Os porcos do Natal

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Você, a família, enfim, a sua aldeia, vão comer pernil no Natal? Muitos de nós vamos, não é? O Odair também. Os vizinhos dele também. É que ontem o Odair matou seu porco. Era só um imenso porco sem nome. Mas não era só um imenso porco sem nome. Porque o imenso porco sem nome era o porco da aldeia do Odair: a favela das Mangueiras.

Na criação do mundo, os porcos receberam o dom de nunca levarem uma vida severina: transformam qualquer coisa em suculenta carne. E crescem e engordam e prosperam na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza. E assim o porco cresceu e prosperou na favela das Mangueiras. Mas o dom suíno não pode sozinho. Então, o Odair e seus vizinhos se organizaram: 2 vezes por semana, buscavam, nas aldeias próximas, restos de comida deixados pelos feirantes. O melhor do resto ficava para eles. O pior, para o porco. E assim foi que o leitão deu num porcão.

Para os moradores da favela, criar porco é ou não uma idéia engenhosa? A criação do porco custou zero e transformou o que iria para o lixo, o que nenhum humano aceitou comer, em alimento de alto valor calórico. Na favela das Mangueiras, há toda uma economia em torno dos porcos: são parte importante da geração de riqueza local.

Claro, o ideal é que a favela não existisse e sabemos da obrigação do poder público em pagar os juros dos banqueiros, quer dizer, em prover todo cidadão com moradia digna. Mas parece que temos, nós e nossos governantes – que comemos e comeremos muito pernil de boa procedência sanitária – alguma dificuldade com a tarefa. E assim, a favela está lá há décadas. E os porcos estão sendo criados há décadas.

E já que os porcos são importantes para a vida daquela comunidade, e eles vão mesmo ser criados de um jeito ou de outro, não seria importante que o poder público auxiliasse os que ali moram com programas de assistência técnica? Talvez criar porcos com segurança sanitária, numa área densamenta povoada, nem seja viável. Mas enquanto não forem possibilitadas outras opções, restará aos favelados da Mangueira a saída engenhosa de criar porcos. Engenhosidade que permitiu que o nosso Odair tivesse, esse ano, um Natal reforçado.

Natal mais que reforçado. Durante o ano, alimentado por mãos atentas e vigiado por olhares esperançosos, o porco foi cuidadosamente cevado por todos, a fim de que, no dia do Natal, pudessem desfrutá-lo. Ontem, o porco do Odair foi esquartejado para que chegasse a vários barracos. Está no fogão dos vizinhos, sendo frito, assado, cozido, para que os que não têm fogão possam também desfrutar de suas carnes.

Como se vê, foi um porco partilhado. Criado e consumido em verdadeira comunhão. O porco do Odair dá o que pensar. Ninguém nunca pensou no que há para além dos porcos das nossas aldeias. Os que estão a comê-los, só estão a comê-los. Por isso, por que pertence a mais gente, o porco do Odair é mais belo que os porcos de nossas aldeias. No final das contas, o porco do Odair teve a sorte de ser a ressurreição da carne. Amém.

Adriano Gosuen

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