
Adorei a crônica, toda vez que eu acendia um cigarro o ônibus chegava.
Êê... Issamu!
Seu comentário é outra crônica. Obrigadaço pela visita, pelas palavras e pelos videos. Vamos que vamos, porque como bem disse Prigogine, "O real não é mais que uma parte do possível".
Abraços
Milicos de pijamas não terão mais sossego em suas camas! Comissão da Verdade já!
Nossa Edson, que talento!
Adorei o Issamu tb.. Zeca Balero massa:' Mais solitário que um paulistano'.
Só quem mora aqui sabe. Sim, porque por mais que vc. vá jantar toda a noite nos seus restaurantes sofisticados, frequente suas gigantes salas de cinema, seus cafes, teatros e livrarias, vc. está sempre com as mesmas pessoas.
Ah, que saudade do Rio de Janeiro.
Muito bem escrita, Joanni! Parabéns!
Gracias Aracy! Volte sempre. E viva a USP!
Milicos de pijamas não terão mais sossego em suas camas! Comissão da Verdade já!
o que eu ia escrever o Ivan Moraes, o cara que fica falando sozinho, já escreveu...
bela crônica!
Muito bom, mesmo!
Ri muito com esse trecho:
"Como o ônibus demorasse, fiz o que todo fumante faz nessa situação: acendi um cigarro, pois todo fumante sabe que é só acender um cigarro para que o ônibus apareça."
Fato! Eu sempre faço isso e não costuma falhar...
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